segunda-feira, julho 12, 2010

OS DEZ MANDAMENTOS ATUALIZADOS E AS ELEIÇÕES 2010

Comentários do Moisés Basílio: Uma nova versão para os dez mandamentos, escrita pelo professor Ladislau Dowbor. Em tempo de discutirmos os programas eleitorais dos canditatos às eleições de 2010, o texto é um bom sistematizador de boas práticas econômicas, políticas e sociais para compararmos com o que está se expondo à praça. Axé!


Os Dez Mandamentos
Ladislau Dowbor
(Edição revista e atualizada)

Como sociedade, desejamos não somente sobreviver, mas viver com qualidade de vida, e porque não, com felicidade. E isto implica elencarmos de forma ordenada os resultados mínimos a serem atingidos, com os processos decisórios correspondentes. Os Mandamentos abaixo elencados têm um denominador comum: todos já foram experimentados e estão sendo aplicados em diversas regiões do mundo, setores ou instâncias de atividade. São iniciativas que deram certo, e cuja generalização, com as devidas adaptações e flexibilidade em função da diversidade planetária, é hoje viável. Não temos a ilusão relativamente à distância entre a realidade política de hoje e as medidas sistematizadas abaixo. Mas pareceu-nos essencial, de toda forma, elencar de forma organizada as medidas necessárias, pois ter um norte mais claro ajuda na construção de uma outra governança planetária. Não estão ordenadas por ordem de importância, pois a maioria tem implicações simultâneas e dimensões interativas. Mas todos os mandamentos deverão ser obedecidos, pois a ira dos elementos nos atingirá a todos, sem precisar esperar a outra vida.

Considerando que a obediência à versão original dos Dez Mandamentos foi apenas aleatória, desta vez o Autor teve a prudência de acrescentar a cada Mandamento uma nota de explicação, destinada em particular aos impenitentes.


I – Não comprarás os Representantes do Povo
Resgatar a dimensão pública do Estado: Como podemos ter mecanismos reguladores que funcionem se é o dinheiro das corporações a regular que elege os reguladores? Se as agências que avaliam risco são pagas por quem cria o risco? Se é aceitável que os responsáveis de um banco central venham das empresas que precisam ser reguladas, e voltem para nelas encontrar emprego?

Uma das propostas mais evidentes da última crise financeira, e que encontramos mencionada em quase todo o espectro político, é a necessidade de se reduzir a capacidade das corporações privadas ditarem as regras do jogo. A quantidade de leis aprovadas no sentido de reduzir impostos sobre transações financeiras, de reduzir a regulação de banco central, de autorizar os bancos a fazerem toda e qualquer operação, somado com o poder dos lobbies financeiros tornam evidente a necessidade de se resgatar o poder regulador do estado, e para isto os políticos devem ser eleitos por pessoas de verdade, e não por pessoas jurídicas, que constituem ficções em termos de direitos humanos. Enquanto não tivermos financiamento público das campanhas, políticas que representem os interesses dos cidadãos, prevalecerão os interesses econômicos de curto prazo, os desastres ambientais e a corrupção.

II – Não Farás Contas erradas
As contas têm de refletir os objetivos que visamos. O PIB indica a intensidade do uso do aparelho produtivo, mas não nos indica a utilidade do que se produz, para quem, e com que custos para o estoque de bens naturais de que o planeta dispõe. Conta como aumento do PIB um desastre ambiental, o aumento de doenças, o cerceamento de acesso a bens livres. O IDH já foi um imenso avanço, mas temos de evoluir para uma contabilidade integrada dos resultados efetivos dos nossos esforços, e particularmente da alocação de recursos financeiros, em função de um desenvolvimento que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justo e ambientalmente sustentável. As metodologias existem, aplicadas parcialmente em diversos países, setores ou pesquisas. A ampliação dos indicadores internacionais como o IDH, a generalização de indicadores nacionais como os Calvert-Henderson Quality of Life Indicators nos Estados Unidos, as propostas da Comissão Stiglitz/Sen/Fitoussi, o movimento FIB – Felicidade Interna Bruta – todos apontam para uma reformulação das contas. A adoção em todas as cidades de indicadores locais de qualidade de vida – veja-se os Jacksonville Quality of Life Progress Indicators – tornou-se hoje indispensável para que seja medido o que efetivamente interessa: o desenvolvimento sustentável, o resultado em termos de qualidade de vida da população. Muito mais do que o produto (output), trata-se de medir o resultado (outcome).

III – Não Reduzirás o Próximo à Miséria
Algumas coisas não podem faltar a ninguém. A pobreza crítica é o drama maior, tanto pelo sofrimento que causa em si, como pela articulação com os dramas ambientais, o não acesso ao conhecimento, a deformação do perfil de produção que se desinteressa das necessidades dos que não têm capacidade aquisitiva. A ONU calcula que custaria 300 bilhões de dólares (no valor do ano 2000) tirar da miséria um bilhão de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. São custos ridículos quando se considera os trilhões transferidos para grupos econômicos financeiros no quadro da última crise financeira. O benefício ético é imenso, pois é inaceitável morrerem de causas ridículas 10 milhões de crianças por ano. O benefício de curto e médio prazo é grande, na medida em que os recursos direcionados à base da pirâmide dinamizam imediatamente a micro e pequena produção, agindo como processo anticíclico, como se tem constatado nas políticas sociais de muitos países. No mais longo prazo, será uma geração de crianças que terão sido alimentadas decentemente, o que se transforma em melhor aproveitamento escolar e maior produtividade na vida adulta. Em termos de estabilidade política e de segurança geral, os impactos são óbvios. Trata-se do dinheiro mais bem investido que se possa imaginar, e as experiências brasileira, mexicana e de outros países já nos forneceram todo o know-how correspondente. A teoria tão popular de que o pobre se acomoda se receber ajuda, é simplesmente desmentida pelos fatos: sair da miséria estimula, e o dinheiro é simplesmente mais útil onde é mais necessário.

IV – Não Privarás Ninguém do Direito de Ganhar o seu Pão
Universalizar a garantia do emprego é viável. Toda pessoa que queira ganhar o pão da sua família deve poder ter acesso ao trabalho. Num planeta onde há um mundo de coisas a fazer, inclusive para resgatar o meio ambiente, é absurdo o número de pessoas sem acesso a formas organizadas de produzir e gerar renda. Temos os recursos e os conhecimentos técnicos e organizacionais para assegurar, em cada vila ou cidade, acesso a um trabalho decente e socialmente útil. As experiências de Maharashtra na Índia demonstraram a sua viabilidade, como o mostram as numerosas experiências brasileiras, sem falar no New Deal da crise dos anos 1930. São opções onde todos ganham: o município melhora o saneamento básico, a moradia, a manutenção urbana, a policultura alimentar. As famílias passam a poder viver decentemente, e a sociedade passa a ser melhor estruturada e menos tensionada. Os gastos com seguro-desemprego se reduzem. No caso indiano, cada vila ou cidade é obrigada a ter um cadastro de iniciativas intensivas em mão de obra. Dinheiro emprestado ou criado desta forma representa investimento, melhoria de qualidade de vida, e dá excelente retorno. E argumento fundamental: assegura que todos tenham o seu lugar para participar na construção de um desenvolvimento sustentável. Na organização econômica, além do resultado produtivo, é essencial pensar no processo estruturador ou desestruturador gerado. A pesca oceânica industrial pode ser mais produtiva em volume de peixe, mas o processo é desastroso, tanto para a vida no mar como para centenas de milhões de pessoas que viviam da pesca tradicional. A dimensão de geração de emprego de todas as iniciativas econômicas tem de se tornar central. Assegurar a contribuição produtiva de todos, ao mesmo tempo que se augmenta gradualmente o salário mínimo e se reduz a jornada, leva simplesmente a uma prosperidade mais democrática.

V – Não Trabalharás Mais de Quarenta Horas
Podemos trabalhar menos, e trabalharemos todos, com tempo para fazermos mais coisas interessantes na vida. A sub-utilização da força de trabalho é um problema planetário, ainda que desigual na sua gravidade. No Brasil, conforme vimos, com 100 milhões de pessoas na PEA, temos 31 milhões formalmente empregadas no setor privado, e 9 milhões de empregados públicos. A conta não fecha. O setor informal situa-se na ordem de 50% da PEA. Uma imensa parte da nação “se vira” para sobreviver. No lado dos empregos de ponta, as pessoas não vivem por excesso de carga de trabalho. Não se trata aqui de uma exigência de luxo: são incontáveis os suicídios nas empresas onde a corrida pela eficiência se tornou simplesmente desumana. O stress profissional está se tornando uma doença planetária, e a questão da qualidade de vida no trabalho passa a ocupar um espaço central. A redistribuição social da carga de trabalho torna-se hoje uma necessidade. As resistências são compreensíveis, mas a realidade é que com os avanços da tecnologia os processos produtivos tornam-se cada vez menos intensivos em mão de obra, e reduzir a jornada é uma questão de tempo. Não podemos continuar a basear o nosso desenvolvimento em ilhas tecnológicas ultramodernas enquanto se gera uma massa de excluídos, inclusive porque se trata de equilibrar a remuneração e, consequentemente, a demanda. A redução da jornada não reduzirá o bem estar ou a riqueza da população, e sim a deslocará para novos setores mais centrados no uso do tempo livre, com mais atividades de cultura e lazer. Não precisamos necessariamente de mais carros e de mais bonecas Barbie, precisamos sim de mais qualidade de vida.

VI – Não Viverás para o Dinheiro
A mudança de comportamento, de estilo de vida, não constitui um sacrifício, e sim um resgate do bom senso. Neste planeta de 7 bilhões de habitantes, com um aumento anual da ordem de 75 milhões, toda política envolve também uma mudança de comportamento individual e da cultura do consumo. O respeito às normas ambientais, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso inteligente dos meios de transporte, a generalização da reciclagem, a redução do desperdício – há um conjunto de formas de organização do nosso cotidiano que passa por uma mudança de valores e de atitudes frente aos desafios econômicos, sociais e ambientais. No apagão energético do final dos anos 90 no Brasil, constatou-se como uma boa campanha informativa, o papel colaborativo da mídia, e a punição sistemática dos excessos permitiu uma racionalização generalizada do uso doméstico da energia. Esta dimensão da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto uma legislação adequada, como sobretudo uma participação ativa da mídia.

Hoje 95% dos domicílios no Brasil têm televisão, e o uso informativo inteligente deste e de outros meios de comunicação tornou-se fundamental. Frente aos esforços necessários para reequilibrar o planeta, não basta reduzir o martelamento publicitário que apela para o consumismo desenfreado, é preciso generalizar as dimensões informativas dos meios de comunicação. A mídia científica praticamente desapareceu, os noticiários navegam no atrativo da criminalidade, quando precisamos vitalmente de uma população informada sobre os desafios reais que enfrentamos. A pergunta a se fazer a cada ato de conusmo, não é só se “é bom para mim”, mas se é bem para o planeta e o bem comum, e buscar um equilíbrio razoável. A opção individual é essencial, mas não suficiente. Grande parte da mudança do comportamento individual depende de ações públicas: as pessoas não deixarão o carro em casa (ou deixarão de tê-lo) se não houver transporte público, não farão reciclagem se não houver sistemas adequados de coleta. Precisamos de uma política pública de mudança do comportamento individual.

VII – Não Ganharás Dinheiro com o Dinheiro dos Outros
Racionalizar os sistemas de intermediação financeira é viável. A alocação final dos recursos financeiros deixou de ser organizada em função dos usos finais de estímulo e orientação de atividades econômicas e sociais, para obedecer às finalidades dos próprios intermediários financeiros. A atividade de crédito é sempre uma atividade pública, seja no quadro das instituições públicas, seja no quadro dos bancos privados que trabalham com dinheiro do público, e que para tanto precisam de uma carta-patente que os autorize a ganhar dinheiro com dinheiro dos outros. A recente crise financeira de 2008 demonstrou com clareza o caos que gera a ausência de mecanismos confiáveis de regulação no setor. Nas últimas duas décadas, temos saltado de bolha em bolha, de crise em crise, sem que a relação de forças permita a reformulação do sistema de regulação em função da produtividade sistêmica dos recursos. Enquanto não se gera uma relação de forças mais favorável, precisamos batalhar os sistemas nacionais de regulação financeira. O dinheiro não é mais produtivo onde rende mais para o intermediário: devemos buscar a produtividade sistêmica de um recurso que é público.
A Coréia do Sul abriu recentemente um financiamento de 36 bilhões de dólares para financiar transporte coletivo e alternativas energéticas, gerando com isto 960 mil empregos. O impacto positivo é ambiental pela redução de emissões, é anti-cíclico pela dinamização da demanda, é social pela redução do desemprego e pela renda gerada, é tecnológico pelas inovações que gera nos processos produtivos mais limpos. Tem inclusive um impacto raramente considerado, que é a redução do tempo vida que as pessoas desperdiçam no transporte. Trata-se aqui, evidentemente, de financiamento público, pois os bancos comerciais não teriam esta preocupação, nem esta visão sistêmica. (UNEP,Global Green New Deal, 2009). Em última instância, os recursos devem ser tornados mais acessíveis segundo que os objetivos do seu uso sejam mais produtivos em termos sistêmicos, visando um desenvolvimento mais inclusivo e mais sustentável. A intermediação financeira é um meio, não é um fim.
Particular atenção precisa ser dada aos intermediários que ganham apenas nos fluxos entre outros intermediários – com papéis que representam direitos sobre outros papéis – e que têm tudo a ganhar com a maximização dos fluxos, pois são remunerados por comissões sobre o volume e ganhos, e geram portanto volatilidade e pro-ciclicidade, com os monumentais volumes que nos levaram por exemplo a valores em derivativos da ordem de 863 trilhões de dólares em junho de 2008, 15 vezes o PIB mundial. A intermediação especulativa – diferentemente das intermediação de compras e vendas entre produtores e utilizadores finais – apenas gera uma pirâmide especulativa e insegurança, além de desorganizar os mercados e as políticas econômicas.

VIII – Não Tributarás Boas Iniciativas
A filosofia do imposto, de quem se cobra, e a quem se aloca, precisa ser revista. Uma política tributária equilibrada na cobrança, e reorientada na aplicação dos recursos, constitui um dos instrumentos fundamentais de que dispomos, sobretudo porque pode ser promovida por mecanismos democráticos. O eixo central não está na redução dos impostos, e sim na cobrança socialmente mais justa e na alocação mais produtiva em termos sociais e ambientais. A taxação das transações especulativas (nacionais ou internacionais) deverá gerar fundos para financiar uma série de políticas essenciais para o reequilíbrio social e ambiental. O imposto sobre grandes fortunas é hoje essencial para reduzir o poder político das dinastias econômicas (10% das famílias do planeta é dono de 90% do patrimônio familiar acumulado no planeta). O imposto sobre a herança é fundamental para dar chances a partilhas mais equilibradas para as sucessivas gerações. O imposto sobre a renda deve adquirir mais peso relativamente aos impostos indiretos, com alíquotas que permitam efetivamente redistribuir a renda. É importante lembrar que as grandes fortunas do planeta em geral estão vinculadas não a um acréscimo de capacidades produtivas do planeta, e sim à aquisição maior de empresas por um só grupo, gerando uma pirâmide cada vez mais instável e menos governável de propriedades cruzadas, impérios onde a grande luta é pelo controle do poder financeiro, político e midiático, e a apropriação de recursos naturais. O sistema tributário tem de ser reformulado no sentido anti-cíclico, privilegiando atividades produtivas e penalizando as especulativas; no sentido do maior equilíbrio social ao ser fortemente progressivo; e no sentido de proteção ambiental ao taxar emissões tóxicas ou geradoras de mudança climática, bem como o uso de recursos naturais não renováveis.

O poder redistributivo do Estado é grande, tanto pelas políticas que executa – por exemplo as políticas de saúde, lazer, saneamento e outras infra-estruturas sociais que melhoram o nível de consumo coletivo – como pelas que pode fomentar, como opções energéticas, inclusão digital e assim por diante. Fundamental também é a política redistributiva que envolve política salarial, de previdência, de crédito, de preços, de emprego. A forte presença das corporações junto ao poder político constitui um dos entraves principais ao equilíbrio na alocação de recursos. O essencial é assegurar que todas as propostas de alocação de recursos sejam analisadas pelo triplo enfoque econômico, social e ambiental. No caso brasileiro, constatou-se com as recentes políticas sociais (“Bolsa-Família”, políticas de previdência etc.) que volumes relativamente limitados de recursos, quando chegam à “base da pirâmide”, são incomparavelmente mais produtivos, tanto em termos de redução de situações críticas e consequente aumento de qualidade de vida, como pela dinamização de atividades econômicas induzidas pela demanda local. A democratização aqui é fundamental. A apropriação dos mecanismos decisórios sobre a alocação de recursos públicos está no centro dos processos de corrupção, envolvendo as grandes bancadas corporativas, por sua vez ancoradas no financiamento privado das campanhas.

IX – Não Privarás o Próximo do Direito ao Conhecimento
Travar o acesso ao conhecimento e às tecnologias sustentáveis não faz o mínimo sentido. A participação efetiva das populações nos processos de desenvolvimento sustentável envolve um denso sistema de acesso público e gratuito à informação necessária. A conectividade planetária que as novas tecnologias permitem constitui uma ampla via de acesso direto. O custo-benefício da inclusão digital generalizada é simplesmente imbatível, pois é um programa que desonera as instâncias administrativas superiores, na medida em que as comunidades com acesso à informação se tornam sujeitos do seu próprio desenvolvimento. A rapidez da apropriação deste tipo de tecnologia até nas regiões mais pobres se constata na propagação do celular, das lan houses mais modestas. O impacto produtivo é imenso para os pequenos produtores que passam a ter acesso direto a diversos mercados tanto de insumos como de venda, escapando aos diversos sistemas de atravessadores comerciais e financeiros. A inclusão digital generalizada é um destravador potente do conjunto do processo de mudança que hoje se torna indispensável.

O mundo frequentemente esquece que 2 bilhões de pessoas ainda cozinham com lenha, área em que há inovações significativas no aproveitamento calórico por meio de fogões melhorados. Tecnologias como o sistema de cisternas do Nordeste, de aproveitamento da biomassa, de sistemas menos agressivos de proteção dos cultivos etc., constituem um vetor de mudança da cultura dos processos produtivos. A criação de redes de núcleos de fomento tecnológico online, com ampla capilaridade, pode se inspirar da experiência da Índia, onde foram criados núcleos em praticamente todas as vilas do país. O World Economic and Social Survey 2009 é particularmente eloquente ao defender a flexibilização de patentes no sentido de assegurar ao conjunto da população mundial o acesso às informações indispensáveis para as mudanças tecnológicas exigidas por um desenvolvimento sustentável.

X – Não Controlarás a Palavra do Próximo
Democratizar a comunicação tornou-se essencial. A comunicação é uma das áreas que mais explodiu em termos de peso relativo nas transformações da sociedade. Estamos em permanência cercados de mensagens. As nossas crianças passam horas submetidas à publicidade ostensiva ou disfarçada. A indústria da comunicação, com sua fantástica concentração internacional e nacional - e a sua crescente interação entre os dois níveis - gerou uma máquina de fabricar estilos de vida, um consumismo obsessivo que reforça o elitismo, as desigualdades, o desperdício de recursos como símbolo de sucesso. O sistema circular permite que os custos sejam embutidos nos preços dos produtos que nos incitam a comprar, e ficamos envoltos em um cacarejo permanente de mensagens idiotas pagas do nosso bolso. Mais recentemente, a corporação utiliza este caminho para falar bem de si, para se apresentar como sustentável e, de forma mais ampla, como boa pessoa. O espectro eletromagnético em que estas mensagens navegam é público, e o acesso a uma informação inteligente e gratuita para todo o planeta, é simplesmente viável. Expandindo gradualmente as inúmeras formas alternativas de mídia que surgem por toda parte, há como introduzir uma cultura nova, outras visões de mundo, cultura diversificada e não pasteurizada, pluralismo em vez de fundamentalismos religiosos ou comerciais.

O fato que mais inspira esperança é a multiplicação impressionante de iniciativas nos planos da tecnologia, dos sistemas de gestão local, do uso da internet para democratizar o conhecimento, da descoberta de novas formas de produção menos agressivas, de formas mais equilibradas de acesso aos recursos. O Brasil neste plano tem mostrado que começar a construir uma vida mais digna para o “andar de baixo”, para os dois terços de excluídos, não gera tragédias para os ricos. Inclusive, numa sociedade mais equilibrada, todos passarão a viver melhor. Tolerar um mundo onde um bilhão de pessoas passam fome, onde 10 milhões de crianças morrem anualmente de causas ridículas, e onde se dilapidam os recursos naturais das próximas gerações, em proveito de fortunas irresponsáveis, já não é possível.

Nesta época interativa, o Altíssimo declarou-se disposto a considerar outros Mandamentos. Sendo o Secretariado do Altíssimo hoje bem equipado, os que por acaso tenham sugestões ou necessitem consultar documentos mais completos, poderão se instruir com outros Assessores, em linha direta sob www.criseoportunidade.wordpress.com Críticas, naturalmente, deverão ser endereçadas a Instâncias Superiores. Apreciações positivas e sugestões de outros Mandamentos poderão ser enviadas ao blog acima citado, ou no e-mail ladislau@dowbor.org

domingo, junho 13, 2010

Educação e Liberdade e a Paideia


Autor: Moisés Basílio Leal
 
Resenha da palestra do Prof. Dr. José Sérgio Fonseca de Carvalho (FEUSP) – “Educação, liberdade e as pedagogias da autonomia. Uma crítica a partir do pensamento de Hannah Arendt.”  
(Palestra proferida na VIII Semana de Estudos Clássicos da FEUSP, dia 7 de maio de 2010.)

            O Prof. José Sérgio deu inicio à sua exposição destacando a polissemia das palavras “liberdade” e “educação”, pois ambas são eivadas de disputas ideológicas. Alertou-nos também para evitarmos a falácia socrática de só discutir os conceitos se os mesmos estiverem perfeitamente definidos.
            A ambigüidade do conceito de liberdade depende do contexto lingüístico. Em tom de chiste o Professor José Sérgio afirmou que não há ambigüidade quanto ao conceito de liberdade, quando nos referimos à situação de um preso ou da estação do metrô da cidade de São Paulo do bairro da Liberdade. Mas, quando na esfera do discurso político sempre há a ambigüidade, seja na ideia de liberdade de mercado ou na de liberdade de religião.
            Do mesmo modo a palavra educação traz consigo essa ambigüidade. O Professor José Sérgio nos lembra a ideia do Professor José Mario Pires Azanha (FEUSP), de que no geral todos concordavam com a educação democrática, mas que na prática essa concordância se desfazia. Por quê? Por conta das disputas latentes e conflitantes no interior da sociedade. Outra questão é o que entendemos por educação de qualidade. Do campo da direita ao campo da esquerda, todos concordam com o a expressão geral educação de qualidade. As dificuldades aparecem, quando começamos a construir nossas práticas educativas. A prática de um colégio como Bandeirantes, por exemplo, é a de privilegiar o mérito e questionar a heterogeneidade, como parâmetro de educação de qualidade. Já para Platão, em seus diálogos Górgias, a competência se mede pelo resultado obtido, pois para Platão a ação política é da esfera da ética e política e não da esfera da competência e eficácia. 
            Para precisar essa ambigüidade da liberdade, o Prof. José Sérgio explicita o contraste entre os pensamentos de Benjamin Constant (o francês) e de Hannah Arendt, diante da questão: Sócrates era um homem livre?
            Para Arendt, no mundo antigo a liberdade se constituiu enquanto designo da ação política. O espaço da liberdade se dá num mundo livre, na interação com outros homens livres, num espaço publico organizado. A liberdade está ontologicamente radicada no homem, que ao romper com o passado gera o novo.
            Já no mundo moderno, Benjamin Constant, pensando a liberdade, provavelmente formularia que Sócrates não era um homem livre, pois aqui temos formada a ideia de liberdade negativa do pensamento liberal, que é a liberdade dos indivíduos em relação ao outro.
            Esse contraste entre Arendt e Constant no concerne ao conceito de liberdade vai dar bases para duas grandes vertentes do pensamento pedagógico.
            A visão liberal negativa da liberdade da modernidade vai fundamentar as propostas das chamadas pedagogias da autonomia, que une de Dewey a Paulo Freire, e a visão de escola não diretiva, que vai desde a experiência da escola democrática de Summerhill até a atual escola da Ponte de Jose Pacheco. Os alunos protagonistas, as assembléias deliberativas, enfim a democracia no ambiente escolar.
            É um modelo de escola com ampla adesão retórica no mundo contemporâneo, mas também com grandes críticas, tais como: Uma escola que atende ao perfil dos alunos das classes médias; Uma escola que valoriza os conhecimentos não escolares, fato que prejudica o acesso dos alunos das classes populares a esses conhecimentos. Uma escola que preza a liberdade como um valor individual. No Brasil esse modelo de pedagogia se identifica com conjunturas de enfraquecimento da ação política, como no período da ditadura militar de 1964, e o atual momento onde predomina um discurso de naturalização da política, mediante um discurso técnico, que sobrepõe e desqualifica o discurso persuasivo própria da esfera da política, tal qual concebiam os gregos da antiguidade.
            Na outra vertente, nomes como Hannah Arendt e José Mário Pires Azanha, articulam educação e liberdade a partir da distinção de que a escola não é um espaço político igual o da sociedade. A liberdade para Arendt é um atributo da vida política do homem. Para Arendt o espaço escolar (professores/alunos) não é um espaço de igualdade, como o espaço da polis (cidadão), pois professores e alunos possuem responsabilidades distintas e são submetidos a uma hierarquia. O que fundamenta o espaço escolar são as relações pedagógicas e não as relações política. Assim sendo, uma escola não é democrática porque traz as relações políticas para dentro da escola, mas é democrática na medida em que prepara os alunos – acesso aos conhecimentos socialmente necessários – para exercia a sua cidadania na vida política em sociedade. A escola democrática é aquela onde o aluno aprende e não aquela onde reina a cordialidade. 
            Aristóteles justifica a Paideia ao afirmar que o papel da educação pública deve estar a serviço da pólis, e não de interesses individuais/particulares. Cabe a educação escolar preparar os novos para entrarem no mundo dos velhos.

Índio de mentira da revista Veja e a resposta do Antropólogo

Comentários Moisés Basílio: O que é o mau jornalismo? Para responder essa pergunta poderia gastar muitos parágrafos. Mas, como diz o ditado: "A prova do pudim está em comê-lo". Ler a reportagem da revista Veja com olhar crítico é uma experiência que nos faz compreender o que é o mau jornalismo. Ele deforma a realidade de tal forma, que se levarmos a sério essa reportagem da revista, podemos concluir que os Índios e Quilombolas são as novas classes dominantes no Brasil. Axé!

Fonte: Jornal O Tempo - Minas Gerais - 13 de maio de 2010 - http://migre.me/OsZG
O índio de mentira
Beto Vianna
Antropólogo; linguista
Uma versão do famoso ato do apóstolo são Tomé (ver e então crer) tem sido praticada com entusiasmo cada vez maior pela grande mídia e seus espectadores. Nessa versão, o ato de ver (ou ler) exige a imediata crença no visto ou no lido. O curioso é que, se reprovamos em são Tomé a falta de fé, o pecado da nova versão é o excesso. Ou a falta de visão crítica. Mire-se no exemplo da revista semanal que atende pelo apropriado nome de "Veja". A revista atingiu o cúmulo do neo-sãotomeísmo em sua matéria especial "A farra da antropologia oportunista" (edição 2.163, de 5.5.2010). Não custa ver com os próprios olhos um trecho no início da matéria que, creia, diz assim: "Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional".
O texto é indubitável. Apresenta o fato assombroso, embrulhado em precisos percentuais, de que índios, quilombolas e camponeses (que pensávamos ser a porção marginalizada do Brasil), somados à cobertura de mata virgem cada vez mais reduzida (não me pergunte como obras de infraestrutura entram na conta), tomaram conta do país, numa épica revolução silenciosa. O que sabemos sobre 500 anos de massacres, subjugações e humilhações dos índios no Brasil é pura ilusão. Devemos crer que os verdadeiros brasileiros estão acuados e quase expulsos pela indiada ressurgida das cinzas.
A matéria segue dando asas a uma imaginação fértil e perversa, denunciando a "indústria da demarcação" que enche de dinheiro o bolso de antropólogos e índios. Numa redação, digamos, ousada, o texto desfila subtítulos que, na minha terra, seriam considerados maximamente preconceituosos: "Os novos canibais", "Macumbeiros de cocar", "Teatrinho na praia" (índios fantasiando-se de índios!), "Made in Paraguai", "Os carambolas" (os supostos quilombolas!). Não há o que comentar. O visto fala por si.
Há questões graves aí: a matéria desrespeita a boa prática jornalística (o trato com os fatos e pessoas reportados); desrespeita toda uma classe profissional (os antropólogos), e assume a defesa clara (e invisível) dos interesses mais predatórios, que avançam insaciavelmente sobre índios e terras desde que somos Brasil. Tudo isso é muito sério, mas quero frisar uma quarta questão. Crer à primeira vista só é possível quando a mídia mostra o que queremos ver. Por mais miserável e desarmado de suas culturas pelas frentes de civilização, o índio sempre continuou sendo índio. E isso nós não aceitamos! Como os demais povos que fizeram o Brasil e, bem ou mal, se abrasileiraram, queremos que o índio faça o mesmo. Nos roemos de raiva com a insistência do índio em ser índio, e, ao ridicularizá-lo, a "Veja" nos dá o meio de revidarmos. Acredite quem quiser. _____________________________________________________________________________
Fonte: Revista Veja - nº 2163 - 05 de maio de 2010 - http://migre.me/OsXm

A farra da antropologia oportunista

Critérios frouxos para a delimitação de reservas indígenas
e quilombos ajudam a engordar as contas de organizações
não governamentais e diminuem ainda mais o território destinado
aos brasileiros que querem produzir


Leonardo Coutinho, Igor Paulin e Júlia de Medeiros
Manoel Marques
LEI DA SELVA
Lula na comemoração da demarcação da Raposa Serra do Sol, que feriu o estado de Roraima

VEJA TAMBÉM
As dimensões continentais do Brasil costumam ser apontadas como um dos alicerces da prosperidade presente e futura do país. As vastidões férteis e inexploradas garantiriam a ampliação do agronegócio e do peso da nação no comércio mundial. Mas essas avaliações nunca levam em conta a parcela do território que não é nem será explorada, porque já foi demarcada para proteção ambiental ou de grupos específicos da população. Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional. Ou seja, as próximas gerações terão de se contentar em ocupar uma porção do tamanho de São Paulo e Minas Gerais. E esse naco poderá ficar ainda menor. O governo pretende criar outras 1 514 reservas e destinar mais 50 000 lotes para a reforma agrária. Juntos, eles consumirão uma área equivalente à de Pernambuco. A maior parte será entregue a índios e comunidades de remanescentes de quilombos. Com a intenção de proteger e preservar a cultura de povos nativos e expiar os pecados da escravatura, a legislação brasileira instaurou um rito sumário no processo de delimitação dessas áreas.
Os motivos, pretensamente nobres, abriram espaço para que surgisse uma verdadeira indústria de demarcação. Pelas leis atuQais, uma comunidade depende apenas de duas coisas para ser considerada indígena ou quilombola: uma declaração de seus integrantes e um laudo antropológico. A maioria desses laudos é elaborada sem nenhum rigor científico e com claro teor ideológico de uma esquerda que ainda insiste em extinguir o capitalismo, imobilizando terras para a produção. Alguns relatórios ressuscitaram povos extintos há mais de 300 anos. Outros encontraram etnias em estados da federação nos quais não há registro histórico de que elas tenham vivido lá. Ou acharam quilombos em regiões que só vieram a abrigar negros depois que a escravatura havia sido abolida. Nesta reportagem, VEJA apresenta casos nos quais antropólogos, ativistas políticos e religiosos se associaram a agentes públicos para montar processos e criar reservas. Parte delas destrói perspectivas econômicas de toda uma região, como ocorreu em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo. Outras levam as tintas do teatro do absurdo. Exemplo disso é o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, que englobou uma vila criada em 1907 e pôs seus moradores em situação de despejo. A solução para mantê-los lá foi declarar a área um quilombo do qual não há registro histórico. Certas iniciativas são motivadas pela ideia maluca de que o território brasileiro deveria pertencer apenas aos índios, tese refutada pelo Supremo Tribunal Federal. Há, ainda, os que advogam a criação de reservas indígenas como meio de preservar o ambiente. E há também – ou principalmente – aqueles que, a pretexto de proteger este ou aquele aspecto, querem tão somente faturar. "Diante desse quadro, é preciso dar um basta imediato nos processos de demarcação", como já advertiu há quatro anos o antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai e professor da Universidade Federal Fluminense.
Os laudos antropológicos são encomendados e pagos pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Mas muitos dos antropólogos que os elaboram são arregimentados em organizações não governamentais (ONGs) que sobrevivem do sucesso nas demarcações. A quantidade de dinheiro que elas recebem está diretamente relacionada ao número de índios ou quilombolas que alegam defender. Para várias dessas entidades, portanto, criar uma reserva indígena ou um quilombo é uma forma de angariar recursos de outras organizações estrangeiras e mesmo do governo brasileiro. Não é por outro motivo que apenas a causa indígena já tenha arregimentado 242 ONGs. Em dez anos, a União repassou para essas entidades 700 milhões de reais. A terceira maior beneficiária foi o Conselho Indígena de Roraima (CIR). A instituição foi criada por padres católicos de Roraima com o objetivo de promover a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, um escândalo de proporções literalmente amazônicas. Instituída em 2005, ela abrange 7,5% do território do estado e significou a destruição de cidades, de lavouras e um ponto final no desenvolvimento do norte de Roraima – que, no total, passou a ter 46% de sua área constituída por reservas indígenas. Em dez anos, o CIR recebeu nada menos que 88 milhões de reais da União, mais do que a quantia repassada à delegacia da Funai de Roraima no mesmo período. Não é preciso dizer que a organização nem sequer prestou contas de como gastou esse dinheiro.
A ganância e a falta de controle propiciaram o surgimento de uma aberração científica. Antropólogos e indigenistas brasileiros inventaram o conceito de "índios ressurgidos". Eles seriam herdeiros de tribos extintas há 200 ou 300 anos. Os laudos que atestam sua legitimidade não se preocupam em certificar se esses grupos mantêm vínculos históricos ou culturais com suas pretensas raízes. Apresentam somente reivindicações de seus integrantes e argumentos estapafúrdios para justificá-las. A leniência com que a Funai analisa tais processos permitiu que comunidades espalhadas pelo país passassem a se apresentar como tribos desaparecidas. As regiões Nordeste e Norte lideram os pedidos de reconhecimento apresentados à Funai. Em dez anos, a população que se declara indígena triplicou. Em 2000, o Ceará contava com seis povos indígenas. Hoje, tem doze. Na Bahia, catorze populações reivindicam reservas. Na Amazônia, quarenta grupos de ribeirinhos de repente se descobriram índios. Em vários desses grupos, ninguém é capaz de apontar um ancestral indígena nem de citar costumes tribais. VEJA deparou com comunidades usando cocares comprados em lojas de artesanato. Em uma delas, há pessoas que aderiram à macumba, um culto africano, pensando que se tratasse da religião do extinto povo anacé. No Pará, um padre ensina aos ribeirinhos católicos como dançar em honra aos deuses daqueles que seriam seus antepassados.
Casos assim escandalizam até estudiosos benevolentes, que aceitam a tese dos "índios ressurgidos". "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original", diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Declarar-se índio, no entanto, além de fácil, é uma farra. No governo do PT, basta ser reconhecido como índio para ganhar Bolsa Família e cesta básica. O governo gasta 250% mais com a saúde de um índio – verdadeiro ou das Organizações Tabajara – do que com a de um cidadão que (ainda) não decidiu virar índio. O paradoxo é que, em certas regiões, é preciso ser visto como índio para ter acesso a benesses da civilização. As "tribos" têm direito a escolas próprias, o que pode ser considerado um luxo no interior do Norte e do Nordeste, onde milhões de crianças têm de andar quilômetros até a sala de aula mais próxima. "Aqui, só tinha escola até a 8ª série e a duas horas de distância. Depois que a gente se tornou índio, tudo ficou diferente, mais perto", diz Magnólia da Silva, neotupinambá baiana. Isso para não falar da segurança fornecida pela Polícia Federal, que protege as terras de invasões e conflitos agrários. "Essas vantagens fizeram as pessoas assumir artificialmente uma condição étnica, a fim de obter serviços que deveriam ser universais", constata o sociólogo Demétrio Magnoli.
A indústria da demarcação enxergou nas pequenas comunidades negras mais uma maneira de sair do vermelho e ficar no azul. Para se ter uma ideia, em 1995, na localidade de Oriximiná, no Pará, o governo federal reconheceu oficialmente a existência de uma comunidade remanescente de um quilombo – e, assim, concedeu um pedaço de terra aos supostos herdeiros dos supostos escravos que supostamente viviam ali. Desde então, foram instituídas outras 171 áreas semelhantes em diversas regiões. Em boa parte delas, os critérios usados foram tão arbitrários quanto os que permitiram a explosão de reservas indígenas. Também no caso dos remanescentes de quilombolas, a principal prova exigida para a demarcação é a autodeclaração. Como era de esperar, passou a ser mais negócio se dizer negro do que mulato. "Desde que o governo começou a financiar esse tipo de segregação racial, os mestiços que moram perto de quilombos passaram a se declarar negros para não perder dinheiro", diz a presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, Helderli Alves. Índio que não é índio, negro que não é negro, reservas que abrangem quase 80% do território nacional e podem alcançar uma área ainda maior: o Brasil é mesmo um país único. Para espertinhos e espertalhões.

Os novos canibais

Manoel Marques


A foto acima parece estranha – e é. O baiano José Aílson da Silva é negro e professa o candomblé. Seu cocar é de penas de galinha, como os que se usam no Carnaval. Silva se declarou pataxó, mas os pataxós disseram que era mentira. Reapareceu tupinambá, povo antropófago extinto no século XVII. Ele é irmão do também autodeclarado cacique Babau, que vive em uma área que nunca foi habitada pelos tupinambás. Sua "tribo" é composta de uma maioria de negros e mulatos, mas também tem brancos de cabelos louros. Há seis anos, o grupo invade e saqueia fazendas do sul da Bahia, crimes que levaram Babau à prisão. Seu irmão motorista também esteve na cadeia, por jogar o ônibus sobre agricultores. As contradições e os delitos não impediram a Funai de reconhecê-los como índios legítimos e de oferecer-lhes uma reserva gigantesca, que englobaria até a histórica Olivença, um das primeiras vilas do país.



Teatrinho na praia

Manoel Marques


Os boraris viviam em Alter do Chão, a praia mais badalada do Pará. Com pouco mais 200 pessoas, a etnia assimilou a cultura dos brancos de tal forma que desapareceu no século XVIII. Em 2005, Florêncio Vaz, frade fundador do Grupo Consciência Indígena, persuadiu 47 famílias caboclas a proclamar sua ascendência borari. Frei Florêncio ensinou-lhes costumes e coreografias indígenas. O "cacique" Odair José, de 28 anos, reclamou do fato de VEJA tê-lo visitado sem anúncio prévio. "A gente se prepara para receber a imprensa", disse. Seu vizinho Graciano Souza Filho afirma que "ele se pinta e se fantasia de índio para enganar os visitantes". Basílio dos Santos, tio do "cacique", corrobora essa versão: "Não tem índio aqui. Os bisavôs do Odair nasceram em Belém".



Macumbeiros de cocar

Leonardo Coutinho


Os cearenses de São Gonçalo do Amarante vivem um tormento. Sede do Porto de Pecém, o município espera abrigar uma refinaria, uma siderúrgica e um complexo industrial. Um padre, no entanto, convenceu seus fiéis de que esses investimentos os expulsarão do local. Sua única saída para ficar lá seria declararem-se indígenas. "Querem nos tirar terras que nossos pais e avós compraram com muito suor", reverbera o agente de saúde Francisco Moraes. Eles, então, compraram cocares, maracas e passaram a se pintar. "A gente sempre foi índio, só não sabia", diz Moraes, que agora se apresenta como "Cacique Júnior" e cultiva supostos hábitos dos índios anacés, extintos há 200 anos. "Faço macumba e a dança de São Gonçalo." A questão é que a origem da macumba é africana e a da dança, portuguesa.


Made in Paraguai

Leonardo Coutinho


Há dezoito anos, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) importou índios paraguaios e argentinos para o Morro dos Cavalos, em Santa Catarina. Hoje, vivem lá dezessete famílias. A maioria dos imigrantes só se expressa em espanhol, mas todos foram orientados a se declarar brasileiros. "A Funai e o Cimi falam para a gente dizer que é carijó", diz o guarani Milton Moreira, de 49 anos. Paraguaio, ele chegou a Santa Catarina quando tinha 6 anos, mas foi sua presença no local que embasou o pedido de criação da reserva. Curiosamente, Moreira se opõe à demarcação. "Cresci aqui porque meu pai não tinha mais onde me criar. Se esses antropólogos querem botar índio em qualquer lugar, por que não põem a gente para morar no apartamento deles?", pergunta Moreira.


Índio bom é índio pobre

Claudio Gatti


Em 2000, cinquenta famílias de guaranis se mudaram para uma praia em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo. A terra que eles ocuparam é infértil, mas ainda assim poderiam ter feito um ótimo negócio. O empresário Eike Batista queria construir um porto no local e ofereceu aos índios uma fazenda produtiva, com infraestrutura, dois rios, um pesque-pague e até caça. Mais: daria 1 milhão de reais a cada família. A tribo tirou a sorte grande – ou quase. A Funai barrou o acordo em 2007. Alegou que os sete anos de ocupação irregular da área converteram os índios em moradores tradicionais do local. A chefe Lílian Gomes (em pé, ao fundo) lamentou. Moradora da região desde 2002, ela é casada com um caminhoneiro (branco), tem carro, TV, computador, faz compras no supermercado e não conseguiu impedir a Funai de enterrar a melhor oportunidade de ascensão social que seus liderados tiveram.


Problema dos brancos



Trezentos pequenos agricultores das gaúchas Erechim, Erebango e Getúlio Vargas estão prestes a perder suas terras. Em 2006, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) transferiu para a região um grupo de 63 guaranis de outros locais do Rio Grande do Sul. Os índios ergueram uma favela em volta de fazendas constituídas por italianos, alemães e poloneses há mais de 150 anos. Estão vivendo em condições subumanas. "A gente veio para cá porque o Cimi prometeu mais terras, mas estamos na miséria", diz um dos líderes guarani Severino Moreira (o primeiro à esquerda). Seu sofrimento é passageiro. A Funai declarou que a terra é uma área tradicional dos índios, sugeriu a criação de uma reserva no local e a expulsão dos colonos. São esses últimos, agora, que terão problemas.


Os "carambolas"

Manoel Marques


Nunca se soube da existência de quilombos no Amazonas. Mas há quatro anos apareceu um em Novo Airão, a noroeste de Manaus. Lá, 22 famílias se declararam herdeiras de escravos fugidos. Até então, elas contavam outra história: descenderiam de sergipanos que, há 100 anos, teriam imigrado para trabalhar na coleta do látex. Em 1980, a comunidade entrou em um limbo jurídico. Naquele ano, o governo incluiu sua vila no Parque Nacional do Jaú. As famílias passaram a viver ilegalmente na área. O Ministério do Desenvolvimento Agrário resolveu o problema convertendo-os em quilombolas – ou "carambolas", como eles se autodenominam. "A gente virou ‘carambola’ para não perder a terra", diz Edneu Mendes.


Não basta ser negro

Fotos Liane Neves



O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) dividiu uma comunidade negra que vive na região central do Rio Grande do Sul desde o início do século XIX. O Incra demarcou na área um quilombo chamado São Miguel. Parte dos negros se opôs ao processo. José Adriano Carvalho explica por quê: "O Incra veio com papo de regularizar minhas terras, mas, quando mostrei que a documentação estava em ordem, eles disseram que a intenção era tirar os brancos daqui", afirma. Carvalho se recusou a declarar que era descendente de quilombolas e, por isso, pode ser expulso da terra onde nasceu, há 68 anos.

segunda-feira, maio 03, 2010

COMPARSAS DO SAMBA - A DA COPA

Comentários Moisés Basílio: Um samba redondinho e na cadência da tradição paulistana. É sempre gratificante ver e ouvir gente nova compondo e se expondo. Bela composição de Pedro Carignato e Rodrigo Reis. Gostei muito do cavaco e da flauta. Sucesso e muito Axé!


sábado, maio 01, 2010

MUSSUM E A MÚSICA

Comentários Moisés Basílio: Cresci admirando o Mussum. Ao mesmo tempo, ele era o comediante dos Trapalhões e o sambista dos "Originais do Samba". Num tempo em que o negro era ainda visto como alguém de segunda categoria, Mussum foi um negro que me ajudou a assumir a negritude, ou seja, se orgulhar de ser negro. Obrigado Mussum! Saudadis!Axéis!

Fonte: O Estadao de S.Paulo - 03 de março de 2010
O lado menos conhecido do sambista Mussum
É relançado seu 1.º solo, de 1980, que leva seu nome no título
Lucas Nobile

Quando Os Trapalhões decolaram definitivamente na TV Globo, Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, teve, naturalmente, de abandonar Os Originais do Samba, grupo que ajudou a fundar na década de 1960. O que pouco se sabe é que paralelamente a tudo isso o comediante e sambista gravou três discos-solo. O primeiro, de nome Mussum, foi registrado em 1980 pela antiga RCA Victor e acaba de ser relançado pela Sony Music.

O álbum não deve nada aos outros dois, Água Benta (1978) e Because Forever (1986). Mussum era do métier, frequentando as rodas do Cacique de Ramos e convivendo com os bambas da época. Como se não bastasse o fato de passear com naturalidade pelo universo dos sambistas, Mussum também emprestava seu carisma conhecido nas telas aos microfones dos estúdios, com afinação e divisão rítmica destacadas. Além disso, em Descobrimento do Brasil, ele teve o privilégio de contar com um instrumental luxuoso, sendo amparado por feras como Dino Sete Cordas (violão 7 cordas), Luizão Maia (baixo), Wilson das Neves (bateria), Almir Guineto (banjo), Bira Presidente (pandeiro), Ubirani (repique), Sereno (tantã), Chiquinho (acordeão) e Zé Bodega, da lendária Orquestra Tabajara (sax tenor), entre outros.
Nas 11 faixas, Mussum mostra-se versátil ao interpretar versos de amor escritos por grandes compositores, como em Um Amor Em Cada Coração, de Vinicius de Moraes e Baden Powell - com bela participação da cantora Márcia -, e em Criança Louca, de Jorge Aragão e do saudoso Neoci Dias, também integrante da primeira formação do Fundo de Quintal. Mas é nos sambas jocosos que ele deita e rola, com letras que parecem ter sido escritas para sua voz. Exemplos maiores são A Vizinha (Paulinho Durena e Alfredo Melodia) e o destaque, Nega Besta. Na música, derivada de The Old Fashioned Way, Mussum desfila seu vasto vocabulário de palavras terminadas com "is", como "casis" (casa) e "housis" (house), com versos hilários do genial Arnaud Rodrigues, que morreu no último dia 16. A letra é representante da linha seguida ainda hoje por Nei Lopes, Germano Mathias e Trio Calafrio, com Marcos Diniz, Luiz Grande e Barbeirinho do Jacarezinho.
O álbum tem ainda bons momentos, com Martinho da Vila cantando Teatro Brasileiro, samba que impressiona pelo jeito semelhante de interpretação entre ele e Mussum, além da discreta participação dos Trapalhões em Descobrimento do Brasil, no qual o cantor é acompanhado por crianças. Por fim, com Eu Sou Assim, o disco deixa a certeza de que o dia 29 de julho de 1994 não nos levou apenas um gênio do humor, mas também um grande sambista.

quinta-feira, abril 22, 2010

JOSÉ GROFF - SAUDADES!

Comentários Moisés Basílio: O Groff foi uma figura importante na minha formação política. Participei de várias reuniões com ele e aprendi muito com sua experiência. A luta da Cobrasma e dos Sindicato dos Metalúgicos de Osasco, em 1968, sempre representou a resistência dos trabalhadores e a possibilidade de se contruir algo maior, mesmo diante da repressão imposta pelo governo da Ditadura Militar e pelos donos do Capital. Axé!.

Homenagem ao companheiro José Groff

sindmetal — 20 de abril de 2010 — Vídeo especial do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região:
Protagonistas da Greve de 68 - homenagem ao companheiro José Groff - falecido em 20 de abril de 2010
Fonte: Blog do IZB (Instituto Zequinha Barreto) -

sexta-feira, março 26, 2010

Acervo de Cultura Negra Digital

Comentário Moisés Basílio: Acessem! Excelente iniciativa dos irmãos cariocas. Axé!

Cultura negra

Novo portal traz imagens do movimento por direitos iguais nos últimos 30 anos

Roberta Pennafort - O Estadao de S.Paulo -  RIO - 25/03/2009
Até sábado, uma série de eventos (apresentações de vídeos, palestras, show) marca o lançamento, no Rio, do site www.cultne.com.br , que se autointitula "o maior acervo digital de cultura negra brasileira". O portal disponibiliza imagens da luta do movimento negro por direitos iguais nos últimos 30 anos, e convida internautas a enviar vídeos e a interagir com os que estão na rede. São registros de momentos importantes para os movimentos sociais, como a visita ao Rio, em 1987, do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, Nobel da Paz por sua luta contra o apartheid. Anos depois, Nelson Mandela, liberto da prisão, também veio à cidade, e visitou o Sambódromo.
As comemorações do centenário da abolição da escravatura, em maio de 1988, foram bem documentadas. E também os shows no Renascença Clube, na zona norte do Rio, reduto de black music, e do Jongo da Serrinha, grupo que preserva e divulga a herança cultural africana.
As imagens, a maioria dos anos 80, são da produtora Enúgbarijo, aberta em 1981 com foco no movimento negro. Como não havia internet, elas eram projetadas em centros comunitários.
"A partir de 82, a gente filmou praticamente tudo ligado ao movimento negro no Rio. A ideia era criar um sistema comunitário de informação para os que tinham apenas o que vinha dos meios de comunicação oficiais. O negro só aparecia no carnaval ou na página policial", lembra Vik Birkbeck, fundadora da Enúgbarijo, com Ras Adauto. Assim como a produtora Cor da Pele, de Filó Filho e Carlos Alberto Medeiros, aberta em 1982, a Enúgbarijo manteve sua coleção de fitas VHS, e agora oferece as imagens a pesquisadores, estudantes e ao público em geral.
"É a realização de um sonho. As pessoas desconhecem o que aconteceu num passado recente. Muitos jovens sul-africanos não sabem o que foi o apartheid. No Brasil, a memória mais forte que se tem dos negros é a da escravidão, e não de sua grande contribuição cultural", diz Vik. Cineasta inglesa, ela está no Brasil há 34 anos. Logo ao chegar, ficou impressionada com o racismo no País, que tinha a fama de ser "a maior democracia racial do mundo", e se engajou.
Toda a programação do lançamento do site está em www.cultne.com.br.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

A nota do Enem 2010

Comentários Moisés Basílio:
Depois de muito vai e vem, e também de muita polêmica,finalmente o Inep coloca a disposição as notas do exame de 2009 e também as faixas de desempenho dos alunos na escala do exame. 
Por ser o primeiro Enem a utilizar da metologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI), tudo tem sido novidade para alunos, professores, escolas, mídia etc. O que nos resta a fazer é ir acompanhando o processo para aprender. Axé. 


Fonte: Sítio do Inep em 28/01/2010 - http://www.inep.gov.br/imprensa/noticias/enem/news10_04.htm
Para entender a nota do Enem

Existe uma nota global do Enem?
Não, o Inep não calcula uma média global de desempenho, apenas apresenta as médias separadamente.
A prova do Enem tem cinco notas: uma para cada área de conhecimento avaliada – Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens e Matemática –, mais a média da redação. Para o cálculo das médias em cada uma das quatro áreas foi utilizada metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI), que busca medir o conhecimento a partir do comportamento observado em testes. No caso da redação, os critérios são os mesmos do Enem tradicional.

Para distribuição das vagas no Sistema de Seleção Unificada, do Ministério da Educação, as instituições vão utilizar o conjunto de notas do Enem seguindo critérios específicos de agregação e peso.
Como é calculada a nota do Enem em TRI
Diferentemente de uma prova comum, a nota do Enem em cada área não representa simplesmente a proporção de questões que o estudante acertou na prova. Em cada uma das quatro áreas avaliadas, a média obtida depende, além do número de questões respondidas corretamente, também da dificuldade das questões que se erra e se acerta, e da consistência das respostas. Por isso, pessoas que acertam o mesmo número absoluto de itens podem obter médias de desempenho distintas.
O que representa a nota
Na escala construída para o Enem, dentro de cada uma das áreas avaliadas, a nota 500 representa a média obtida pelos concluintes do ensino médio que realizaram a prova (excluídos os egressos e treineiros). Portanto, quanto mais distante de 500 for a nota do estudante, para cima, maior o desempenho obtido em relação à média dos participantes. Mesmo raciocínio vale para desempenho menor que 500, que aponta desempenho pior em relação ao obtido pela média.
Escala
Os limites da escala, dentro de cada área, variam conforme o nível de dificuldade das questões da prova e o comportamento dos estudantes em cada questão. Portanto, o mínimo e máximo para cada área avaliada não são pré-fixados.
Na prova de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, a análise TRI apontou que a menor média de proficiência observada foi 263,3. Esse número representa o início da escala para essa área, ou seja, o nível mais baixo de proficiência possível de mensuração pelas questões da prova. A maior proficiência foi 903,2.
Para Ciências Humanas e suas Tecnologias, as notas variam entre 300,0 e 887,0.
Para a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, as médias ficam entre 224,3 e 835,6.
No caso de Matemática e suas Tecnologias, as notas vão de 345,9 a 985,1.


Enem 2009 – Menor e maior nota TRI observada

Área do conhecimento Menor nota TRI observada Maior nota TRI observada
Ciências da Natureza e suas Tecnologias 263,3 903,2
Ciências Humanas e suas Tecnologias 300,0 887,0
Linguagens, Códigos e suas Tecnologias 224,3 835,6
Matemática e suas Tecnologias 345,9 985,1

Enem 2009 – Distribuição dos participantes ao longo das faixas de desempenho, por área
Matemática
Percentual acumulado
Abaixo de 300 0
300-400 14,3
400-500 57,7
500-600 85,2
600-700 95,2
700-800 99,3
800-900 100,0
Acima de 900 100,0
Total 100,0
Linguagens
Percentual acumulado
Abaixo de 300 1,3
300-400 14,5
400-500 47,0
500-600 82,3
600-700 97,9
700-800 100,0
800-900 100,0
Acima de 900 100,0
Total 100,0
Ciências da Natureza
Percentual acumulado
Abaixo de 300 0,8
300-400 13,3
400-500 48,7
500-600 83,7
600-700 97,2
700-800 99,8
800-900 100,0
Acima de 900 100,0
Total 100,0
Ciências Humanas
Percentual acumulado
Abaixo de 300 0
300-400 14,7
400-500 49,8
500-600 80,2
600-700 96,4
700-800 99,9
800-900 100,0
Acima de 900 100,0
Total 100,0
Enem 2009 – Média observada na Redação: 601,5
*Com alterações às 19:40 do dia 28/01/10
Assessoria de Imprensa do Inep/MEC 

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Prova dos professores temporários da rede paulista de educação


Comentários Moisés Basílio: 
Embora os números dos reprovados sejam assustadores numa primeira leitura, se atentarmos bem para como tem se dado a formação inicial dos professores, principalmente no ensino superior privado que tem o monopólio da formação de professores atualmente, o resultado está dentro da normalidade.
Também não é privilégio dos professores esse baixo desempenho. Se comparados com outras categorias  profissionais podemos considerar positivo o fato de mais de 50% dos professores terem sido aprovados no tal exame.
No exame do Conselho Regional de Medicina de SP, de 2009, que não é obrigatório, 66% dos médicos foram reprovados. Já na primeira fase do exame da OAB, 88% dos inscritos no estado de São Paulo foram reprovados.
No caso específico dos professores a solução viável é aumentar o investimento na formação continuada  em uma ponta, e na outra ponta realizar uma maior fiscalização e cobranças da qualidade de ensino das instituições que promovem a formação inicial. Bem ou mal, são esses os profissionais com que  contamos para o árduo trabalho do ensino.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo - 27/1/10 - opinião - http://migre.me/hPrp

Professores reprovados




Os resultados da prova de seleção aplicada pela Secretaria Estadual da Educação para contratação de professores temporários da rede pública de ensino básico mostram por que a categoria se recusava a ser avaliada. Dos 181 mil docentes que se submeteram ao exame, preparado pela Unesp e aplicado em dezembro de 2009, cerca de 88 mil não alcançaram a nota mínima para lecionar. Ou seja, quase metade dos candidatos foi reprovada, não tendo acertado metade das 80 questões. E como um quinto da nota final vem de uma pontuação recebida pelos anos de serviço na rede, o desempenho médio dos docentes pode ter sido ainda mais constrangedor. Muitos reprovados já trabalham em sala de aula.

A prova de seleção dos temporários foi imposta em 2008 pelo governador José Serra. Até então, as exigências para a contratação eram apenas os diplomas dos candidatos e o tempo de serviço na rede escolar. Na ocasião, a Secretaria da Educação chegou a submeter os temporários a um teste, no qual 3 mil não acertaram nenhuma das 25 questões. Contudo, a categoria obteve na Justiça uma liminar, alegando que não havia base legal para a avaliação. Serra enviou, então, um projeto de lei à Assembleia Legislativa, que o aprovou em regime de urgência, no ano passado.

Contratados apenas para atender à demanda das escolas públicas do Estado, os temporários são professores que não realizaram concurso para ingressar na carreira do magistério público. Dos 230 mil docentes da rede pública de ensino médio, entre 40% e 50% tiveram contratos temporários ao longo de 2009. Muitos lecionam há anos e jamais haviam sido avaliados antes.

Ao obrigar os temporários a se submeterem a uma prova de seleção, o governo estadual queria estimular a categoria a se capacitar. Por isso, a Secretaria da Educação prometeu não recontratar quem não obtivesse média superior a 5 no teste aplicado em dezembro. Isso valia até para os professores com mais de três anos de trabalho na rede escolar, e que são considerados estáveis por uma lei estadual de 2007. Como não podem ser demitidos, a ideia era transferir os docentes reprovados das salas de aula para postos administrativos.

Agora, com os resultados alarmantes da prova, a Secretaria da Educação está numa situação embaraçosa. Sem os professores temporários reprovados, ela não conseguirá oferecer aulas aos mais de 5 milhões de alunos que estudam nas 5,3 mil escolas da rede estadual. O problema é que, ao contratar docentes não qualificados, o governo estará dando um passo atrás em sua tentativa de melhorar a qualidade do ensino público no Estado. Que tipo de atividade didática esperar de quem não conhece a disciplina que ensina?

"Professores despreparados podem já ter causado prejuízo ao aprendizado dos alunos nos anos anteriores", diz o professor Paulo Braga Barone, do Conselho Nacional de Educação. "Minha primeira obrigação é garantir aulas aos alunos", rebate o secretário Paulo Renato Souza, admitindo a contratação de docentes não qualificados. A maior dificuldade está nas disciplinas de matemática e física, pois há muito tempo se registra um grande déficit de professores com licenciatura na área de ciências exatas. Para tentar minimizar o problema, o secretário está prometendo criar cursos a distância para capacitações em matérias específicas.

O problema, como reconhecem os especialistas, é que essas providências são emergenciais e seus resultados costumam ser duvidosos. O mais adequado seria criar cursos de formação continuada, oferecer bolsas de estímulo à capacitação docente e criar referenciais de qualidade para quem leciona na rede pública sem concurso. Essas medidas já fazem parte da política da Secretaria da Educação, mas sua implantação, além de ser lenta, esbarra em conflitos corporativos entre o governo e as lideranças sindicais do professorado. As autoridades educacionais reclamam do excesso de politização nas demandas dos docentes. E estes, por seu lado, reclamam da má qualidade do material didático.

Quem perde são os alunos, cuja formação está entregue a quem não tem condição de ensinar.

Fonte: Sítio do iG - 15/12/10 - 16h11 -  http://migre.me/hPAg

Exame do Conselho Regional de Medicina de SP reprova metade dos estudantes formados

Carolina Rocha
Pelo terceiro ano consecutivo, menos da metade dos estudantes que se formaram em medicina foi aprovada pelo exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Neste ano, apenas 44% dos alunos tiveram desempenho considerado satisfatório.
Em comparação com 2008, a aprovação dos estudantes melhorou. No ano passado, apenas 39% foram aprovados. Porém a participação dos formandos em medicina caiu de 730 inscritos para 621.
A prova do Cremesp não é obrigatória, não é exigida para que os médicos obtenham a licença para trabalhar (CRM) e recebe apenas estudantes voluntários. O Estado de São Paulo é o único do País que aplica o exame aos estudantes que estão saindo da universidade, para avaliar a qualidade dos cursos.
"Só participam do exame aqueles alunos que se consideram bem, que tiraram boas notas. Existem casos em que a faculdade faz um pool de alunos bons para que seu conceito apareça bem na estatística", explica o coordenador do exame, o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Braulio Luna Filho.
Para ele, a qualidade do ensino de medicina no Brasil é precária e "mais da metade das escolas deveria ser fechadas, especialmente as que não oferecem campus para treinamento". "O Cremesp acaba recebendo do judiciário a responsabilidade de avaliar os casos de erro médico. Somente em São Paulo estamos registrando mais de 4500 casos em 2009", diz Luna Filho.
Boicote
O Cremesp acredita que diversas universidades fazem boicote ao exame. "Tem universidade que não manda nenhum estudante para o exame. Em outras o boicote fica por parte dos professores, que marcam avaliação exatamente no dia da nossa prova", comenta o coordenador.
Segundo ele, "não é do interesse das escolas de medicina ter o nome delas associado a um mau resultado dos alunos e elas preferem boicotar a melhorar o ensino".
A faculdade que mais teve representantes no exame deste ano foi a Unifesp, com 94 participantes (58,5% de aprovados), seguida pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, que teve 87 representantes, com 60,9% deles aprovados.
Erros básicos
A prova avalia conhecimentos de áreas básicas da medicina, como clínica médica, saúde mental, pediatria, bioética, ciências básicas, entre outras. Neste ano, a prova de clínica médica, área da medicina que abrange conhecimentos básicos e é exigida dos profissionais que trabalham em prontos-socorros, teve média de 48,45% de acerto das questões.
Dos 621 participantes, 49% não foram capazes de acertar o diagnóstico de apendicite aguda sugerido numa questão. Uma questão sobre as características da gripe suína foi respondida corretamente apenas por 39% dos formandos.
"Esses estudantes, especialmente os das escolas ruins, são os que acabam parando nas unidades de emergência dos hospitais públicos, pois não conseguem uma vaga de residência nos melhores hospitais", comenta o coordenador.
Somente em São Paulo, 2.600 médicos se formarão em 2009 nas 31 escolas de medicina do Estado.

Quarta-feira, 27 de maio de 2009, 21:03 | Online



Fonte: Sítio do Jornal O Estado de S. Paulo, 27/5/09 - 21h03 - Online - http://migre.me/hPGe

SP tem 88% de reprovação na 1ª fase do exame da OAB

Presidente da entidade no Estado diz que resultado reflete má qualidade do ensino jurídico
Bruna Tiussu - Especial para O Estado de S. Paulo



SÃO PAULO - Advogados e professores paulistas ficaram surpresos com o desempenho dos bacharéis de São Paulo no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Apenas 12% dos 18.925 candidatos do Estado inscritos na prova foram aprovados para a segunda etapa do exame. Com esse resultado, São Paulo ficou à frente de apenas dois Estados, Amapá, com 11,6%, e Mato Grosso, com 11,8%. Sergipe ficou em primeiro lugar, com 33% de aprovação. O índice médio de todo o País foi de 17%, para um total de 59.834 inscritos. 
Segundo o presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D'Urso, os resultados foram muito aquém do esperado. "O índice geral surpreende negativamente. Sergipe teve o melhor desempenho, mas há que se considerar que lá existem poucas faculdades de Direito. Em São Paulo há mais de 200 instituições de ensino jurídico e o alto índice de reprovação reflete a qualidade desse ensino no Estado." Os candidatos reprovados podem recorrer à Comissão de Estágio e Exame da Ordem da OAB-SP até sexta-feira.

Esta foi a primeira vez que São Paulo participou da prova nacional, com cem questões, que incluiu três novas áreas: Direito Internacional, do Consumidor e Ambiental. Antes, os bacharéis paulistas participavam do exame regional, feito pelo OAB-SP. Para D'Urso, a adoção do exame unificado não foi a responsável pela reprovação de 88% dos candidatos. "O nível deste exame é o mesmo do anterior."

D'Urso afirmou que a média de aprovação no exame regional nos últimos anos girava em torno de 20%. Ele disse que a inclusão de novas áreas na prova não foi determinante para o péssimo desempenho dos bacharéis de São Paulo. De acordo com a OAB-SP, tanto a prova regional quanto a nacional já abordavam aspectos do Direito Internacional, do Consumidor e Ambiental em questões de outras disciplinas.

"O Exame de Ordem tem se mostrado indispensável, principalmente quadro se verifica que poucas faculdades de direito conseguem formar adequadamente seus bacharéis, sobretudo em razão da ampliação desenfreada do número de cursos", afirma a presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), Maria Odete Duque Bertasi.

Para o professor Marcelo Cometti, coordenador do cursinho da OAB do Damásio de Jesus, a principal dificuldade dos candidatos está na interpretação das questões. "O exame exigia uma boa leitura, raciocínio lógico e a capacidade de relacionar os conhecimentos." Para ele, é injusto atribuir a culpa do baixo índice de aprovação só aos cursos de Direito. "O resultado é, sim, reflexo do despreparo do candidato, mas o problema não se limita aos cursos de graduação. O que falta são habilidades básicas."

Augustinho Antonio Pereira Aires está entre os 12% que farão a segunda fase do exame. Formado em 2008 pela Uniban, ele acredita que o nervosismo é o fator que mais atrapalha os candidatos do exame da OAB. "É a quarta vez que eu tento e o nível da prova continua o mesmo, pelo menos nesta primeira etapa. O conteúdo cobrado está dentro do que é dado durante o curso de Direito, o aluno tem que assimilar este conhecimento, não só decorá-lo. E conseguir o mais difícil, manter a tranquilidade durante a prova."

O exame da segunda fase está marcado para 28 de junho e a nota mínima para aprovação é 6. A prova também terá três novas áreas: Direito Administrativo, Constitucional e Empresarial.



sábado, janeiro 16, 2010

Museus da Europa e EUA na rede mundial de computadores

Comentários Moisés Basílio: Um dica para navegar por museus da Europa e EUA sem sair de casa. Vou tentar fazer uma pesquisa sobre museus de outros continentes que estão na rede mundial de computadores. Axé


Nueva tendencia: “navegar” por los museos

Fonte: Sítio do jornal La Nacion - Chile - Sábado 26 de enero de 2008 | 13:50 _NOM_SECCION1/ EFE

El avance de la tecnología permite que -desde el computador- millones de cibernautas puedan ingresar a ver las más diversas obras de importantes museos europeos y norteamericanos. Un sólo click y el arte llega a ti.


Desde ahora muchos podrán decir adiós a los pasajes, las reservas de hoteles y las largas filas, porque existe otra forma de conocer a algunos de los más importantes museos de Europa y Estados Unidos. A través de sus páginas en Internet, las personas pueden recorrer sus obras y hasta salones desde la tranquilidad del hogar.

Es el caso del Museo Thyssen de Madrid (www.museothyssen.org ), cuya galería virtual se caracteriza además por su realismo, sencillez y facilidad de acceso, mientras que en otros sitios como el del Louvre (www.louvre.fr ), es preciso saber dónde buscar y requiere la intervención continúa del cibernauta. En el caso del primero, sólo en 2007 su web tuvo cinco millones de usuarios, cuatro veces más que todas las visitas al museo desde su inauguración.

Otro que destaca por su esmerada puesta en escena es el Gulbenkian de Lisboa (www.museu.gulbenkian.pt). Misma tendencia a la que se ha sumado el Grupo BBVA ( www.bbva.com/responsabilidadcorporativa), con más de 3.000 obras de relevancia en su haber.

Por su parte, el Guggenheim de Bilbao (www.guggenheim-bilbao.es ) ha remodelado por completo -el pasado mes de noviembre- su web con el propósito de convertirse en un referente internacional de los museos on line. Así, en su página virtual se puede visitar -con los responsables del museo como guías- el edificio y las obras que se exponen en el exterior y las que se exhiben dentro de Richard Serra, aunque no las exposiciones temporales.

En el otro lado está el Museo del Prado (www.museodelprado.es ), que estrenó en octubre una web con un gran volumen de contenidos, quizá el mayor de los museos de la madre patria. Su web tiene 8.000 usuarios diarios, casi tantos como los que lo visitan presencialmente, y permite un paseo por sus obras maestras.

No obstante, existen establecimientos culturales como el Tate Modern (www.tate.org.uk ), en Londres, el MOMA (www.moma.org ) y el MET (www.metmuseum.org ), ambos en Nueva York, que a pesar de tener unos muy buenas páginas web, tienen la complejidad añadida de que muchos de sus cuadros están sujetos a derechos de autor. Por ello, aunque se pueden ubicar sus obras-en la planta en la que se encuentran- no se puede ver la foto de todas ellas.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

O FUTURO DO TRÂNSITO EM SÃO PAULO


Comentários Moisés Basílio:
Pelo twitter do vereador Chico Macena (PT-SP) tive acesso a esse excelente vídeo sobre os problemas do trânsito e do transporte na cidade de São Paulo e possíveis propostas de soluções a partir de experiências desenvolvidas em outras grandes cidades do mundo.
Uma coisa é certa, para resolver esse problema o caminho é diminuir o uso do transporte individual (automóvel) e aumentar as alternativas de transportes públicos (metrô, trem, ônibus etc.). O transporte individual a pé ou de bicicleta seria o ideal.
Um excelente material para abrir uma discussão coletiva. Vou tentar usá-lo no meu curso de história com meus alunos do 9º ano, nesse ano letivo. Axé!