domingo, abril 15, 2007

Inventário da existência feminina

Comentário Moisés: Vale comprar e ler.













Fonte: O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 8/4/2007
Intelectual francesa tenta organizar o pensamento da mulher nos diversos períodos da sociedade
Rosane Pavam especial para o Estado
Um intelectual se destaca pela originalidade de seu pensamento. A francesa Michelle Perrot tornou-se original ao declarar que a mulher tem uma história.
Pode parecer pouco,
parcial ou odiosamente feminista dizer apenas isto, que há um conjunto de fatos na linha do tempo ligado à condição do sexo. Michelle está certa? No livro Minha História das Mulheres, ela nos faz crer que sim.
Para a intelectual francesa, compor uma história dessa natureza no Ocidente equivale a organizar o pensamento feminino nos diversos períodos. As idas e vindas da evolução da mulher se deram à sombra dos homens: enquanto eles realizavam feitos, ela refletia sobre sua adesão a eles. A mulher usou o exercício da conversa e da escrita para se posicionar no mundo, já que a linguagem constituiu seu domínio secreto. Contudo, raramente expôs o que sabia e isto se mostrou prejudicial a sua condição.
A mulher francesa, inglesa ou americana de Michelle Perrot viveu paralelamente, existiu apesar das circunstâncias; para examiná-la, fez-se necessária então uma nova historiografia, que admitisse como fontes documentos normalmente dispersos por suas autoras, como cartas, diários, listas de organização cotidiana, agendas de bebês.
Em 1991, Michelle organizou, na companhia do historiador francês Georges Duby, o livro História das Mulheres no Ocidente. O sucesso da iniciativa deu então origem a este pequeno texto de sua autoria, Minha História das Mulheres, nascido, por sua vez, de uma tentativa de popularização do tema em programas da Rádio France Culture, há dois anos. Na França (e talvez só ali) as transmissões radiofônicas conduzidas por Michelle ganharam tanta audiência que a levaram ao livro sistematizador, editado naquele país no ano passado.
Não se trata, contudo, de um
tomo de difícil digestão, carregado em datas e argüições. Michelle vai escrevendo até desordenamente, solta, pelo prazer da delicada denúncia dessa quase nãoexistência feminina. Quando lemos em seu texto as coisas que Emile Zola ou S.A. Kierkegaard proferiram com sinceridade para colocar as mulheres em seu pequeno - contraditoriamente importante - lugar, coramos por eles e por muitos outros pensadores de igual desenvoltura. 'A mãe deveria ser nossa religião', afirmou Zola, ocupado em ligar o grande papel feminino à maternidade. 'A mulher inspira o homem enquanto ele não a possui', disse Kierkegaard, sobre o poço sem fundo sexual em que um homem se esgota. Como estas, algumas assombrosas afirmações recolhidas no livro nos fazem meditar sobre o tempo presente, sobre os escritórios, redações ou universidades por onde tais idéias ainda se renovam em piadas ou ditos populares, para a concordância de homens e mulheres.
As diferenças de Michelle Perrot com o etnólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss oferecem um pote de delicioso antagonismo no decorrer do livro.
Foi Lévi-Strauss quem afirmou em
Tristes Trópicos, lembra Michelle, sobre a partida dos caçadores de uma aldeia: 'Não havia mais ninguém ali, exceto as mulheres e as crianças.' A afirmação nos remete à célebre crônica de Rubem Braga na qual um padeiro, ao tocar a campainha, já anunciava à dona da casa não ser ninguém.
Michelle Perrot é diferente do padeiro de Braga, já que deseja destruir essa invisibilidade, contrariando os estruturalistas. Ela nos faz um inventário das moças, por meio de suas imagens artísticas, fabricadas por homens; investiga seu corpo, ousadamente seus cabelos, signos de sua abundante e indócil natureza primitiva; demonstra como os véus, que também foram ocidentais, equivaleramse a hímens; realça o poder das feiticeiras, 'obstáculos à racio
nalidade triunfante', sendo a razão um privilégio masculino.
O interessante é observar,
aqui, uma conclusão incomum baseada nestes estudos. A rainha do lar se tornou visível quando reivindicou o pão que alimentaria os filhos. Então, no decorrer da história, 'a mãe protegeu a mulher'. Contudo, nos períodos em que a estabilidade econômica foi mantida, as senhoras sem posses invariavelmente voltaram a estrangular os patos do jantar.
Um exemplo está na Revolução Francesa. A mulher pobre foi aplaudida quando pediu brioches. Mas o que fizeram os jacobinos depois de extraída a cabeça de Antonieta e repartido o pão? Negaram às mulheres direitos políticos. Alguém que leia isto se pergunta que espécie de revolução aconteceu por lá, baseada em tal mentalidade excludente. Os avanços femininos não foram lineares, antes caminharam em ondas, como a dos recentes e ruidosos anos 20, logo suplantadas pelo nazismo, que imporia a idéia de uma nova-velha senhora dedicada ao silêncio.
Mulheres como pêndulos: foi o socialista Jules Lebreton quem, decidido a amenizar a condição de criadas das senhoras, inventou a primeira feira de utilidades domésticas, nos anos 50 franceses. Mas coube ao teórico Karl Marx apontar a preocupação dos operários diante do surgimento das trabalhadoras, que produziriam um perigoso 'exército de reserva' na indústria incipiente. 'Operária, palavra ímpia', decretou o historiador Jules Michelet.
Escreve como um homem, combate como um soldado. Assim muitos entenderam que deveriam destacar figuras femininas relevantes à história, como Joana d´Arc ou a criadora literária George Sand. Mas mesmo Sand, dona de um pseudônimo masculino, um dia perguntou-se, à moda do jogador de futebol Pelé (para quem o brasileiro não sabia votar), se o voto feminino deveria ser obrigatório, já que a história negara às mulheres preparação e saber...
O pilar dos integralismos, diz-nos Michelle Perrot, é a dependência feminina. Isto se comprova nos lugares onde os fascistas de algum modo prosperaram. Não se nas
ce uma mulher, torna-se uma, aquiesceu Simone de Beauvoir, para quem 'o feminismo nunca foi um movimento autônomo', já que sempre esteve submetido às realizações masculinas.
Mas a doutora Michelle Perrot, professora emérita da Universidade Paris 7, hábil em renovar as paixões do leitor pelos estudos de sociedades, quer mudar este quadro. Uma história feminina
composta apenas por homens é uma história de homens, como a dos troianos, uma versão grega para os acontecimentos de Tróia.
Por isso, essa intelectual advoga para a mulher uma escrita própria, mesmo quando feita com os filhos no colo e os cabelos bem cuidados.

quinta-feira, abril 05, 2007

ENTREVISTA DA MINISTRA MATILDE RIBEIRO

Comentário Moisés Basílio: A entrevista da ministra Matilde para a BBC Brasil gerou grande repercussão na grande mídia. A cerne da polêmica foi a resposta que a ministra deu à pergunta da entrevistadora sobre a existência de racismo do negro em relação ao branco no Brasil. No mérito concordo com a ministra, pois no plano histórico todo afrodescendente tem um pé atrás em relação aos eurodescendentes pelos motivos que todos sabemos e que ainda não foram superados pela sociedade brasileira. Mas esse pé atrás é muito mais um postura de defesa e resistência do que uma atitude ou prática racista. Vamos ao debate!


Fonte:
http://www.bbcbrasil.com
27 de março, 2007 - 10h59 GMT (07h59 Brasília)

Denize Bacoccina - De Brasília

Não é racismo se insurgir contra branco, diz ministra

A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), diz que considera natural a discriminação dos negros contra os brancos.

Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pelo Império Britânico, tido como o ponto de partida para o fim da escravidão em todo o mundo, ela disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco".

"A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”, afirmou.

Ribeiro disse que ainda vai demorar até que as políticas públicas implantadas nos últimos anos comecem a dar resultados concretos e diminuam a diferença econômica e social entre as populações branca e negra do país.

“Ainda temos muito o que fazer”, afirma, enumerando ações que já começaram, como na área de educação e saúde.

Ela diz que, embora a abolição da escravatura tenha chegado atrasada ao Brasil, hoje o país tem uma das legislações mais avançadas do mundo em relação a direitos iguais, mas ainda falta uma mudança de postura da sociedade.

BBC Brasil - De acordo com as estatísticas, a proporção de negros abaixo da linha da pobreza na população brasileira é de 50%, enquanto entre os brancos é de 25%. Quando isso vai começar a mudar?

Matilde Ribeiro - As ações neste momento ainda são na ordem da estruturação das políticas. Por exemplo, no Ministério da Saúde estamos incluindo o quesito cor nos formulários. Precisamos ter referência do que adoece e morre a população brasileira, para poder ter programas específicos.

BBC Brasil - A secretaria já tem quatro anos, o que se pode perceber de resultado prático neste período?

Matilde Ribeiro - Na educação, uma lei de 2003 obriga o ensino da história e cultura afro-brasileiras para as crianças, desde o início. O processo de implementação está em curso. É muito difícil ter números, resultados concretos. Mas já tem alguns resultados. Por exemplo, o (programa) Prouni, de bolsas de estudos para alunos carentes de escolas, já concedeu em menos de três anos mais de 200 mil bolsas no Brasil, dos quais 63 mil negros e 3 mil indígenas.

BBC Brasil - E em quanto tempo a senhora acha que poderemos ter uma situação de igualdade, onde as pessoas sejam julgadas pelo mérito, independentemente da raça?

No Brasil, o racismo não se dá por lei, como foi na África do Sul. Isso nos levou a uma mistura. Aparentemente todos podem usufruir de tudo, mas na prática há lugares onde os negros não vão. Há um debate se aqui a questão é racial ou social. Eu diria que é as duas coisas.
Matilde Ribeiro

Matilde Ribeiro - O Brasil tem 507 anos. Há quase 120 anos, em 1888, foi assinado um decreto como este que o presidente assinou dizendo que não havia mais escravidão no Brasil. Só que não houve uma seqüência. Hoje, o fato de os negros e os indígenas serem os mais pobres entre os pobres é resultado de um descaso histórico. Então fica muito difícil hoje afirmar quanto tempo.

BBC Brasil - Como o Brasil se coloca no contexto internacional? O Brasil gosta de pensar que não tem discriminação e gosta de se citar como exemplo de integração. É assim que a senhora vê a situação?

Matilde Ribeiro - É o seguinte: chegaram os europeus numa terra de índios, aí chegaram os africanos que não escolheram estar aqui, foram capturados e chegaram aqui como coisa. Os indígenas e os negros não eram os donos das armas, não eram os donos das leis, não eram os donos dos bens de consumo. A forma que eles encontraram para sobreviver não foi pelo conflito explícito. No Brasil, o racismo não se dá por lei, como foi na África do Sul. Isso nos levou a uma mistura. Aparentemente todos podem usufruir de tudo, mas na prática há lugares onde os negros não vão. Há um debate se aqui a questão é racial ou social. Eu diria que é as duas coisas.

BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?

Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

BBC Brasil - Neste mês, a Grã-Bretanha comemora os 200 anos da proibição do comércio de escravos, coisa que no Brasil só aconteceu muito tempo depois. O Brasil ainda continua atrasado nesta área?

Matilde Ribeiro - Não, nós temos acompanhado os fóruns internacionais. O Brasil é um dos países mais progressistas neste aspecto de legislação e de ação efetiva. A legislação no Brasil é extremamente avançada. Não é pela via legal que o racismo acontece. O que falta é mudança de postura das pessoas. Não adianta só o governo fazer. Muito já foi feito, mas como você disse no início: alterou os índices? Ainda não, portanto temos muito a fazer.

Confira abaixo a íntegra da nota divulgada pela Seppir:

"Nota de Esclarecimento

Em relação à entrevista da ministra Matilde Ribeiro, divulgada pela BBC Brasil nesta terça-feira (27/3), esta Secretaria esclarece que a frase 'não é racismo quando um negro se insurge contra um branco' aparece no título de maneira descontextualizada, induzindo o leitor ao equívoco.

A ministra deixa claro, no decorrer da conversa, que 'não está incitando' esse tipo de comportamento e afirma: 'Não acho que seja uma coisa boa'.

A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável.

Esclarecemos, ainda, que a missão da Seppir é justamente tomar iniciativas contra as desigualdades raciais no país e formular políticas públicas de igualdade racial, de forma conjugada com os demais ministérios e em diálogo com diversos setores da sociedade civil.

A Secretaria também atua no sentido da valorização e do respeito às diversidades, em um trabalho integrado com negros, indígenas, ciganos, judeus e palestinos em espaços como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a intenção de garantir a essas comunidades acesso a bens e serviços públicos, qualidade de vida e oportunidades iguais.

Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial"





O RACISMO NA BOCA DE MATILDE


"A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso" - disse a ministra Matilde Ribeiro, da SEPPIR, conforme estampado em O Globo de hoje, 28.03.07.

E daí? Um branco não querer conviver com um negro de quem ele não goste é antinatural? Um negro não querer conversa com um branco que lhe "enche o saco" é alguma coisa demais?

Mas o caso é que o racismo anda solto por aí. E "baixaram o açoite" na ministra, que vem fazendo um bom trabalho em sua espinhosa área. Então, aproveitamos este espaço para botar as coisas nos seus devidos lugares.

Vamos a um exemplo: o leitor acha que todo indivíduo maduro que se sente atraído por uma adolescente insinuante como as de hoje é um pedófilo? Não! "Pedofilia é a perversão sexual que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças" (cf. Houaiss). Da mesma forma, o conceito de "racismo" anda sendo mal usado, em nome de outros interesses, como é o caso da ministra.

O Racismo, com "R" grande, é aquele comportamento através do qual um indivíduo manifesta, em relação a outrem de origem étnica diferente da sua, um sentimento baseado em um julgamento antecipado, em um preconceito, nascido em geral de um estereótipo, de um "carimbo", do tipo "todo negro é feio e sujo", "todo judeu é avarento", "todo português é burro", "todo sulafricano branco é racista" etc. E tem também o estereótipo positivo, o "carimbo" simpático, do tipo "todo alemão é inteligente", "todo japonês é trabalhador", "todo crioulo é bom de bola e de ritmo", "a mulata é a tal" etc.

Um negro não gostar de um branco é natural, sim: é da natureza, é humano. O que não é muito natural é um negro não gostar de branco nenhum, só porque um dia um branco o maltratou. Mas, convenhamos, um negro que - tendo ou não dado motivo - nunca recebeu amizade ou um simples gesto de carinho de branco nenhum, como é que o leitor acha que vai se sentir em relação a todos os brancos, hein? Se gostar, é masoquista!

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Veja como o "Estadão" repercutiu a entrevista no dia seguinte:

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - Quarta-feira, 28 março de 2007
'Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco', diz ministra

Declaração da titular da Secretaria da Igualdade Racial provoca polêmica no governo e nos
meios acadêmicos

Vannildo Mendes e Roldão Arruda - COLABORARAM FABIANA CIMIERI e FELIPE WERNECK

Causou desconforto no governo uma declaração da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, para quem é natural a discriminação de negros contra brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pela Inglaterra, ela afirmou que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. E explicou: “Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.”

Houve reações dentro e fora do governo. “Como negro, não alcanço o sentido de tão estranha declaração”, criticou Percílio de Sousa Lima Neto, vice-presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça. Ele disse que condena qualquer tipo de preconceito, seja de negros ou brancos, mas avaliou que precisaria conhecer o contexto da entrevista “para emitir melhor juízo”.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, afirmou que há uma boa distância entre entender os processos que levam à discriminação e aceitar o preconceito. “Compreender o sistema perverso da escravidão e do preconceito decorrente dela é importante, para que o Brasil tenha de fato uma democracia racial”, avaliou. “Mas aceitar qualquer tipo de preconceito não pode ser medida eficaz no que se refere à democracia racial.”

Manolo Florentino, estudioso do tema na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lamentou a declaração. “O mínimo que se pode exigir de um ministro dessa pasta é que saiba que raça não existe”, afirmou. “A luta de negros contra brancos é um conflito social, não passa pela cor da pele.” Para ele, a ministra enxerga “um País bicolor”, o que nega toda a história de miscigenação brasileira.

A rigor, a declaração de Matilde Ribeiro contraria o Estatuto da Igualdade Racial, aprovado no Senado em junho do ano passado e hoje em discussão na Câmara, com apoio da secretaria. É verdade que o texto estabelece cotas raciais nas universidades e prevê o acesso de minorias étnicas à Justiça. Mas o estatuto define como discriminação racial “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor descendência ou origem nacional ou étnica”. Portanto, não importa se o autor é branco, negro ou de outra raça ou cor da pele para ser enquadrado como racista, ficando sujeito a processo criminal.

Integrantes do governo envolvidos no combate ao preconceito ficaram constrangidos. O secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, evitou comentar o assunto. Representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no conselho do Ministério da Justiça, Marcelo Tognozzi disse ter ficado perplexo: “Acirrar conflitos nunca é bom. Todos nós, não-racistas, não podemos concordar com tal afirmação.”

A ministra também recebeu manifestações de apoio. Na coordenação do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP), Zélia Dias de Andrade afirmou que a ministra apenas se referiu à realidade do País. “Não é que sejamos racistas”, disse. “Mas a partir do momento em que os brancos cortam nossas oportunidades é natural que surjam reações contrárias.” Para Zélia, o racismo do negro contra o branco é sutil, assim como o inverso. “Os dois lados sabem disso, os dois lados disfarçam com uma camada de cordialidade.”

Frei David, franciscano que coordena o movimento Educafro, também defendeu a ministra. Observou que existem várias formas de racismo - entre elas a de negros contra brancos. Isso não quer dizer, no entanto, que o preconceito esteja aumentando ou em vias de aumentar. “Existe maturidade cada vez maior, entre negros e brancos, para analisar esta questão”, disse.

Diante da reação negativa, Matilde divulgou uma nota, por meio da secretaria, alegando que trechos da entrevista foram tirados de contexto, “induzindo o leitor a equívoco” (leia a nota ao lado).

A PERGUNTA

E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?


Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

A NOTA DA SECRETARIA

“Em relação à entrevista da ministra Matilde Ribeiro, divulgada pela BBC Brasil nesta terça-feira (27/3), esta Secretaria esclarece que a frase ‘não é racismo quando um negro se insurge contra um branco’ aparece no título de maneira descontextualizada, induzindo o leitor ao equívoco. A ministra deixa claro, no decorrer da conversa, que ‘não está incitando’ esse tipo de comportamento e afirma: ‘Não acho que seja uma coisa boa’. A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável.

Esclarecemos, ainda, que a missão da Seppir é justamente tomar iniciativas contra as desigualdades raciais no país e formular políticas públicas de igualdade racial, de forma conjugada com os demais ministérios e em diálogo com diversos setores da sociedade civil. A Secretaria também atua no sentido da valorização e do respeito às diversidades, em um trabalho integrado com negros, indígenas, ciganos, judeus e palestinos em espaços como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a intenção de garantir a essas comunidades acesso a bens e serviços públicos, qualidade de vida e oportunidades iguais.”
Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial

'É uma incitação ao ódio racial'

Demétrio Magnolli, sociólogo da USP

Entrevista

Para o sociólogo Demétrio Magnolli, da USP, a declaração da ministra Matilde Ribeiro foi uma clara incitação ao racismo. Na opinião dele, ela deveria ser destituída do cargo.

Como o senhor viu a declaração da ministra sobre racismo de negros contra brancos?

Em primeiro lugar pensei que vivemos uma época sombria. Afinal, o que pensar quando uma pessoa dá uma declaração dessa no cargo de ministra e continua ministra? Acho impressionante que ela ainda continue no cargo.

E quanto à declaração de que o racismo se justifica em função do que os negros sofreram no passado?

É uma declaração essencialmente racista. Uma incitação ao ódio racial. Atribui aos brancos, como raça, os açoites que os negros, como raça, sofreram no passado. Interpreta a história como um conflito de raças. E é nesse sentido mais profundo, de visão do mundo e da história, que a declaração dela é racista. Não se trata de uma visão circunstancial, ou conjuntural.

Mas ela disse que não apóia.

Apesar da saudação à bandeira, dizendo que não incita, ela está criando uma pretensa racionalidade política para uma expressão de racismo. Eu acho que isso é coerente com o conjunto da política que ela conduz - que é a política de dividir os brasileiros segundo a cor da pele, com a finalidade de fabricar a raça como conceito de identidade oficial no Brasil.

E a questão da exclusão social dos negros, detectada em diferentes pesquisas realizadas no País?

Está errado. O que existe é uma exclusão social e econômica dos pobres - entre os quais os de pele escura e também os de pele clara. É falso definir como problema racial o que é na verdade um problema social e econômico. Trata-se de um expediente esperto de um governo que não quer enfrentar o problema verdadeiro, das extremas desigualdades sociais e econômicas.

O senhor acha que a conscientização dos negros sobre a exclusão pode elevar o grau de racismo?

Isso também é falso. Aplicada de maneira geral, a idéia de que as pessoas se tornam mais racistas à medida que sua consciência aumenta, é uma justificativa para a existência da Klu Klux Kan. Na realidade ocorre o contrário: à medida que a consciência aumenta, as pessoas percebem que os mecanismos de desigualdade não são mecanismos raciais, mas sociais. A questão da raça pode aparecer como cobertura, justificativa, fantasia.


'Negro brasileiro se sente oprimido'

Carlos Santana (PT-RJ), deputado federal

Entrevista

O deputado federal Carlos Santana (PT-RJ), da Frente Parlamentar da Igualdade e Promoção Racial, considera que a ministra se referiu, sem hipocrisia, a um problema que existe. Na opinião dele, o racismo de negros contra brancos é bastante forte no Brasil.


O senhor acha que existe racismo de negros contra brancos entre os brasileiros?

Sim. Ele existe e não é pouco. E a origem dele é a opressão. Nunca nos deram os mesmos direitos, como demonstram pesquisas feitas pelos brancos sobre oportunidades sociais, escolaridade. O negro brasileiro se sente oprimido.

O senhor acha que há uma tendência para a exacerbação deste racismo?

Não. O esforço este governo está fazendo com políticas, cotas, leis para a comunidade afrodescendente é uma forma de resgatar o que se perdeu lá atrás. Temos que continuar nesse caminho, procurando a igualdade racial.

Não acha que a conscientização dos negros sobre a exclusão social poderia agravar os pontos de conflito?

Quanto mais consciente, mais o negro percebe o quanto é marginalizado pelo branco - que representa a classe social dominante. Mas essa não é uma luta que se define pelo pigmento da pele. Temos pessoas com pele branca que assumem nossa luta. E também temos pessoas de pele negra que não assumem sequer que são negros. É o caso do Pelé, que nunca se manifestou a respeito de políticas afirmativas, de cotas para os negros nas universidades. Outras personalidades, como cantores, artistas, já se manifestaram, mas o nosso representante máximo nunca fez qualquer pronunciamento.

O senhor acha que estão ocorrendo avanços com a atual política do governo?

Houve avanços, mas ainda estamos muito atrasados. Houve um genocídio em nosso país e os passos para superar isso são muito lentos. No mundo inteiro existem políticas de cotas. No Brasil, quando se discute o assunto parece que estamos falando em matar alguém.

Como senhor viu a declaração da ministra?

Ela deve ser vista dentro de um contexto geral, da história do Brasil, que foi sempre contada sob o ponto de vista dos brancos. Segundo essa história, nós somos descendentes de escravos - e não de povos africanos, com sua cultura, suas tradições. A ministra vai contra a idéia que as classes dominantes tentam impor de que não temos um problema racial, mas social.

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Acesse, também, a crônica do Luís Fernando Veríssimo - Racismos - no Blog do Noblat - publicada em 1/4/2007 http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=53070

segunda-feira, abril 02, 2007

INFORME DO FÓRUM DE EDUCAÇÃO DA ZONA LESTE

Comentário Moisés Basílio: Este é um informe resumido do primeiro debate organizado pelo Fórum de Educação da Zona Leste em 2007. O próximo debate será no dia 14 de abril, das 14:30 às 17 horas, na USP Leste e o tema a ser discutido é sobre o sentido do Ensino Médio: O grande número de estudantes que abandonam a escola na Zona Leste.

Informe sobre debate de 10/3/7, 14h30-17h, USP Leste

Tema Qualidade da educação para todas e todos: plano de educação para o município de São Paulo

Convidados para exposição inicial: Alexandre Alves Schneider, Secretário Municipal de Educação de São Paulo (15 min) e João Kleber de Santana Souza, diretor, Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. José Pedro Leite Cordeiro (15 min).

O Secretário Municipal de Educação, sr. Alexandre Schneider, impossibilitado de comparecer por estar em tratamento de saúde, nomeou o prof. Isaías Pereira de Souza, coordenador da Coordenadoria de Educação de São Miguel, para representá-lo. O prof. Isaías Souza fez sua exposição inicial apresentando as providências que a prefeitura vem implementando nos estabelecimentos escolares municipais, entre as quais mencionou aquelas destinadas à redução de turnos diários (a maioria das escolas de ensino fundamental funciona em quatro turnos), à retirada de escolas e salas “de latinha” (containers), ao aumento de horas diárias para turnos escolares, à máxima redução de licenças de curta duração para docentes (o controle de faltas por meio de descontos salariais), ao aumento da GDE (Gratificação por Desempenho no Ensino), ao investimento na formação prioritariamente de docentes de português no ciclo 2, aos CMCT-Centros Municipais de Capacitação e Treinamento (profissionalizantes orientados e certificados pelo Senai). O prof. Isaías Souza enfatizou também a importância dos programas São Paulo é uma Escola e Ler e Escrever (centrado em ações no 1º ano do ensino fundamental e em repetentes do 4º ano).

A exposição inicial do prof. João Kleber de Santana Souza recuperou o papel desempenhado por grupos de reivindicação pelo direito à educação da Zona Leste visando à ampliação da oferta de serviços educacionais, inclusive educação superior, para a qual também o Fórum de Educação da Zona Leste atuou, seja na criação do Centro Tecnológico da Zona Leste (Fatec) seja na instalação da própria USP Leste. O prof. João Kleber Souza destacou também o processo de elaboração participativa de um Plano Local de Desenvolvimento Educativo da Zona Leste, no qual o Fórum de Educação da Zona Leste envolveu dezenas de pessoas em seminários realizados entre 2001 e 2002. Essa experiência foi apresentada como contribuição às autoridades públicas e comunidades de outras áreas do município quando o Fórum de Educação da Zona Leste propôs à Secretaria Municipal de Educação que fizesse uma ampla convocação para elaborar-se democraticamente um plano de educação para o município, seguindo determinação da Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001, que aprovou o Plano Nacional de Educação. A proposta foi feita à Secretaria tanto quando Marta Suplicy esteve à frente da prefeitura quanto durante o mandato do prefeito José Serra, sem, contudo, ter encontrado um acolhimento favorável.

O prof. João Kleber Souza chamou a atenção para as metas do Plano Nacional de Educação que não vieram sendo cumpridas, entre as quais algumas de grande importância para modificar a qualidade da educação, tais como a definição de padrões de infra-estrutura para estabelecimentos educacionais e a redução do número de turnos diários. O expositor se posicionou também pela redução do tamanho das escolas, assim como do número de estudantes por docente (menos turmas e menos estudantes em cada uma). Salientou a importância do diálogo entre profissionais de escolas básicas e docentes e estudantes da universidade para a mudança da qualidade das escolas, bem como a necessidade de distribuição equilibrada de recursos financeiros entre os entes federados para sustentar as mudanças requeridas. O prof. João Kleber Souza destacou finalmente um aspecto político da elaboração de planos de educação, determinante da qualidade que possa resultar de tais planos: o debate sobre educação entre todos os atores nela envolvidos.

Após a apresentação dos expositores iniciais, a palavra esteve aberta às demais pessoas. A profa. Danizi Morais reiterou a importância dos grupos de reivindicação pelo direito à educação na Zona Leste, marcadamente a partir dos anos 1980, ressaltando o acompanhamento que tais grupos também faziam dos aspectos de qualidade e o fato de o poder público estar sempre longe de cumprir suas responsabilidades quanto à participação da população. Relacionou o fato com características adversas de áreas desfavorecidas da Zona Leste, inclusive os números elevados de homicídios nos grupos jovens, de casos de gravidez na adolescência e de mortalidade materna e infantil.

O prof. Ulisses Araújo (coordenador do Nasce-Núcleo de Apoio Social, Cultural e Educacional da USP Leste, ver www.each.usp.br/nasce) destacou as dificuldades que a USP Leste tem encontrado na comunicação com as comunidades locais, evidenciada na ausência de docentes e estudantes de escolas básicas na exposição organizada pelo curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, na baixa participação no curso de extensão oferecido a docentes daquelas escolas e no curso sobre educação comunitária (ver www.educacaocomunitaria.org.br).

O prof. Isaías Souza afirmou não ter sido procurado pela universidade e ter sentido falta disso. Indicou a importância especial dos diretores dos estabelecimentos de educação básica para conseguir o envolvimento dos corpos docentes e se ofereceu como mediador para esse contato, considerando menos efetivo o relacionamento direto da universidade com o magistério. Na condição de responsável pela Coordenadoria de Educação de São Miguel, ele lida com 115 estabelecimentos, abrangendo cerca de 105 mil estudantes. Além disso, mora na Zona Leste há 34 anos, conhece a luta pela universidade e ainda não viu integração com esta, embora tenham sido iniciadas conversas com a profa. Sônia Castellar (coordenadora anterior do Nasce da USP Leste), que não tiveram continuidade.

A profa. Mariley Oliveira (Escola Estadual Deputado Silva Prado) afirmou também que faltam canais de comunicação com a USP Leste e que há disposição de aproximação com a universidade, demonstrada pelas visitas de estudantes de que sua escola organizou à USP (Cidade Universitária) e à Unicamp.

O prof. Elie Ghanem apontou a exigência legal de que o poder público divulgasse o Plano Nacional de Educação e colaborasse para a realização de suas metas, ao passo que o próprio poder público não cumpre leis. Afirmou que boa parte dos casos de desrespeito a direitos humanos no Brasil se deve à omissão do Estado no cumprimento de suas obrigações legais e em zelar para que as leis sejam aplicadas.

O prof. João Kleber Souza disse ser preciso que as autoridades municipais, além de convidar, busquem a participação de profissionais das escolas no debate educacional utilizando também outros procedimentos regulamentados oficialmente, como a solicitação de presença e a convocação. O prof. João Kleber Souza afirmou que o magistério das escolas básicas quer o diálogo com docentes da universidade, bem como entre os diferentes setores de políticas governamentais. Mas que, quanto à universidade, há o receio do magistério em ser tomado apenas como objeto de pesquisa. Acrescentou que o debate não pode ocorrer adequadamente pela imprensa, já que esta não aborda a educação de modo apropriado.

O prof. Isaías Souza declarou haver a destinação de 8,5 mil a 11 mil reais periodicamente a cada escola (um CEI-Centro de Educação Infantil pode contar com 2,5 mil reais bimestrais), sendo que tais recursos podem ser usados na contratação de serviços de transporte para fazer visitas, inclusive à universidade. Além disso, os conselhos de escolas podem deliberar sobre projetos e há na Coordenadoria de Educação de São Miguel um diretor de projetos especiais, que são divulgados no site da Coordenadoria (http://educacao.prefeitura.sp.gov.br/Site/Coordenadoria/indexSiteCoordenadoriaAction.do?service=SiteUnidadeFuncionalSiteCoordenadoriaDelegate&actionType=detalhar&idUnidadeFuncionalSiteCoordenadoria=106300).

Silvio de Almeida Silva, conselheiro tutelar em São Mateus, questionou a ampliação da oferta de educação infantil por meio de centros conveniados. Lembrou também da lei municipal (Lei n. 14.127, de 5 de janeiro de 2006, ver http://www.leismunicipais.com.br/) para identificação da demanda escolar, pela qual a prefeitura está obrigada a fazer o registro dessa demanda e publicar os dados trimestralmente. Ressaltou a conveniência de o Fórum de Educação da Zona Leste articular-se com o legislativo municipal para levar ao cumprimento da lei. Sugeriu ainda que se retomasse a idéia de atividades do Fórum em diferentes áreas da Zona Leste.

O prof. Isaías Souza apontou a dificuldade de se encontrar terrenos para construir escolas porque há muitos lugares não legalmente regularizados, anunciou a inauguração de mais um CEU-Centro Educacional Unificado na área denominada Pantanal e informou que, em dois anos, quase triplicou o número de crianças em CEI (de cerca de 1,7 mil para 5 mil). Quanto aos programas adotados pela Secretaria Municipal de Educação, destacou que, como coordenador, nunca obrigou escolas sem condições a aderir aos programas São Paulo é uma Escola e Pós-escola.

O prof. Ulisses Araújo sublinhou que a solução para a qualidade da educação escolar depende da qualidade da educação infantil e do investimento na ampliação de sua oferta.

O prof. João Kleber Souza apresentou dados oficiais que indicam o baixo investimento em educação infantil. Observou também que a Coordenadoria de Educação pode promover iniciativas locais de processos participativos em torno da elaboração do plano de educação para o município.

Ramon Zago Oliveira (estudante da USP Leste) considerou pertinente o uso do conceito de capital social e que as escolas são importante local de mobilização desse capital, articulando diversos setores de políticas, entendendo que a educação não se realiza unicamente na escola.

A prof. Valéria Cazetta (USP Leste) declarou que pretende levar as preocupações expressadas no debate à coordenação do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza e que sua atuação como docente será atravessada pelo conhecimento que produzirá sobre a realidade da Zona Leste. Para ela, não é possível pensar na USP Leste sem o diálogo com as comunidades locais.

O prof. Isaías Souza entende que toda lei existe para ser cumprida, discutida e, se for contra os interesses da sociedade, modificada. Constata, porém, que há leis que não são cumpridas, a exemplo daquelas que proíbem fumar em certos lugares. Além disso, dispõe-se a dialogar em diferentes fóruns e acredita que estes precisam ter representatividade e presença numerosa.

O prof. Elie Ghanem reconheceu a condição ambígua em que o coordenador se encontrava, tendo sido indicado para falar pela Secretaria Municipal de Educação no debate, mas, sem poder assumir compromissos que corresponderiam à amplitude do poder do Secretário Municipal. Ressalvou, porém, que o coordenador da Coordenadoria de Educação de São Miguel, embora responda por uma jurisdição determinada, pode atuar no cumprimento da lei do Plano Nacional de Educação, por exemplo, divulgando no site da Coordenadoria e mobilizando profissionais, estudantes e familiares dos 115 estabelecimentos sob sua coordenação. O prof. Isaías Souza declarou que vai comunicar por relatório o sr. Secretário quanto ao debate e quanto ao pleito da construção do Plano Participativo de Educação da Cidade.

O prof. João Kleber Souza assinalou que a participação demonstrou que altera políticas, tendo isso ocorrido, por exemplo, na orientação seguida pelo programa São Paulo é uma Escola, na manutenção do cargo de Poie (Professor Orientador de Informática Educacional) e de OSL (Orientador de Sala de Leitura), que teriam sido extintos pela prefeitura não fossem os 14 dias de greve do magistério em 2006.

Redigido pelo prof. Elie Ghanem

domingo, abril 01, 2007

Mulheres da saúde

Comentário Moisés Basílio: Há uma história da cidade de São Paulo que fica oculta da dita opinião pública. É a história feita pelo povo da periferia. Poucos são os movimentos sociais que conseguem colocar em cena suas lutas. Iniciativas como estas são importantes para democratizarmos a história dessa cidade.

O Movimento de Saúde da Zona Leste e o Centro de Direitos Humanos de Sapopemba Pablo Gonzáles Olalla se unem em torno de um projeto que visa repensar e reavivar o próprio movimento, historicamente o mais importante movimento social da cidade de São Paulo.

por Marcelo Hailer - Fonte: Site Caros Amigos - acesso em 01/04/2007, no link - só no site- reportagem - http://carosamigos.terra.com.br/

O Centro de Direitos Humanos de Sapopemba – Pablo Gonzáles Olalla e o Movimento de Saúde da Zona leste se uniram em torno de um projeto, viabilizado com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), que visa resgatar e repensar este que é o movimento social mais importante da cidade de São Paulo. Graças a este movimento é que hoje todos os bairros da cidade são obrigados por lei a ter conselhos populares e gestores de saúde, num canal direto entre povo e executivo. Porém, segundo Maria Trindade, militante desde 1981, os movimentos se encontram enfraquecido na cidade inteira: “a partir das conquistas dos postos, dos conselhos, o movimento enfraqueceu”. Ou seja, como muitos integrantes dos movimentos sociais foram nomeados para cargos públicos, os movimentos em si perderam quadros atuantes e ficaram mais fracos.

Ainda segundo Maria Trindade, com a conquista de cargos públicos, os antigos militantes se dividiram em grupos políticos adversários entre si. Ela acha que agora a situação vai mudar: “esse novo projeto tem uma importância muito grande, porque está conseguindo unir as pessoas que fundaram o movimento nas décadas de 70 e 80, está conseguindo retomar a história, e isso não é pouca coisa, é um patrimônio”.

O Movimento de Saúde para a Zona Leste viveu o seu ápice de reconhecimento e luta no governo municipal de Luiza Erundina, de 89 a 92. Foi nesse período que lideranças do Movimento assumiram cargos executivos, como é o caso de Carlos Neder, que foi assessor de gabinete da prefeita Erundina e posteriormente secretário de saúde. Carlos Neder, Eduardo Jorge e Roberto Gouveia faziam parte de um grupo de médicos sanitaristas que desde a década de 70 vinha colaborando com o Movimento. Ao longo do processo de crescimento do Movimento, estes médicos assumiram cargos legislativos e se tornaram deputados pelo Partido dos Trabalhadores.

O Movimento se iniciou lá nos confins da zona leste, em Itaquera (Jardim Nordeste), Artur Alvim, São Mateus, enfim, regiões que, se ainda hoje são muito carentes, imagine-se no fim da década de 70. Eram ruas de terra, saneamento básico inexistente, sem telefones públicos, denotando uma ausência do Estado por completo. É nesse contexto que mulheres donas de casa, a maioria vinda do norte e nordeste do Brasil, se uniram para dar início a um movimento que nem elas imaginavam aonde iria chegar.

A realidade vivida por estas mulheres era arrasadora. Vivam na periferia da cidade de São Paulo, sofriam com a falta de posto de saúde, de escolas, de linhas de ônibus, de vacinas, etc. Tal situação gerava uma altíssima taxa de mortalidade infantil, devido a doenças como diarréia, sarampo e outras. Isso por volta de 1976. Então começou a primeira luta delas, que era pela conquista das vacinas e posteriormente de um posto de saúde na região de São Mateus. Na época, o governador de São Paulo era Paulo Maluf e o secretário de saúde Adib Jatene. Oito mulheres da liderança fizeram seis viagens até a Secretaria da Saúde, a fim de conversar com o secretário.

Na última viagem, depois de maus-tratos por parte da Policia Militar, foram finalmente recebidas. Em conversa com o secretário souberam que o governador tinha fechado os ambulatórios populares, onde se produziam as tais vacinas, porém, Adib Jatene prometeu falar com o governador e as mandou voltarem após quinze dias. Passado o tempo combinado, estas mulheres obtêrm a primeira vitória do movimento. O governador iria mandar as vacinas e reativar os ambulatórios populares.

Daí pra frente as conquistas continuaram, e uma que orgulha as militantes do movimento de saúde é a conquista do primeiro posto de saúde no bairro Jardim Nordeste, no ano de 1979, localizado na Avenida Águia de Haia. Justelita, que participou desta conquista, enfatiza: “quem quiser ver a prova tá lá, tem a placa do governo e em baixo tem a nossa, escrito assim, ‘Este posto de saúde foi conquistado pelos moradores’, isso nós colocamos, tá lá a prova”. O próximo passo seria a conquista dos Conselhos Populares e Gestores de Saúde, hoje obrigatórios por lei em todos os bairros da cidade.

Estes conselhos são formados por moradores, apesar de atualmente estarem em grande parte cooptados por forças e interesses políticos. De todo modo representam uma conquista popular. Justelita salienta a conquista, “tem muita gente que pensa que foi o governo que fez, mas fomos nós, o povo, que conquistamos os postos de saúde e os conselhos populares”.

Essa importante conquista resultou da aprovação oficial do Estatuto do Movimento de Saúde; na época o secretário de saúde já era outro, João Yunes. Como contou Justelita, a zona leste toda se envolveu: foram reunidos cerca de sessenta ônibus, que desembarcaram quase três mil pessoas no estacionamento da Secretaria de Saúde.

Com tanta pressão, não tinha como negar a reivindicação: o Estatuto do Movimento foi publicado no Diário Oficial.


Revitalizar um movimento de vanguarda
A revitalização do movimento já começou. O local do seminário e celebração a respeito da finalização da primeira parte do projeto que visa revitalizar o movimento é a Universidade Cidade São Paulo – campus Belém - (UNICID).

O relógio marca 15 horas; o calendário, 20 de dezembro de 2006. O público dominante é composto por mulheres, na maioria com faixa etária acima dos 40 anos, grande parte delas não se via há anos, pois, como vimos, o Movimento de Saúde da Zona Leste atualmente se encontra dividido e em refluxo. Este seminário teve como objetivo a comemoração de duas conquistas: o resultado preliminar da pesquisa elaborada para o projeto em questão e o lançamento do filme documentário dirigido por Renato Tapajós, “Políticas públicas de saúde no Brasil”.

O projeto de resgate do Movimento se dividiu em duas partes, sendo a segunda o seminário. A primeira parte se deu da seguinte maneira: dividiu-se a zona leste em três áreas, formaram-se três grupos de entrevistadores que percorreram, cada grupo, uma área da zona leste na busca de militantes e ex-militantes para responderem uma série de perguntas, entre elas: os motivos que o levaram a abandonar o movimento, se tem internet etc. Pois, além de se buscar entender as causas do declínio do movimento, a intenção é também montar um banco de dados referentes ao movimento, e a partir destas informações repensar o movimento. Como disse João Palma, da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, “mais uma vez este movimento inova; há uma pesquisa em curso, o movimento de saúde da zona leste está fazendo uma coisa muito corajosa que é produzir conhecimento sobre si próprio: quem é esse movimento? Quem são essas donas de casa hoje? Quem são esses jovens estudantes hoje? É um movimento negro, branco, de pessoas jovens, idosas? Isto é uma coisa muito interessante, mais uma vez este movimento dá exemplo para outros movimentos populares que estão precisando passar pelo mesmo processo. Mas, infelizmente mais uma vez acontece um movimento de vanguarda invisível, pois a mídia não está cobrindo, exatamente como ocorreu nos anos 80”.

Neste seminário um fato ficou evidente: não há jovens militantes de fato no Movimento de Saúde, o que se viu foram alguns poucos estudantes de comunicação da UNICID, militantes do PCB, estudantes da USP Leste e um solitário do PSTU.

Na ocasião do seminário pude perguntar a Ivoneide, idealizadora do projeto e militante do Movimento, se com os resultados das pesquisas daria pra se pensar em meios de atrair esta geração atual e dessa forma reoxigenar o movimento; ela respondeu: “Isso é um desafio pra nós, às vezes a gente fica focado num público da nossa idade, é um tema legal de se trabalhar, mas a gente ainda não conseguiu chegar nele, o jovem. Se a gente conseguir entrar via universidade e que esse jovem venha nos procurar não apenas pra tema acadêmico, mas pra nos ajudar também e que saiba que todos nós temos uma luta, seja na faculdade, no seu bairro e na sua família, isso é com todos os movimentos que, hoje enfrentam dificuldades pra atrair o jovem”. Para o cineasta Renato Tapajós, “é com a história, com o resgate das conquistas, com o fato de mostrar a importância destes movimentos para a história do Brasil, que conseguiremos sensibilizar estes jovens a participarem mais. Reconstruir a memória do movimento social é extremamente importante pra que os movimentos sociais recuperem a sua identidade. E acredito que é uma forma de fazer com que os jovens se aproximem”. Eu pergunto: não há um esvaziamento de jovens nos movimentos sociais? “Sem dúvida, e isso faz parte do processo neoliberal que vivemos, o impulso de preocupação coletiva que o jovem sempre teve em outras épocas, vem sendo erodido pela propaganda e pela televisão, há um trabalho do sistema para individualizar o jovem, e uma das formas de trazer o jovem de volta pra prática coletiva é trabalhar a memória dos movimentos sociais, pois a liberdade hoje é um dado e não uma conquista, eles não têm a menor idéia do que foi a ditadura”.


Neste momento, os idealizadores, organizadores e colaboradores do projeto estão aguardando uma resposta, pois a continuação do projeto depende de a OPAS (Organização Pan Americana de Saúde) aprovar a sua segunda parte.

Para tal, os gerenciadores do projeto acabam de encaminhar a prestação de contas. A segunda fase do projeto consiste em montar um banco de dados, estabelecer metas para o movimento e promover seminários em diversos bairros da zona leste. Lucirene, uma das organizadoras do projeto e militante do Movimento, nos elucida esta segunda parte, “na verdade o projeto era pra ser um só, de uma vez, mas quando começamos a fazer vimos que não daria, ele ficaria muito extenso, não conseguiríamos terminar tudo no prazo estipulado. A idéia não era só fazer a pesquisa, mas coletar um banco de dados, para isso entrevistamos 900 pessoas, militantes e ex-militantes do Movimento de Saúde. O objetivo pra nós, acima das pesquisas e do banco de dados, é recuperar o Movimento de Saúde, fazer com que ele se movimente novamente, então nós já mandamos o novo projeto, que seria a sistematização mais organizada dos dados obtidos e análise dos mesmos para que a partir deles façamos uma série de seminários. Por exemplo, uma pergunta, por que o movimento de saúde tem problema hoje? Só com esta pergunta dá pra fazer uns dez seminários. Então é isso, esta segunda parte é analisar os dados e devolvê-los ao Movimento de Saúde, não como uma coisa pronta, mas discutindo cada resposta com o próprio movimento, através de seminários temáticos, dentro de uma metodologia participante”. Lucirene disse que a resposta da aprovação da verba para esta segunda fase do projeto deve sair até o fim de março deste ano.

Torcemos então pra que consigam, para continuar este excelente projeto que visa resgatar e reunir o movimento social mais importante da cidade e, por quê não, do Estado de São Paulo.

Marcelo Hailer é jornalista

sábado, março 10, 2007

"Foi o desânimo de ser professor"

Comentário de Moisés Basílio: Recebi do amigo João Kleber o artigo abaixo sobre uma das doenças profissionais dos que exercem o ofício do magistério. Já tive a experiência de acompanhar de perto esse tipo de problema com alguns amigos. Não é fácil de diagnosticar e enfrentar o problema. Problemas desse tipo são recorrentes na carreira do magistério. Reza uma lenda aqui do Sapopemba, que uma professora primária aposentada, andava diariamente entre o largo do Jardim Grimaldi e o centro do Sapopemba, ensimesmada balbuciando: "Corta o T e ponha pingo no I".

Fonte: REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 119 - http://revistaeducacao.uol.com.br/revista.asp

CAPA - SOB PRESSÃO
Quase 50% dos professores brasileiros apresentam sintomas de estresse ou depressão. Os mais jovens são os que têm mais dificuldade para lidar com os problemas da profissão; muitos optam por abandonar o ofício.

Fabiano Curi

Reflexo da educação brasileira: para recuperar a saúde psíquica, Celsa teve de abandonar a sala de aula
No documentário "Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim, uma professora de literatura conta que sofria de depressão em razão dos problemas enfrentados na escola. Celsa Pastorelli, 28 anos de idade, dez de profissão, é a docente em questão. Leciona há oito anos em uma escola estadual de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Seu problema não é com a escola onde trabalha, que tem qualidade acima do padrão do ensino público brasileiro, mas com a crueldade da educação no Brasil. O que mais afetou sua saúde foi perceber que seu trabalho é cada vez mais desvalorizado e que não consegue tirar gente talentosa da pobreza em razão da falta de oportunidades. Afastada das funções de docente, Celsa conta, a seguir, sua experiência.

O que aconteceu com você?

O médico disse que meu problema era profissional. Foi uma depressão, e eu já estou em tratamento há cerca de quatro anos. Agora estou "readaptada": trabalho na secretaria e junto à coordenação da escola. Vou ficar fora da sala de aula por dois anos.

Por que ficou deprimida?

Foi frustração procurar sempre melhorar a aula e não ver interesse do aluno nem ter condições de trabalho. O professor, para ter uma vida mais digna, tem de trabalhar em várias escolas, dar aulas o dia inteiro e esquecer a vida pessoal. É aquela coisa de ver a sociedade do jeito que está, as condições de trabalho, tentar fazer algo, mas o resultado é demorado. Isso tudo se juntou num tipo de estresse.

Houve algum motivo específico?

Foi o desânimo de ser professor, de não ter apoio e de ser mal remunerado. Foi mais pelo problema social da educação, não que meus alunos fossem a causa. Trabalho em uma escola em que os índices de violência são bem baixos. Não temos alunos drogados, o que é comum nas outras escolas. Foi por ver alunos com talento sem oportunidades.

Houve problemas com indisciplina?

Sim, mas isso é comum até nas particulares. Acaba deixando a gente frustrada, pois você prepara a sua aula, com vontade de ensinar, e o aluno está desinteressado.

As coisas pioraram nesses dez anos de profissão?

Sim. A escola tem uma avaliação que é a progressão continuada em que é praticamente impossível reter o aluno. Então, passar o aluno que não sabe vai deixando o professor cada vez mais desestimulado. Não que a retenção seja uma punição, mas ele tem de saber que não estudar terá uma conseqüência. Ele só percebe isso depois que sai da escola. Temos vários alunos que, depois que terminam o terceiro ano do ensino médio, pedem para assistir às aulas.

Quando você identificou que algo estava errado?

Ficava freqüentemente doente, não comia, não dormia direito, tinha pesadelos, alguns espasmos e não ficava em lugar nenhum. Se estava em casa, não queria estar em casa, se estava na escola, não queria ficar na escola. Aí comecei a passar muito no médico, fiz vários exames e nunca dava nada. Depois de um tempo, ele me encaminhou para a psiquiatria.

Que tipo de transtorno foi diagnosticado?

No atestado vinha baixa tolerância à frustração, dificuldade de concentração e labirintite, pois não conseguia ficar em lugares com muito barulho. Lugares com muita gente falando ao mesmo tempo me davam um zumbido no ouvido e eu perdia o equilíbrio, às vezes desmaiava. Desenvolvi também a Síndrome do Pânico. Ver um monte de adolescentes era como ver um monte de assassinos juntos. O coração disparava e tinha falta de ar. Uma situação bem difícil de administrar.

Há muitos colegas na mesma situação?

Sim. Depois que você começa a terapia e fala dos problemas, as pessoas vêm conversar, dá para perceber que sentem exatamente aquilo que você estava sentindo. Arriscaria dizer que 50% dos problemas de saúde dos professores vêm do estresse e da depressão.

Você acha que as direções das escolas não estão preparadas para lidar com esse tipo de problema?

Acho que ninguém está preparado. Os pais também não estão preparados para serem pais. Os professores não estão preparados para lidar com esse tipo de aluno. O diretor, mesmo que tente fazer alguma coisa diferente, acaba esbarrando na lei.

Pretende voltar para a sala de aula?

Gostaria de trabalhar com projetos, mas acho que a sala de aula não dá mais para mim. Pelo menos enquanto não mudar essa situação que a gente tem na escola.

domingo, março 04, 2007

A ECONOMIA DA MUDANÇA CLIMÁTICA

















Comentário por Moisés Basílio - 04/03/2007: A temática sobre as mudanças climáticas em nosso Planeta já anda de boca em boca pelas ruas e pelos bares. Nem sempre temos fontes confiáveis para tomar parte nesse debate. No mês passado postei neste blog um crônica do Nei Lopes sobre como o tema já está presente na vida das pessoas. O relatório Stern, comentado abaixo do Prof. Dowbor, é um importante material para entendermos melhor o que está em jogo. Boa leitura!

Fonte: Site do Prof.
Ladislau Dowbor - acessado em 4/3/2007 - http://dowbor.org/resenhas_det.asp?itemId=71c00577-8bcb-4c4a-a0f1-3fa12299a728

The Economics of Climate Change (A economia da mudança climática, Resumo Executivo) - 27 p. http://www.hm-treasury.gov.uk/media/8AC/F7/Executive_Summary.pdf
Nicholas Stern / Governo da Grã-Bretanha London Outubro de 2006

Comentário por Ladislau Dowbor - 15/02/2007

O Titanic, evidentemente, não tinha como afundar. As probabilidades eram ridículas. Por outro lado, acelerar o navio daria belas notícias nos jornais, levantaria entusiasmos e financiamentos, permitindo mais investimentos e assim por diante. Enfim, o progresso. A realidade é que o navio afundou, e junto com êle uma certa prepotência dos que arriscam tudo para sair na primeira página. Mas as culpas nunca estão de um lado só, e entre os que ignoram riscos e os tímidos que não avançam por excessiva prudência, há bastante espaço para o bom senso.

O poder não costuma estar nas mãos dos que têm bom senso.. É interessante questionar por que razão prevaleceu a decisão irresponsável no caso do Titanic, ou a irresponsabilidade sistêmica no caso do naufrágio da gigantesca e tecnicamente tão bem dotada Enron ou, em escala bem mais ampla, porque prevalece o imobilismo decisório no caso do aquecimento global, onde assistimos impotentes à evolução do planeta para zonas de alto risco, com consequências potencialmente catastróficas.

No meio dos minimamente informados, há poucas dúvidas quanto à realidade do aquecimento global. Mas como as tecnicalidades climáticas são obscuras, e empresas como a Exxon-Mobil e outras gastam rios de dinheiro para ridicularizar o risco e caluniar cientistas, ficamos na dúvida. Este ponto não é secundário. O New Scientist apresenta vários relatórios das instituições científicas norte-americanas sobre as iniciativas do governo Bush para deturpar dados ou travar as informações sobre mudanças climáticas. A guerra de números contraditórios é real, e não ajuda a compreensão.

O governo britânico tomou uma medida mais sensata. Encarregou Nicholas Stern, que foi economista-chefe do Banco Mundial, e portanto é pouco propenso a extremismos ecológicos, de fazer as contas. As contas do Relatório Stern referem-se aos dados climáticos mais confiáveis, que ele utiliza para avaliar o impacto propriamente econômico: o que aconteceria, em termos de custos, ao se verificarem as projeções climáticas já razoavelmente seguras, calculando-se os impactos mais prováveis, sem desconhecer o grau inevitável de incerteza. Trata-se da primeira avaliação abrangente da “conta climática”.

O resultado é apresentado num relatório extremamente ponderado, e que pode ser lido gratuitamente na internet, por meio do excelente resumo executivo de 27 páginas (endereço abaixo)..O Relatório está tendo um grande impacto mundial, pois veio justamente preencher esta grande necessidade, por parte de pessoas de bom-senso e não especializadas, de entender os pontos centrais da questão. Somos bombardeados por inúmeros dados sobre as projeções climáticas, e fragmentos de possíveis catástrofes, mas o impacto econômico de conjunto não tinha sido avaliado.

A essência das conclusões, é que os custos de não fazer nada, de se continuar o que chama de business as usual (BAU), são incomparavelmente mais elevados do que de se tomar providências. A análise dos dados, segundo Stern, “leva a uma conclusão simples: os benefícios de uma ação forte e precoce ultrapassam consideravelmente os custos. As nossas ações nas próximas décadas poderiam criar riscos de ampla desarticulação da atividade econômica e social, mais tarde neste século e no próximo, numa escala semelhante à que está associada com as grandes guerras e a depressão econômica da primeira metade do século 20. E será dificil ou impossível reverter estas mudanças”.

Não nos cabe aqui resumir os dados e argumentos aparesentados de maneira extremamente transparente no Relatório Stern. Mas vale a pena realçar que se trata da sorte do planeta, e que o “business as usual” gera neste caso riscos inaceitáveis. Os mecanismos de mercado são simplesmente insuficientes, pois em termos de mercado, sai mais barato gastar o petróleo que já está pronto no subsolo. A visão sistêmica e de longo prazo se impõe, e isto implica mecanismos de decisão e de gestão que vão além do interesse microeconômico imediato. Neste ponto, Stern é direto nas suas afirmações: “A mudança climática apresenta um desafio único à ciência econômica: trata-se da maior e mais abrangente falência do mercado já vista”. (“Climate change presents a unique challenge for economics: it is the greatest and widest-ranging market failure ever seen”).

sexta-feira, março 02, 2007

ESCOLA PUBLICA: AS EXPERIÊNCIAS DE LÁ E DAQUI

Recebi hoje, da Regina Miyeko, da Apeoesp Tatuapé, essa indicação de leitura. Coincidência, pois hoje depois das aulas, no horário coletivo dos Professores/Educadores, o assunto esbarrou na temática dos dois artigos. Estamos iniciando mais um ano letivos e os problemas são enormes. Para quem está na lida cotidiana da educação escolar a questão é conseguir articular o particular, da sala de aula, com as questões estruturais, coletivamente. Há um enorme fosso entre o que se faz, ou o que só pode fazer, no dia-a-dia de trabalho escolar, com o grande debate nacional sobre o fracasso da educação escolar. Moisés Basílio.


ARTIGO 1 - POLÊMICA

Fonte: São Paulo, domingo, 04 de fevereiro de 2007 - Folha de São Paulo - Cotidiano


GILBERTO DIMENSTEIN

Pro dia nascer feliz


A grande sacada de Nova York é traduzir estatisticamente a mensagem de que nada é pior que não reverenciar talentos


A CIDADE de Nova York está transformando um enorme problema numa grande solução. Sem conseguir preencher as vagas nas escolas mais violentas e de pior desempenho, a prefeitura cometeu um gesto desesperado: um concurso em que os candidatos a professor não precisariam ter qualquer experiência em sala de aula nem diploma de pedagogia. O salário inicial é de R$ 7,5 mil mensais.
Uma vez selecionado, o candidato passaria por uma preparação de três semanas e, enquanto estivesse dando aula, receberia gratuitamente uma especialização para habilitá-lo, se ele quisesse, a ser professor definitivo. O resultado do concurso foi inesperado.

O programa atraiu talentos das mais variadas áreas, como marketing, finanças, mídia e artes, muitos dos quais interessados em uma nova experiência profissional ou querendo fazer a diferença em sua comunidade. Entusiasmou especialmente ex-executivos, já aposentados, alguns dos quais de empresas multinacionais. É, enfim, um material humano que dificilmente poderia ser mais bem qualificado e motivado.
Esse é apenas um detalhe da reinvenção das escolas públicas de Nova York, embaladas por um inusitado desafio: o prefeito Michael Bloomberg pediu aos eleitores que avaliassem sua administração a partir da nota dos alunos. Se a nota for baixa, ele é que deve ser o reprovado.

Entre várias derrotas, críticas e erros, o prefeito está vencendo -e produzindo boas dicas para o Brasil.

Os recursos daquela cidade só apareceriam para os brasileiros em sonho. Nova York gasta por ano R$ 35 bilhões para cuidar de 1,1 milhão de estudantes. Compare: a rede municipal paulistana tem o mesmo número de matrículas, mas um orçamento oito vezes menor.

Apesar dessas invejáveis cifras, sem contar com mais alguns bilhões de apoio em programas de fundações empresariais e entidades comunitárias, a cidade não estava contente: além do alto nível de evasão, 51% dos alunos exibiam um desempenho de escrita, leitura e matemática abaixo da média nacional.
Por isso, o desafio do prefeito tornou-se um suspense tão interessante. Para ele, era um "tudo ou nada", não poderia mudar, no meio do caminho, de prioridade.

Apostou que encontraria mais soluções na sua rica vivência de gestão empresarial do que nos escritos acadêmicos.

Com a ajuda de empresas, começaram a ser construídas pequenas escolas, na convicção de que, em unidades menores, alunos se sentiriam mais acolhidos, reconhecidos e estimulados. Não seriam invisíveis.
Resolveu-se mexer na gestão. Os diretores ganharam autonomia, mas, em contrapartida, passaram a correr o risco de demissão se não atingissem as metas. Estavam à sua disposição mais verbas para inovação curricular, formação de professores e atividades extracurriculares. Resultado: nessas escolas, 78% dos alunos estão acima da média nacional, com impacto em toda a rede.

O leitor deve estar, neste momento, pensando que os brasileiros nada têm a tirar de lições de uma cidade que pode gastar tanto -aliás, na semana passada, o prefeito de Nova York destinou mais R$ 5 bilhões às escolas em 2007, sem contar ajuda extra do governo estadual de mais R$ 7 bilhões para os próximos anos.
A primeira lição é a mais óbvia: nem sempre excesso de dinheiro significa ganhos de qualidade.

A menos óbvia: uma direção motivada, orientada por metas claras compartilhadas com professores, pais e alunos é onde tudo começa.

Devido às baixas condições de trabalho, o que vemos, no Brasil, especialmente na periferia das grandes cidades, é uma alta rotatividade de diretores e de professores, além de um excesso de faltas; há diretores que não ficam mais do que um ano à frente de uma escola. Não se premia quem se esforça nem se pune quem demonstra baixo desempenho e, para completar, o envolvimento dos pais é pequeno e o currículo, desinteressante. Até mesmo falar em premiar as escolas de melhor performance é apontado pelos sindicatos como atentado "neoliberal". Aqueles que ultrapassam esses obstáculos (e tenho conhecido vários casos) são, sem nenhum exagero, heróis.

O que Nova York nos mostra , em números, é que, nesses termos, a chance de gerarmos talentos em nossas escolas será sempre uma exceção -assim como os heróis.

PS - Para quem quiser ver o que estou falando, recomendo o filme "Pro Dia Nascer Feliz", que acaba de entrar em cartaz. É o mais profundo documentário já produzido sobre jovens brasileiros e o aprendizado. Ali vemos como nosso pior desperdício é o desperdício de talentos. A grande sacada de Nova York é traduzir estatisticamente a mensagem de que nada pode ser mais grave do que deixar de reverenciar os talentos -e que sempre, em qualquer situação e em qualquer idade, eles podem ser revelados.






ARTIGO 2 - RESPOSTA

Fonte: Site da revista Caros Amigos em 1/3/2007 - http://carosamigos.terra.com.br

Sobre Nova York, professores e escolas públicas

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal
dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer,
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
Caetano Veloso

por Walter Takemoto

O jornal “Folha de S. Paulo” do dia 04 de fevereiro último publicou coluna escrita pelo jornalista Gilberto Dimenstein, em que trata dos problemas das escolas públicas brasileiras tomando como referência experiências em desenvolvimento na América do Norte, mais precisamente em Nova York. Considero importante sua preocupação com as escolas públicas brasileiras, mas não posso deixar de manifestar minha discordância com algumas idéias defendidas pelo jornalista.

Apresenta ele experiências nova-yorkinas que certamente deve ter estudado e que diz serem de sucesso, as quais, confesso, não conheço e a leitura da coluna não permite conhecer em detalhes. Dentre essas experiências de qualidade e sucesso, o jornalista destaca a que abre as escolas para qualquer profissional, formado ou não, que queira assumir o lugar de um professor - profissional do magistério, portanto - pelo salário inicial equivalente a R$ 7.500,00 mensais. Contratado, o novo profissional passa por uma “preparação” de três semanas (!!!). Após assumir uma sala de aula, caso queira, poderá fazer gratuitamente um curso de especialização destinado a titulá-lo para que possa ser professor definitivamente.

Entusiasmado com a proposta, o jornalista exalta o fato de profissionais liberais e executivos, de grandes empresas, alguns já aposentados, assumirem as salas de aulas no lugar dos professores e, a partir daí, os resultados serem melhores. Gilberto Dimenstein, segundo suas próprias palavras, considera que esses profissionais liberais e executivos representam “um material humano que dificilmente poderia ser mais bem qualificado e motivado”. Ou seja, para o jornalista esses que se prontificaram a ocupar o lugar de um professor são mais bem qualificados que os professores para ensinar aos alunos!

O convite feito na matéria é para examinarmos essas propostas com o propósito de aprender com as medidas implementadas pelo prefeito de Nova York. Para minimizar a comparação entre a cidade dos EUA e as do Brasil, diz o jornalista que o orçamento de Nova York é de 35 bilhões, sem contar recursos de outras fontes, como fundações privadas e o governo estadual. Diz ainda que, por lá, a prefeitura está construindo pequenas escolas, por avaliar que podem acolher melhor os alunos, que passam a se sentir reconhecidos e estimulados. Nessas escolas, segundo a matéria, a equipe escolar conta com recursos para formação continuada, atividades extracurriculares, inovações pedagógicas, entre outras. O diretor tem mais autonomia, mas pode ser demitido caso não alcance as metas estabelecidas pela prefeitura. Escreve o jornalista que o prefeito da cidade apostou que encontraria mais soluções na sua rica vivência de gestão empresarial do que nos escritos acadêmicos.

Sem dúvida alguma as experiências de sucesso e o conhecimento produzido a partir delas devem ser estudados e, sendo possível, adotados onde fizerem sentido para responder a desafios semelhantes aos que lhes deram origem. Entretanto, como bem sabemos, as escolas, as realidades, os problemas, as soluções e as condições contextuais merecem uma análise profunda do que se apresenta como propostas e não a defesa simplória do que seria bom sob quaisquer circunstâncias.

Concordo com algumas posições defendidas pelo jornalista em relação aos problemas graves existentes na educação brasileira, como o elevado número de faltas, o corporativismo sindical, a ausência de avaliação de desempenho pautada em indicadores que de fato avaliem o sistema de ensino e o profissional, entre outros.

No entanto, não faz o menor sentido que as iniciativas para a suposta solução desses problemas estejam assentadas no inaceitável equivoco de desqualificar os profissionais da educação, responsabilizando-os, única e exclusivamente, pelo fracasso escolar, um problema de grave dimensão social de múltiplas causas.

De tempos em tempos assistimos ao surgimento de propostas milagrosas para elevar a qualidade das escolas públicas e das aprendizagens dos alunos. Da compra de “pacotes educacionais”, produção de livros didáticos e manuais para os professores “ao gosto do cliente”, até os programas televisivos que dispensam a presença de professores, são inúmeras as soluções que empresas, editoras e outras instituições oferecem aos prefeitos e secretários de educação, para resolver os problemas da educação. Por trás dessas propostas, de forma mascarada, o que se propõe é minimizar a importância do professor no processo de ensino e de aprendizagem.

Ao se comprar “pacotes educacionais” ou livros didáticos pré-formatados, para a cidade ou região, com o respectivo caderno do professor e atividades pré-estabelecidas (o que não difere muito dos pacotes), o que se está comprando na verdade é um receituário a ser aplicado pelo docente, que deve seguir à risca o que alguém produziu em algum lugar. A partir da experiência de Nova York, Gilberto Dimenstein nada mais fez do que escancarar o que outros propõem de forma envergonhada: se não podemos tirar o professor da escola, vamos reduzir a sua importância em sala de aula!

As críticas que podemos fazer aos educadores, que cabem ao conjunto do funcionalismo público, não podem, em hipótese alguma, se transformar na sua condenação como culpados pela crise da escola pública.

Se nesse processo existem culpados e vitimas, podemos dizer que, muito mais do que culpados, os professores são principalmente vitimas de:

- uma ação deliberada das elites que sucateiam os serviços sociais que são destinados aos setores populares da sociedade, ao mesmo tempo em que privatizam o Estado naquilo que lhes interessam e engordam os seus patrimônios;

- relações paternalistas e assistencialistas que marcam a nossa cultura político-partidária, à direita ou à esquerda, que desorganizam e não educam os setores populares para que tenham uma ação afirmativa de direitos e de controle social sobre o Estado e os serviços públicos;

- uma formação inicial de professores incompatível com a complexidade e as necessidades das escolas públicas e de seus alunos, que colocam jovens supostamente habilitados ao exercício da profissão diante de uma enorme responsabilidade com a formação e a vida escolar de centenas de crianças e adolescentes, mas na realidade despreparados para ensina a todos com qualidade – um tipo de formação que, muitas vezes, se ocupa em preparar futuros professores para o exercício do discurso pedagógico de vanguarda e não para uma atuação profissional competente;

- uma cultura escolar e profissional que tem como representação simbólica de aluno uma criança branca, de classe média, do meio urbano e católica, tratando, portanto, como “estranhos” a grande maioria dos alunos que freqüentam as nossas escolas e que não correspondem a essa representação, desvalorizando, assim, os conhecimentos sociais e culturais que trazem de suas vivências;

- gestores despreparados e, para piorar, às vezes sem nenhum compromisso com a qualidade da educação, incapazes de avaliar com seriedade as políticas e programas em desenvolvimento ou as que são necessárias para construir um processo que possa coesionar os educadores e a comunidade em torno de ações para alcançar os resultados que interessam à população;

- inexistência de políticas de valorização dos profissionais da educação, em contradição com as exigências e responsabilidades depositadas sobre eles, que recebem um dos mais baixos salários pagos entre os países da América do Sul (quanto mais comparados aos de Nova York!). Segundo o INEP/MEC (2003), o salário médio de um professor do ensino fundamental é de R$ 462,00 e um professor do ensino médio recebe quase a metade do que ganha um policial civil e um quarto do que ganha um delegado de polícia. As diferenças salariais regionais são brutais: um professor da educação infantil do sudeste ganha em média R$ 522 e no nordeste o salário é de apenas R$ 232,00. Diante dessa situação, grande parte dos professores acaba por assumir dupla ou tripla jornada de trabalho, o que significa ausência de tempo para um envolvimento efetivo com o trabalho pedagógico, essencial para a qualidade do ensino, como planejar o ensino a partir das necessidades de aprendizagem dos alunos, trabalhar coletivamente com os seus pares, discutir o projeto pedagógico da escola, entre outros;
- condições institucionais desfavoráveis para professores e alunos, uma vez que se constata que 45% das escolas não possui bibliotecas, 80% não possui laboratórios, além do número excessivo de alunos em salas de aula, em alguns casos superando 40 por turma.

Podemos acrescentar muitos outros problemas que acabam por interferir na qualidade da escola pública, pois, como bem lembra o Prof. César Coll, em nenhum outro período histórico os grupos sociais depositaram tantas expectativas e responsabilidades em um só tipo de prática educativa e exigiram tanto da educação escolar como hoje. Se isso ocorre, não vemos, pelo menos no Brasil, a sociedade oferecer aos educadores as condições e os recursos necessários para que possam cumprir adequadamente com a sua função social.

Além do que, por abrigar em seu interior e no seu cotidiano contradições sociais presentes na sociedade, as escolas - e os professores – são chamados a dar respostas para os dilemas e problemas sociais que fazem parte da vida de seus alunos, como o desemprego, a gravidez precoce, o consumo de drogas, a violência, enfim, tudo o que marca o processo de exclusão social de grande parte das crianças, adolescentes e jovens que freqüentam as salas de aula. E os governantes do nosso país, portanto também a sociedade, estão permitindo que cada vez mais se cobre dos educadores e das escolas que se responsabilizem isoladamente por problemas que são estruturais do nosso país. E sobre essa questão é preciso lembrar o que diz a professora Magda Soares: “a democratização da educação não depende só nem sobretudo dela, educação, porque é impossível a democratização da educação numa sociedade como a nossa, dividida em classes de forma tão gritante, tão revoltante, com diferenças tão grandes de condições sociais e econômicas. Enquanto as desigualdades e as discriminações não se resolverem, a educação pouco pode fazer. O problema fundamental são as condições sociais do país”.

Se nossos professores “não são os sujeitos brilhantes de Nova York”, apesar de tudo o que a elite fez, em mais de cinco séculos, para inviabilizar a escola pública de qualidade para os mais pobres e excluídos, ainda assim, quem quiser vai descobrir em quase todo o país professores e professoras que teimam em acreditar e fazer acontecer uma escola que garante uma aprendizagem de qualidade a todos os alunos e alunas. São homens e mulheres que demonstram, cotidianamente em suas salas de aula, que a tão sonhada escola pública de qualidade é possível, principalmente quando se oferecerem aos educadores os recursos, o tempo e as condições institucionais que favorecem o protagonismo na construção dessa escola de qualidade para todos, o que significa dizer que também os educadores devem estar à frente da discussão sobre a política educacional necessária para o país, mesmo que assim não queiram os gestores ou os sindicalistas - aqueles que acreditam que conquistar uns 10% ou 15% a mais de reajuste salarial ao ano significa oferecer aos professores a valorização profissional que merecem.

Não conheço suficientemente os professores americanos, suas expectativas, seus desejos, frustrações profissionais, compromissos e lutas...mas, do que pude conhecer dos professores brasileiros, posso assegurar que por aqui as soluções são bem outras, diferentes daquelas que o jornalista apresenta em seu artigo. Ousaria afirmar que me parece que por lá também!

Walter Takemoto é educador.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

EDUCAÇÃO: PROGRAMA DE DEBATES NA ZONA LESTE

Recebi a programação de debates do Fórum de Educação da Zona Leste para o primeiro semestre de 2007. Vamos participar! Moisés Basilio.

Caríssimas amigas e amigos,

O Fórum de Educação da Zona Leste definiu seu programa de debates para 2007. Serão na USP Leste (Each-Escola de Artes, Ciências e Humanidades), no Auditório Azul, Rua Arlindo Béttio 1000 Ermelino Matarazzo. Ocorrerão sempre em tardes de sábados, nas seguintes datas e horários:

10 de março de 2007, 14h30 às 17h - Educação de Qualidade para Todas e Todos: plano de educação para o município de São Paulo. Pessoas convidadas para exposição inicial:

João Kleber de Santana Souza, diretor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof. José Pedro Leite Cordeiro (15 min)

Alexandre Alves Schneider, Secretário Municipal de Educação de São Paulo (15 min)

14 de abril de 2007, 14h30 às 17h - O Sentido do Ensino Médio: alto índice de estudantes da Zona Leste que abandonam a escola. Pessoas convidadas para exposição inicial:

Milton Alves Santos, integrante da equipe de assessores da ONG Ação Educativa, Área Juventude (15 min)

Luiz Candido Rodrigues Maria, coordenador da Cogsp-Coordenadoria de Ensino da Grande São Paulo, Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (15 min)

19 de maio de 2007, 14h30 às 17h - Formação Profissionalizante e Mercado de Trabalho: a pequena oferta na Zona Leste. Pessoas convidadas para exposição inicial:

Dulce Helena Cazzuni, Secretária do Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão de Osasco (15 min)

Hiroshi Kimura, subdelegado da Subdelegacia da Zona Leste do Ministério do Trabalho e Emprego (15 min)

16 de junho de 2007, 14h30 às 17h - Presença da USP na Zona Leste. Pessoas convidadas para exposição inicial:

Héber Rocha, estudante da USP Leste e diretor do Diretório Central dos Estudantes da USP (15 min)

Ulisses Araújo, coordenador do Nasce-Núcleo de Apoio Social, Cultural e Educacional da USP Leste (15 min)

Prevê-se a participação de um público principalmente (mas, não exclusivamente) composto por profissionais de escolas públicas básicas e líderes comunitários da Zona Leste.

Divulguem amplamente e compareçam. Participem do grupo eletrônico de discussão do Fórum de Educação da ZonaLeste: forumeduca_leste@yahoo.com.br. Mais informações sobre o Fórum no portal fdezl.incubadora.fapesp.br (sem www).

Abração!

Elie Ghanem (professor) 11-9219-9960
Faculdade de Educação da USP
Avenida da Universidade 308 - Cidade Universitária
05508-900 São Paulo SP

EFEITO ESTUFA E AQUECIMENTO GLOBAL

Recebi do meu amigo João Kleber esta animação. Moisés Basílio.

Animação que explica o efeito estufa e aquecimento global é só clicar
http://earthguide.ucsd.edu/earthguide/diagrams/greenhouse/