sábado, junho 30, 2007

EU VISTO ESTA CAMISA

Comentário Moisés Basílio: Esse mundo globalizado não trouxe só desgraças. A difusão da tecnologia tem possibilitado ampliar os registros culturais. Esse CD da Velha Guarda do Camisa é um exemplo. O texto do mestre Nei Lopes é elucidador da importância desse registro, pois como diz o próprio Nei: "acima do mercado, paira o samba enquanto gênero musical e forma de sociabilidade". Axé!

Fonte: Site Meu Lote - Nei Lopes - www.neilopes.blogger.com.br - Quinta-feira, Junho 28, 2007



Texto: Nei Lopes

Não vou dizer que São Paulo é o “berço”, porque o samba, como é conhecido hoje, formatou-se no Rio, no longo eixo Praça Onze-Estácio-Osvaldo Cruz, depois de ocorrer sincronicamente em vários pontos do país, inclusive em terras paulistanas, desde pelo menos o século 19. Mas digo veementemente que o preconceito de uma certa intelectualidade litorânea carioca contra o samba paulista sempre foi uma rematada besteira. Que o digam, por exemplo, Jangada, Talismã, Sílvio Modesto, Murilão e os primeiros Originais do Samba, grandes artistas cariocas que acolheram e foram acolhidos pelo samba de São Paulo há muito tempo. Que se evoquem, também, a cumplicidade entre Padeirinho da Mangueira e Germano Matias; e a afinidade histórica entre o Largo da Banana e a Praça Onze – só para citar dois ou três exemplos.

Diferenças, se houve e há, estão nas escolas de samba. Que, no Rio, deixaram há quase 30 anos, de ser expressão do poder e da cultura das comunidades negras, para serem a milionária atração turística que hoje são. E que em São Paulo, em sua maioria, ainda fitam, cautelosas, a bifurcação do caminho.

Mas acima do mercado paira o samba, enquanto gênero musical e forma de sociabilidade. E isso fica evidente no recém-lançado CD “Canto para Viver”, belo e comovente registro, em sua qualidade musical e sua hostoricidade – o talento e o companheirismo de compositores e intérpretes da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco realçado por músicos exponenciais e amigos como Edmilson Capeluppi, Luizinho Sete Cordas e a “família” Quinteto em Branco e Preto – cumprindo a função de mostrar que samba é samba e escola é escola.

Isso, eu digo na condição de membro da “Irmandade dos Carmelitas Descalços”, irmão pobre que sou do produtor Carmo Lima. E de sambista que veste com orgulho a “Camisa” recebida nos anos 90, juntamente com o parceiro Wilson Moreira, como membro honorário da ala de compositores da querida verde e branco da Barra Funda.

(foto: Andréa de Valentim)

Um comentário:

Luís Nader disse...

Há mais um dado importante sobre o samba de São Paulo, que o Mestre Ney Lopés não comentou nesse texto.
As raízes do samba paulista têm vida própria. Como cantou Geraldo Filme, regravado por Clementida, "Eu era menino/ mamãe disse vam'embora/ você vai ser batizado/ no samba de Pirarpora".
As comunidades quilombolas de São Paulo detinham um ritmo típico, denominado batuque, que diferem do samba de prato baiano, ou da escola carioca.
O batuque era acompanhado por uma dança, chamada samba de lenço, uma espécie de capoeira, que os escravos jogavam na Barra Funda. Nasce aí o samba de São Paulo, com identidade própria e qualidade insicutível. Depois, no largo da Banana, com o próprio Geraldo Filme e outros bambas, passa a incorporar influências do samba carioca, que, por sua vez, tem origem na Bahia.