segunda-feira, fevereiro 20, 2012

TODAS AS CRIANÇAS PODEM TER ÊXITO NA ESCOLA

Comentários Moisés Basílio: 

          A reportagem traz alguns dados importantes para compreendemos os desafios para educação brasileira. 

          Investir em educação é importante, mas a partir de um determinado montante de investimento o que mais conta para garantir o bom desempenho das crianças na escola é acreditar que todas elas podem ter êxito. Ou seja, não se constrói um sistema público de educação só com recursos econômicos, mas com políticas educacionais, e são elas as principais responsáveis pelo tipo de desempenho que se irá alcançar. 

          Mas, sem investimentos mínimos também não se consegue os desempenhos almejados. Lendo a reportagem, pelos números ponderados pelo Pisa, um valor mínimo de gastos com a educação para crianças entre 6 e 15 anos seria em torno de U$ 35 mil, e o Brasil gasta U$ 18 mil. É uma defasagem muito grande a ser superada.

          Por fim, para melhorar o desempenho é necessário valorizar a carreira docente com melhor remuneração, plano de carreira e boa formação profissional. Também fazer da carreira docente algo valorizado socialmente para que possa atrair os melhores estudantes. Nesse ponto o Brasil ainda está muito distante. Historicamente a política de universalizar o acesso ao Ensino Fundamental, do jeito que foi conduzida, sem os correspondentes investimentos, teve por consequência a desvalorização (social e econômica) da carreira docente.

Observação: Em inglês, veja a fonte dessa reportagem, o boletim PISA in Focus N°13: Does money buy strong performance in PISA?

Investir mais em educação não garante melhores resultados no Pisa

Países que mais gastam por aluno não necessariamente têm os melhores desempenhos

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 16 de fevereiro de 2012 | 13h 19
 
Os países que mais investem em educação por aluno entre os 6 e os 15 anos não são necessariamente os com melhor rendimento dos estudantes, segundo análise do Pisa divulgada nesta quinta-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
 
O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), criado em 2000, avalia a cada três anos o desempenho escolar de estudantes de 15 anos em todo o mundo.
"O dinheiro sozinho não pode comprar um bom sistema educativo", destacou a organização em seu relatório "Pisa in Focus", cuja conclusão é de que os países com melhores resultados nas provas de 2009 são aqueles que acreditam que "todas as crianças podem ter êxito na escola".
Segundo a organização com sede em Paris, uma das chaves do sucesso dos sistemas de educação é considerar que todos os alunos podem ter sucesso e não deixar que aqueles com problemas faltem, repitam de ano ou sejam transferidos para outras salas ou agrupados em classes diferentes em função de suas habilidades.
"Superada a barreira de uns US$ 35 mil por estudante" de investimento acumulado por aluno entre os 6 e os 15 anos em unidades monetárias harmonizadas, o gasto "não está relacionado ao resultado", indicou a OCDE.
A organização citou como exemplo países que investem mais de US$ 100 mil por aluno, como Estados Unidos, Suíça, Luxemburgo ou Noruega, e que obtêm resultados similares a países que gastam a metade disso, como Estônia (US$ 43 mil), Hungria (US$ 44 mil) ou Polônia (US$ 39 mil).
Os dois países com melhores resultados nas últimas provas do Pisa - Finlândia, com US$ 71 mil, e Coreia do Sul, com US$ 61 mil - estão muito distantes dos que mais investiram (como Luxemburgo, com US$ 155 mil acumulados por aluno, ou a Suíça, com US$ 104 mil).
O Chile investe por aluno US$ 23 mil, mais do que o México (US$ 21 mil). Ambos investem mais que países associados (mas não membros) à OCDE, como Brasil (US$ 18 mil) e Colômbia (US$ 19 mil).
Todos superam a Turquia, que com US$ 12 mil de investimento por aluno é a lanterna dos 33 Estados-membros da OCDE.
Investimento nos professores. Outro dos fatores cruciais detectados pela OCDE é que os países com melhores resultados nas provas trianuais de compreensão da leitura, matemática e ciências naturais são aqueles que mais investem nos professores.
Os professores de ensino médio da Coréia do Sul e de Hong Kong, ambos com excelentes resultados no Pisa, ganham "mais que o dobro do PIB per capita médio em seus respectivos países".
"Em geral, os países com bons resultados no Pisa atraem os melhores estudantes para a profissão de professor, e lhes oferecem salários mais altos e grande status profissional", indicou a OCDE.
Ainda assim, a organização precisou que essa relação entre professores e resultados não se verifica entre os países menos ricos.
 

domingo, janeiro 29, 2012

S. PAULO E SEUS 458 ANOS: POBREZAS E VIOLÊNCIAS

Comentários de Moisés Basílio: 

          Entre tudo que ouvi, li e vi, a crônica do Antonio Prata na Folha de S. Paulo foi a que mais me tocou.

         Moro e trabalho na parte horrorosa da cidade, pelo critério da paisagem urbana. Para manter em dia minha forma física, nos últimos meses tenho praticado o exercício da caminhada. Tenho caminhado por várias paisagens da cidade, mas com mais constância pelas paisagens da região do Sapopemba. Nessas caminhadas tenho diversificado as rotas, mas em todas elas me encontro com cenas de um cotidiano imerso na pobrezas e na violências.

        Pobrezas e violências assim mesmo no plural, pois elas são inúmeras pela cidade a fora. Mas, aqui na periferia elas assumem toda sua dramaticidade. Moradias precárias; Na Educação a falta de creches, falta escolas de educação infantil, escolas de ensino fundamental e médio sem identidade e com dificuldades em dialogar com as crianças, adolescentes e jovens; Transporte público lotados e de baixa qualidade; Aumento da criminalidade, em sua modalidade do "crime organizado" - tráfico de drogas lícitas e ilícitas, furto e roubo de autos, etc.

       Mesmo diante desse quadro social horrível a cidade se faz linda pois é o espaço social que abriga as pessoas que amo e a minha história, como tão bem sintetiza a bela crônica do Prata. 

        Só não concordo com o Prata em sua dúvida sobre S. Paulo ser o túmulo do samba. O samba paulistano tem história riquíssima e espalhada por toda cidade.          



Querida e horrorosa cidade

Por Antonio Prata - Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 25/01/2012, caderno Cotidiano.

Uma Virada Cultural por ano não pode competir com um motoboy morto por dia em São Paulo.

Às vezes acontece de criticarem um amigo e eu não poder discordar: é verdade, ele tem mesmo tais e tais defeitos. Nada do que disserem, contudo, mudará meus sentimentos ou a nossa relação. Afinal, laços de amizade não são criados a partir de uma planilha do Excel, onde analisamos os prós e os contras da pessoa para, então, decidir nos aproximar; nascem de acasos e necessidades mais difusas que, geralmente, já se perderam no passado. O sujeito pode ter mais falhas que a defesa do Íbis, mas há dez anos vocês jogam pôquer semanalmente, já passaram alguns Réveillons juntos e quando aquela "stronza" te deu um pé na bunda, na madrugada de uma remota terça-feira, ele apareceu no seu apartamento meia hora mais tarde, com uma garrafa de Seleta numa mão e um disco do Tom Waits na outra.
Tais ruminações me acompanham desde domingo, quando participei de um programa de rádio sobre o aniversário de SP e me dei conta de que viver aqui é como amar o amigo calhorda. Claro, a cidade tem muitas qualidades, que tentei enumerar no bate-papo, mas quanto mais falava em "programação cultural", "vida noturna" e "restaurantes", mais hipócrita me sentia: é impossível negar que nossos defeitos superam, em muito, nossas virtudes.
Uma Virada Cultural por ano não pode competir com um motoboy morto por dia nem todos os impressionistas reunidos no Masp serviriam de tapume para nossa feiura. Aqui, a falência do urbanismo está tanto na pobreza -os mares de lajes batidas- quanto na riqueza -os espigões com colunas jônicas -homenagem ao glorioso império-românico-ultramarino que, como todos sabem, precedeu a chegada dos tupis-guaranis?
São Paulo é violenta, arisca, injusta. O único momento em que vislumbramos uma sociedade igualitária é na hora do rush: todo mundo parado, respirando o mesmo monóxido de carbono. A cidade não existe como um espaço comum: é a distância que nos separa, uma ausência ou, então, um obstáculo. No entanto, gostamos dela. Por quê?
Só entendi o óbvio ululante quando minha colega Barbara Gancia, que também participava do programa de rádio, tomou o microfone e, fugindo do meu clichê de "vida noturna & programação cultural", foi direto ao ponto: "São Paulo é onde estão as pessoas que eu amo: minha família, meus amigos, meus colegas de trabalho". Simples assim.
Falemos o que for sobre esta metrópole banguela, mas é aqui que nascemos ou para cá nos mudamos, aqui nos apaixonamos, levamos pés na bunda e somos consolados. É o contrário daquela piada em que Deus termina de fazer o Brasil, irretocável em suas belezas naturais e diz: "Agora espera só pra ver o povinho que eu vou botar lá". Não somos o paraíso mal frequentado, mas um inferno cheio de pessoas queridas.
Caetano talvez tenha acertado ao nos chamar de "túmulo do samba", mas foi ainda mais feliz no final do mesmo verso, ao apontar o "possível novo quilombo de Zumbi". Falta muito, claro, para fazer desse quilombo uma cidade, mas somos jovens, temos só 458 anos (quase nada comparado à Roma, Istambul, Bombaim) e muita gente boa, disposta a trabalhar. Há que ser otimista -afinal, pior do que tá, não fica.
Feliz aniversário, minha querida e horrorosa cidade.
Blog "Crônicas e Outras Milongas"
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

domingo, janeiro 15, 2012

ENSINO PRIVADO: MOVIMENTAÇÃO ECONÔMICA EM 2012

Comentários Moisés Basílio:
Os números estão aí para serem interpretados. Como a própria reportagem afirma esses números não são precisos, portanto vamos a análise com cuidados.


Os números nos mostram que o crescimento dos investimentos no setor da educação formal (ensino) privado da economia brasileira continua, principalmente em fusões e aquisições. Na prática isso significa que as instituições de ensino particulares estão migrando de proprietários tradicionais para proprietários corporativos, inflados com capitais externos.  


Esses novos donos são muito agressivos na conquista desses novos mercados. A ênfase é oferecer o ensino que o mercado emergente brasileiro diz necessitar, ou seja, formar a força de trabalho para a inserção do país no mercado global. E também aproveitar o aumento da demanda por ensino superior, com o aumento da escolaridade da população brasileira e com o aumento do financiamento público (prouni, fies etc), que põe na roda mais dinheiro. 


Portanto, um modelo de instituição de ensino com um forte vínculo com o mercado, pois busca seu financiamento no mercado e tem como objetivo formar para o mercado. Como sabemos que o mercado flutua de acordo com as oscilações de seus lucros, esse modelo está fadado a sofrer com essas movimentações. O tempo dirá. 

   
FUSÕES BATEM RECORDE NO SETOR DE EDUCAÇÃO
Ensino chega a R$ 2,4 bilhões em aquisições
Por Beth Koike | De São Paulo - Valor Econômico - 09/01/2012
O movimento de fusões e aquisições no setor de ensino privado bateu recorde no ano passado. Só as operações - cerca de 20 - realizadas por quatro empresas de capital aberto movimentaram R$ 2,4 bilhões. No total, ocorreram 27 transações, mas não há dados precisos sobre as que envolveram instituições menores e de capital fechado. Nunca houve um valor tão alto no país, pelo menos desde 2007, quando os grandes grupos de ensino começaram a abrir seu capital e passaram a tornar públicas suas contas. Em 2012, o setor deve continuar registrando negócios, porque existe ainda espaço para consolidação no ensino fundamental e médio, afirma Luís Motta, sócio da KPMG.
O mercado brasileiro de ensino encerrou o ano movimentando cerca de R$ 2,4 bilhões em aquisições. Este é o montante investido somente por Anhanguera, Abril Educação, Estácio e Kroton, segundo levantamento feito pelo Valor. Trata-se do maior volume já negociado em compras de empresas no setor de ensino no país pelo menos desde 2007, quando os grupos de educação começaram a abrir o capital. De lá para cá, o valor investido em fusões e aquisições praticamente quadruplicou de tamanho.
Levando-se em consideração o número total de fusões e aquisições em ensino (incluindo-se empresas de capital fechado), foram feitas 27 transações em 2011, segundo a consultoria KPMG. Desse total, cerca de 20 envolveram empresa de capital aberto. Não é possível informar o valor total dos negócios, pois há operações cujos termos não foram divulgados.
O setor deverá continuar registrando fusões e aquisições em 2012. "Há espaço para consolidação nos ensinos fundamental e médio e também em sistemas de ensino", diz Luís Motta, sócio da KPMG. O recorde anual deu-se em 2008, com 53 negócios. Várias empresas abriram o capital em bolsa e foram às compras. "Mas foram negócios com volumes financeiros menores. Não havia transações tão relevantes como, por exemplo, a da Kroton", diz Motta.
Em 2011, o valor recorde de transações foi puxado pela mineira Kroton que comprou por R$ 1,3 bilhão a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), que tem como chamariz o status de líder do segmento de ensino a distância. Essa operação, comandada pelo presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, foi a maior já fechada na história do setor de educação no país. Tamanha aposta por parte da Kroton, cujo principal acionista é o fundo americano Advent, é o potencial do mercado de ensino a distância que pode dobrar de tamanho em cinco anos.
Outra transação de destaque foi a da Anhanguera, que pagou R$ 510 milhões pela Uniban - uma das últimas grandes faculdades de São Paulo que ainda não haviam sido vendidas. Com a aquisição, a faculdade controlada pelo fundo de private equity Pátria fincou pé no mercado paulistano, considerado o mais rentável do país.
A Anhanguera é o maior grupo de ensino do país, com 292 mil alunos. Mas a Kroton encostou na líder ao levar a Unopar e hoje ocupa a segunda posição, com 264 mil estudantes. O mercado nacional de educação superior tem 5,3 milhões de alunos, sendo que 75% estão matriculados em faculdades particulares.
A forte movimentação no setor de educação também foi motivada, a partir de 2010, pela retomada dos investimentos da britânica Pearson e da brasileira Abril Educação. Ambas estavam atuando de forma tímida no país e desembolsaram quantias importantes para adquirir dois sistemas de ensino (apostilas). Em julho de 2010, a Abril Educação adquiriu o Anglo por R$ 717 milhões. Dez dias depois, a Pearson anunciou a compra dos sistemas de ensino da SEB (COC, Dom Bosco e Pueri Domus) por R$ 888 milhões. Com o Anglo, a Abril Educação foi à bolsa, levantou R$ 317 milhões e fechou mais quatro aquisições em 2011, que somaram R$ 279 milhões.
Em dezembro, a Pearson anunciou a compra, por meio de sua editora Penguin, de 45% da Companhia das Letras. Com a compra de uma das editoras brasileiras mais renomadas, a Pearson poderá integrar os negócios de educação e literatura. Uma das ideias é ampliar o acervo da biblioteca virtual da Pearson com obras da Companhia das Letras.
Matrícula em cursos técnicos sobe para 18% do total no ensino médio
A procura pela educação profissional cresceu mais de 50% no Brasil nos últimos cinco anos. Entre 2005 e 2010, a fatia das matrículas em cursos técnicos sobre o total verificado no ensino médio regular passou de 8,2% para 13,6%, atingindo 1,140 milhão de alunos no ano passado. Em 2011, o peso das matrículas pode ter ficado entre 15% e 18%, informou ao Valor Eliezer Pacheco, titular da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec-MEC). A confirmação virá com a conclusão da apuração do Censo Escolar da Educação Básica de 2011.
Segundo Pacheco, o desempenho foi acelerado pela expansão da rede federal de escolas técnicas - mais de 200 institutos foram abertos entre 2003 e 2011 -, pelo aumento da oferta pela rede particular, responsável por quase 550 mil matrículas, e, mais recentemente, com as primeiras matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em outubro de 2011. "Nossa avaliação inicial do programa mostra que o Pronatec matriculou 66,5 mil alunos em 2011 e temos uma média diária de 1.460 pré-matrículas registradas em dezembro", informa Pacheco.
Em 2011, o valor recorde de transações foi puxado pela mineira Kroton que comprou por R$ 1,3 bilhão a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), que tem como chamariz o status de líder do segmento de ensino a distância. Essa operação, comandada pelo presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, foi a maior já fechada na história do setor de educação no país. Tamanha aposta por parte da Kroton, cujo principal acionista é o fundo americano Advent, é o potencial do mercado de ensino a distância que pode dobrar de tamanho em cinco anos.
Outra transação de destaque foi a da Anhanguera, que pagou R$ 510 milhões pela Uniban - uma das últimas grandes faculdades de São Paulo que ainda não haviam sido vendidas. Com a aquisição, a faculdade controlada pelo fundo de private equity Pátria fincou pé no mercado paulistano, considerado o mais rentável do país.
A Anhanguera é o maior grupo de ensino do país, com 292 mil alunos. Mas a Kroton encostou na líder ao levar a Unopar e hoje ocupa a segunda posição, com 264 mil estudantes. O mercado nacional de educação superior tem 5,3 milhões de alunos, sendo que 75% estão matriculados em faculdades particulares.
A forte movimentação no setor de educação também foi motivada, a partir de 2010, pela retomada dos investimentos da britânica Pearson e da brasileira Abril Educação. Ambas estavam atuando de forma tímida no país e desembolsaram quantias importantes para adquirir dois sistemas de ensino (apostilas). Em julho de 2010, a Abril Educação adquiriu o Anglo por R$ 717 milhões. Dez dias depois, a Pearson anunciou a compra dos sistemas de ensino da SEB (COC, Dom Bosco e Pueri Domus) por R$ 888 milhões. Com o Anglo, a Abril Educação foi à bolsa, levantou R$ 317 milhões e fechou mais quatro aquisições em 2011, que somaram R$ 279 milhões.
Em dezembro, a Pearson anunciou a compra, por meio de sua editora Penguin, de 45% da Companhia das Letras. Com a compra de uma das editoras brasileiras mais renomadas, a Pearson poderá integrar os negócios de educação e literatura. Uma das ideias é ampliar o acervo da biblioteca virtual da Pearson com obras da Companhia das Letras.
Matrícula em cursos técnicos sobe para 18% do total no ensino médio
A procura pela educação profissional cresceu mais de 50% no Brasil nos últimos cinco anos. Entre 2005 e 2010, a fatia das matrículas em cursos técnicos sobre o total verificado no ensino médio regular passou de 8,2% para 13,6%, atingindo 1,140 milhão de alunos no ano passado. Em 2011, o peso das matrículas pode ter ficado entre 15% e 18%, informou ao Valor Eliezer Pacheco, titular da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec-MEC). A confirmação virá com a conclusão da apuração do Censo Escolar da Educação Básica de 2011.

Segundo Pacheco, o desempenho foi acelerado pela expansão da rede federal de escolas técnicas - mais de 200 institutos foram abertos entre 2003 e 2011 -, pelo aumento da oferta pela rede particular, responsável por quase 550 mil matrículas, e, mais recentemente, com as primeiras matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em outubro de 2011. "Nossa avaliação inicial do programa mostra que o Pronatec matriculou 66,5 mil alunos em 2011 e temos uma média diária de 1.460 pré-matrículas registradas em dezembro", informa Pacheco.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

TUDO É RACISMO OU NADA É RACISMO?

COMENTÁRIOS MOISÉS BASÍLIO:
Mais um caso de racismo na cidade de S. Paulo que se torna público e abre um leque de posicionamentos e reflexões. E isso é bom, pois outra infinidade de acontecimentos racistas passa em branco cotidianamente.

Parafraseando Belchior,  a minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos a sensação é que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...

E por que essa sensação? Porque algo semelhante aconteceu comigo em meados dos anos 80. Num sábado à noite depois de um dia de trabalho duro, eu mais um amigo negro, o Fábio, e um casal de amigos brancos, Luiza e Aldo,  fomos jantar no restaurante O Bacalhau do Porto ( http://www.obacalhaudoporto.com.br/ ) que ainda funciona até hoje na rua Vergueiro, no bairro Ipiranga, em S. Paulo, próximo à Via Anchieta.

Logo na entrada algo esquisito ocorreu. O casal Luiza e Aldo entrou primeiro e quando eu e o Fábio íamos entrar o porteiro abruptamente foi fechando a porta. O casal que já havia entrado protestou ao ver o gesto do porteiro, que só retrocedeu pois foi informado de que acompanhávamos o casal. Um mal estar se instalou imediatamente, mas relevamos e fomos para a mesa.

Fizemos os pedidos e quando já estávamos apreciando a entrada um garçom se dirigiu a mim e em voz baixa disse que havia um amigo me chamando no lado de fora do restaurante. Estranhei o recado, pois decidimos ir àquele restaurante de supetão e não informei a ninguém que estaria ali.

Mas, de forma educada respondi ao meu interlocutor que se fosse meu amigo que entrasse e se dirigisse à mesa. Foi nesse instante, com cara constrangida, disse que na verdade quem estava do lado de fora era a polícia militar, que queria falar comigo e com meu amigo negro.

Duas cabeças, duas sentenças. Eu na hora, se a memória não falha, minha reação foi pedir para o garçom mandar os policiais entrarem, pois se quisessem fazer uma abordagem, que se fizesse com todos os clientes que estavam presentes no restaurante. A reação do amigo Fábio foi de completa indignação. Levantou-se da mesa e em brados, invocou a lei Afonso Arinos (de 1951) e a recente lei Caó (de 1985), denunciou o ato racista, se recusou a continuar a refeição naquele local e saiu do restaurante.

Sem alternativa de ação, também saímos junto com o Fábio. Do lado de fora dois soldados da PM nos aguardava, um inclusive era negro. Tomamos a iniciativa do diálogo com os policiais. Nos identificamos e prontamente solicitamos dos policiais o motivo da abordagem. Diante da nossa postura, linguajar, profissão, grau de escolaridade, etc.  os policiais logo perceberam o equívoco.

Os policiais nos informaram que foram chamados por dois motivos: Nossa aparência e que estávamos fazendo piadas agressivas.

Anotamos o nome dos policiais e fomos direto ao distrito policial lavrar um boletim de ocorrência. O delegado relutou um pouco em fazer o B.O., mas acabou aceitando. Denunciamos o caso para a Comissão do Negro da OAB-SP e entramos em contato com o advogado Idibal Pivetta para acompanhar o caso.

O grupo Folha, acionado pela OAB-SP fez a cobertura do caso, entrevistando o dono do restaurante e a nós, eu e o Fábio. Saiu uma reportagem, com nossas fotos, no jornal Notícias Populares e uma nota de menor destaque na Folha de S. Paulo. Várias entidades do Movimento Negro organizado tomaram posição diante do ocorrido e divulgaram o caso.

O delegado alegando que depois de ouvir o proprietário do estabelecimento e nos ouvir, avaliara que tudo não passara de um mal-entendido e que não havia indícios de crime e que por isso não levaria o B.O. adiante.

Em conversação com nosso advogado Idibal Pivetta, avaliámos que dada à má vontade do delegado em instrumentalizar o processo e às dificuldades da legislação brasileira em tipificar o crime de racismo, a via legal do processo teria pouca possibilidade de êxito. Avaliámos também que as nossas vitórias foram: Ter denunciado o caso; A repercussão do caso na mídia; O envolvimento e o posicionamento do Movimento Negro; O constrangimento que fizemos o dono do estabelecimento passar ao ter que ir depor numa delegacia sobre crime de racismo e ter que se justificar, perante órgãos de imprensa e seus clientes sobre sua atitude; O exemplo para que novos casos de racismo fossem denunciados; E também o exemplo para intimidar novos atos racistas.

O caso da "Nonno Paolo", abaixo analisado pelo artigo da Sueli Carneiro, hoje em 2012, século XXI, guarda grandes semelhanças com que vivi lá pelos idos dos anos 80, século XX. E guardaria semelhanças estruturais com outros casos racistas do Brasil dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX.

O racismo e os racistas se moveram nos diferentes contextos conjunturais da história do Brasil. O racismo chegou aqui com Cabral, justificado pela leitura bíblica enviesada, que justificava a escravidão pela alegoria da maldição de Cam. Depois o racialismo que foi a teoria pseudocientífica que justificou ações racistas nos séculos XIX e XX. Ainda no século XX, a ideologia da democracia racial encobriu as sutilezas de nosso racismo. Agora, nesse início do século XXI, com o esgotamento dos mecanismos que sustentaram a ideologia da democracia racial, novas formas de racismos se instalam, e a principal é a ideologia de que o racismo não existe mais no Brasil.

Nego! Olho aberto, coração vibrante e muita reflexão, estudo e ação para enfrentarmos as novas paradas racistas. Axé!



Fonte: Portal Geledés, 7 de janeiro de 2012, http://www.geledes.org.br/em-debate/sueli-carneiro/12495-sueli-carneiro-nonno-paolo-um-caso-emblematico
Autora: Sueli Carneiro

Nonno Paolo – um caso emblemático


Há coisas essenciais sobre o racismo no episódio ocorrido no restaurante Nonno Paolo com um menino negro.
Eu não estava lá, mas pela reação de indignação da mãe da criança e seus amigos é lícito supor que a criança em questão, seja amada e bem cuidada, portanto, não estava suja e maltrapilha como costumam estar as crianças de rua que encontramos cotidianamente na cidade de São Paulo.
Então, a "confusão" de quem a tomou, em princípio, por mais uma criança pedinte se deveu ao único traço com o qual a define a mentalidade racista: a sua negritude. Presumivelmente, o menino negro era o único "ponto escuro" entre os clientes do restaurante e para esse "ponto escuro" há lugares socialmente predeterminados dos quais restaurantes de áreas consideradas "nobres" da cidade de São Paulo estão excluídos.
Para o racista a negritude chega sempre na frente dos signos de prestígio social. Por isso Januário Alves de Santana foi brutalmente espancado por não ser admissível para os seguranças do supermercado Carrefour que ele fosse proprietário de um Ecosport dentro do qual se encontrava no estacionamento a espera de sua mulher que realizava compras. Por isso a cantora Thalma de Freitas foi arbitrariamente revistada e levada em camburão para uma delegacia por ser considerada suspeita enquanto, como ela disse na ocasião, "porque a loura que estava sendo revistada antes de mim não veio para cá?". Por isso Seu Jorge além de múltiplas humilhações, sofridas na Itália foi impedido, em dia de frio europeu, de entrar em uma loja com o carrinho no qual estava a sua filha, "confundido" como um monte de lixo. São apenas alguns exemplos de uma lista interminável de situações em que são endereçadas para pessoas negras mensagens que tem um duplo sentido: reiterar o lugar social subalterno da negritude bem como desencorajar os negros a ousarem sair dos lugares que desde a abolição lhes foi destinado: as sarjetas do país.
O episódio indica portanto, que uma criança, em sendo negra e, por consequência "natural" , pobre e pedinte, pode, "legitimamente", ser atirada à rua, sem cerimônia. É, devolvê-la ao seu devido lugar. Indica, ademais, que essa criança não desperta o sentimento de proteção (que devemos a qualquer criança) em relação aos perigos das ruas, pois ela é, para eles, uma das representações do que torna as ruas um perigo!
Essa criança, por ser negra, também não é abrigada pela compaixão, pois, há quem vê nelas a "semente do mal", como o fez certa vez, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, defendendo a descriminalização do aborto para mulheres faveladas, pois seus úteros seriam "fábricas de marginais."
Há os que defendem a atitude do funcionário que expulsou a criança do restaurante sob o argumento de a que região em que ele está localizado costuma ser assediada por crianças pedintes que aborrecem a clientela dos estabelecimentos comerciais. Na ausência do poder público para dar destino digno a essas crianças, cada um age de acordo com sua consciência, via de regra, expulsando-as. Outros dizem que a culpa pelo ocorrido é dos pais que deixaram a criança sozinha na mesa. O subtexto desse discurso é revelador e "pedagógico": pais de crianças negras deveriam saber que elas podem ser expulsas de restaurantes enquanto eles se servem porque elas são consideradas pedintes, ou menor infrator! O erro não estaria no rótulo ou estigma e sim nos desavisados que não compreendem esse código social perverso!
Os que assim pensam pertencem à mesma tribo de indignados que consideram que espaços até então privativos de classes sociais mais abastadas começam a serem tomados de "assalto" por uma gente "diferenciada", fazendo aeroportos parecerem rodoviárias ou praças de alimentação. Aqueles que não se sentem incomodados com a desigualdade e a injustiça social. Aqueles que reclamam que agora "tudo é racismo" porque, para eles, o politicamente correto é dizer que nada é racismo.
Esses são, enfim, aqueles que condenam o Estatuto da Criança e do Adolescente, que advogam pela redução da maioridade penal, que revogariam, se pudessem, o inciso constitucional que define o racismo como crime inafiançável e imprescritível ou a lei Caó que tipifica e estabelece as penalidades por atos de discriminação; conquistas da cidadania brasileira engendradas por aqueles que recusam as falácias de igualdade de direitos e oportunidades em nosso país.
O aumento da inclusão social ocorrida nos últimos anos está produzindo deslocamentos numa ordem social naturalizada na qual cada um "sabia o seu lugar" , o fundamento de nossa "democracia racial'. O desconforto que esse deslocamento provoca faz com que os atos de racismo estejam se tornando cada vez mais frequentes e virulentos.
Atenção gente negra! Eles mudaram! O mito da democracia racial está revelando, sem pejo, a sua verdadeira face. Então, é hora de se conceber e empreender novas estratégias de luta!

domingo, janeiro 08, 2012

RACISMO AQUI E NA EUROPA: CASOS E REFLEXÕES NESSE INÍCIO DE 2012

Comentários Moisés Basílio: Seguem dois textos, um analisa casos recentes de preconceito racial contra crianças em São Paulo, e o outro é uma narrativa de um caso real de racismo na Europa.

No primeiro caso um sociólogo paulista da USP faz uma análise de uma criança de origem etíope, filho adotivo de espanhóis. No outro caso, uma escritora espanhola narra uma história que se passou entre uma alemã e um negro da África subsaariana.

Ainda na semana que passou houve as polêmicas notícias sobre racismo no futebol inglês. O uruguaio Luís Suarés, jogador do Liverpool, foi punido pela entidade máxima do futebol inglês com suspensão de 8 jogos e multado em cerca de 115 mil reais, por ofensas racistas, durante um jogo, contra o francês (de origem africana) Patrice Evra ( http://vai.la/2Fbv ). Em sua defesa saiu o amigo e também jogador uruguaio (de origem africana), que atua no futebol suíço, Pablo Caballero, que disse que a palavra "negro" no Uruguai e no Brasil tem um sentido carinho e acredita que o amigo sofreu injustamente a acusação de racista ( http://vai.la/2Fby ).

Num mundo onde as interações culturais, possibilitadas pela avanços tecnológicos e fluxos imigratórios intensos, acontecem tendo como matrizes os padrões hierárquicos de dominação em detrimentos das matrizes culturais baseadas no diálogo os conflitos e as violências dão o tom.

A análise sociológica de Martins nos alerta para a complexidade da questão no Brasil, onde o componente racial "cor" nunca se moveu sozinho, como fonte de preconceito, mas sempre em combinação com as dinâmicas de dominação históricas de nossa formação social e cultural.  Levar isso em consideração nos ajuda a desenvolver ações mais eficazes para superar os elementos de fundo do racismo em nosso país. Axé!


TEXTO 1 :
Fonte: Jornal O Estdo de S. Paulo, 2012 - http://vai.la/2Fbc 
Autor: José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor entre outros, livros, de: "Uma Arqueologia da Memória Social - Autobiografia de um Moleque de Fábrica", Ateliê Editorial, 2011.

Preconceito em camadas

Casos recentes de hostilidade racial contra crianças sugerem que, quando a cor perde força para estigmatizar, outros atributos asseguram a continuidade da discriminação

Dois casos recentes de preconceito racial contra crianças, em São Paulo, iluminam a complexa gravidade do problema e expõem aspectos pouco compreendidos do preconceito no Brasil. Um menino etíope, de 6 anos de idade, que não fala português, teria sido expulso por um dos garçons de um restaurante na Vila Mariana enquanto seus pais adotivos, brancos, espanhóis em turismo, se serviam do bufê. Ao voltarem à mesa e não o encontrarem, foram achá-lo na rua, chorando. Em outubro, num supermercado de Pinheiros, um menino de 10 anos, filho de pai negro e mãe branca, que é dentista, foi maltratado por um segurança, sob acusação de que estava incomodando os clientes.
Diferentemente do que ocorre no preconceito racial estrito, nesses dois casos haveria uma superposição de preconceitos, comum no Brasil, concentrados numa única pessoa ou em grupo social determinado. Na pizzaria, o garçom justificou-se dizendo que julgava ser aquele um menino de rua. No supermercado, o segurança entendeu que o menino perturbava os clientes. Nos dois casos, manifestou-se em primeiro lugar a prontidão preconceituosa e repressiva contra crianças pobres, que não eram. Supostamente sozinhos (num caso, os pais estavam por perto e, no outro, a mãe estava), sua presença em lugares onde se vai para comprar e consumir e não para perambular era anomalia que impunha o banimento.
O preconceito racial agregou-se a esse motivo de referência porque, nessa mentalidade, as figuras diferenciadas da criança e do negro não são apropriadas para ter presença num cenário cuja mediação constitutiva é o dinheiro. A mentalidade residual e arcaica que presidiu as duas manifestações é a mesma que presidiu a formação histórica deste país: dinheiro é instrumento de poucos, de pessoas emancipadas, o que se negou durante séculos ao escravo, porque era ele coisa e não pessoa, interdição que se estendeu por muito tempo a mulheres e se estende ainda hoje a crianças. Não obstante o cotidiano apelo a que crianças se tornem consumidoras e compradoras, sem contar milhões de crianças que trabalham.
Historicamente, na sociedade contemporânea, mais do que os direitos, no plano jurídico alcançados através das lutas sociais e reivindicativas, é o dinheiro que emancipa. O que esconde um terceiro fator da discriminação: a desigualdade de origem é apenas parcialmente indicada pela cor. É indicada, também, por outros atributos que não têm cor, derivações modernas da histórica e estamental diferenciação entre gente de qualidade e gente sem qualidade. Não é casual que boa parte da nossa vida cotidiana seja constituída por práticas para maquiar esses indícios, mesmo a raça, na adoção da toalete que encobre ou modifica traços estigmatizantes, do gesto ao cabelo. É como as vítimas mais experientes procuram se defender.
Estamos em face de uma significativa mudança qualitativa no preconceito racial brasileiro. Nos anos 50, Oracy Nogueira, professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, publicou um estudo que se tornaria um clássico da sociologia das relações raciais no Brasil - Preconceito Racial de Marca e Preconceito Racial de Origem. Nele, Nogueira distingue o preconceito justificado pelo nascimento, como nos Estados Unidos, do preconceito justificado pela cor, caso do Brasil. O preconceito racial não é sempre o mesmo em todas as partes. Reduzido ao estigma da cor, o preconceito é aqui relativamente volátil. A cor pode ser diluída na mestiçagem, o que não ocorre nos Estados Unidos, pois lá é a origem racial e não apenas a cor que conta. Por isso, lá o preconceito leva à exclusão; aqui leva à preterição.
No entanto, nos casos ocorridos recentemente e em outros casos envolvendo preconceito racial contra crianças, a superposição de preconceitos de várias referências sociais parece indicar a cor como atributo subsidiário de um preconceito social que tem muito de preconceito de origem. Esses casos sugerem que, à medida que aumentam o mascaramento e a resistência à discriminação racial e a cor deixa de ser eficaz para estigmatizar, discriminar e preterir, outros atributos são ressaltados nas vítimas, para assegurar que a discriminação continue sendo eficaz.
Combater o preconceito no Brasil como mero preconceito racial, através de ações corporativas dos vários grupos sujeitos a preconceito, mistifica-o e dificulta a sua superação. Ele é aqui preconceito múltiplo e combinado, o que nos remete às nossas origens estamentais, da desigualdade fundada no nascimento, raiz estrutural das nossas desigualdades sociais, independente da raça. Ele é ao mesmo tempo de riqueza, de gênero, etário, de orientação sexual, religioso (a perseguição aos praticantes do candomblé, no passado). A cor é mero indício desse complexo de preconceitos. Mero resquício de um passado peculiar de desigualdades sociais. O étnico nunca foi decisivo no nosso preconceito. Foi o pretexto. Sublinhá-lo encobre sua perversa complexidade.


TEXTO 2:
Fonte: Jornal El País, Espanha, 2005 - http://t.co/d4VGVYAx
autora: Rosa Montero, jornalísta e escritora espanhola, com vários livros publicados no Brasil.

El negro


Estamos en el comedor estudiantil de una universidad alemana. Una alumna rubia e inequívocamente germana adquiere su bandeja con el menú en el mostrador del autoservicio y luego se sienta en una mesa. Entonces advierte que ha olvidado los cubiertos y vuelve a levantarse para cogerlos. Al regresar, descubre con estupor que un chico negro, probablemente subsahariano por su aspecto, se ha sentado en su lugar y está comiendo de su bandeja. De entrada, la muchacha se siente desconcertada y agredida; pero enseguida corrige su pensamiento y supone que el africano no está acostumbrado al sentido de la propiedad privada y de la intimidad del europeo, o incluso que quizá no disponga de dinero suficiente para pagarse la comida, aun siendo ésta barata para el elevado estándar de vida de nuestros ricos países. De modo que la chica decide sentarse frente al tipo y sonreírle amistosamente. A lo cual el africano contesta con otra blanca sonrisa. A continuación, la alemana comienza a comer de la bandeja intentando aparentar la mayor normalidad y compartiéndola con exquisita generosidad y cortesía con el chico negro. Y así, él se toma la ensalada, ella apura la sopa, ambos pinchan paritariamente del mismo plato de estofado hasta acabarlo y uno da cuenta del yogur y la otra de la pieza de fruta. Todo ello trufado de múltiples sonrisas educadas, tímidas por parte del muchacho, suavemente alentadoras y comprensivas por parte de ella. Acabado el almuerzo, la alemana se levanta en busca de un café. Y entonces descubre, en la mesa vecina detrás de ella, su propio abrigo colocado sobre el respaldo de una silla y una bandeja de comida intacta.

Dedico esta historia deliciosa, que además es auténtica, a todos aquellos españoles que, en el fondo, recelan de los inmigrantes y les consideran individuos inferiores. A todas esas personas que, aun bienintencionadas, les observan con condescendencia y paternalismo. Será mejor que nos libremos de los prejuicios o corremos el riesgo de hacer el mismo ridículo que la pobre alemana, que creía ser el colmo de la civilización mientras el africano, él sí inmensamente educado, la dejaba comer de su bandeja y tal vez pensaba: "Pero qué chiflados están los europeos".

TEXTO 3:
Fonte: Jornal da USP Livre - http://usplivre.org.br/2012/01/09/pm-me-escolheu-porque-eu-era-o-unico-negro-diz-estudante-agredido-na-usp/ 
Autor: Alceu Luís Castilho

“PM me escolheu porque eu era o único negro”, diz estudante agredido na USP

O estudante de Ciências da Natureza, Nicolas Menezes Barreto, agredido por policiais na  USP. (foto: Facebook)
entrevista conduzida por Alceu Luís Castilho do blog OUTRO BRASIL.
Órfão de pai desde os 15 anos, Nicolas Menezes Barreto sabe bem o que é trabalhar. Ele é músico e professor da rede municipal de ensino, na zona leste – em condição provisória, pois ainda não é formado. Ele prestou Música, mas entrou na segunda opção no vestibular da Fuvest. Cursa Ciências da Natureza na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades), na USP-Leste.
Nicolas foi agredido por um sargento da PM, nesta segunda-feira, durante a desocupação da antiga sede do DCE Livre, o DCE ocupado – a alguns metros da sede da reitoria da USP. “Eu era o único negro lá, com dread”, disse ele ao blogOutro Brasil, por telefone, no fim da tarde.
A palavra dread remete ao estilo de cabelo rastafari. “Sem dúvida foi racismo. Ele foi falar comigo porque pensou que eu não era um estudante, e sim um traficante, algo assim. Tanto que se surpreendeu quando viu que eu era estudante”.
Ele conta que um guarda universitário ajudou o PM a segurá-lo, durante a agressão – naquele momento as imagens aparecem um pouco mais distantes no vídeo. Sobre o sargento que o agrediu, ele afirma: “O cara estava virado no capeta, não sei o que acontece. Tem de pagar as contas também, né. Mas não aceito.”
Nicolas diz que é conhecido dos guardas universitários. Até por ter sido um dos 73 estudantes presos durante a desocupação da reitoria, no início de novembro.

- Agora estou aqui, na endorfina, na adrenalina, tentando me livrar desse susto. Tive algumas escoriações, arranhões, cortes na mão. Mas fiquei com medo de ir à delegacia sozinho. Como tem o vídeo vou fazer depois o exame de corpo de delito. Estou esperando o advogado para ir fazer o boletim de ocorrência.
O estudante conta que não falou nada demais na hora em que o policial avança em sua direção. “Quando eu falo no vídeo, com o punho da mão fechado, estava dizendo que nós estávamos cuidando do espaço e que não precisávamos da reforma da reitoria. Ele não entendeu isso e veio pra cima de mim”.
O sargento pediu o documento e Nicolas disse que sua palavra bastava. “Aí ele me puxou da bancada”, confirmando o que se vê e ouve no vídeo veiculado pela internet. “Tentei me defender para não tomar um tapa na cara – ou um tiro na barriga, pois ele me apontou a arma”.
Nicolas fala com orgulho de seu projeto como músico, a banda BRs. O símbolo da banda tem um quadradinho antes do “s”. Ele conta que sua mãe insiste, diante das dificuldades, para ele priorizar o trabalho – pois a família depende de sua renda. Mesmo assim ele tenta conciliar tudo. “Minha mãe sabe da minha luta”.
O estudante atendeu a reportagem agitado, mesmo depois de uma noite sem sono – os estudantes ficaram em vigília nas últimas noites, por conta da ameaça de nova desocupação do espaço.
Antes de desligar o telefone, ainda falou do momento “sinistro” que vivem os alunos da USP durante a gestão de João Grandino Rodas. E se declarou preocupado com a cobertura da mídia. Já sabe que alguns veículos o definiram como “suposto” estudante. “Às vezes o repórter está bem intencionado, mas não sabemos como vai ser a edição”.
LEIA MAIS:
Vídeos mostram PM agredindo estudantes na Cidade Universitária

quinta-feira, janeiro 05, 2012

ESCOLA-DE REDES E O APRISIONAMENTO DO CONHECIMENTO

Comentários Moisés Basílio: 
Estou conectado com a Escola-de-Redes desde seus primórdios, e tenho aprendido muito com essa experiência. Dou guarida nesse espaço para o apelo que o Augusto de Franco faz no artigo abaixo.
Mais que um apelo, o artigo nos traz a velha questão dos direitos autorais versus o direito ao conhecimento. Lá no Egito Antigo, com seus escribas, ou na Idade Média entre as autoridade eclesiais letradas, a restrição ao acesso do conhecimento sempre imperou. Hoje, de diversas maneiras se tenta manter essa tradição autoritária.


O acervo da E=R, com 833 textos para download da BIBLI.E=R está ameaçado. Esses livros e artigos foram reunidos pacientemente durante 3 anos, por vários conectados e conectadas à Escola-de-Redes e hoje talvez seja a maior biblioteca virtual de publicações científicas sobre redes sociais e temas correlatos. Eles foram pendurados no site http://4shared.com porque a o aplicativo do Ning, em 2009, era muito lento e não funcionava corretamente.
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Vejam a mensagem que recebi ontem da Equipe de Suporte do 4shared support@4shared.com e a minha resposta. De qualquer modo, estamos com um sério problema. Pois, pelo que percebi, basta uma pessoa qualquer - um desses tarados por copyright que fazem do aprisionamento do conhecimento o seu meio de vida e fonte de lucro - para o 4Shared interpretar como "abuse" e bloquear a conta. Ou seja, não temos a menor garantia.
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MENSAGEM DO 4SHARED (00h08 DE 05/01/12)
Olá
Recebemos uma reclamação de que você está violando os Termos de Uso da 4shared. Foram detectados em sua conta arquivos explícitos ou ilícitos. Esses arquivos foram marcados como abusivos e movidos para a pasta 'Abuso' em sua conta, e o acesso a esses arquivos foi desativado.
Ao utilizar o serviço 4shared, é proibido fazer o seguinte: 1. publicar, distribuir ou de qualquer outra forma disponibilizar ou transmitir, nenhum dado, mensagem, texo, arquivo, ou qualquer outro material que infrinja qualquer direito autoral de terceiros e/ou qualquer lei, norma ou regulamentação, nacional ou internacional, incluindo, mas não limitada à: 
a. direitos autorais, marca registrada, patentes, outros direitos de propriedade; 
b. direito a privacidade ou publicidade; 
c. todas as obrigações de confidencialidade. 
2. Publicar, distribuir ou disponibilizar de outra forma qualquer um software ou outros arquivos que contenham vírus ou outros componente danoso. 
3. Publicar, distribuir ou disponibilizar de outra forma qualquer material pornográfico ou ilegal.
4. Publicar ou transmitir qualquer conteúdo ilegal, doloso, ameaçador, abusivo, de assédio, difamatório, ou ofensivo, difamatório, ou de conteúdo étnico derrogatório ou racial, ou qualquer conteúdo que expresse ódio contra qualquer pessoa ou grupos de pessoas devido à raça, credo, religião, cor, origem ou orientação sexual.
Atenção!
Este é o ultimo email de notificação relacionado à sua atividade ilícita no 4shared.com.
Quaisquer outras atitudes de violação de sua parte determinarão o bloqueio definitivo de sua conta.
Facilite a sua presença no 4shared e faça jus a ela – não viole os Termos de Uso do 4shared!
Saudações cordiais, 
Equipe de Suporte do 4shared 
support@4shared.com
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MINHA RESPOSTA (07h08 DE 05/01/12)
Para Equipe de Suporte do 4shared:
Pelo que vi a alegada violação se deveu à publicação dos seguintes textos:
Wikinomics de Tapscott_Williams postado em 2009-09-30
Maturana Entrevista para Humanitates em 2010-05-22 Achei estes textos na Web, já estavam publicados. Não digitalizei.
Tenho centenas de textos no 4Shared na mesma condição. Eles são materiais didáticos, sem fins lucrativos, usados pela Escola-de-Redes (http://escoladeredes.ning.com).
A Escola-de-Redes é uma rede social de pesquisa, que utiliza uma plataforma Ning. Nada do que é feito lá tem fins comerciais.
Se amanhã surgir uma pessoa fazendo uma reclamação qualquer e vocês interpretarem como violação dos Termos de Uso, então todo o acervo da Escola-de-Redes se perderá?
Vocês estão entendendo, que em pleno século 21 não se pode tratar mais assim a questão da propriedade intelectual e do copyright? 
Como uma pessoa pode saber se um texto encontrado na Web é lícito ou ilícito?
Sei que vocês estão pensando em se resguardar de processos, mas, neste caso, o aconselhável seria mudar de negócio. É óbvio que numa site desse tipo (4Shared) aparecerão muitos textos que não foram autorizados pelos que detêm os direitos patrimoniais sobre antigas edições em papel. E o Creative Commons, como é que fica?
Pensem nisso.
E não escrevam mensagens como a que enviaram abaixo [aqui acima], pois elas são ofensivas a pessoas que não violaram lei alguma e estão trabalhando pro bono para o progresso da ciência.
Por outro lado, vocês também não podem avaliar corretamente quais são as consequências desse ato de bloqueio, se a ameça for concretizada. Vocês não sabem como a repercussão disso se propagará pela rede. Na balança custo-benefício talvez saia mais caro para vocês fazer isso.
Analisar caso a caso as situações - e não ter uma regra geral, sempre burra - é a melhor política.
No caso concreto, os textos de Tapscott-Williams estão espalhados pela Internet. E a entrevista de Maturana para Humanitates não é um produto tipicamente comercial. Creio que Maturana, que conheço, nada recebeu por essa entrevista e também creio que ele concordaria com minha avaliação.
Atenciosamente,
Augusto de Franco
Criador da Escola-de-Redes
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Bem... pelo visto isso não terá um bom desfecho, pelos motivos que já apontei acima. Então temos que pensar rapidamente o que vamos fazer. Tenho backup dos arquivos. Eles estão espalhados em três máquinas diferentes. Fazer o upload de todos eles em outro lugar (qual?) ou usar o próprio Ning e depois relinkar tudo é um trabalho imenso, que gastará meses se apenas uma pessoa ficar dedicada a isso. O que vocês sugerem?
Talvez a melhor saída, tendo um lugar alternativo ou usando o próprio Ning é dividirmos entre nós o trabalho. Enquanto o 4Shared não for bloqueado, podemos fazer o download dos textos, pendurá-los nesse(s) lugar(es) e republicar - usando as mesmas normas adotadas pela BIBLI.E=R, que são muito simples - no grupo BIBLIOTECA E=R.
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Mas se fizermos isso de modo distribuído, o trabalho será rápido. E nem importa muito as inevitáveis repetições.

terça-feira, dezembro 27, 2011

HISTORIADOR HOBSBAWM ANALISA A CONJUNTURA POLÍTICA DE 2011

Comentários Moisés Basílio:   É sempre bom contar com as análises do historiador Eric Hobsbawm para pensar o nosso tempo. Nele a história é sempre viva, pois a sua leitura dos tempos e espaços tem esse dom de amalgamar o passado, o presente e o futuro, nem sempre nessa mesmo sequência linear. Nessa entrevista ele faz um paralelo entre o famoso ano de 1848 e o ano de 2011. Tempos de insurreições, revoltas e revoluções. Tempos onde as certezas se esvaem e o novo ainda está prenhe. Tempos de novas esperanças. 

          Ainda sobre 1848, Marx produziu um trabalho clássico para o pensamento crítico. O famoso "18 Brumários de Luis Bonaparte" - http://www.dorl.pcp.pt/images/classicos/18brumario.pdf - que faz uma análise do período revolucionário da França entre 1848 e 1851. E tem aquele famoso primeiro parágrafo do capítulo I que se tornou antológico e vale a pena ser relembrado aqui: 

          "Hegel observa algures que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa. Caussidiére por Danton, Louis Blanc por Robespierre, a Montagne de 1848 a 1851 pela Montagne de 1793 a 1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura nas circunstâncias em que apareceu a segunda edição do 18 de Brumário!" (in Editoria Avante, Obras Escolhidas de Marx e Engels)


Para Hobsbawm, protagonismo da classe média marca revoltas de 2011

Atualizado em  23 de dezembro, 2011 - 15:40 (Brasília) 17:40 GMT
O historiador britânico Eric J Hobsbawm (Rex Features)
Para historiador, classe operária perdeu seu papel histórico
A classe média foi a grande protagonista e força motriz das revoltas populares e ocupações que marcaram o ano de 2011. Esta é a opinião de Eric Hobsbawm, um dos mais importantes historiadores em atividade.
Em entrevista à BBC, o historiador marxista nascido no Egito, mas radicado na Grã-Bretanha, afirma ainda que a classe operária e a esquerda tradicional - da qual ele ainda é um dos principais expoentes - estiveram à margem das grandes mobilizações populares que ocorreram ao longo deste ano.
''As mais eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil. Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na Europa'', diz, em referência especial à Primavera Árabe, um movimento que despertou seu fascínio.
''Foi uma alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às ruas e protestar, derrubar governos'', afirma Hobsbawm, cujo título do mais recente livro, Como Mudar o Mundo, reflete sua contínua paixão pela política e pelos ideais de transformação social que defendeu ao longo de toda a vida e que segue abraçando aos 94 anos de idade.
As ausências da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos, segundo ele, se devem a fatores históricos inevitáveis.
''A esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível'', diz Hobsbawm.
Hobsbawm comenta que as diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico.
''As ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos 'exércitos postiços', formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso.''

À sombra das revoluções

Hobsbawm passou sua vida à sombra - ou ao brilho - das revoluções.
Ele nasceu apenas meses após a revolução de 1917 e foi comunista por quase toda a sua vida adulta, bem como um autor e pensador influente e inovador.
Ele tem sido um historiador de revoluções e, por vezes, um entusiasta de mudanças revolucionárias.
O historiador enxerga semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado ''ano das revoluções'', na Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália e Áustria e quando foi publicado um livro crucial na formação de Hobsbawm, O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.
Hobsbawm afirma que as insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, ''me lembram 1848, uma outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou em um país (a França) e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de tempo''.
Manifestante egípcio exibe cartaz retratando o líder egípcio deposto, Hosni Mubarak, seu filho, Gamal, o líder deposto da Tunísia, Ali Abudalah Saleh, o líder deposto da Líbia, Muamar Khadafi e o presidente da Síria, Bashar al Assad, na Praça Tahrir (AP)
Historiador diz que revoluções no mundo árabe tomaram rumo inesperado
Para aqueles que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos tomados pela revolução no país, Hobsbawm oferece algumas palavras de consolo.
''Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo - mas não mais em forma de revolução''.
Mas, com a possível exceção da Tunísia, o historiador não vê perspectivas de que os países árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias.
''Estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis - uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos.''

domingo, dezembro 11, 2011

São Paulo: novos percursos e atores - Comentários e resumos

Comentários Moisés Basílio: Em 1975, tinha 15 anos e estava entrando em contato com os problemas da cidade. No grupo de jovens da Igreja Católica em que participava tomei contato pela primeira vez com a questão social. O livro São Paulo – Crescimento e Pobreza fez parte da minha formação, juntamente com São Paulo – O Povo em Movimento. Em muito por causa dessa literatura me instigou o desejo de optar pelas Ciências Sociais no vestibular de 1980.
                No meu caso já são mais de 30 anos pensando sistematicamente a cidade. Primeiro no espaço da Igreja Católica, desde os anos 70, com diferentes intensidades até hoje. Num primeiro momento junto com a Pastoral da Juventude, depois junto à Pastoral Operária, Comunidades Eclesiais de Base e Direitos Humanos. É um pensar a cidade de uma perspectiva ético-religiosa cristã, tendo um olhar preferencial nas populações empobrecidas.
No final dos anos 70 e anos 80 pensei muito a cidade a partir de minha experiência de militância na Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo e na Central Única dos Trabalhadores – CUT. Foi o movimento de pensar a cidade a partir do local de trabalho e da produção e distribuição das riquezas.
 Ainda em meados dos anos 80, quando mudei para a região do Sapopemba passei a atuar e pensar a cidade a partir das lutas populares por melhorias de condições de vida no bairro em que vivia. Lutas por moradia, saúde, transporte, educação, saneamento básico, cultura, esporte, etc. Foi, e ainda é, o de olhar a cidade pelos olhos da cidadania. O olhar da cobrança dos direitos espoliados e negados.
Também na década dos anos 80 iniciei a atuação político partidária. O olhar a cidade na perspectiva dos poderes: De classes, institucional, social, racial, cultural etc.
Em todas essas dimensões a produção acadêmica sempre foi de grande valia para balizar a reflexão. Ainda não li, mas já encomendei esse lançamento, pela qualidade dos autores. E a discussão continua, pois a cidade pulsa, vive. 

São Paulo: novos percursos e atores
(sociedade, cultura e política)


Organização de Lúcio Kowarick e Eduardo Marques

Coedição: Editora 34/Centro de Estudos da Metrópole

400 p. - 16 x 23 cm
ISBN 978-85-7326-484-5
2011 - 1ª edição (Acordo Ortográfico) R$ 52,00
Cidade multifacetada, plena de contrastes, conjugando dinamismo e exclusão, coração econômico do país marcado por vastas extensões de pobreza, São Paulo tem sido objeto de muitos olhares. Este livro realiza um balanço das principais contribuições recentes sobre a metrópole, discutindo os processos sociais, culturais, políticos e econômicos que a marcaram de forma mais eloquente na primeira década do século XXI, tendo em vista as análises existentes sobre os legados de períodos anteriores.
         As últimas décadas têm sido marcadas por intensos processos de mudança, que transformaram características sociais e espaciais amplamente conhecidas da metrópole, ao mesmo tempo deslocando e recolocando desigualdades sociais em um ambiente de crescente heterogeneidade. Traçar um panorama dessas transformações é o objetivo deste livro. Dele participam alguns dos mais importantes pesquisadores da área, trazendo contribuições específicas sobre as várias dimensões da cidade.
         São quinze ensaios que, na esteira de livros clássicos como São Paulo, 1975: crescimento e pobreza (1976) e Quando novos personagens entraram em cena (1988), procuram atualizar as visões sobre a cidade, agora em uma colaboração multidisciplinar que inclui as áreas de sociologia, história, antropologia, demografia, política, cinema e música.
         Os textos têm autoria de Maria Encarnación Moya; Rosana Baeninger; Lúcio Kowarick; Camila Saraiva e Eduardo Marques; Maria Cristina da Silva Leme e Sarah Feldman; Alvaro Comin; Nadya Guimarães, Murillo de Brito e Paulo Henrique da Silva; Fernando Limongi e Lara Mesquita; Luciana Tatagiba; Adrian Gurza Lavalle, Graziela Castello e Renata Bichir; Esther Hamburger, Ananda Stücker, Laura Carvalho e Miguel Ramos; Teresa Pires do Rio Caldeira; Paula Miraglia; Gabriel Feltran; Vera da Silva Telles e Daniel Hirata. 

Sobre os organizadores
Lúcio Kowarick é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP, onde defendeu seu doutorado e livre-docência, e do qual foi chefe de departamento por três gestões. É autor de cinco livros e mais de oitenta artigos publicados em periódicos no Brasil e no exterior. Foi professor e pesquisador-visitante nas universidades de Paris, Oxford, Sussex, Londres e no Japan Center for Area Studies. Com o livro Viver em risco (Editora 34, 2009), venceu o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas.

Eduardo Marques é professor livre-docente do Departamento de Ciência Política da USP e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) do Cebrap. É autor de artigos sobre políticas públicas, pobreza urbana e segregação socioespacial, e dos livros: Redes sociais, pobreza e segregação (Unesp, 2010); Políticas públicas no Brasil (Fiocruz, 2007, com Gilberto Hochman e Marta Arretche); São Paulo: segregação, pobreza urbana e desigualdade social (Senac, 2005, com Haroldo Torres) e Redes sociais, instituições e atores políticos no governo da cidade de São Paulo (Annablume, 2003), entre outros.

 Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 11 dezembro de 2011. Caderno Metropoles.
40 ANOS E 2 GERAÇÕES ESTUDANDO A CIDADE
BRUNO PAES MANSO - O Estado de S.Paulo
Quando tinha 37 anos, em 1975, o sociólogo e cientista político paulistano Lúcio Kowarick coordenou o lançamento do livro São Paulo - Crescimento e Pobreza, marco para pensar a trajetória que a cidade seguiria nas décadas seguintes. Ainda eram tempos sombrios, apesar da abertura iniciada pela ditadura militar. O livro tinha sido uma encomenda de d. Paulo Evaristo Arns, então cardeal arcebispo de São Paulo, ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Depois do lançamento, o Cebrap sofreu um atentado a bomba.
Explosiva, entretanto, foi a repercussão das ideias do livro, que vendeu mais de 100 mil exemplares com fotos e textos que chamavam a atenção para a situação das periferias que nasciam e cresciam desassistidas pelo Estado. A coletânea de artigos serviria de base para as ações das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da Igreja Católica, que passariam a atuar politicamente nas periferias de São Paulo.
Nessa época, o cientista político Eduardo Marques ainda era um menino de 10 anos, aluno do ensino fundamental em uma escola do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Em 1979, quatro anos depois do primeiro livro, Kowarick publicava A Espoliação Urbana, relacionando problemas urbanos, como baixos investimentos em transporte, moradias, escolas e saúde, à dinâmica de acumulação do capital produzida pela cidade. Naqueles tempos de luta, a discussão serviu de base para a efervescência dos movimentos sociais das periferias, desde os religiosos até os sindicais, passando pelas associações de bairro e grupos de mães, que marcariam a primeira metade dos anos 1980 na capital.
"Eu era muito chamado em diferentes bairros da periferia da cidade para conversar com os integrantes dos movimentos sociais que queriam saber mais a respeito do conceito de espoliação urbana", recorda-se Kowarick.
São personagens-chave dessa história setentista de São Paulo os dois principais líderes políticos nacionais, que se tornariam presidentes do Brasil. O então sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi um dos fundadores do Cebrap. O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva surgiria das greves sindicais no ABC em 1978. Os movimentos sociais ainda serviriam de base para o nascimento do Partido dos Trabalhadores.
As três décadas que se seguiram foram de transformação intensa e permanente, detectadas e retratadas nos 40 anos de debates acadêmicos sobre São Paulo. A década de 1980, marcada pela crise no emprego e recessão econômica, registraria uma nova etapa de mudanças. Os movimentos sociais que cobravam o Estado mudam de postura. Com a democratização, parte de seus integrantes ingressam nos governos.
Novas pautas passam a dominar o debate, ligadas aos direitos das mulheres, dos negros e homossexuais. No fim dessa década, com o lançamento do disco dos Racionais MC's, é a vez de o hip-hop chacoalhar as periferias, iniciando uma série de demandas ligadas à valorização da cultura local.
É nesse contexto que o professor Eduardo Marques chega a São Paulo. Formado em Engenharia Hidráulica e História no Rio de Janeiro, com especialização em planejamento urbano, trabalhava com política de saneamento na Baixada Fluminense quando foi chamado, em 1989, para trabalhar na Secretaria de Habitação da recém-eleita Luiza Erundina (PT). Quando deixou a Prefeitura, fez mestrado e doutorado em Ciências Sociais na Universidade de Campinas (Unicamp) até ingressar, em 2002, no Centro de Estudos da Metrópole, criado no Cebrap para manter a tradição da casa de pensar São Paulo.
Marques acompanha a mudança do perfil das moradias na cidade. Os loteamentos clandestinos, que foram a forma como os bairros das periferias cresceram, perderam espaço para invasões e crescimento das favelas.
"São Paulo mudou bastante e hoje o Estado de fato se faz mais presente nas periferias. Mesmo assim, a desigualdade persistiu ou até mesmo piorou dada a baixa qualidade dos serviços prestados", diz Marques.
O aumento da violência também é um elemento-chave para a compreensão de toda a metrópole. Dominam a pauta dos debates desde os assassinatos cometidos pelos policiais, que permanecem em grande número nas três décadas seguintes, até o aumento dos roubos, a expansão do crack, o fortalecimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a disseminação dos homicídios, cujas taxas aumentam mais de 900% entre 1960 e 2000.
Longe de afetar somente os bairros de periferia, a violência se reflete em toda a estrutura urbana da cidade. Para garantir a sensação de segurança, a cidade se expande pela construção dos shoppings e condomínios fechados, uma espécie de arquitetura do medo que ajuda a segregar, processo que será discutido pela antropóloga Tereza Caldeira no ano 2000 com o livro Cidade de Muros.
Fronteiras. Na quinta-feira, Kowarick e Marques se encontraram no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na Rua Maranhão, para tentar amarrar o debate dessa longa caminhada histórica vivida pela cidade e por seus milhões de personagens. Lançaram o livro São Paulo - Novos Percursos e Atores (Editora 34). A coletânea traz artigos de professores com vasta produção, como a socióloga Vera da Silva Telles, que escreve em coautoria com Daniel Veloso Hirata sobre o crescimento do mercado informal nos últimos 15 anos e a condição do trabalhador urbano, obrigado a transitar entre a fronteira dos mercados legal e ilegal. Já a antropóloga Tereza Caldeira discute os Racionais MC's e o hip-hop.
Há também espaço para a nova geração de pesquisadores. A antropóloga Paula Miraglia analisa o crescimento e a queda dos homicídios e a presença do PCC. Depois do crescimento acelerado da violência, a partir dos anos 2000, a cidade testemunha a queda em mais de 80% nas taxas de assassinatos, uma nova transformação que ainda hoje surpreende os cientistas sociais.
Outro da nova geração, o antropólogo Gabriel Feltran analisa justamente as mudanças ocorridas ao longo dos 40 anos na cidade e ajuda a pensar a respeito da visão de mundo da nova geração que vive nas periferias, diferente da dos pais migrantes. "A reflexão provocada pelos autores coloca junto diferentes gerações de pesquisadores, que qualificam o debate sobre essa São Paulo cada vez mais central no País e no globo, na qual nada é como antes. Mas é bonito notar que essa nova cidade, que requer também um novo pensar, se recria sobre as fundações sólidas erguidas pelo trabalho das gerações que a precedem e, nesse movimento, também se renovam", diz Feltran.