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quinta-feira, maio 01, 2014

DESAFIOS ECONÔMICOS PARA O BRASIL EM 2015: FAÇAMOS NOSSAS APOSTAS

Por Moisés Basílio

O jornal paulistano "O Estado de S. Paulo" vem publicando aos domingos uma série de entrevistas com economistas de diferentes matizes e experientes no trato das questões espinhosas de nossa economia, em seus aspectos sociais e políticos.  
Aproveitei as leituras e fiz um dossiê do que já foi publicado até agora, pois estamos em ano eleitoral e temos o dever cívico de nos preparamos para escolher nossos próximos governantes federal e estadual. 
A economia é uma arte de difícil manejo. Por mais estudos que se faça, as variáveis são tantas que o resultado final é difícil de ser previsto com antecipação. A partir de uma base de princípios e hipóteses iniciais se faz uma aposta e durante o caminho de sua execução vai se corrigindo a rota. A incerteza é sua companheira constante e só ao final de um ciclo é que saberemos se nossas apostas foram válidas ou equivocadas.
No plano macro-econômico brasileiro as grandes apostas são feitas de quatro em quatro anos no momento da disputa eleitoral. As forças politicas, econômicas e sociais da nação entram numa disputa para a consolidação de uma nova maioria para governar. 
Estamos vivendo o primeiro momento dessa disputa que é a fase pré-eleitoral, onde se formam as primeiras alianças e se constrói o programa para ganhar a eleição e também se afina o discurso eleitoral. E é bom lembrar que o programa para ganhar a eleição não é o programa que vai governar. Esse só se estabelece depois do resultado final das eleições. 
Com a realização da Copa do Mundo de futebol no Brasil nesse ano de 2014, entre o primeiro e o segundo momento, teremos uma momento intermediário importante, que de uma forma ou de outra influenciará no resultado final das eleições. Três fatores terão influência nesse momento: 1. O bom ou o mau desempenho da organização geral da Copa no país; 2. As manifestações de massa pró ou contra a realização da Copa; 3. O desempenho da Seleção Brasileira.
O segundo momento é o da campanha eleitoral do primeiro turno. Começa para valer com o início do horário eleitoral gratuito na televisão e rádio, a campanha de rua, e nas últimas eleições tem sido potenciado pela rede mundial de computadores. 
O terceiro momento é o da campanha eleitoral do segundo turno. Dependendo dos resultados do primeiro turno, tudo pode ser rearranjado para a nova disputa. Com o quadro do parlamento já definido, os dois candidatos majoritários que vão à nova disputa terão que moldar suas ações a partir das novas forças políticas que emergirem das urnas. As alianças são repactuadas e novas apostas serão feitas. 
O quarto momento é o tempo entre a festa da vitória dos que ganharam as eleições e a posse do novo governo. Da euforia inicial da vitória até a posse no poder para governar há um hiato onde as apostas se renovam. O ponto culminante se dá na difícil montagem do novo governo com as respectivas divisões dos cargos, tanto no poder executivo, quanto no poder legislativo. 
Os economistas listados a seguir estão em dois grandes campos: Os que em linha geral apoiam a atual maioria que governa, tendo à frente a Presidenta Dilma e os que tem se destacados no campo da oposição às apostas do atual governo. Pela leitura do perfil biográfico e pelos resumos das principais citações de cada economista, do resumo que preparei, já dá para perceber quais serão suas apostas. É bom também ressaltar que falta muita gente ainda entrar nesse debate e que essa lista é uma escolha da linha editorial do jornal. Assim que tiver acesso a outras posição com certeza compartilharei nesse espaço.
Vamos ao debate. Façamos nossas apostas.

Série de debates - Desafios Econômicos para o Brasil em 2015
Fonte: Jornal o Estado de S. Paulo 
Nelson Barbosa - Ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa é bacharel em Economia pela UFRJ e PHD em Economia pela New School for Social Research. Ingressou na equipe econômica do governo em 2003 e deixou o cargo de secretário executivo da Fazenda no ano passado. ‘É preciso ir além com o gasto social’, diz ex-secretário executivo da Fazenda. Na primeira de uma série de entrevistas do 'Estado' com economistas, Nelson Barbosa diz que o próximo governo deve avançar em habitação, transporte público e inclusão digital - http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,e-preciso-ir-alem-com-o-gasto-social-diz-ex-secretario-executivo-da-fazenda,1130766,0.htm

Eduardo Giannetti da Fonseca - Doutor em economia pela Universidade de Cambridge, mineiro de Belo Horizonte, Giannetti formou-se em economia e ciências sociais pela Universidade de São Paulo, onde também lecionou. Foi professor na Universidade de Cambridge e é autor de vários livros, entre eles ‘O valor do amanhã’. - ‘Educação e meio ambiente devem ser as prioridades’, diz Eduardo Giannetti - Em um novo modelo de crescimento, investimentos devem ser direcionados para o capital humano - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,educacao-e-meio-ambiente-devem-ser-as-prioridades-diz-eduardo-giannetti,178374,0.htm


José Roberto Mendonça de Barros - Doutor em Economia pela USP, com pós doutorado em Yale, Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1995 e 1998, José Roberto Mendonça de Barros é o fundador da MB Associados, consultoria que atende cerca de 50 das maiores empresas e instituições financeiras do País- ‘Investimento privado vai nos tirar da armadilha’, diz Mendonça de Barros - Para ex-secretário do Ministério da Fazenda no Plano Real, País volta a crescer se mobilizar empresários - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,investimento-privado-vai-nos-tirar-da-armadilha-diz-mendonca-de-barros,178888,0.htm

André Lara Resende - Economista foi um dos ‘pais’ do Plano Real e dirigiu o BNDES, economista, formado pela PUC-Rio, obteve posteriormente o título de PhD em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology. Foi um dos formuladores do Plano Real e presidente do BNDES no governo de Fernando Henrique Cardoso. - ‘É preciso crescer com qualidade de vida’, diz Lara Resende - Para o economista, modelo de desenvolvimento baseado apenas em expansão de PIB e consumo material não se sustenta - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,e-preciso-crescer-com-qualidade-de-vida-diz-lara-resende,179169,0.htm

Edmar Bacha - diretor da Casa das Garças, mineiro, de Lambari, foi um dos primeiros economistas brasileiros a concluir doutorado no exterior, em Yale, nos EUA. Professor titular na PUCRio, UFRJ e FGV-Rio. Foi presidente do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso- ‘Para escapar do pibinho, o caminho é a abertura’, diz Edmar Bacha - A integração às cadeias globais de produção levará ao choque de produtividade que o País precisa - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,para-escapar-do-pibinho-o-caminho-e-a-abertura-diz-edmar-bacha,179704,0.htm

Márcio Pochmann - Presidente da Fundação Perseu Abramo - Gaúcho, de Venâncio Aires, é professor na Universidade Estadual de Campinas, presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e foi consultor da Organização Internacional do Trabalho. Na política, concorreu à prefeitura de Campinas. - ‘Donos de propriedade pagam pouco imposto’, diz Marcio Pochmann - Presidente de organização do PT diz que é preciso buscar novas formas de financiamento do Estado - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,donos-de-propriedade-pagam-pouco-imposto-diz-marcio-pochmann,180170,0.htm    


Luiz Gonzaga Belluzzo - Professor e sócio fundador da Facamp - Doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, em 1975, onde se tornou professor titular em 1986. Em 1999, fundou a Faculdades de Campinas. Foi consultor pessoal de economia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. - 'Desembrulhar o pacote de 2015 não vai ser fácil', diz Belluzzo - Para o economista que já foi conselheiro do ex-presidente Lula, a política fiscal caminha num corredor estreito, mas o cenário para os investimentos é promissor - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,desembrulhar-o-pacote-de-2015-nao-vai-ser-facil-diz-belluzzo,182467,0.htm

Delfim Netto - Ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - Cursou Economia na Universidade de São Paulo, onde fez carreira acadêmica. Quando ocupou o Ministério da Fazenda, o Brasil viveu o período conhecido como Milagre Econômico. Foi ainda deputado federal por cinco mandatos consecutivos. - ‘Existe um pessimismo muito acima do razoável’, diz Delfim Netto - Na avaliação do economista, Brasil não está tão fora do eixo como alguns fazem crer - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,existe-um-pessimismo-muito-acima-do-razoavel-diz-delfim-netto,180745,0.htm

Samuel Pessoa - Professor e colunista na área de Economia - Bacharel e mestre em Física e doutor em Economia pela Universidade de São Paulo. É especialista em crescimento e planejamento econômico. Chefia o Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). - ‘Deu errado o ensaio desenvolvimentista’ - Para o economista Samuel Pessoa, atual modelo econômico é um desastre que precisa ser revisto - http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,deu-errado-o-ensaio-desenvolvimentista,1149939,0.htm

Armínio Fraga Neto -    Professor e sócio do Grupo Gávea Investimentos  Graduado e mestre em Economia pela PUC-Rio e doutor pela Universidade de Princeton, nos EUA. Em Nova York, trabalhou no banco Salomon Brothers e no fundo do megainvestidor George Soros. Presidiu o Banco Central de 1999 a 2002.  ‘Gasto público deveria ser limitado por uma lei’, diz Armínio Fraga - Na avaliação do ex-presidente do Banco Central, medida abriria espaço para a reforma tributária - http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,gasto-publico-deveria-ser-limitado-por-uma-lei-diz-arminio-fraga,181922,0.htm  

Gustavo Franco - Fundador e sócio da gestora de recursos Rio Bravo Investimentos - Pesquisador, professor e consultor na área de Economia. Doutor pela universidade americana de Harvard, com uma tese sobre hiperinflação. Nos anos 90, atuou como secretário do Ministério da Fazenda e presidente do Banco Central. É preciso retomar a agenda das reformas, diz Gustavo Franco - Para economista, reformas tributária, da previdência e trabalhista abririam espaço para mais produtividade e crescimento - http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-preciso-retomar-a-agenda-das-reformas-diz-gustavo-franco,1159140,0.htm

sexta-feira, agosto 17, 2012

ENTREVISTA COM MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

Comentários Moisés Basílio: Um boa entrevista com a querida economista Maria da Conceição Tavares. Li seus textos pela primeira vez no início dos anos 80, durante minha graduação em Ciências Sociais na PUC/SP, nas aulas de Economia do saudoso Professor Celso Daniel. Depois me tornei um ávido leitor de suas análises econômicas, que em muito me ajudaram a refletir e compreender os grandes problemas econômicos do Brasil e do mundo.  Uma voz sempre lúcida nos ajudando a desvendar os mistérios da economia. Axé!

FONTE: Sítio do Jornal Valor Econômico - http://www.valor.com.br/cultura/2792488/o-descanso-da-guerreira 


O descanso da guerreira

Por Vera Saavedra Durão e Paulo Totti | Do Rio
Lula / Lula
Aposentada. Mas não retirada, isolada, distante. Aos 82 anos, Maria da Conceição Tavares tem direito ao relaxamento, ocupar-se com outras coisas além dos gráficos, tabelas, estatísticas que povoaram sua vida e seu cérebro desde a graduação em matemática na Lisboa dos anos 50 do século passado. "Já não gosto de economia", diz. Mas isso é apenas a expressão de um desejo de tranquilidade, pois nos minutos seguintes está a falar do necessário impulso para o Brasil e o mundo voltarem a crescer: "Você paralisa uma economia com corte de investimento público e alta de juros. É como fechar uma janela puxando um cordão. Mas você não abre uma janela emperrada com um cordão, talvez seja preciso um porrete. No sentido figurado, é claro".
E a primeira-dama da economia brasileira ri, com o arrebatamento de sempre: voz grave, raciocínio rápido, palavras doces ou agressivas, a depender da paixão que a inspira. Aposentou-se, mas não abandonou a franqueza e o rigor crítico. "Leio o caderno de cultura de vocês na sexta-feira, é um bom caderno. Leio também o 'À Mesa'. Mas depende do entrevistado. Se é um chato, não leio".
Quando os repórteres lhe disseram que a intenção deste "À Mesa com o Valor" era reatualizar seu perfil por muitos já traçado e "falar um pouco de tudo", Conceição surpreendeu: "Se for para falar de tudo, prefiro futebol. Passei a gostar mais de futebol do que de economia. Felizmente, a imprensa do Rio parou de falar da crise no Flamengo. Antes da Olimpíada só dava saída do Ronaldinho Gaúcho, queda do Joel Santana, entrada do Dorival Júnior...
- A senhora é Flamengo?
- Não, sou Vasco. A imprensa tem esquecido que o Vasco está entre os líderes do Brasileirão desde o início do campeonato. Foi uma pena perder para o Atlético Mineiro por um golzinho e empatar com aquele time paulista enjoado. Que o Lula não me ouça, porque o Corinthians é o time dele. Mas aqui no Rio Lula é Vasco. Flamengo continua uma porcaria...
Conceição agora só dá aulas de 15 em 15 dias no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de onde se aposentou como professora emérita. São aulas de economia internacional para turmas de pós-graduação. Nos intervalos, deixa-se ficar em seu apartamento do Cosme Velho, no Rio, acompanha o futebol pela TV e ainda não se interessou pelo mensalão. E lê: "Numa semana vazia, sem aulas, sem palestras, leio um livro por dia". A leitura é variada, de romances policiais a Virginia Woolf, de clássicos a contemporâneos, entre os autores nacionais.
Ao conhecer os números, percebi quanto o Brasil era grande e desigual. Daí, fui estudar economia
- Para seus alunos, o que está dizendo sobre a atualidade?
- Que está ruim. É o resultado da perversa globalização financeira. Desregularam tudo e abriram as comportas para a especulação. Os bancos é que aprontaram essa trapalhada geral. Veio a crise de 2008 e arrebentou todos. No Brasil, em 2008, a crise não bateu mais pesado porque nossos bancos não estavam metidos na agiotagem internacional. Espero que não estejam metidos agora.
O Empório Santa Fé, o restaurante que Conceição escolheu para este almoço num meio-dia de sol no marco zero do encontro da ex-praia do Flamengo com a ex-praia do Russel, não é foro apropriado para a reprise de suas aulas, mas a economista nos brinda com alguns "insights". Diz que a "crise agora é mais europeia", pois os Estados Unidos voltam a crescer, embora lentamente. "O Estado americano socorreu os bancos, socorreu as empresas, socorreu as famílias que não podiam pagar. O problema na Europa é que seu Banco Central só socorre os bancos, em vez de socorrer os países. E a [Angela] Merkel não muda, né? Os alemães na verdade faturam com a crise. Quem está em crise é o resto da Europa. A Alemanha é uma espécie de xerife da Europa e, ao mesmo tempo, banqueiro rapinante. É a política ortodoxa.
- Qual é o resultado dessa política?
- O óbvio. Muitos países vão quebrar. Tem sorte quem não entrou no euro: a Turquia, que não deixaram entrar, e a Polônia, que tinha moeda fraca, não entrou e está ótima.
Conceição dispensa a oferta de escolher o vinho. No exílio do Chile, conheceu o Carmenère e acrescentou-o ao Malbec argentino na lista de seus preferidos. Mas os chilenos já não a atraem como dantes - "copiaram os americanos e seu vinho ficou muito frutado". E agora só bebe refrigerantes. Para os sólidos, continua exigente. Pede "codornas com pinoli e seus ovos". A repórter prefere "mignonnettes à moda" e o repórter, "arroz com marreco à portuguesa". A fotógrafa Aline Massuca, o mesmo que a professora. Ao final, não sobra nada nos pratos e todos parecem felizes com suas escolhas.
Anadia, uma aldeia do concelho de Aveiro, no oeste de Portugal, a pouco mais de 50 quilômetros de Coimbra, região famosa pela produção caseira de ovos moles, é o local de nascimento de Maria da Conceição de Almeida Tavares, filha de mãe católica e pai anarquista. Em Lisboa, estudava matemática quando, aos 20 anos, se casou com Pedro Soares, aluno de engenharia hidráulica. Formaram-se e vieram em definitivo para o Brasil. "Portugal de Salazar era uma ditadura selvagem, irrespirável."
O casal chegou em fevereiro de 1954, às vésperas de a democracia brasileira mergulhar na crise que levaria ao suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto. Soares foi trabalhar numa empresa de engenharia que realizava obras na lagoa Rodrigo de Freitas, mas Conceição, aos 24 anos e grávida de Laura, hoje professora estadual no Rio, não encontrou empresa privada com necessidade ou disposição de contratar uma matemática. Seu primeiro emprego foi como estatística do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic), hoje Incra. "Fiz as primeiras estatísticas da colonização brasileira", diz. "Vinha de Portugal e já sabia do tamanho do Brasil. Uma coisa é você saber que o país é grande, outra é conhecer os números e perceber quanto é grande e desigual. Foi a desumana distribuição de renda que me levou a estudar economia."
Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/ValorMaria da Conceição: "Janela emperrada não se abre com um cordão. Talvez precise um porrete"
O ingresso na Faculdade de Economia da então Universidade do Brasil foi fácil. Havia um acordo entre os países lusófonos que lhe permitia entrar na faculdade sem prestar vestibular. Estava para cursar o segundo ano quando o conselho da UNB decidiu que o problema era com o diploma do segundo grau. Abandonou a faculdade e teve de matricular-se num curso de madureza para fazer num só os três anos do ciclo colegial - o chamado "Artigo 99". As disciplinas que tinha de repassar eram português, história, geografia... e matemática. E, depois disso, submeter-se ao vestibular.
Tirou o primeiro lugar e voltou ao primeiro ano da faculdade. Em meio ao curso, o mais brilhante dos professores, Octávio Gouvêa de Bulhões (1906-1990), a convidou para ser sua assistente. Inquieta, dedicada, inteligente, por essas virtudes é que Conceição teria sido escolhida, segundo os contemporâneos. Ela prefere explicação mais simples: "Bulhões sabia muito de finanças e nada de matemática. Numa equação simples se embaralhava. Como eu era boa nisso, me chamou como ajudante".
A jovem já seguia os passos de economistas de escolas diferentes das de Bulhões: seu pensamento econômico em formação continha um pouco de Karl Marx e John Maynard Keynes e bastante dos chamados "estruturalistas", que buscavam soluções para o subdesenvolvimento da América Latina: os brasileiros Celso Furtado e Ignácio Rangel e o argentino Raúl Prebisch, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina das Nações Unidas (Cepal). Bulhões, funcionário do Ministério da Fazenda desde 1926, integrou a delegação brasileira na conferência de Bretton Woods (julho de 1944), que criou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e inspirava-se nos clássicos do livre mercado, o escocês Adam Smith, o austríaco Friedrich August von Hayek e o brasileiro Eugênio Gudin.
As divergências não prejudicaram as relações do professor e sua assistente. "Bulhões era liberal em política e conservador em economia. Ele me dizia: 'Pode falar de seus monopólios, mas fale também das coisas que eu digo'. Eu respondia: 'Claro, doutor Bulhões'."
Ainda na Faculdade de Economia, Conceição conseguiu uma vaga no BNDE - na época, sem "S" - para integrar, como matemática, a equipe que traduziria em financiamentos para a infraestrutura o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek. No banco, conheceu Ignácio Rangel (1914-1994), economista até hoje pouco louvado por sua contribuição ao desenvolvimento do país e um dos concretizadores da utopia de JK de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Rangel a estimulou a seguir com atenção as aulas de Bulhões. "A esquerda", dizia, "não estuda com seriedade coisas como moeda, finanças, balanço de bancos, inflação. E isso dá muito mau resultado." Conceição seguiu o conselho e aprendia política monetária, de manhã, com Bulhões na universidade, e, à tarde, estruturalismo com Rangel no BNDE. Deu certo, como se veria pelos vindouros 55 anos.
Mais tarde, Bulhões, ministro da Fazenda da ditadura, foi da banca examinadora do concurso de livre-docência de Conceição para a UFRJ, cuja tese, "Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil", tinha um capítulo de críticas explícitas à política do governo. "Ele me aprovou mesmo assim."
Por que não quis me reeleger deputada? 'Tá maluco? Quase morri! Tive de operar a coluna duas vezes'
A essas alturas (1965), Conceição já se tinha separado de Soares e se casado com Antônio Carlos Macedo, um paleontólogo do Museu Nacional, hoje aposentado e vivendo em Brasília. Macedo, de quem também se divorciaria mais tarde, é pai de Bruno, estudante de cinema depois de ter feito dois outros cursos universitários: produção cultural e economia. "Ele não queria nada com a profissão de economista. Para buscar o diploma, tive que obrigá-lo." Artes audiovisuais parecem ser a verdadeira vocação de Bruno, já autor de documentários sobre Parati e a escola de samba Mangueira. E isso deixa a mãe intelectual visivelmente orgulhosa: "São belas peças", diz. Mas a protetora mãe portuguesa se manifesta quando pergunta à repórter, que tem filha cineasta: "Também faz cinema a sua menina? Está conseguindo se virar, ganhar a vida?"
 Conceição fala de Bulhões com respeito e até carinho. Adversária feroz da ditadura, destaca da política econômica daquela época um dado que, citado por ela, é uma homenagem a Bulhões, pois a correção monetária para enfrentar os problemas da dívida pública foi criação dele. "A moeda indexada nos defendeu mais tarde da dolarização. Somos o único país na América Latina que teve hiperinflação sem dolarizar. Quando Milton Friedman veio ao Brasil, ficou espantadíssimo: 'É o primeiro país que eu vejo que indexa a própria moeda', ele disse."
Professora na UFRJ e mais tarde na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Conceição começou a ficar conhecida por palestras e artigos em revistas especializadas ou nos jornais diários. Saiu do BNDE e foi ser chefe do escritório da Cepal no Rio. Quando veio o golpe militar, já estava na Cepal. No início, não a molestaram na universidade, mas o fato de Celso Furtado ser o 10º na primeira lista de 102 brasileiros com seus mandatos cassados ou direitos políticos suspensos pela ditadura - o 11º foi Josué de Castro, autor de "Geopolítica da Fome" - demonstraria que o golpe não pouparia os intelectuais.
Apesar do rarefeito clima para o livre exercício do pensamento - piorado depois do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968 -, surgiu uma nova geração de economistas, que influenciaria o debate macroeconômico do país pelos 40 anos seguintes. "Era uma geração de cinco brilhantes economistas", afirma e, sem acanhamento, inclui-se entre eles. No lado do governo, destaca Antônio Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen. Na oposição, ela própria e seus colegas, sete e oito anos mais jovens, Carlos Lessa e Antônio Barros de Castro, autores de "Introdução à Economia - Uma Abordagem Estruturalista", best-seller entre estudantes de economia, já na 31ª edição.
Conceição refere-se a esses tempos como de debate exaltado, mas pluralista - até a intromissão da polícia, com as consequentes perseguições, tortura e morte de divergentes. Simonsen foi seu colega no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e a professora não esquece que, anos depois, saiu da prisão por interferência do ministro da Fazenda do general Ernesto Geisel. Delfim era o mais velho, e hoje Conceição acha que, pela "lucidez, contundência, ironia" com que escreve, até parece mais moço. E ri: "Acho que ele pinta o cabelo. Agora é crítico severo da globalização da agiotagem. É um dos nossos".
Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/ValorConceição relembra os grandes mestres: de manhã, moeda com Octávio Gouveia de Bulhões; à tarde, estruturalismo com Ignácio Rangel
- Apesar da ditadura, a senhora estava com frequência na televisão. Mas não me lembro de tê-la visto num debate com o Delfim.
- Acho que nunca estivemos frente à frente. Lembro é do que me disse um taxista em São Paulo, que tinha me visto na TV na noite anterior: "Não discuta com o Delfim, porque ele vai sacanear a senhora". O Delfim era rápido no gatilho, muito sarcástico, poderia mesmo ganhar de mim num debate, apesar de eu não ser das mais lentas. Já o Campos, eu tirava de letra.
- Roberto Campos foi seu professor?
- Era um chato de galochas. Dava aula sobre moeda às 7h30. Lia lá o caderno, todo mundo ficava com sono. Aí os colegas falavam pra mim: "Provoca ele". Eu provocava, ele debatia e a turma ficava acordada. Naquela altura, era moda ser isento, então ele me dava 10 mesmo se eu discordasse do que ele ensinava.
A moda de isenção acabaria pouco depois, em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. A repressão desabou sobre as universidades. Todos os professores acusados de esquerdistas perderam sua cátedra, inclusive Fernando Henrique Cardoso, na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Conceição se salvou porque estava em licença na UFRJ e na Unicamp e a caminho do Chile, para um autoexílio que duraria até 1973. Em 1972, lançou seu livro de maior repercussão e influência: "Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil - Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro". No Chile, trabalhou na Cepal e para o governo de Salvador Allende. E apareceu numa foto dançando com o guru Raúl Prebisch. "Eu dançava com todo mundo", é seu único comentário.
A partir daí publicou mais cinco livros e uma centena de artigos, de cuja reunião em uma ou mais obras sempre descuidou. "Não cuido disso, sou um pouco displicente", reconhece. Quando fez 80 anos, numa grande festa no Rio que reuniu amigos e ex-alunos - entre eles os então candidatos a presidente Dilma Roussef, que conheceu em suas aulas de doutorado em Campinas, e José Serra, com quem conviveu no exílio do Chile - lhe prometeram fazer um livro em sua homenagem e uma coletânea de tudo o que já escreveu.
Se os livros ainda não saíram, a Marinha a homenageou com o Prêmio Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. Em seu discurso, Dilma disse que falava de "discípula para mestra". E Conceição, comovida, se despediu dizendo esperar morrer feliz por ser brasileira e triste por ser europeia, pois não acredita viver o suficiente para ver o fim da crise no velho continente.
No dia seguinte, almoçou em Palácio com Dilma e o ministro Guido Mantega. Não falaram de futebol, mas Conceição não diz sobre o que discutiram. Para provocar seu amigo ministro da Fazenda, faz uma só confidência: "Dilma dizia: 'Guido, presta atenção'".
- A senhora está bem de saúde?
- Estou bem. Há alguns anos, pensaram que eu tinha um câncer atrás das costelas. Abriram - a operação foi horrível! - e era um tumor no tuberculino que devo ter trazido de Portugal, quase tão velho quanto eu. Trataram, e ele desapareceu.
O café é servido e a professora sai para fumar um dos 40 cigarros que consome por dia. O repórter a acompanha e, cavalheiro, não a deixa fumar sozinha.
Ao contrário de muitos dos companheiros de vida acadêmica, Conceição não pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro na juventude - "era apenas próxima" - e depois da ditadura se filiou ao PMDB, passando para o PT quando houve o cisma no partido de Ulysses Guimarães. Nunca foi, porém, militante muito disciplinada. Quando o PMDB apoiou Moreira Franco para o governo do Rio - "lindo apelido Leonel Brizola lhe arranjou: gato angorá" -, Conceição se negou a votar nele. No PT, quando a direção nacional resolveu apoiar "o cretino do [Anthony] Garotinho" para governador, foi direto a Lula para protestar. Não votou e foi ao Rio Grande do Sul fazer a campanha do petista Olívio Dutra.
Em 1993, foi a segunda mais votada para deputada federal na legenda do PT - o primeiro foi Milton Temer, hoje no PSOL.
- Por que não quis disputar a reeleição?
- 'Tá maluco? Quase morri. Éramos só 50, 10% da Câmara. Fomos levados de roldão pelo rolo compressor do PSDB com o PFL. Não dava para fazer nada. Nem a taxação das grandes fortunas, um projeto do próprio Fernando Henrique de outros tempos, que emendei cuidadosamente, conseguimos levar adiante. Consegui aprovar na comissão de finanças, mas para levar ao plenário precisava de não sei quantas assinaturas. Fui de deputado em deputado. O Delfim até assinou e disse a um colega dele: 'Assina aí pra professora não perder seu tempo. Depois a gente derruba no plenário'. Minha coluna estourou lá de tanto estresse. Fiz duas operações de coluna. Ah não, foi horrível!"
O garçom vem oferecer o licor, delicado, perfumoso Moscatel de Setúbal, cortesia da casa. É por causa da professora portuguesa, com certeza.
- Como foi essa história de o Simonsen tê-la tirado da cadeia?
- O Mário Henrique foi direto falar com o general Geisel.
A professora conta como foi sua prisão. Voltara do Chile em 1973 e continuara fazendo trabalhos para a Cepal. Em 75, ia viajar para Santiago, quando a prenderam no aeroporto do Galeão. Levaram-na num táxi para a sede do Dops e de lá, encapuzada e obrigada a deitar-se no chão do carro, a transportaram para a Polícia do Exército. Havia testemunhas de sua prisão no Galeão e "todo mundo se mexeu". Sua filha já estava no Dops com advogado. Em Brasília, o então ministro de Indústria e Comércio, Severo Gomes, ligou para o Dops, para o I Exército, e lhe responderam que não havia ninguém preso ou detido com o nome da economista. Severo Gomes ligou, então, para Simonsen.
Conceição conta como foi o diálogo: "Severo Gomes: 'Prenderam sua colega, a Maria'. Simonsen: 'Ela é maluca. Não pode ser'. Severo Gomes: 'Prenderam, sim, e ninguém sabe para onde a levaram. Fale com o presidente". Simonsen estava em Brasília e foi ao Geisel. O general deu um murro na mesa: "Não é contra ela, é contra mim", segundo relato, mais tarde, do próprio ministro. Sem saber, a professora se vira envolvida nas disputas entre Geisel e os porões. Ordens foram dadas e, em horas, Conceição estava livre. Daí foi a vez de Bulhões, já não mais ministro, interferir. Ligou para Simonsen e explicou que Conceição poderia ser presa novamente se tentasse viajar. E Simonsen mandou que, em carro oficial e com escolta, Conceição fosse deixada na escada do avião - em outro voo, porque o primeiro fora perdido.
- Agradeceu ao Simonsen mais tarde?
- O Ministério da Fazenda ainda era no Rio. Entrei no gabinete dele e fui dizendo daquele meu jeito mal-educado. "Olá, Mário, tudo bem? Nem vou agradecer porque você não fez nada mais do que sua obrigação".
São 3 da tarde, última semana da Olimpíada de Londres, e Conceição se retira. Declina da carona e toma um táxi sozinha. Ela tem pressa: "Quero ver as meninas na final do vôlei de praia".

domingo, janeiro 15, 2012

ENSINO PRIVADO: MOVIMENTAÇÃO ECONÔMICA EM 2012

Comentários Moisés Basílio:
Os números estão aí para serem interpretados. Como a própria reportagem afirma esses números não são precisos, portanto vamos a análise com cuidados.


Os números nos mostram que o crescimento dos investimentos no setor da educação formal (ensino) privado da economia brasileira continua, principalmente em fusões e aquisições. Na prática isso significa que as instituições de ensino particulares estão migrando de proprietários tradicionais para proprietários corporativos, inflados com capitais externos.  


Esses novos donos são muito agressivos na conquista desses novos mercados. A ênfase é oferecer o ensino que o mercado emergente brasileiro diz necessitar, ou seja, formar a força de trabalho para a inserção do país no mercado global. E também aproveitar o aumento da demanda por ensino superior, com o aumento da escolaridade da população brasileira e com o aumento do financiamento público (prouni, fies etc), que põe na roda mais dinheiro. 


Portanto, um modelo de instituição de ensino com um forte vínculo com o mercado, pois busca seu financiamento no mercado e tem como objetivo formar para o mercado. Como sabemos que o mercado flutua de acordo com as oscilações de seus lucros, esse modelo está fadado a sofrer com essas movimentações. O tempo dirá. 

   
FUSÕES BATEM RECORDE NO SETOR DE EDUCAÇÃO
Ensino chega a R$ 2,4 bilhões em aquisições
Por Beth Koike | De São Paulo - Valor Econômico - 09/01/2012
O movimento de fusões e aquisições no setor de ensino privado bateu recorde no ano passado. Só as operações - cerca de 20 - realizadas por quatro empresas de capital aberto movimentaram R$ 2,4 bilhões. No total, ocorreram 27 transações, mas não há dados precisos sobre as que envolveram instituições menores e de capital fechado. Nunca houve um valor tão alto no país, pelo menos desde 2007, quando os grandes grupos de ensino começaram a abrir seu capital e passaram a tornar públicas suas contas. Em 2012, o setor deve continuar registrando negócios, porque existe ainda espaço para consolidação no ensino fundamental e médio, afirma Luís Motta, sócio da KPMG.
O mercado brasileiro de ensino encerrou o ano movimentando cerca de R$ 2,4 bilhões em aquisições. Este é o montante investido somente por Anhanguera, Abril Educação, Estácio e Kroton, segundo levantamento feito pelo Valor. Trata-se do maior volume já negociado em compras de empresas no setor de ensino no país pelo menos desde 2007, quando os grupos de educação começaram a abrir o capital. De lá para cá, o valor investido em fusões e aquisições praticamente quadruplicou de tamanho.
Levando-se em consideração o número total de fusões e aquisições em ensino (incluindo-se empresas de capital fechado), foram feitas 27 transações em 2011, segundo a consultoria KPMG. Desse total, cerca de 20 envolveram empresa de capital aberto. Não é possível informar o valor total dos negócios, pois há operações cujos termos não foram divulgados.
O setor deverá continuar registrando fusões e aquisições em 2012. "Há espaço para consolidação nos ensinos fundamental e médio e também em sistemas de ensino", diz Luís Motta, sócio da KPMG. O recorde anual deu-se em 2008, com 53 negócios. Várias empresas abriram o capital em bolsa e foram às compras. "Mas foram negócios com volumes financeiros menores. Não havia transações tão relevantes como, por exemplo, a da Kroton", diz Motta.
Em 2011, o valor recorde de transações foi puxado pela mineira Kroton que comprou por R$ 1,3 bilhão a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), que tem como chamariz o status de líder do segmento de ensino a distância. Essa operação, comandada pelo presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, foi a maior já fechada na história do setor de educação no país. Tamanha aposta por parte da Kroton, cujo principal acionista é o fundo americano Advent, é o potencial do mercado de ensino a distância que pode dobrar de tamanho em cinco anos.
Outra transação de destaque foi a da Anhanguera, que pagou R$ 510 milhões pela Uniban - uma das últimas grandes faculdades de São Paulo que ainda não haviam sido vendidas. Com a aquisição, a faculdade controlada pelo fundo de private equity Pátria fincou pé no mercado paulistano, considerado o mais rentável do país.
A Anhanguera é o maior grupo de ensino do país, com 292 mil alunos. Mas a Kroton encostou na líder ao levar a Unopar e hoje ocupa a segunda posição, com 264 mil estudantes. O mercado nacional de educação superior tem 5,3 milhões de alunos, sendo que 75% estão matriculados em faculdades particulares.
A forte movimentação no setor de educação também foi motivada, a partir de 2010, pela retomada dos investimentos da britânica Pearson e da brasileira Abril Educação. Ambas estavam atuando de forma tímida no país e desembolsaram quantias importantes para adquirir dois sistemas de ensino (apostilas). Em julho de 2010, a Abril Educação adquiriu o Anglo por R$ 717 milhões. Dez dias depois, a Pearson anunciou a compra dos sistemas de ensino da SEB (COC, Dom Bosco e Pueri Domus) por R$ 888 milhões. Com o Anglo, a Abril Educação foi à bolsa, levantou R$ 317 milhões e fechou mais quatro aquisições em 2011, que somaram R$ 279 milhões.
Em dezembro, a Pearson anunciou a compra, por meio de sua editora Penguin, de 45% da Companhia das Letras. Com a compra de uma das editoras brasileiras mais renomadas, a Pearson poderá integrar os negócios de educação e literatura. Uma das ideias é ampliar o acervo da biblioteca virtual da Pearson com obras da Companhia das Letras.
Matrícula em cursos técnicos sobe para 18% do total no ensino médio
A procura pela educação profissional cresceu mais de 50% no Brasil nos últimos cinco anos. Entre 2005 e 2010, a fatia das matrículas em cursos técnicos sobre o total verificado no ensino médio regular passou de 8,2% para 13,6%, atingindo 1,140 milhão de alunos no ano passado. Em 2011, o peso das matrículas pode ter ficado entre 15% e 18%, informou ao Valor Eliezer Pacheco, titular da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec-MEC). A confirmação virá com a conclusão da apuração do Censo Escolar da Educação Básica de 2011.
Segundo Pacheco, o desempenho foi acelerado pela expansão da rede federal de escolas técnicas - mais de 200 institutos foram abertos entre 2003 e 2011 -, pelo aumento da oferta pela rede particular, responsável por quase 550 mil matrículas, e, mais recentemente, com as primeiras matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em outubro de 2011. "Nossa avaliação inicial do programa mostra que o Pronatec matriculou 66,5 mil alunos em 2011 e temos uma média diária de 1.460 pré-matrículas registradas em dezembro", informa Pacheco.
Em 2011, o valor recorde de transações foi puxado pela mineira Kroton que comprou por R$ 1,3 bilhão a Unopar (Universidade do Norte do Paraná), que tem como chamariz o status de líder do segmento de ensino a distância. Essa operação, comandada pelo presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, foi a maior já fechada na história do setor de educação no país. Tamanha aposta por parte da Kroton, cujo principal acionista é o fundo americano Advent, é o potencial do mercado de ensino a distância que pode dobrar de tamanho em cinco anos.
Outra transação de destaque foi a da Anhanguera, que pagou R$ 510 milhões pela Uniban - uma das últimas grandes faculdades de São Paulo que ainda não haviam sido vendidas. Com a aquisição, a faculdade controlada pelo fundo de private equity Pátria fincou pé no mercado paulistano, considerado o mais rentável do país.
A Anhanguera é o maior grupo de ensino do país, com 292 mil alunos. Mas a Kroton encostou na líder ao levar a Unopar e hoje ocupa a segunda posição, com 264 mil estudantes. O mercado nacional de educação superior tem 5,3 milhões de alunos, sendo que 75% estão matriculados em faculdades particulares.
A forte movimentação no setor de educação também foi motivada, a partir de 2010, pela retomada dos investimentos da britânica Pearson e da brasileira Abril Educação. Ambas estavam atuando de forma tímida no país e desembolsaram quantias importantes para adquirir dois sistemas de ensino (apostilas). Em julho de 2010, a Abril Educação adquiriu o Anglo por R$ 717 milhões. Dez dias depois, a Pearson anunciou a compra dos sistemas de ensino da SEB (COC, Dom Bosco e Pueri Domus) por R$ 888 milhões. Com o Anglo, a Abril Educação foi à bolsa, levantou R$ 317 milhões e fechou mais quatro aquisições em 2011, que somaram R$ 279 milhões.
Em dezembro, a Pearson anunciou a compra, por meio de sua editora Penguin, de 45% da Companhia das Letras. Com a compra de uma das editoras brasileiras mais renomadas, a Pearson poderá integrar os negócios de educação e literatura. Uma das ideias é ampliar o acervo da biblioteca virtual da Pearson com obras da Companhia das Letras.
Matrícula em cursos técnicos sobe para 18% do total no ensino médio
A procura pela educação profissional cresceu mais de 50% no Brasil nos últimos cinco anos. Entre 2005 e 2010, a fatia das matrículas em cursos técnicos sobre o total verificado no ensino médio regular passou de 8,2% para 13,6%, atingindo 1,140 milhão de alunos no ano passado. Em 2011, o peso das matrículas pode ter ficado entre 15% e 18%, informou ao Valor Eliezer Pacheco, titular da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (Setec-MEC). A confirmação virá com a conclusão da apuração do Censo Escolar da Educação Básica de 2011.

Segundo Pacheco, o desempenho foi acelerado pela expansão da rede federal de escolas técnicas - mais de 200 institutos foram abertos entre 2003 e 2011 -, pelo aumento da oferta pela rede particular, responsável por quase 550 mil matrículas, e, mais recentemente, com as primeiras matrículas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em outubro de 2011. "Nossa avaliação inicial do programa mostra que o Pronatec matriculou 66,5 mil alunos em 2011 e temos uma média diária de 1.460 pré-matrículas registradas em dezembro", informa Pacheco.

segunda-feira, julho 12, 2010

OS DEZ MANDAMENTOS ATUALIZADOS E AS ELEIÇÕES 2010

Comentários do Moisés Basílio: Uma nova versão para os dez mandamentos, escrita pelo professor Ladislau Dowbor. Em tempo de discutirmos os programas eleitorais dos canditatos às eleições de 2010, o texto é um bom sistematizador de boas práticas econômicas, políticas e sociais para compararmos com o que está se expondo à praça. Axé!


Os Dez Mandamentos
Ladislau Dowbor
(Edição revista e atualizada)

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.

Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.


I – Não comprarás os Representantes do Povo
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?

Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.

II – Não Farás Contas erradas
As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas. A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria
Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão
Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra. Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.

V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas
Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Viverás para o Dinheiro
A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais. No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.

Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente. Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros
Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.
A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.
Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas.

VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas
A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais. O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis.

O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego. A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento
Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.

O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo
Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.

O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.

Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org