quarta-feira, setembro 27, 2006

Qualidade é desafio para escola pública

Comentário da entrevista - Profº Moisés Basilio
Na pequena entrevista do Profº Mário Sérgio Cortella - reproduzida a seguir - a temática da qualidade da escola pública é posta em questão. A reporter, busca fazer perguntas que induza o entrevistador a colocar o professor como personangem principal - causa principal - geradora do problema, mas brilhante o Professor repõe a causa do problema em outros termos.
A escola pública, como espaço do ensino público não é responsável sozinha pela Educação no sentido amplo do termo. Acredito cada vez mais, que só é possível avançarmos na qualidade do ensino público se a sociedade e os governos assumirem as responsabilidades das diversas variáveis ligadas à Educação. Antes, durante e depois do processo de ensino/aprendizagem, função da Escola Pública, há que existir o processo educacional social, baseado fundamentamente em valores e princípios. Valores e princípios são de responsabilidades da sociedade em geral,na esfera do macro, e de responsabilidades dos pais - famílias - na esfera do micro. O Estado, através das políticas públicas na área de ensino tem função complementar e não principal no processo educativo do cidadão.
Um exemplo desta dissociação entre Educação e Ensino/Aprendizagem vivo com minhas turmas da quinta série. Posso dizer a grosso modo, que mais de 50% de meus alunos não fazem lição de casa e nem têm o hábito de estudar em casa. Procurando investigar as causas deste comportamento,levantei algumas variáveis: Moram em habitações precárias, sem espaços físicos para o ato de estudar; Alta densidade demografica na habitação e falta espaços até para o aluno guardar o seu material didático, tanto que um aluno me disse que não queria levar o livro para casa pois seu irmão mais novo poderia danificá-lo; Conflitos famíliares sistemáticos, gerados principalmente pelo alcoolismo por parte de muitos pais e outras situações de violências no âmbito familiar; Situação financeira familiar que leva muitas vezes ao trabalho infantil, dentro do próprio lar - cuidando de afazeres domésticos e de irmãos mais novos - ou fora de casa para complementar a renda familiar; Falta de estímulos e combranças familiar para o estudo em casa; Pais que trabalham e deixam os filhos soltos, decidindos a bel prazer seus ritmos e horários de vida, sendo que alguns tem a rua como espaço e outros acabam gastando horas diante da TV ou vídeos games.
Essas variáveis do não estudo em casa, também dificultam o estudo em sala de aula, pois os valores vivídos cotidianamente são trazidos para o estudo presencial, a saber: dificuldade em se concentrar;indisciplina sistemática em relação ao colegas - pequenas provocações que geram grandes conflitos - e também aos professores; dificuldade em aceitar responsabilidades e cobranças; individualismo exacerbado etc.
Essa situação faz com que o professor, por mais que prepare seu plano de ensino, tenha antes que gastar grande parte do tempo em cuidar destas relações conflituosas no cotidiano da sala de aula, e deixar para segundo plano o ensino propriamente dito. E como seu tempo e seus recursos são exíguos, ele acaba não resolvendo os problemas de relações interpessoais e pessoais dos alunos e nem os problemas de aprendizagem, e entra no eterno círculo vicioso: não consegue ensinar porque tem que cuidar e não consegue cuidar porque este não é seu papel.
Mas, deixemos por hora esta digressão para apreciar a entrevista do emérito Professor.
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Qualidade é desafio para escola pública - Fonte: JORNAL DA TARDE – 27/09/2006

MARIA REHDER

Não é novidade que o Brasil tem ficado “na lanterna” das avaliações internacionais de Educação. É neste contexto que a sociedade começa a se mobilizar para mudar esta realidade. Mas, enquanto isso não ocorre, como deve atuar o professor de escola pública? Este é o questionamento que a reportagem do JT levou para Mário Sérgio Cortella, filósofo, professor titular da PUC-SP há 30 anos, e secretário Municipal de Educação na década de 90.

JT - O que o professor pode fazer para que o aluno de escola pública tenha acesso à educação de qualidade?
CORTELLA - Antes de pensar no professor, é preciso olhar para todo o contexto do ensino público do Brasil, pois atualmente há muitos professores que atuam nas duas redes - pública e privada -, então o problema da educação pública não pode ser atribuído ao seu professor. A única diferença que vejo entre estes dois contextos é a própria escola, pois o docente é o mesmo, mas a gestão e os alunos são diferentes.

E o que essas diferenças - gestão e aluno - representam na prática?
Em relação ao aluno, a diferença é de “repertório”, gerada por pais com diferentes níveis de escolarização. Não se pode generalizar, mas cito um exemplo. Um aluno de uma escola de periferia, membro de família de baixa renda, tem um repertório diferente dos alunos de classe média, que recebem o auxílio de seus familiares em casa. Esta é apenas uma das razões que fazem o investimento em Educação de Jovens e Adultos (EJA) ser fundamental para que o Brasil ofereça educação de qualidade.

Como o investimento em EJA geraria impacto direto na qualidade de educação das crianças brasileiras?
Muitos professores enfrentam diariamente o desafio de lidar com a falta de “repertório” de seus alunos. Educação não é tarefa apenas do professor e a falta de repertório - do contato com o mundo letrado e com a cultura em casa - gera ao aluno dificuldades de aprendizagem. A gravidez precoce é um bom exemplo. O acesso à educação básica hoje é universalizado, então o filho destes adolescentes hoje estão matriculados na Educação Infantil. Essas crianças acabam sendo filhos de pais sem escolarização, mas chegam à escola. Então, é preciso investir em EJA para que os pais dessas crianças voltem à escola, pois só assim seus filhos terão educação integral, garantida pela atuação da família e com o acesso à escola.

E como o sr. definiria uma boa gestão escolar?
Uma boa gestão escolar é aquela que permite que a escola seja apropriada pela comunidade escolar. O passo inicial é que a comunidade tenha uma participação deliberativa e não apenas seja consultada para a tomada de decisões. O Waldir Romero, diretor da Emef Comandante Garcia D’Ávila, Zona Norte, dá um bom exemplo de gestão, pois ele, ao abrir a escola para a comunidade, mudou a realidade daquela escola, que antes tinha espaço físico degradado, entre outros graves problemas.

E qual é o papel do professor neste contexto? Um aumento de remuneração faria alguma diferença?
Cito um caminho levando em conta a minha experiência como secretário de Educação (1991-1992). Tentarei explicar de maneira simplificada: pegue um lápis e desenhe no papel 3 círculos concêntricos. Leve em conta que o círculo central corresponde à zona central da cidade, e os demais círculos, quanto mais distantes do centro, representam as regiões periféricas de São Paulo. Quanto mais distante a escola estiver do centro, maior deveria ser a remuneração do professor que nela atua. A explicação para a adoção desse sistema de remuneração é simples: atualmente, os profissionais que atuam da rede pública são concursados e recebem gratificações de acordo com uma pontuação, que leva em conta sua capacitação e experiência. Na prática, o que ocorre é que aquele professor que possui maior pontuação acaba escolhendo atuar nas escolas mais próximas à sua residência, em suma, escolas mais próximas ao centro. No entanto, os alunos mais carentes de escolas da periferia, que precisariam de professores mais experientes, acabam recebendo aqueles profissionais com menor pontuação.

Mas o que o professor, que ainda não conta com este tipo de política pública, deve fazer?
O professor nunca pode perder a sua vitalidade. Não se pode desistir nem romantizar a profissão. É preciso ter firmeza. Digo isso por experiência própria, tenho 31 anos de docência, há 30 anos estou na PUC. Aproveito para dar uma dica básica aos colegas de profissão. Todo fim de ano eu pego uma folha de sulfite e a dobro no meio. Em um dos lados escrevo “apesar de” e no outro “por causa de” e vou listando os prós e os contras de ter atuado como professor naquele ano. Se o que for listado contra for maior do que os prós, sugiro ao professor que abandone a profissão, pois, lamento, mas para dar aulas é preciso ter prazer. Entretanto, não excluo a importância da luta sindical, da reivindicação por melhores salários.

Qual é o papel do cidadão na conquista de uma educação pública de qualidade?
Os cidadãos podem contribuir para a educação pública de qualidade de forma simples: pedir nota fiscal em todas as suas compras. Quando empresários me perguntam como podem ajudar, lhes sugiro o combate à evasão fiscal. Isso porque a Constituição Federal impõe porcentuais de vinculação da receita de impostos a serem investidos em Educação (18% para governo federal e 25% para Estados e municípios).

domingo, setembro 24, 2006

O PT contra a sensatez

Moisés Basílio Leal

Em artigo publicado - hoje 24/09/06, no Estadão - há uma semana das eleições, o Aldo Fornazieri traça em linhas claras os dilemas do PT. Daqui há uma semana as eleições decidirão os rumos da política institucional do Brasil. De uma eleição presidencial praticamente ganha, por méritos e também por falta de uma alternativa de oposição, caímos em uma nova crise institucional.

Em 2002, uma vitória do candidato Lula, era o prenúncio de uma crise economica, agora é de uma crise política. O ano de 2003 será dificil, ganhe ou não o Lula.

Aldo Fornazieri

Há mais de um mês se formou um consenso entre os analistas políticos: somente um fato novo, desconhecido, poderia mudar a tendência de vitória de Lula no primeiro turno das eleições. A possibilidade de um fato novo significativo, no entanto, era altamente improvável por toda a história recente de crise política e pelo eventual esgotamento do estoque denuncista da oposição.

Contra todas as tendências probabilísticas, contra a lógica da sensatez política, o fato novo aconteceu. Em face da incapacidade da oposição de produzi-lo, o próprio PT se encarregou de lançar um torpedo de alto teor explosivo contra o favoritismo de Lula de vencer a eleição no primeiro turno. Há que se concluir, antecipadamente, que a capacidade do PT de destruir-se e de prejudicar o governo parece ilimitada.

A arrogância, a falta de discernimento político e histórico, a irresponsabilidade, a ausência de um mínimo respeito republicano às leis e o aventureirismo político de alguns petistas explicam a ocorrência do improvável. Os principais envolvidos na trapalhada vêm da área sindical. Neste meio - onde há também sindicalistas corretos - nunca houve muito apreço por um comportamento adequado nas disputas. Em parte, o PT herdou velhas práticas inadequadas e não-democráticas e de usos escusos de recursos de campanhas, que vicejam no movimento sindical.

Apesar da fragilidade e da parcialidade de nossas leis e instituições democráticas, elas existem e, em parte, funcionam. Muitos petistas preferiram ignorá-las. A própria Polícia Federal, sob o governo Lula, ganhou mais autonomia e eficiência. Alguns petistas, na sua arrogância, preferiram esnobar esta conquista do próprio governo do PT e se meteram com gente investigada e monitorada. Trata-se de uma mistura de amadorismo com arrogância.

Além da permissividade ilegalista, além da aceitação imoral de que em nome da “causa” e do poder tudo é possível, o PT, na medida em que se foi tornando um partido de governo, perdeu os filtros partidários e abriu portas e janelas para que a ele se agregassem oportunistas, aventureiros e arrivistas. O imbróglio do dossiê é fruto da soma de velhas práticas sindicais com o novo aventureirismo que se adensou no PT.

Grupos de interesses adquirem autonomia dentro do partido e os mecanismos de controle centralizado não funcionam em matéria de decisões, iniciativas, recursos e políticas orientadas para o governo. Com isto, o risco de crises e de escândalos é permanente. No PT do poder, a ideologia se tornou um artigo secundário na sua função de amalgamar condutas adequadas. Na falta desta, sobrou o interesse puro e simples. Agora, quando a ideologia vem à tona, vem de forma canhestra, para justificar o injustificável. A antiga ideologia de esquerda se tornou ideologia de cobertura e de justificação, no pior sentido da palavra.

O neopetista é bem diferente do velho soldado petista de porta de fábrica e de luta social nos bairros periféricos. O velho petista continua angariando votos, mas com muita desilusão. O neopetista é aquele que fez carreira de sucesso de aparatchik no partido e nos sindicatos, é o diretor de empresas públicas, o advogado. Anda com ternos bem talhados, vive bem, diverte-se, tem bons salários e pouco conhecimento político. É uma espécie de yuppie-boss da política.

O presidente Lula chegou aonde chegou, em termos de intenções de voto, não porque principalmente é carismático, não porque principalmente o povo não sabe votar, mas porque, apesar de uma série de equívocos políticos e frustrações de expectativas, o seu governo produziu resultados positivos em várias frentes - resultados melhores que os do governo anterior. Mas Lula não teve o devido senso de proporção, recomendado pelo sociólogo Max Weber no famoso texto Política como Vocação. Ou seja, não se distanciou criticamente das coisas e dos amigos para poder julgá-los com a acuidade exigida de um governante. Os amigos, principalmente os amigos interessados, tendem a arrastar os governantes para o torvelinho das crises. Lula tinha de ter-se cercado de pessoas de confiança, mas capazes e imbuídas de espírito público, tementes às leis. E estas pessoas deveriam ter claros os seus limites, impostos pelo presidente.

Se Lula vencer as eleições e quiser governar com tranqüilidade, sem sobressaltos, e se quiser alimentar ainda a pretensão de se tornar um estadista, terá de fazer uma enorme faxina na cozinha das amizades e do governo. Terá de afastar muita gente da velha companheirada. Se fizeram as trapalhadas que fizeram com a perspectiva de se manterem no poder por mais quatro anos, imagine-se as trapalhadas que poderão fazer sem a perspectiva de poder.

Se vencer, Lula terá de ser a autoridade forte de seu governo, juiz rigoroso de seus auxiliares. Não poderá mais ter confiança, ao menos excessiva, em subordinados e companheiros e no PT. O PT virou uma caricatura do que prometia ser. Lula terá de fazer uma reforma política capaz de projetar uma mudança drástica nos usos e costumes políticos do País.

Os partidos políticos, com programas e projetos, deverão sair desta reforma sobrepostos aos indivíduos, aos deputados, aos grupos de interesses, aos oportunistas, aos aventureiros e às bancadas disto e daquilo, que grassam na política brasileira. Os partidos precisam ser sujeitos de responsabilidade pelas negociações, pelos acordos e pelas decisões políticas. E precisam ser sujeitos de responsabilidade pelos atos de seus filiados e integrantes. Sem uma reforma política abrangente e moralizadora, as crises continuarão se sucedendo governo após governo.

Aldo Fornazieri é professor de Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp)

sexta-feira, setembro 15, 2006

ENTRE NEGROS E PARDOS

Fonte: GLOBO – setembro/2006.
Artigo de Nei Lopes sobre o livro do jornalista Ali Kamel
Nei Lopes

"Divide e impera!". Essa frase, atribuída a Maquiavel, define uma das estratégias mais eficazes em todo tempo e lugar. E foi ela que, desde mesmo antes da Conferência de Berlim, em 1885, sempre marcou as relações colonizadoras e coloniais entre europeus e nativos na África e entre os descendentes de ambos nas Américas.

Chegados aqui para o trabalho escravo, os africanos eram classificados não por etnias e sim por regiões de embarque ou apresamento, o que já representava uma divisão, com indivíduos pertencentes a grupos étnicos diversificadas e muitas vezes antagônicas recebendo denominações arbitrários, como "minas", "benguelas", "ambacas" etc., em detrimento de suas orgulhosas tradições clânicas e ancestrais, todos misturados no mesmo balaio supostamente distintivo, apenas pela coincidência do porto de embarque.

Depois, eram categorizados por local de nascimento. Os nascidos do outro lado do Atlântico eram naturalmente africanos, "de nação", sendo não raro inferiorizados em relação aos "crioulos", nascidos em solo americano e, assim, supostamente mais afeitos ao trabalho, por razões ecológicas, de aclimatação. Dividia-se também a massa escrava em "ladinos" e "boçais", os primeiros, em geral crioulos, já dominando de uma certa forma, a língua do colonizador, enquanto que os outros, como suposto sintoma de apoucamento mental, permaneciam falando o que se considerava algaravias, caçanjes, "dialetos" - como aliás, até hoje, popularmente, no Brasil se adjetiva qualquer língua africana, mesmo as veiculares, de larga circulação e com milhões de falantes, como o suaíle e o hauçá.
Numa outra ponta do novelo e estendendo sobre o assunto o amplo lençol das relações jurídicas, distinguiam-se também as vítimas diretas ou indiretas da escravidão em escravos, libertos e livres - sem que a condição de liberto ou livre representasse muita coisa em termos de direitos de cidadania, haja vista o caso dos affranchis, nas colônias francesas, e dos apprentices, nas colônias inglesas, submetidos a uma espécie de "estágio" até serem considerados "aptos para a liberdade".

Uma última categorização era feita a partir da cor da pele, o que distinguia, no Brasil, os "pretos", dos "mulatos" e dos "cabras". E esta foi a classificação, baseada unicamente na fenotipia e basicamente na cor da pele - num momento em que o Brasil procurava a todo custo, principalmente na aparência externa, desafricanizar-se - que o escravismo deixou como herança à decantada democracia racial brasileira.

A antagonização entre "pretos" e "pardos" já tinha sido utilizada com relativo sucesso pelos franceses na Revolução Haitiana, na virada para o século 19. E a desafricanização da população não branca era o grande objetivo dessa estratégia.

Inculcando na mente dos indivíduos a falsa premissa de que todo africano é, em princípio, um ser inferior, o racismo divide e domina. E foi isso que fez uma certa a ciência negando a as origens núbias (negras) do Egito faraônico ou não acreditando nelas; ou estudando a África só partir do advento do tráfico atlântico e não de sua rica Antigüidade e de sua pujante Idade Média; ou ocultando a influente presença negra da península Ibérica desde o século 15, o que repercutiu fortemente, até mesmo do ponto de vista biológico, na constituição da população brasileira, caribenha e centro-sulamericana.

Além disso, quando se esconde a ascendência africana de um grande personagem do passado, a pretexto de "limpar" sua biografia e preservá-lo da pecha de inferior, como ainda se faz no Brasil, sonega-se um tipo de informação que pode ser muito útil à emocionalidade e à construção da auto-estima do indivíduo afro-brasileiro, principalmente a daquele ainda em formação.

Foi por isso que, na prática diária, para tornar visível a importante participação da matriz africana na formação da sociedade brasileira e na civilização universal, e para constituir um corpo coeso na luta pelos direitos civis dos descendentes de africanos, o movimento social dos negros, no Brasil, cunhou o termo "afro-descendente", englobando "pretos", "pardos" e outras designações para as pessoas outrora chamadas "de cor", numa única adjetivação: "negro". Assim, nós, por exemplo, em nosso trabalho, definimos como "negro" todo descendente de negro-africanos, em qualquer grau de mestiçagem, desde que essa origem possa ser identificada historicamente e, no caso de pessoas vivas, seja reconhecida ou auto-declarada pela pessoa objeto da classificação, como é o nosso caso particular.

Pensando e agindo assim, nós, embora de pele menos pigmentada que muitos dos nossos familiares (mesmo porque o tempo, ironicamente, se encarrega de clarear os mulatos: de Machado de Assis a Dorival Caymmi, passando por Sylvio Caldas e muitos outros), sentimo-nos profundamente chocados e ofendidos com a afirmação do jornalista Ali Kamel, veiculada no fim de semana de 19-20 de agosto, segundo a qual "os negros usam os pardos para engordar os números da miséria mas depois os afastam dos benefícios".

Mais uma vez o jovem jornalista e agora escritor volta ao passado mais obscurantista para justificar seus argumentos supostamente modernos. Em sua cruzada contra as tentativas de ações e políticas públicas que estabeleçam a tão sonhada igualdade entre negros e não negros (inclusive descendentes de espontâneos imigrantes levantinos, como ele) no Brasil, Kamel procura jogar os negros de pele mais clara, (por ele derrogatoriamente chamados "pardos") como nós, contra os mais pigmentados, como alguns de nossos familiares e amigos, militantes da mesma causa. Exatamente como ensinou Maquiavel; como fizeram os europeus na África, do século 15 ao 20. Lamentavelmente.

quarta-feira, julho 26, 2006

O novo paradigma: a guerra infinita

Assistimos impotentes à tribulação da desolação do sem número de vítimas inocentes, de milhares de refugiados e da irracional destruição de toda a infra-estrutura de um país que acaba de se reconstruir da guerra anterior. Um mundo assim só pode nos levar à dessocialização e à guerra sem fim.

Leonardo Boff

O sociólogo frances Alain Tourraine, que muito ama o Brasil e que adotou a America Latina como a pátria de seu coração, sustenta em seu recente livro "Um novo paradigma: para entender o mundo de hoje" (Vozes 2006) uma tese intrigante que nos permite entender, de certa forma, a violência, na verdade, a guerra terrorista que está ocorrendo entre palestinos e israelenses no Líbano.

A tese que propõe é que depois da queda do muro de Berlim e dos atentados de 11 de setembro de 2001 começou rapidamente uma desintegração das sociedades, dominadas pelo medo e impotentes diante do terrorismo. Estaríamos assistindo a passagem da lógica da sociedade para a lógica da guerra. A potência hegemônica, os EUA, decidiu resolver os problemas não mais por via diplomática e pelo diálogo mas pela intervenção e pela guerra levada, se preciso for, a qualquer parte do mundo.

Essa estratégia possui sua lógica. Inscreve-se dentro da atual dinâmica da globalização econômico-financeira. Esta não quer saber de qualquer controle ou regulação social e política. Exige campo aberto para fazer a guerra dos mercados. Separou totalmente economia de sociedade, vê os estados-nações como entraves, procura reduzir o estado, difamar a classe política e passar por cima de organismos de representação mundial como a ONU. Esta dissolução das fronteiras acarretou a fragmentação daquilo que constitui a sociedade.

Pior ainda. Invalidou a base política e ética para o sonho de uma sociedade mundial, tão querida pelos altermundialistas, que cuidasse dos interesses coletivos da humanidade como um todo e que tivesse um minimo de poder central para intervir nos conflitos e dinamizar os mecanismos da convivência, da paz e da preservação da vida.

Esta desocialização é consequência da globalização econômico-financeira que encarna o capitalismo mais extremado com a cultura que o acompanha. Esta implica a segmentação da realidade, com a perda da visão do todo, a exacerbação da competitividade em detrimento da cooperação necessária, o império das grandes comportações privadas com pouquíssimo senso de responsabilidade sócio-ambiental e a exaltação do indivíduo alheio ao bem comum.

O mundo está em franco retrocesso. A atual sociedade não se explica mais, como queria a sociologia clássica, por fatores sociais, mas por forças impessoais e não sociais como o medo coletivo, o fundamentalismo, o terrorismo, a balcanização de vastas regiões da Terra e as guerras cada vez mais terroristas por vitimarem populações civis.

Este cenário mundial dramático explica por que nenhuma instância política mundial tem capacidade reconhecida e força moral suficiente para pôr fim ao conflito palestinense-israelense que está transformando o Líbano numa ruína. Assistimos impotentes a tribulação da desolação do sem número de vítimas inocentes, de milhares de refugiados e da irracional destruição de toda a infra-estrutura de um país que acaba de se reconstruir da guerra anterior. Isso é terrorismo.

Se, impotentes, não sabemos o que fazer, procuremos pelo menos entender a lógica desta violência. Ela é fruto de um tipo de mundo que, nas últimas décadas, decidimos constuir baseado na pura exploração dos recursos da Terra, na produção e no consumo ilimitados, na falta de diálogo, tolerância e respeito pelas diferenças. Um mundo assim só pode nos levar à desocialização e à guerra sem fim.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.
Fonte: Agência Carta Maior - site: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3260&boletim_id=82&componente_id=1460

terça-feira, julho 11, 2006

Ensino municipal em São Paulo está entre os sete piores do país

Comentários Moisés Basílio: A matéria abaixo segue a tendência atual, dos meios de comunicação, de pautar a questão da qualidade da educação pública. É um festival de obviedades para quem está no cotidiano da escola. Entre as obviedades, uma é sempre colocar a culpa do atual fracasso da escola pública nos professores. Muda-se o lado da mesma moeda, pois até a bem pouco tempo o culpado era o aluno. Mas... o buraco é bem mais "em cima".

DANIELA TÓFOLI

da Folha de S.Paulo - 10/06/2006.

A 4ª série da rede de ensino da Prefeitura de São Paulo está entre as sete piores do país, quando comparada com a das demais capitais. O desempenho foi medido no fim do ano passado pela Prova Brasil, realizada pelo Ministério da Educação, e mostra a cidade no 21º lugar entre 26 capitais (Brasília não foi computada) em português e em 20º em matemática.

Com média 160,42 na primeira disciplina e 166,86 na segunda, os alunos das escolas municipais não alcançaram nem a metade do total de pontos possíveis nas provas, que é de 350. Eles ficaram, ainda 12 pontos abaixo da média nacional em língua portuguesa e 13 pontos abaixo em matemática.

A diferença da rede municipal de São Paulo para a de Campo Grande, primeira colocada em português é de 31 pontos e, para Curitiba, que encabeça o ranking de matemática, é de 29. Na 8.ª série, São Paulo ganha posições e passa para a 12ª colocação em ambas disciplinas.

Os resultados não pegaram o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, de surpresa. "Esperava por este desempenho porque já tínhamos detectado problemas na rede. Ele é fruto de anos de gestão que confundia educação com ação social", afirma. "As escolas se tornaram pontos de distribuição de projetos sociais que vão desde uniforme até renda mínima e acabaram sobrecarregadas. O corpo docente deixou de ter como única obrigação o desenvolvimento do programa pedagógico, que deve ser o foco principal da educação."

O secretário afirma que as escolas precisam voltar o foco para o ensino e conta que já há um grupo de estudo em parceria com a secretaria de Gestão para resolver como ficará a distribuição dos projetos sociais e, assim, liberar diretores de escola dessas obrigações. Ele esclarece, no entanto, que todos os benefícios serão mantidos.

Ana Rosa Abreu, que coordenou os Parâmetros Curriculares Nacionais e faz parte do Instituto Sangari (ONG educacional com foco em educação básica), até acredita que a sobrecarga no corpo docente possa influenciar a má-qualidade do ensino municipal em São Paulo, mas, para ela, o principal problema está na formação dos professores.

"A rede da capital é hoje uma rede desgastada. Foram feitas muitas capacitações, muitas delas com projetos excelentes, mas todas de maneira desarticulada", afirma. "O professor não consegue aplicar o que aprende na sala de aula e, assim, não vemos melhora no sistema. Temos um shopping de projetos de formação sem nenhum impacto na prática."

Lisandre Maria Castelo Branco, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, também acha que o problema está na formação do professor. "A precariedade do ensino básico tem como ponto fraco a questão da condição do professor. Ele não foi formado para ter uma preocupação em compreender a realidade dos alunos que o cercam nem para entender --e, assim, explicar-- os motivos de ensinar determinadas matérias. Assim, fica o aprender pelo aprender."

Para ela, o resultado do ensino municipal na Prova Brasil também desmonta o mito de que tudo é melhor em São Paulo. "É uma ilusão achar que nas grandes metrópoles estão as melhores oportunidades de trabalho, de ensino ou do que for. A vida para quem não tem dinheiro aqui é brutal."

Já a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Maria do Pilar Lacerda, também secretária municipal de Educação de Belo Horizonte, é contra o ranqueamento dos municípios e diz que é impossível comparar as redes porque as condições do país são muito diferentes. "Temos de analisar as dificuldades de cada cidade. As avaliações servem para cada sistema refletir sobre seus erros e melhorar."

Segundo a Prova Brasil, Campo Grande teve o melhor desempenho em português e, Curitiba, em matemática nas duas séries avaliadas. Já a pior colocação ficou com Recife na 4ª série e com Rio Branco na 8ª, em ambas as disciplinas.

quinta-feira, maio 25, 2006

Concessão da USP?

Fonte: Resposta de Moisés Basílio Leal para o editorial do Estadão de 25/5/2006.
O sentimento de contrariedade expressa no editorial do Estadão (A concessão da USP, 26/5, A3) a respeito da proposta do “Inclusp”, aprovada por ampla maioria do Conselho Universitário é eivada de equívocos. Um deles é desconsiderar que uma universidade pública deve ter uma função social a cumprir. Ampliar os canais de acesso à universidade pública não pode ser visto como concessão, mas como direito, pois USP não pode continuar a ser uma “ilha da fantasia” da aristocracia paulista.
Também é falso o argumento de que a “qualidade” e a “excelência”, do ensino, pesquisa e extensão da USP se opõem à democratização do acesso. O desafio atual da USP e das outras instituições públicas de ensino superior é o de não cair no dilema, que num momento histórico anterior, o nível de ensino básico brasileiro entrou, ao não conseguir articular a democratização do acesso à qualidade de ensino, gerando uma crise que parece não ter solução em curto prazo. E é sempre bom lembrar, que uma das variantes causadora dessa situação foi a falta de senso cidadão das classes médias, que preferiram abandonar a escola pública de ensino básico e apostar no que eu chamo de “apartheid” educacional: Uma escola pública para os sem rendas e outra escola privada para os com rendas.
A proposta do “Inclusp” ainda é insuficiente para ajudar a romper esse “apartheid”, mas aponta na direção correta que é a de potencializar oportunidades para os jovens vindos da escola pública, valorizar a escola pública de educação básica e ampliar e democratizar os canais de acessos ao ensino público superior, por mérito e não por concessão ou esmola, como sugere em várias passagens o editorial. Injusto e antidemocrático, é o atual sistema de vestibulares, baseado numa meritocracia conteudísta e aristocrática, que ignora em suas avaliações as reais capacidades e habilidades dos vestibulandos, e que na verdade propicia a existência de um sistema invisível de cotas às avessas.

A concessão da USP

Fonte: Editorial do Estadão - 25/05/2006 - A3
Pressionada por movimentos sociais e pelo governo federal, por resistir à adoção de cotas para alunos pobres e negros, a Universidade de São Paulo (USP) acaba de fazer uma concessão aos defensores de políticas de ação afirmativa no ensino superior, mudando os critérios de aprovação de seu vestibular. Chamada de "Inclusp", a proposta de se promover "inclusão com mérito acadêmico" foi aprovada pelo Conselho Universitário por 79 votos contra 2 e 6 abstenções e será posta em prática já no próximo processo seletivo.

O vestibular da USP é o mais concorrido do País, tendo as provas de 2005 sido disputadas por 170 mil candidatos. Para o próximo exame, a instituição oferecerá 6.600 vagas no período diurno e 3.602 no período noturno. O novo critério concede pontos adicionais aos vestibulandos egressos da rede pública de ensino básico. Segundo a proposta aprovada pelo Conselho Universitário, o bônus será de 3% da nota e valerá nas duas primeiras fases do vestibular. Isso significa que se um candidato favorecido por essa medida acertar 50 questões, em vez de 50 pontos ele ficará com 51,5.

O projeto também prevê a criação, em 2007, de um sistema de avaliação seriada, por meio do qual as notas obtidas pelos alunos da rede pública durante o ensino médio serão levadas em conta pela Fuvest. Além disso, o projeto mantém as cinco horas de duração da prova da primeira fase, mas reduz as questões de 100 para 90 e determina que 10 delas sejam de caráter interdisciplinar. Segundo os autores desta inovação, o atual vestibular "privilegia o acúmulo quantitativo da informação e não o potencial intelectual e criativo dos candidatos". A idéia é que os vestibulandos demonstrem capacidade de relacionar conhecimentos e de analisar diferentes contextos.

A redução das questões foi bem recebida pelos diretores de escolas e cursinhos, uma vez que dá mais tempo para que os estudantes possam respondê-las. As perguntas de caráter interdisciplinar também não constituem novidade, pois já são exigidas no Enem. O ponto polêmico está na concessão do bônus de 3%. Segundo a reitora Suely Vilela, esse porcentual foi calculado para elevar de 20% para 30% o número de ingressantes da USP oriundos da rede escolar pública. "A USP articulou o mérito acadêmico com inclusão social. Por isso, decidimos não implementar uma política de cotas", diz ela.

A iniciativa vai criar situações de injustiça, pois prejudicará alunos que trabalham de dia para poder estudar em bons colégios particulares à noite. "Acho uma injustiça. Vamos incluir uns e excluir outros. Há alunos pobres em escolas privadas também", afirma a professora Cláudia Peixoto, que representa o Instituto de Matemática e Estatística no Conselho de Graduação e votou contra o projeto. "A USP está fazendo a parte dela, mas o governo deveria melhorar o ensino público, para o aluno não precisar dessa esmola", é a opinião de Eduardo Figueiredo, do Objetivo.

A concessão feita pela USP em nome da "inclusão social", como alternativa ao sistema de cotas, pode ter conseqüências prejudiciais para a qualidade do ensino. A expansão das vagas no período noturno prevista pelo "Inclusp" pode inflar excessivamente as salas de aula, inviabilizando qualquer projeto pedagógico. E a presença de alunos com formação desigual pode dificultar o trabalho dos professores. Além disso, como expandir a educação tecnológica, a pesquisa de ponta e uma pós-graduação internacionalmente respeitada com a divisão, na graduação, entre alunos que fazem cursos diurnos, os mais exigentes, e os que fazem os cursos noturnos, que tendem a ser menos exigentes?

Na realidade, inclusão social não se faz "por cima", ou seja, pela facilitação do acesso à educação superior, mas pela melhora da qualidade do ensino fundamental. Este nível de ensino é decisivo seja para permitir oportunidades profissionais e distribuir renda, seja para assegurar a emancipação intelectual das novas gerações. Ao se opor ao sistema de cotas, a USP agiu corretamente. Contudo, ao fazer uma concessão ao politicamente correto, está criando para si problemas difíceis de administrar.

quinta-feira, abril 27, 2006

O mundo precisa de professores mais bem qualificados

Os professores são a chave para qualquer reforma educacional. Mesmo assim, sua situação está cada vez mais problemática, tanto no Hemisfério Norte quanto no Sul.

São hoje necessários 15 a 35 milhões de professores para atingir os Objetivos de Educação para Todos (EFA) até 2015. As razões que explicam a escassez de professores são inúmeras, variando entre a falta de atrativos para uma profissão mal remunerada, condições ruins de trabalho e até mesmo a pandemia devastadora da AIDS. Sendo os professores a base do sistema educacional, eles são o fator determinante para a obtenção de um dos seis objetivos estabelecidos no “Fórum de Dacar sobre Educação para Todos”: promover uma educação de qualidade. O papel essencial dos professores para o desenvolvimento cultural, econômico e social das populações confere a eles uma enorme responsabilidade, além de sua importância em ajudar a população a se preparar para a vida profissional.

A Conferência Geral da UNESCO de 1966 adotou a Recomendação sobre a Condição do Pessoal Docente, em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Apesar da diversidade da legislação mundial, a Recomendação propõe uma série de padronizações aplicáveis mundialmente. Mesmo que o texto de 1966 somente se refira a professores da educação básica, a Recomendação de 1997 inclui os professores da educação superior. Todos os assuntos ligados à profissão são examinados, como a preparação do professor (treinamento, recrutamento), oportunidades de carreira (promoção, segurança no trabalho), direitos e deveres (liberdade individual), salários, saúde e previdência. O Dia Mundial do Professor, dia 5 de outubro, foi escolhido para coincidir com a data de adoção da Recomendação, em 1966. No entanto, os 146 artigos nela compreendidos não são mais suficientes para enfrentar as duras realidades geopolíticas.

No Hemisfério Norte, assim como no Sul, a falta de professores está alcançando níveis alarmantes. Não somente em termos quantitativos, estando a necessidade de professores em torno de 30 milhões, mas também em termos de falta de qualificação. No esforço de cortar despesas públicas, alguns países estão solicitando professores-voluntários que são mal treinados e igualmente mal pagos. Além disso, em muitos países, os salários dos professores são muito baixos para atraírem profissionais, sobretudo nas áreas rurais. Na África, por exemplo, de acordo com o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos de 2005, o salário de professores em 2000 foi menor do que em 1970. Em algumas escolas, o índice de matrícula tem crescido muito mais rapidamente que o número de professores, de modo que a proporção estudante/professor pode ser tão alto quanto 60 para 1 (um professor para 60 estudantes). O papel da UNESCO, frente a esta situação deteriorante, é de aconselhar os países sobre como oferecer treinamento de boa qualidade aos educadores, sobretudo nos níveis médio e superior; ou de recomendar o respeito pelos padrões internacionais concernentes aos direitos e deveres pela profissão.

A prioridade número um do Setor de Formação de Professores da UNESCO Internacional é a “Iniciativa para a Formação de Professores na África Setentrional”. Este projeto possui atividades em 46 países participantes até 2015. O objetivo é adaptar políticas relativas a professores que coincidam com o desenvolvimento de cada país. Por exemplo, o Instituto Internacional da UNESCO para Construção de Capacidades na África (IICBA), uma Rede de Treinamento para Professores, permite os institutos de treinamento a se familiarizarem com os últimos desenvolvimentos na área, particularmente no desenvolvimento de bibliotecas eletrônicas. O Escritório da UNESCO em Bangkok administra um portal dedicado à aplicação de tecnologias de informação e comunicação para a educação permanente de professores. Além disso, enfatizando estas ações concretas, o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos de 2005, publicado pela UNESCO, faz várias recomendações como: priorizar o aprimoramento da qualidade da formação e recrutamento e manutenção do emprego de um maior número de professores. A Organização também está comprometida com a formação de professores no uso de tecnologias e educação a distância.

Para saber mais sobre a UNESCO em Bangkok e seu portal de treinamento para professores (em inglês): http://www.unescobkk.org/education/ict

Este informativo não é um Documento Oficial da UNESCO. Ele visa prover ao público informações sobre o tema «Professores» desenvolvido durante a quinta semana de comemoração dos 60 anos da UNESCO (de 03/10 a 08/10 de 2005).
Fonte: www.unesco.org.br/areas/educacao/efa2006/professoresqualificados/mostra_documento

sábado, março 04, 2006

EXPERIÊNCIA EM SALA DE AULA-Fev/2006

Quando estava para entrar em sala de aula, na sexta-feira, 24/02, recebi de dois alunos uma folha com uma cópia da letra da música Cidadão, gravada pelo Zé Geraldo. Havia também, junto com a letra, uma ilustração retratando um homem e um prédio.
Perguntei aos dois alunos se haviam lido o texto. Eles, em tom de brincadeira, me responderam que se tratava de um homem se jogando do prédio. De imediato, devolvi a folha para um dos alunos e pedi que os dois lessem o que estava escrito para ver se o que eles supunham estava correto. Eles se dirigiram prontamente para a mesa do professor e, animados, começaram a ler.
Enquanto isto, entrei na sala e comprimentei o restante dos alunos. Alguns alunos vieram me entregar uma atividade de casa, troquei algumas palavras com eles e logo em seguida dei voz de comando para iniciarmos mais uma jornada de trabalho. Havia preparado uma atividade que envolvia leitura e interpretação de texto sobre a biografia do pintor Pablo Picasso.
Antes de iniciar a atividade, fui cobrar dos dois alunos a leitura. Eles haviam lido, mas não conseguiram entender o que leram. Um dos alunos continuou a afirmar o tema do suicídio. Apontou-me no texto a palavra "norte", e leu "morte".
Deu um estalo! Esqueci da aula que havia preparado e propus para eles ler o poema para classe. Eles toparam. Como já conheço a letra de cor, foi fácil fazer uma boa leitura, usando e abusando das entoações e gestos. Os olhinhos brilharam e deu para sentir as palavras calarem nas mentes e corações de cada um. Pediram bis.
Depois propus uma questão interpretativa do texto para a classe: Quem era o cidadão? Os três primeiros alunos que responderam disseram que era o trabalhador que construiu o prédio e a escola. Outros concordaram. Perguntei se havia alguém na classe que discordava da resposta da maioria. Uma menina, que estava quietinha, lá no seu canto, levantou o braço e discordou: "O cidadão, professor, é o que atrapalha o trabalhador." E assim a discussão pegou fogo.
A partir dessa primeira questão, perguntei o que era cidadão/cidadã para eles. Sintetizamos as respostas na lousa em dois pontos: Cidadão é aquele que tem a consciência de seus Direitos e Deveres.
Essa síntese gerou uma atividade para casa, pois a aula já estava acabando. Cada um ficou de relacionar em duas folhas diferentes, os direitos e deveres dos alunos da nossa escola.
Na próxima aula vamos discutir os resultados. Alguns alunos propuseram que os resultados fossem escritos em um cartaz e pregado no pátio. Outros querem fazer alguma coisa para que seus direitos sejam respeitados. A discussão está aberta.
Sai da classe alegre. Não é todo dia que se consegue FAZER uma aula junto com os alunos.

CIDADÃO (parte da letra)
Autor da letra: Lúcio Barbosa
Canção gravada no disco Zé Geraldo Acústico, de Zé Geraldo. EMI Songs/Paradoxx Music, 1996, faixa 3.

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro "condução":
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje, depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
Tu taí admirado,
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer
Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o Norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer
(...)


OS DESAFIOS DE EDUCAR

O objetivo deste espaço será o de disponibilizar algumas experiências educativas que ocorrem nas aulas que faço com os alunos do ensino fundamental, na EMEF Rodrigues de Carvalho, e também, junto com os alunos dos Núcleos Novo Milênio e Fênix do EDUCAFRO Pré-Vestibulares.