segunda-feira, dezembro 20, 2010

Entrevista com o Professor Kabengele Munanga - 2008

Comentários Moisés Basílio: Nesse semestre tive o privilégio de ter cursado a disciplina Antropologia da Sociedade Multi-racial Brasileira: O Segmento Negro, com o Professor Kabengele no Departamento de Antropologia da USP. Embora aqueles que são racistas, ou que vivem sobre a influência do "mito da democracia racial" não admitam que exista racismo no Brasil, ele está aí, e bem presente, como analisa o Professor Kabengele nessa entrevista de dois anos atrás que eu ainda não conhecia. Axé!


RACISMO: ORIGENS E CONQUÊNCIAS

Fonte: Revista Claudia 2008 . Entrevista com o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da FFLCH/USP e autor de "Origens Africanas do Brasil Contemporâneo: Histórias, Línguas, Culturas e Civilizações" (ed. Global) 

CLAUDIA - Qual é a origem do racismo no mundo?
Prof. Kabengele Munanga - Não existe unanimidade entre os estudiosos sobre a origem do racismo. Sociólogos e antropólogos pensam que o racismo foi construído na modernidade ocidental pelos filósofos iluministas e naturalistas. A partir do século 18, esses filósofos iniciaram a obra de classificação científica da diversidade humana em raças distintas, decretadas por eles de inferiores e superiores com base nas diferenças somáticas. Já trabalhos mais recentes, como o de Isaac Benjamin (The Invention Of Racism in Classical Antiquity. Princeton and Oxford, Princiton University Press, 2004), encontram as raízes do racismo na antiguidade clássica, entre os gregos e os romanos.
Apesar da controvérsia sobre as origens do racismo, sua essência é única. É a idéia de que a diversidade humana é composta de grupos biologicamente contrastados (cor da pele, traços morfológicos e marcadores genéticos). Esses grupos são hierarquizados com bases nessas diferenças em raças superiores e inferiores, numa  pirâmide encabeçado pelo grupo branco, tendo os negros na base inferior e os chamados amarelos na parte intermediária. Essa classificação é usada para justificar e legitimar a dominação de um sobre os outros.

CLAUDIA - Quais as consequências do racismo no mundo?
Prof. Kabengele Munanga - O racismo causou grandes problemas na história da humanidade a partir do momento em que as teorias racialistas  se transformaram em ideologias dos Estados colonialistas para legitimar a dominação e a ocupação dos territórios africanos, em ideologias oficiais dos Estados nazistas e fascistas que originaram o genocídio de milhões de judeus e ciganos durante a 2ª guerra mundial. Os sistemas segregacionistas do sul dos Estados Unidos (sistema Jim e Crow) e da África do Sul (apartheid), os racismos de fato em todos os países da América do Sul encabeçados pelo Brasil se fundamentarem no racismo explícito e/ou implícito que está na origem das desigualdades raciais e da exclusão dos negros nos postos de comando e responsabilidade. A Constituição Brasileira de 1988, que considera as práticas racistas como crime inafiançável e sujeito a reclusão, é prova do reconhecimento da existência do racismo de fato pelo legislador brasileiro. A polêmica sobre as políticas de ação afirmativa e cotas que hoje divide os intelectuais, políticos, ativistas e midiáticos é também prova da existência desse racismo de fato que, dentro de suas peculiaridades, causa grandes problemas para a construção da democracia brasileira.

CLAUDIA No Brasil, quais foram as principais lutas contra o racismo?
Prof. Kabengele Munanga - O Brasil, como sociedade genuinamente racista, nunca teve leis racistas institucionalizadas como nos Estados Unidos e na África do Sul. Também levou muitos anos para ter leis protecionistas contra o racismo para não contradizer seu mito de democracia racial. Mas em 1951, alguns episódios de discriminação levaram o então deputado Affonso Arino a propor um projeto de Lei, que foi votado e se transformou em Lei Affonso Arino, que considerava prática de racismo como uma contravenção penal sujeita a uma multa derrisória. Lei que não funcionava por falta de provas testemunhais. Com a nova Constituição de 1988, um grande salto foi realizado, ao tornar prática racista crime inafiançável e sujeito à reclusão. Apesar de funcionar muito pouco por causa de faltas de provas testemunhais, essa lei representa um grande avanço no combate repressivo às práticas racistas no país, embora não se substitua às políticas públicas afirmativas e macro-sociais.
A Fundação Cultural Palmares que veio pelo raio de ação da nova Constituição é certamente significativa como reconhecimento da contribuição cultural do negro no Brasil. De fato, Palmares era uma comunidade quilombola hoje considerada como ícone da resistência contra a escravatura e, conseqüentemente, o ponto de partida das outras resistências coletivas negras passadas, presentes e futuras. Depois do episódio de Palmares, nota-se a fundação da Imprensa Negra Brasileira, seguida  pela fundação da Frente Negra Brasileira, transformada em partido político nos anos 30. A luta da Frente Negra era justamente contra o racismo e em favor da integração do negro na sociedade brasileira. Nos anos 40 surgiram também outras organizações negras contra o racismo como o Teatro Experimental Negro e o movimento quilombismo liderados por Abdias do Nascimento.
Mas creio que os episódios mais marcantes  contra o racismo nos últimos 30 anos se iniciam com a fundação do Movimento Negro Unificado contra o racismo (1978), cuja marcha em Brasília, em novembro de 1995, tinha em sua pauta de reivindicação a exigência das políticas afirmativas e das cotas já como formas concretas de luta contra as desigualdades raciais.
Seis anos depois, veio a Conferência Mundial contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, organizada pela ONU em agosto/setembro de 2001 em Durban, na África do Sul. A pressão das organizações do Movimento Negro sobre a representação oficial do Estado Brasileiro nessa conferência resultou nas propostas de implementação das políticas de ação afirmativa, inclusivas as cotas em benefício das populações negras, indígenas e outras minorias como homossexuais, judeus, ciganos, etc.  Voltando para casa depois da conferência, o governo brasileiro como membro signatário da Declaração de Durban começou sua lição de casa. Foi assim que a partir de 2002, desencadeou-se um processo de implementação de ação afirmativa cujo debate gerou as controvérsias que permanecem até hoje. Os projetos da Lei das cotas e do Estatuto da Igualdade racial, que tramitam ainda na esfera legislativa, são conseqüência desse processo que começou efetivamente em 2001, mas com antecedências na marcha de Brasília de 1995 pelo Movimento Negro. Apesar da lentidão do legislativo na votação dessas propostas de leis, cerca de 70 a 80 universidades públicas estaduais e federais se adiantaram  por entender que era urgente e inadiável as propostas de mudanças na educação superior e universitária e implementaram cotas em favor de negros, índios e brancos oriundos da escola pública. Portanto, sem minimizar as ações anteriores, eu creio que o momento mais marcante na luta concreta contra o racismo no Brasil é esse que estamos vivendo e que começou efetivamente por volta de 2001. A criação pelo atual governo da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), a promulgação das leis 10.639/03 e 11.645/08 que tornam obrigatório o ensino da história do negro e das populações indígenas na escola brasileira, entre outros, fazem parte do pacote de ações afirmativas no âmbito do governo.

CLAUDIA Como avaliar o preconceito racial atualmente no mundo e no Brasil?
Prof. Kabengele Munanga - O preconceito racial no mundo não cedeu, apesar dos progressos da ciência que ensina que a raça não existe biologicamente. Podemos continuar a afirmar que as raças superiores e inferiores não existem, no entanto, os preconceitos e as práticas racistas no mundo se mantêm. Se as raças não existem biologicamente, no imaginário coletivo das pessoas e sobretudo das pessoas racistas, elas existem com toda a carga simbólica de inferioridade e superioridade. Daí a afirmação de que a raça é social, política e ideológica e não biológica. Essas raças fictícias e imaginárias, acrescentando-se a fenotipia das pessoas (brancos, negros, índios, mestiços), explicam todas as manifestações de preconceito e práticas de discriminação racial que estamos vivendo ainda no século XXI.
No Brasil estamos vivendo um momento único e crucial que o país não pode perder para não retroceder no passado consolidado pelo ideal de democracia racial que considerava o Brasil como um paraíso racial. Os avanços ilustrados entre outros por cerca de 70 a 80 universidades públicas que aderiram às cotas sem esperar a votação das leis em tramitação na esfera legislativa são provas irrefutáveis de que alguns segmentos da sociedade querem mudanças.

terça-feira, outubro 12, 2010

Não deixe sua cor passar em branco - Censo 2010

Comentários Moisés Basílio: 
Já é o meu sexto censo. Quando nasci em 1960 o Brasil tinha uma população de cerca de 70 milhões de habitantes. 40 milhões ainda viviam no campo e o sexo masculino era predominante. 

 Quanto ao quesito cor/raça o censo de 2000 trouxe novidades. O número dos que se declaram branco que desde 1940 vinha caindo teve um crescimento percentual de 2,12% entre 1990 e 2000. O número dos que se identificam como pretos, que também vinha caindo desde 1940, teve um crescimento percentual de 1,03% entre 1990 e 2000. Já com os que se declararam pardos aconteceu o contrário. Os pardos que sempre cresceram desde o censo de 1940, entre os anos 1990 e 2000 tiveram uma queda de 4,04%. Os amarelos continuam a tendência de queda. E os indígenas mais que dobraram de tamanho suas populações entre 1990 e 2000, sendo que antes de 1980 nem eram contados pelo censo.

Para o censo de 2010 aguardo ansioso o que irá acontecer com a categoria parda. Pelo crescimento dos movimentos negros, até 2000, muitos que declaravam pardos ou brancos em censos anteriores assumiram a categoria parda no censo. Do ano 2000 até 2010 a luta racial ampliou seus questionamentos em torno da ideia de senso comum de que no Brasil vivemos uma democracia racial. O principal instrumento de pressão foi à luta pela política de cotas, principalmente nas universidades públicas. O tema é polêmico e divide opiniões até nos movimentos negros, mas teve o mérito de publicizar para o grande público essa discussão da identidade do brasileiro a partir das categorias cor da pele e raça. Particularmente minha hipótese é que haja um aumento substantivo de pessoas se autodeclarando preto e uma queda acentuada dos que se autodeclaram pardos. Vamos aguardar os números finais do censo.

Para concluir, repito o mote: Não deixe a sua cor passar em branco, pois ela  faz parte da sua identidade. E olhe também a bela poesia na letra do samba composto por Nei Lopes a respeito do censo brasileiro de 2010. Axé!


Tabela - Distribuição proporcional da população por cor ou raça – censos selecionados


Branca
Preta
Amarela
Parda*
Indígena
s/ declaração
1940
63,58
14,66
0,59
21,32
-

-

1950
65,08
10,36
0,59
23,98
-

0,01
1960
59,70
8,37
0,66
31,27
-
0,08
1970
-
-
-
-
-
-
1980
54,91
6,09
0,60
38,40
-
0,58
1991
51,83
5,16
0,46
42,36
0,19
0,35
2000
53,95
6,19
0,45
38,32
0,43
0,66
Nota: * Até 1980, inclusive, a população parda incluía a população indígena.
Fonte : IBGE, Censo Demográfico 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991 e 2000.




















Fonte: Sítio do IBGE - http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/demograficas.html

No Brasil de 2000 menos pessoas se declararam de cor parda.
Comparados aos resultados do Censo de 1991, os resultados do Censo 2000 registraram a redução da parcela da população que se declarou parda e um pequeno aumento da população que se declarou branca ou negra
Veja o gráfico abaixo:
Composição da População por Raça
1991 2000
Total 146 815 796 Total 169 872 856
Branca 75 704 927 Branca 91 298 042
Parda 62 316 064 Parda 65 318 092
Preta 7 335 136 Preta 10 554 336
Amarela 630 656 Amarela 761 583
Indígena 294 135 Indígena 734 127
Sem declaração 534 878 Sem declaração 1 206 675
Fonte: Censo Demográfico 2000: Resultados do Universo
No Brasil de 2000 menos pessoas se declararam de cor parda.
Comparados aos resultados do Censo de 1991, os resultados do Censo 2000 registraram a redução da parcela da população que se declarou parda e um pequeno aumento da população que se declarou branca ou negra
Veja o gráfico abaixo:
Composição da População por Raça
1991 2000
Total 146 815 796 Total 169 872 856
Branca 75 704 927 Branca 91 298 042
Parda 62 316 064 Parda 65 318 092
Preta 7 335 136 Preta 10 554 336
Amarela 630 656 Amarela 761 583
Indígena 294 135 Indígena 734 127
Sem declaração 534 878 Sem declaração 1 206 675
Fonte: Censo Demográfico 2000: Resultados do Universo
Fonte: Blog Meu Lote - Nei Lopes - Quinta-feira, Setembro 02, 2010 - http://www.neilopes.blogger.com.br/



QUANDO O CENSO BATER NA MINHA PORTA

Sou mameluco, sou cafuzo?/ Negro de keto ou nagô?/ Amarelo, pardo, índio,/ minha cor qual é que é? / Judeu, ateu, ET / Cristo, buda, oxumaré / Qual é a minha tribo / responde, IBGE! ..."
– De um samba-enredo dos jornalistas João Pimentel, Marceu Vieira e Arnaldo Bloch, em O Globo, 29.08.2010

Quando o Censo chegar aqui no Lote
Pra saber minha cor ou minha origem,
(Pois é cláusula que hoje o senso exige
Pro Brasil entender qual é seu dote),
Eu que sei que sou afro realmente,
Por meus beiços, nariz e pixaim
Que me dizem na certa de onde vim,
Pela história de vida dos parentes
De racismo e exclusão sempre presentes;
Pela saga de meus antepassados
Imigrantes também, só que forçados,
Eu respondo: sou afrodescendente!

Todo negro nagô veio de Queto
Da fronteira Nigéria-Daomé
De onde veio a família do Pelé
E de muito sambista pardo e preto.
Veio negro do sul do continente
Certamente parente de Mandela,
De Cabinda, Luanda e de Benguela
Do sudeste africano e do oriente.
E eu que guardo esse mapa em minha mente
Quando o Censo bater na minha casa
Faço um passo de samba e mando brasa:
– Meu “cumpádi”, eu sou afrodescendente!

O Brasil é de fato misturado
Porém só se mistura nos porões:
Quando a coisa é nos altos escalões,
A alegada mistura nunca chega.
E isso assim de “meu nego” e “minha nega”
Só se passa na cama, e não na mesa.
Quando é pra compartilhar riqueza
Dividir posição proeminente,
Ninguém vai me querer como parente.
É por isso que, quando da entrevista,
Digo ao IBGE que sou sambista
E me orgulho em ser afrodescendente.

(NL, 30.08.10).


sábado, outubro 02, 2010

Negros no Estúdio do Fotógrafo

Comentários Moisés Basílio: Mal acabei de ler a bela resenha da Lilia Schwarcz, usando das facilidades tecnológicas, entrei no sítio da Editora da Unicamp e encomendei o livro. É muito bom viver num tempo em que se escreve a história dos negros brasileiros a partir do olhar dos negros. Vamos conferir a obra e depois deixo por aqui minha opinião. Axé!


Livro: Negros no estúdio do fotógrafo - Brasil, segunda metade do século XI, de Sandra Sofia Machado Koutsoukos, Editora Unicamp, 360 págs., R$ 48,00.

Sinopse

Nos estúdios fotográficos do Brasil no século XIX, compareciam pessoas de todas as camadas sociais, desde a alta sociedade até os mais humildes. Este livro apresenta fotos de negros no Brasil daquele período. Vemos negros livres, libertos, escravos domésticos, até mesmo fotos de presos da primeira penitenciária construída no Brasil. Por meio de vasta pesquisa acadêmica, a autora traça o caminho da produção daqueles retratos, sua significação, sua circulação e seu armazenamento em álbuns. Ao explorar as histórias por trás das imagens, o livro dá vida àquelas personagens, torna-nos íntimos delas, faz-nos pensar em nossos próprios retratos, em nossos próprios álbuns, reaviva nossa memória.
  
Sobre a autora: Sandra Sofia Machado Koutsoukos é graduada em belas-artes pela UFRJ, mestre em artes e doutora em multimeios, mídia e comunicação pelo Instituto de Artes da Unicamp. Em seu pós-doutorado no Instituto de Artes da Unicamp, apoiado pela Fapesp, a autora pesquisa a exibição de pessoas nas exposições do século XIX e início do XX.

Resenha: Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 02/10/2010, caderno Sabático, S8.      Sujeitos de sua própria imagem

Por Lilia Moritz Schwarcz 
A fotografia chegou cedo ao Brasil. Foi em maio de 1839, em plena Paris modernista, que Louis Jacques Daguerre anunciou seu novo invento, que logo se transformaria em símbolo e projeção dessa época ligeira e dada a verdade voláteis. No outro lado do hemisfério, no reino tropical brasileiro, o abade Compte, logo em janeiro de 1840, publicava no Jornal do Commercio artigo sobre a introdução da técnica no Império de d. Pedro. O primeiro daguerreótipo, tirado no Rio de Janeiro - no Brasil e na América Latina registrava - o Paço Imperial com uma tropa bem a frente. Já o monarca, dado às modas científicas, achou por bem transformar-se no primeiro soberano fotógrafo, assim como incentivar o invento que prometia maravilhas num tempo breve. Em segundos seria possível captar de tudo: paisagens, animais e pessoas.
Acervo Museu Paulista/Reprodução
Acervo Museu Paulista/Reprodução -Postura. Retrato de um senhor com seus cativos: a figura de braços cruzados parece querer expressar um ar desafiador
A técnica se desenvolveria, rapidamente daria conta das fragilidades iniciais e ganharia em popularidade. Além do mais, com o apuro do invento, os preços despencam e alcançam bolsos de clientela mais alargada. No Brasil, os estúdios e ateliês de fotografia inundariam a elegante rua do Ouvidor, na Corte, assim como entrariam nas províncias afastadas, prometendo a reprodução condigna da imagem de seus orgulhosos fregueses. Começava, então, a era "dos cartões de visita", o famoso formato que permitia a distribuição de fotos em maior quantidade e qualidade. Com eles surgiam os estúdios cada vez mais equipados, e assegurando a realização de desejos recônditos: alguns queriam ser clicados tendo ao fundo os trópicos americanos; outros os longínquos Alpes suíços. Certos fregueses optavam por apresentar-se portando casacas, joias e bengalas; outros cercavam-se de livros, esculturas, pianos e globos; quase todos falsos, feitos para não durar. Balaustradas, degraus, construções feitas de papelão ... tudo servia para dar vida às representações dessas novas elites, que viam na fotografia uma via para imortalizar seu status e posição. Foi Susan Sontag, em seu On Photography, quem mostrou como desde seus primórdios a fotografia serviu à mentira: anula a ação do tempo, contorna imperfeições, embeleza o óbvio.
Mas, se são conhecidos os usos que as elites fizeram da técnica, pouco se estudou a presença de negros, mulatos e mestiços - livres ou cativos - nas fotografias do 19 brasileiro. E eles estão por toda parte: ora como detalhes desfocados, ora como personagens principais. Em alguns momentos parecem envergonhados; em outros, surgem orgulhosos e dignos. Certas vezes são retratados trajando vestes grandes demais e que revelam o empréstimo das roupas por ocasião da foto; em outras ocasiões ostentam instrumentos de trabalho: enxadas, caixas de engraxate e toda sorte de aparatos. E é sob esse vasto material que Sandra Sofia Machado Koutsoukos se debruça com grande sensibilidade. Não poucas vezes a analista interrompe a descrição para emitir juízo pessoal, ou interroga seus leitores num estilo pouco usual. Também não poucas vezes oferece painel amplo, maior até do que se propõe analisar, mas tudo com serventia, já que ficamos conhecendo meandros da foto, da técnica, do ensino e do contexto.
Negros no Estúdio do Fotógrafo é livro que não se abre mão. O material é imenso e disperso, mas a historiadora o doma com maestria. Uma coisa é observar a presença de negros nos cantos das imagens, secundando seus senhores, andando anonimamente pelas ruas ou mesmo posando em cartões-postais; já dar organicidade ao material, jogá-lo para a frente da análise, é outra história. A autora organiza as fontes em três categorias: na primeira estariam as fotos de escravos domésticos levados aos estúdios por seus senhores que, por alguma razão, guardaram as imagens em seus álbuns de família. Aí estão as amas de leite, cativos domésticos; todos descalços, uma vez que a ausência de sapatos é símbolo maior do cativeiro. Na segunda leva estão as fotos vendidas como "exóticas"; tal qual souvenir para estrangeiros. Nelas escravos aparecem nas mais diferentes situações: no trabalho, dançando ritualmente, cozinhando, mas sempre caracterizados como "tipos". Paradoxal por definição, esse tipo de fotografia era vendida sob a rubrica de "coisas bem brasileiras", conforme descrição do fotógrafo Cristiano Junior, mas causavam certa vergonha, sobretudo no Império de Pedro II, que se pretendia tão civilizado. Na terceira categoria figuram as fotos etnográficas, com objetivos científicos e feitas para servir como suporte para as teorias raciais em voga no contexto. Aqui está o lado ainda mais perverso dessa cartografia de imagens: negros fixados de perfil ou de frente, a comprovar medidas da frenologia; mulatos criminosos fichados a partir de seus estigmas. Exemplo dos mais significativo são as fotografias da famosa Galeria dos Condenados. Ao todo são 320 fotos de presos, sendo 318 homens e 2 mulheres. Tiradas na Casa de Correção da Corte durante 20 anos, a contar de 1834, teriam figurado na Exposição Nacional de1875 e depois na Feira Internacional de Londres de 1876, quando técnica e ciência pareciam estar a serviço do controle e da classificação.
Indolência. Costurando todos esses enredos, está o argumento central de Sandra, que parte do princípio de que, em qualquer situação, o escravo não era apenas, e exclusivamente, um suporte: um objeto. "Dava-se a ver" mas também "se fazia ver", agenciando e municiando como sujeito sua própria imagem. Se o fotógrafo ou o senhor controlavam a escravidão, não tinham passaporte sobre a personalidade do "cliente", que irrompia inesperadamente nas fotos: ora mais curioso, ora mais amedrontado, ora francamente desafiador. Não poucas vezes escapavam panos da costa (os famosos xales que com seus desenhos definiam origens variadas das escravas), marcas de nação, escarificações ou penteados que indicavam a singularidade do fotografado. Mais produtivo, ainda, é tomar diferentes reações em uma mesma foto. Há uma imagem, dentre as várias presentes nessa bela edição, chamada vagamente Retrato do Senhor com Cinco Escravos. O documento é conhecido, a análise de Sandra é que traz novidades. Ao centro vê-se um senhor orgulhoso, com expressão cerrada. Aos seus dois lados, escravos (todos sem sapatos) mostram todo tipo de expressão: um observa a máquina com atenção, outro desvia o olhar, outro ainda parece vexado diante do espetáculo em que é instado a atuar. Um quarto homem surge borrado, pois deve ter se mexido diante de situação tão tediosa. Mas um personagem parece desafiar o fotógrafo com ar indolente: ao lado do senhor, cruza os braços numa atitude de contestação.
Foi o filósofo Walter Benjamin quem mencionou o sofrimento dos modelos diante desses aparelhos endiabrados. Verdadeiras câmaras de tortura, as fotografias fixavam um tempo e um tipo de artificialidade. Se tudo isso é fato, a situação ficava pior quando os atores eram escravos ou negros livres. O que faz nossa autora é ler nos detalhes verdadeiros ritos de insubordinação. Por vezes basta um olhar, um ombro levantado, uma sobrancelha irada para revelar emoção e contrariedade. Vale a pena disciplinar o olhar e seguir, junto com a Sandra Koutsoukos, as grandes peças que pequenos sinais revelam.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

 

terça-feira, setembro 28, 2010

Geraldo Vandré versão 2010

Por Moisés Basilio Leal

O Vandré é um personagem emblemático. Dizem que ele foi torturado e por isso mudou o comportamento. Será?

Conheci o Geraldo Vandré em 1976 quando era office-boy na SICAM (Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais). Tinha 16 anos e meu chefe no escritório, o compositor e cantor Roberto Amaral - da marcha carnavalesca "Beijinho de boa noite", sucesso dos anos 70 - , depois de conversar com Vandré, pediu-me para datilografar alguns originais do compositor. Peguei os originais e durante uns dois dias fiz o trabalho e entreguei a ele.

Já sabia quem era o Geraldo Vandré como compositor da "Disparada", vencedora do festival da Record, mas não sabia o peso político que carregava o compositor naquela época. Eu era "apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bancosem parentes importantes..."

Depois encontrei com o Vandré, nas cantorias do Cicero e amigos de juventude e nos Lps de vinil que ainda guardo (peguei do meu filho Pedro de volta, pois ele havia sequestrado todos meus vinis).

Na posse da Luiza Erundina, prefeita de SP, em 1989 , numa festa no Pacaembu, Vandré que é paraíbano compareceu e cantou uma música em homenagem à FAB - Força Áerea Brasileira -, todos estranharam.

Depois algumas noticias esparças. E hoje, mais de 30 anos depois me deparo com essa entrevista da Globo. O que aconteceu de fato com o Vandré?
Veja os vídeos:
1 parte: http://www.youtube.com/watch?v=k4sLANlH7Nk
2 parte: http://www.youtube.com/watch?v=6Wak4Z7RhFs
3 parte: http://www.youtube.com/watch?v=G49ljh-IOBM
4 parte: http://www.youtube.com/watch?v=nMTCNyN0DpA
Final:    http://www.youtube.com/watch?v=ngg1ACvUoJI&feature=channel

segunda-feira, agosto 02, 2010

Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação


Comentários Moisés Basílio: 
Os sistemas de educação brasileiro (federal, estaduais e municipais) nas últimas décadas importou as principais diretrizes das reformas educacionais implementadas nos Estados Unidos. Aqui ainda funciona aquela máxima citada na peça "Calabar: o Elogios da Traição" (1973) de Chico Buarque e Ruy Guerra e que remetia a um embaixador brasileiro da ditadura nos Estados Unidos (1964): "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil".
Agora o jornalão OESP, depois de "metralhar" sistematicamente os docentes brasileiros e cotidianamente em suas páginas desvalorizar o ensino das escolas públicas, por suas baixas notas nos "ranking" das avaliações padronizadas, nos traz um entrevista com uma grande autoridade e pesquisadora do modelo educacional americano que nos diz: "Nota não é tudo" e "ênfase na responsabilização do professor é danosa para a educação".
“Gerentões” dos sistemas de ensino e pedagogos de plantão estão com a pulga atrás da orelha, pois seus discursos terão que mudar. Como bons "papagaios de piratas" já estão captando os novos discursos que chegam do hemisfério norte. Axé!

'Nota mais alta não é educação melhor'

Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

02 de agosto de 2010 | 0h 00 -
Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane
Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.
Suas revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.
Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.
Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.
Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.

Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.
E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?

Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.

Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.
O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.

Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.
QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.

segunda-feira, julho 12, 2010

OS DEZ MANDAMENTOS ATUALIZADOS E AS ELEIÇÕES 2010

Comentários do Moisés Basílio: Uma nova versão para os dez mandamentos, escrita pelo professor Ladislau Dowbor. Em tempo de discutirmos os programas eleitorais dos canditatos às eleições de 2010, o texto é um bom sistematizador de boas práticas econômicas, políticas e sociais para compararmos com o que está se expondo à praça. Axé!


Os Dez Mandamentos
Ladislau Dowbor
(Edição revista e atualizada)

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.

Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.


I – Não comprarás os Representantes do Povo
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?

Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.

II – Não Farás Contas erradas
As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas. A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria
Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão
Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra. Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.

V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas
Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Viverás para o Dinheiro
A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais. No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.

Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente. Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros
Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.
A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.
Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas.

VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas
A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais. O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis.

O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego. A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento
Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.

O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo
Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.

O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.

Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org