segunda-feira, dezembro 20, 2010

Lima Barreto: Um literato negro da sociedade multirracial brasileira

Por Moisés Basilio Leal 


Trabalho final apresentado à disciplina Antropologia da Sociedade Multirracial Brasileira: o segmento negro, ministrada pelo professor doutor Kabengele Munanga, Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo.



1.    Introdução

Esse trabalho é uma reflexão sobre a sociedade multirracial brasileira no período da Primeira República Brasileira tendo como base a vida e a obra do escritor Lima Barreto. O objetivo não é uma analise pontual de seus textos, mas a de contextualizar a sua produção numa conjuntura onde a ideologia do racismo, com base nas pseudociências racialistas, se tornou parte no ideário das classes dominantes brasileiras.

Hoje Lima Barreto é considerado um dos grandes escritores da língua portuguesa, mas no seu tempo, foi sistematicamente rejeitado e estigmatizado pelo mundo literário da época e considerado um escritor maldito, um mulato ressentido, um mau escritor.

A partir dos anos 50 do século passado sua obra foi resgatada e publicada completa o que ensejou uma multiplicidade de estudos acadêmicos, que proliferam até os dias atuais devido a riqueza de sua produção, e a sua consagração póstuma como o grande escritor negro brasileiro. Sua obra prima é o romance “Triste fim de Policarpo Quaresma” que de forma impactante faz uma acida critica ao Brasil da Primeira República. Suas crônicas e contos também são documentos de extrema importância para o estudo das ciências humanas. Pelo conjunto de sua obra literária criativa e original é considerado pela crítica, quase por unanimidade, como um dos grandes pensadores do Brasil.

Lima Barreto é o nome literário do escritor carioca Afonso Henrique de Lima Barreto. Filho de pais mestiços e livres, mãe professora das primeiras letras e o pai tipografo da imprensa imperial. Nasceu numa sexta-feira, 13 de maio de 1881.

Vai viver na pele as contradições da sociedade multirracial brasileira em tempos de profundas transformações decorrentes da sua inserção no mundo da segundo revolução industrial capitalista em sua etapa imperialista.

É   alfabetizado pela mãe, que perde aos 6 anos. Aos 7 anos assiste com o pai os festejos da abolição. Com ajuda financeira do padrinho, um influente político do império, que depois sofre algumas perdas com a República, estuda para alcançar o sonho paterno de torna-lo doutor pela Escola Politécnica.

Após a proclamação da República vários infortúnios marcaram sua vida pessoal. O pai, monarquista assumido é perseguido e perde o emprego. Consegue um emprego precário e fruto das perseguições enlouquece, situação que força Lima Barreto a abandonar o curso de engenharia, e ter que arranjar emprego para o sustento da família.

Então muda por completo os rumos da sua vida. Presta um concurso público e vai trabalhar num cargo burocrático. Devido as dificuldade financeira muda com a família para o subúrbio carioca, a Vila de Todos os Santos, que para ele ganhara o nome de Vila Quilombo.

Ainda estudante inicia sua carreira literária escrevendo nos jornais estudantis. Depois passa a colaborar com outros jornais e inicia sua produção de crônicas, contos e romances.

Torna-se um leitor e um escritor compulsivo. É um colaborador constante de vários periódicos da imprensa alternativa da época. Devido a sua situação social terá grandes dificuldades, durante toda a sua vida, para publicar suas obras. A maioria dos seus livros publicados em vida foi custeada pelo próprio autor, que para isso teve que fazer empréstimos pessoais com agiotas.

            A partir de certo momento da vida Lima Barreto se entrega ao vício da bebida. Esse vício será a causa de várias internações no hospício e da degeneração de sua saúde.

            Morreu no dia 1º de novembro de 1922, na cidade em que viveu e sempre declarou seu amor, o Rio de Janeiro, com 41 anos de idade.

2.    Os discursos científicos raciais no contexto da Primeira República Brasileira

Para se compreender melhor a vida e obra de um autor é mister conhece o conhecer o contexto da sociedade em que ele viveu. No caso de Lima Barreto, como destacam seus biógrafos, essa afirmação é mais do que fundamental, pois que o nosso autor pratica uma literatura de cunho memorialística cuja sua própria biografia se funde com a totalidade social que o cerca e se torna a fonte principal de sua inspiração. Para o bem ou para o mal, essa característica marcante de sua obra sempre foi alvo das críticas.

Embora não seja o intuito desse texto aprofundar a análise dessas críticas, algumas questões por ela levantadas nos ajudarão a contextualizar a nossa discussão e em certa medida balizar qual o grau de importância que tem na vida e na obra de Lima Barreto o assumir uma identidade que o marcou, com afirma Lilia Schwartz (2010, p.22): “Primeiro autor brasileiro a se reconhecer e definir como literato negro”.

Mas, antes de discutir esse aspecto da obra de Lima Barreto é bom situar em que pé estava a questão da raça e do racismo no contexto histórico do que a historiografia costuma chamar de Primeira República Brasileira, que compreende o período das duas décadas finais do século XIX e as três décadas iniciais do século XX.

Em Munanga (2000) há uma digressão histórica sobre a evolução dos conceitos de raça e racismo nas sociedades da modernidade europeia, da qual o Brasil culturalmente irá fazer parte em decorrência da colonização portuguesa.

A palavra raça, em português, vem do italiano razza, que por sua vez tem origem no latim ratio com os significados de sorte, categoria ou espécie. No período medieval o termo tinha sua acepção ligada à ancestralidade ou linhagem. Já durante os séculos XVI e XVII, em França, o termo passa a ser usado pela nobreza, que se consideravam francos de origem germânica e se diferenciavam da plebe, que era taxada como tendo origem gaulesa. Mais do classificar, segundo Munanga (2000) os nobres franceses também hierarquizavam sua classificação ao se considerarem como os de sangue “puro” e, portanto com habilidades superiores aos plebeus, fato que justificava sua dominação de classe. Nota-se que essa distinção era feita sem levar em conta que não havia grandes diferenças morfobiológicas notáveis, como cor da pele, entre nobres e plebeus franceses.

      Já no mundo ibérico, durante o mesmo período marcado pelas grandes descobertas do mundo novo, a questão se pautou pela natureza humana dos diferentes dos europeus – nativos americanos, africanos etc. À luz dos referenciais religiosos, pautado pela interpretação teológica da genealogia dos descendentes de Adão, da bíblia, se classifica e se hierarquiza os diferentes, sendo que no topo, como povo eleito, situa o branco europeu com todos os privilégios e justificativas para a dominação. 

            No século XVIII há uma mudança qualitativa na conceituação de raça. Os filósofos da ilustração se opuseram às visões e interpretações de mundo tanto da nobreza, quanto da igreja. Em seu lugar importou das ciências naturais o conceito de raça para classificar as diferenças humanas. Para classifica há que se terem critérios e nesse momento a cor da pele foi o marcador principal das diferenças humanas e da divisão da humanidade em três raças – branca, negra e amarela. No século XIX com o desenvolvimento da biologia e da antropologia física – as ciências que davam base ao discurso científico racialista –, novos critérios de classificação serão elencados com base em características morfológicas dos corpos distintos.  Já no século XX, com o desenvolvimento da genética, através de processos químicos do sangue também se avançou em novas classificações.

            Para Munanga (2000) o processo de classificação biológica dos grupos humanos em raças em si não teria grande problema para a humanidade. O problema é que a partir dessa classificação se constituiu no século XIX uma pseudociência da raciologia que hierarquizou ideologicamente a diversidade humana em raças, dando origem ao racismo, uma ideologia de dominação, que vai se utilizar da classificação biológica para estabelecer uma relação de superioridade e inferioridade entre os humanos.

            Depois dessa rápida digressão histórica sobre raça e racismo, voltemos ao Brasil da primeira república. A grande questão posta para o País, nesse contexto, era a de como se relacionar com as grandes transformações engendradas pelo capitalismo internacional da segunda revolução industrial e de caráter imperialista, formulando um projeto de Estado nação, numa conjuntura de um país de independência política recente, saído de uma relação de base colonial, com uma economia agroexportadora totalmente dependente dos mercados externos, com uma estrutura social de ordem patriarcal e da recente abolição do trabalho escravo.

            Com o fim da escravidão e a proclamação da república a questão racial pede uma nova equação e a nossa elite políticas e intelectuais, que sempre beberam da cultura europeia, vão se embebedar das teorias racialistas e das práticas racistas da moda. Um belo exemplo é esse discurso sobre a febre amarela, no parlamento, do grande político e intelectual, símbolo da primeira república, o liberal Ruy Barbosa:

            “É um mal, de que só a raça negra logra imunidade, raro desmentida apenas no curso das mais violentas epidemias, e em cujo obituário, nos centros onde avultava a imigração europeia, a contribuição das colônias estrangeiras subia a 92 por centro sobre o total de mortos. Conservadora do elemento africano, exterminadora do elemento europeu, a praga amarela, negreira e xenófoba, atacava a existência da nação na sua medula, na seiva regeneratriz do bom sangue africano, com que a corrente imigratória nos vem depurar as veias da mestiçagem primitiva, e nos dava, aos olhos do mundo civilizado, os ares de um matadouro da raça branca.” (Rui Barbosa. In CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial. 2004, p. 57.)

            Na plataforma do Estado nação brasileiro da primeira república, como declina o ilustre intelectual baiano diante da praga da febre amarela que mata mais o elemento branco do que o negro, pode-se com certeza deduzir que o projeto de embranquecimento da população é a matriz da política racial. E é nesse contexto que Lima Barreto vai interagir.

3.    Uma vida e uma obra com identidade racial

Lima Barreto é um personagem emblemático desse período de transição da política racial no Brasil baseado nas ideias racialistas do século XIX.  Antes, no escravismo o racismo estava plenamente incorporado no cotidiano social e depois da primeira república o racismo vai tomar a forma da ideologia da democracia racial.    
Sergio Buarque de Holanda (1948), prefaciando o romance Clara dos Anjos faz uma crítica à Lima Barreto, que em minha opinião faz referência com aquilo que Stuart Hall (2005) em seu estudo sobre a identidade cultural vai conceituar de sujeito do Iluminismo, cuja identidade nasce com o indivíduo e com ele se desenvolve ao largo de sua existência, o que pode ser definido como uma identidade de cunho individualista. Holanda que foi contemporâneo e manteve relações de amizade com o nosso escritor se sente a vontade para tecer suas críticas sobre as fragilidades de Lima Barreto. Para ele:

            “A obra desse escritor é, em grande parte, uma confissão mal escondida, confissão de amarguras intimas de ressentimentos, de malogros pessoais, que nos seus melhores momentos ele soube transfigurar em arte.” (Holanda, 1948, p.4)

            Mas adiante reforça a sua critica quando reafirma as limitações estéticas do nosso autor:

            “O que talvez se possa afirmar em detrimento de parte de sua obra e muito especialmente do romance Clara dos Anjos” “... é que nela a refundição estética não se fez de modo pleno. Em outras palavras, os problemas íntimos que o autor viveu intensamente e procurou muitas vezes resolver através da criação literária não foram integralmente absorvidos e nela ainda perduram em carne e osso como corpo estranho.” (Holanda, 1948, p.4).

            Ora, nessa linha de raciocino Holanda sugere que ao exteriorizar sua crítica ao racismo, de forma escancarada, Lima Barreto acaba por se aproximar em demasia de seu objeto literário, fato que o faz perder a capacidade da elaboração artística, ao fazer uma literatura só de denúncias. O contraponto de sua atuação literária seria o velho Machado de Assis:

            “Enquanto os escritos de Lima Barreto foram, todos eles, uma confissão mal disfarçada...”, “... os de Machado foram antes uma evasão e um refúgio. O mesmo tema que para o primeiro representa obsessivo tormento e tormento que não pode calar, este o dissimula por todos os meios ao seu alcance. E afinal triunfa a realização literária, onde a dissimulação cuidadosamente cultivada irá expandir-se até o ponto de se converter no ingrediente necessário de uma arte feita de vigilância, de reserva e de tato. Machado de Assis aristocratizou-se por esforço próprio e da disciplina que para isso se impôs, ficou em seu temperamento e em sua obra uma vertente inumana, que devia desagradar a espíritos menos capazes de contensão. Desagradaria, com se sabe, a um Patrocínio, e desagradou certamente a Lima Barreto. (Holanda, 1948, p.5)

            Francisco de Assis Barbosa (1988) autor de uma rica biografia do nosso autor e também um dos organizadores das obras completas de Lima Barreto na década dos anos de 1950, também partilha da visão de Holanda.

            “A verdade é que preconceito de cor sempre existiu e ainda existe no Brasil, em maior ou menor escala. O que acontece é que há os que vencem e se acomodam, como há também os que se deixam marcar com cicatrizes mais profundas, quando não sucumbem às restrições e reservas que se lhes impõem. Questão de temperamento. O caso de Lima Barreto é típico, e bem merece um estudo mais profundo, o que somente um especialista poderia fazer.”

            O que será que significa para Barbosa vencer e se acomodar aos preconceitos? Provavelmente será o de se integrar na lógica do embranquecimento e do arrivismo, como fez o grande mestiço Machado de Assis. Seria só questão de temperamento ou questão de identidade? Aqui aparece aquela ideia tão comum no imaginário que é a de quem luta contra o preconceito e a discriminação é um complexado, ou seja, o bom preto ou mestiço é aquele que sabe onde é o seu lugar social.

            Em toda sua vasta obra literária, composta por dezenas de contos e crônicas, e também nos romances, Lima Barreto se coloca como o sujeito sociológico definido por Stuart Hall (2005). Esse sujeito que se funda na complexidade da sociedade moderna e forja a sua consciência nas relações de identidade com outros sujeitos com os quais se identifica culturalmente (valores, símbolos e sentidos). Assim longe do embranquecimento, do arrivismo e da promiscuidade intelectual, Lima Barreto vai construir sua identidade como negro, trabalhador do serviço público concursado, escritor militante da imprensa alternativa da época, anticapitalista (maximalista ou anarquista) e crítico do círculo intelectual do dominante.

4.    Conclusão

A título de conclusão é bom iniciar com uma advertência:

“Não cairemos na armadilha de só ver o lado luminoso da obra de Lima Barreto”. Ele foi, também, segundo o historiador carioca, e apesar de assumir suas origens étnicas, uma vítima da “ambivalência que aflige o negro intelectual num mundo de branco”: embora atacasse aqueles que considerava “negro de alma branca”, como Machado de Assis e José do Patrocínio, confessava sua dificuldade em conviver com os seus negros, em geral intelectualmente inferiores. E apesar de manifestar-se, muitas vezes, em defesa da nacionalidade invadida, esforçou-se , em com certo sucesso, em estudar os clássicos e alinhar-se ao pensamento dos grandes intelectuais europeus de seu tempo.” (SANTOS, JOEL RUFINO DO. Apud LOPES, Nei. 2007, p.92-3)

Embora com suas contradições, a vida e a obra de Lima Barreto dialogam com o racismo brasileiro da Primeira República de forma dramática, ele próprio vai sentir na carne o processo de degradação por que passam os negros na luta pela sobrevivência numa sociedade que tem como projeto o embranquecimento.

Nicolau Sevcenko (1983) descreve bem os infortúnios da vida do nosso autor:

“Durante todo esse mergulho vertiginoso na sombra da miséria, da insegurança, da abominação social, Lima Barreto deixou seus colegas da boemia e academia pelos companheiros de bar ou de desfortuna. Pôde encarar a ciência não como cientista, mas com paciente. Ver o centro da cidade embelezar-se durante suas idas e vindas para o subúrbio. Encarou o crescimento da concorrência da perspectiva do derrotado. Percebeu a vitória do arrivismo como que perde uma situação duramente alcançada. Assistiu ao crescimento do preconceito social e racial como um discriminado. Sentiu a repressão e o isolamento dos insociáveis como vitima. Nas dessa situação geral a inspiração de sua doutrina humanitária de construção de uma solidariedade autêntica entre os homens, que pusesse fim a toda forma de discriminação, competição e conflito, e a todos reconhecesse a dignidade mínima do sofrimento e da imensa dor de serem humanos.” (Sevcenko, 2003, p.234).
           
            Sua obra, no entanto, a despeito de todas as adversidades se constitui num manifesto dissonante do discurso dominante. Nela são denunciadas as promessas da liberdade proposta pela abolição de 1888 e não cumprida e também a promessa de igualdade e cidadania da proclamação da república de 1889 e igualmente não cumprida. Na sensibilidade do artista, um projeto de nação emerge costurado em sua imensa produção literária (crônica, contos e romances), e se esse projeto não foi vitorioso no seu momento histórico, ele acabou por deixar suas marcas para que as novas gerações bebam dele novas esperanças.

Bibliografia

BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto: 1881-1922. 7ed. – Belo Horizonte; Itatiaia; São Paulo; Editora da USP, 1988.

BARRETO, Afonso Henrique de Lima 1881-1922. (1948). Clara dos Anjos. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda – 4ª ed. – São Paulo – Editora Brasiliense, 1974.

BARRETO, Afonso Henrique de Lima 1881-1922. Contos completos de Lima Barreto; organização e introdução Lilia Moritz Schwarcz – São Paulo – Companhia das Letras, 2010.

BARRETO, Afonso Henrique de Lima 1881-1922. Toda Crônica: Lima Barreto – (apr. e notas) Beatriz Resende; (org.) Rachel Valença. – Rio de Janeiro: Agir, 2004.

BARRETO, Afonso Henrique de Lima 1881-1922. Um longo sonho do futuro: diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas de Lima Barreto – Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 1993.

HALL, Stwart. A identidade em questão. A identidade Cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005

LOPES, Nei. Dicionário literário afro-brasileiro – Rio de Janeiro: Pallas, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In: BRANDÃO, André Augusto P. (org.) Programa de Educação Sobe o Negro na Sociedade Brasileira. Niterói/RJ: Editora: UFF, 2000.

SEVECENKO, Nicolau. (1983). Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República – 2ª ed. – São Paulo; Companhia das Letras, 2003.

Entrevista com o Professor Kabengele Munanga - 2008

Comentários Moisés Basílio: Nesse semestre tive o privilégio de ter cursado a disciplina Antropologia da Sociedade Multi-racial Brasileira: O Segmento Negro, com o Professor Kabengele no Departamento de Antropologia da USP. Embora aqueles que são racistas, ou que vivem sobre a influência do "mito da democracia racial" não admitam que exista racismo no Brasil, ele está aí, e bem presente, como analisa o Professor Kabengele nessa entrevista de dois anos atrás que eu ainda não conhecia. Axé!


RACISMO: ORIGENS E CONQUÊNCIAS

Fonte: Revista Claudia 2008 . Entrevista com o antropólogo Kabengele Munanga, professor titular da FFLCH/USP e autor de "Origens Africanas do Brasil Contemporâneo: Histórias, Línguas, Culturas e Civilizações" (ed. Global) 

CLAUDIA - Qual é a origem do racismo no mundo?
Prof. Kabengele Munanga - Não existe unanimidade entre os estudiosos sobre a origem do racismo. Sociólogos e antropólogos pensam que o racismo foi construído na modernidade ocidental pelos filósofos iluministas e naturalistas. A partir do século 18, esses filósofos iniciaram a obra de classificação científica da diversidade humana em raças distintas, decretadas por eles de inferiores e superiores com base nas diferenças somáticas. Já trabalhos mais recentes, como o de Isaac Benjamin (The Invention Of Racism in Classical Antiquity. Princeton and Oxford, Princiton University Press, 2004), encontram as raízes do racismo na antiguidade clássica, entre os gregos e os romanos.
Apesar da controvérsia sobre as origens do racismo, sua essência é única. É a idéia de que a diversidade humana é composta de grupos biologicamente contrastados (cor da pele, traços morfológicos e marcadores genéticos). Esses grupos são hierarquizados com bases nessas diferenças em raças superiores e inferiores, numa  pirâmide encabeçado pelo grupo branco, tendo os negros na base inferior e os chamados amarelos na parte intermediária. Essa classificação é usada para justificar e legitimar a dominação de um sobre os outros.

CLAUDIA - Quais as consequências do racismo no mundo?
Prof. Kabengele Munanga - O racismo causou grandes problemas na história da humanidade a partir do momento em que as teorias racialistas  se transformaram em ideologias dos Estados colonialistas para legitimar a dominação e a ocupação dos territórios africanos, em ideologias oficiais dos Estados nazistas e fascistas que originaram o genocídio de milhões de judeus e ciganos durante a 2ª guerra mundial. Os sistemas segregacionistas do sul dos Estados Unidos (sistema Jim e Crow) e da África do Sul (apartheid), os racismos de fato em todos os países da América do Sul encabeçados pelo Brasil se fundamentarem no racismo explícito e/ou implícito que está na origem das desigualdades raciais e da exclusão dos negros nos postos de comando e responsabilidade. A Constituição Brasileira de 1988, que considera as práticas racistas como crime inafiançável e sujeito a reclusão, é prova do reconhecimento da existência do racismo de fato pelo legislador brasileiro. A polêmica sobre as políticas de ação afirmativa e cotas que hoje divide os intelectuais, políticos, ativistas e midiáticos é também prova da existência desse racismo de fato que, dentro de suas peculiaridades, causa grandes problemas para a construção da democracia brasileira.

CLAUDIA No Brasil, quais foram as principais lutas contra o racismo?
Prof. Kabengele Munanga - O Brasil, como sociedade genuinamente racista, nunca teve leis racistas institucionalizadas como nos Estados Unidos e na África do Sul. Também levou muitos anos para ter leis protecionistas contra o racismo para não contradizer seu mito de democracia racial. Mas em 1951, alguns episódios de discriminação levaram o então deputado Affonso Arino a propor um projeto de Lei, que foi votado e se transformou em Lei Affonso Arino, que considerava prática de racismo como uma contravenção penal sujeita a uma multa derrisória. Lei que não funcionava por falta de provas testemunhais. Com a nova Constituição de 1988, um grande salto foi realizado, ao tornar prática racista crime inafiançável e sujeito à reclusão. Apesar de funcionar muito pouco por causa de faltas de provas testemunhais, essa lei representa um grande avanço no combate repressivo às práticas racistas no país, embora não se substitua às políticas públicas afirmativas e macro-sociais.
A Fundação Cultural Palmares que veio pelo raio de ação da nova Constituição é certamente significativa como reconhecimento da contribuição cultural do negro no Brasil. De fato, Palmares era uma comunidade quilombola hoje considerada como ícone da resistência contra a escravatura e, conseqüentemente, o ponto de partida das outras resistências coletivas negras passadas, presentes e futuras. Depois do episódio de Palmares, nota-se a fundação da Imprensa Negra Brasileira, seguida  pela fundação da Frente Negra Brasileira, transformada em partido político nos anos 30. A luta da Frente Negra era justamente contra o racismo e em favor da integração do negro na sociedade brasileira. Nos anos 40 surgiram também outras organizações negras contra o racismo como o Teatro Experimental Negro e o movimento quilombismo liderados por Abdias do Nascimento.
Mas creio que os episódios mais marcantes  contra o racismo nos últimos 30 anos se iniciam com a fundação do Movimento Negro Unificado contra o racismo (1978), cuja marcha em Brasília, em novembro de 1995, tinha em sua pauta de reivindicação a exigência das políticas afirmativas e das cotas já como formas concretas de luta contra as desigualdades raciais.
Seis anos depois, veio a Conferência Mundial contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, organizada pela ONU em agosto/setembro de 2001 em Durban, na África do Sul. A pressão das organizações do Movimento Negro sobre a representação oficial do Estado Brasileiro nessa conferência resultou nas propostas de implementação das políticas de ação afirmativa, inclusivas as cotas em benefício das populações negras, indígenas e outras minorias como homossexuais, judeus, ciganos, etc.  Voltando para casa depois da conferência, o governo brasileiro como membro signatário da Declaração de Durban começou sua lição de casa. Foi assim que a partir de 2002, desencadeou-se um processo de implementação de ação afirmativa cujo debate gerou as controvérsias que permanecem até hoje. Os projetos da Lei das cotas e do Estatuto da Igualdade racial, que tramitam ainda na esfera legislativa, são conseqüência desse processo que começou efetivamente em 2001, mas com antecedências na marcha de Brasília de 1995 pelo Movimento Negro. Apesar da lentidão do legislativo na votação dessas propostas de leis, cerca de 70 a 80 universidades públicas estaduais e federais se adiantaram  por entender que era urgente e inadiável as propostas de mudanças na educação superior e universitária e implementaram cotas em favor de negros, índios e brancos oriundos da escola pública. Portanto, sem minimizar as ações anteriores, eu creio que o momento mais marcante na luta concreta contra o racismo no Brasil é esse que estamos vivendo e que começou efetivamente por volta de 2001. A criação pelo atual governo da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), a promulgação das leis 10.639/03 e 11.645/08 que tornam obrigatório o ensino da história do negro e das populações indígenas na escola brasileira, entre outros, fazem parte do pacote de ações afirmativas no âmbito do governo.

CLAUDIA Como avaliar o preconceito racial atualmente no mundo e no Brasil?
Prof. Kabengele Munanga - O preconceito racial no mundo não cedeu, apesar dos progressos da ciência que ensina que a raça não existe biologicamente. Podemos continuar a afirmar que as raças superiores e inferiores não existem, no entanto, os preconceitos e as práticas racistas no mundo se mantêm. Se as raças não existem biologicamente, no imaginário coletivo das pessoas e sobretudo das pessoas racistas, elas existem com toda a carga simbólica de inferioridade e superioridade. Daí a afirmação de que a raça é social, política e ideológica e não biológica. Essas raças fictícias e imaginárias, acrescentando-se a fenotipia das pessoas (brancos, negros, índios, mestiços), explicam todas as manifestações de preconceito e práticas de discriminação racial que estamos vivendo ainda no século XXI.
No Brasil estamos vivendo um momento único e crucial que o país não pode perder para não retroceder no passado consolidado pelo ideal de democracia racial que considerava o Brasil como um paraíso racial. Os avanços ilustrados entre outros por cerca de 70 a 80 universidades públicas que aderiram às cotas sem esperar a votação das leis em tramitação na esfera legislativa são provas irrefutáveis de que alguns segmentos da sociedade querem mudanças.

terça-feira, outubro 12, 2010

Não deixe sua cor passar em branco - Censo 2010

Comentários Moisés Basílio: 
Já é o meu sexto censo. Quando nasci em 1960 o Brasil tinha uma população de cerca de 70 milhões de habitantes. 40 milhões ainda viviam no campo e o sexo masculino era predominante. 

 Quanto ao quesito cor/raça o censo de 2000 trouxe novidades. O número dos que se declaram branco que desde 1940 vinha caindo teve um crescimento percentual de 2,12% entre 1990 e 2000. O número dos que se identificam como pretos, que também vinha caindo desde 1940, teve um crescimento percentual de 1,03% entre 1990 e 2000. Já com os que se declararam pardos aconteceu o contrário. Os pardos que sempre cresceram desde o censo de 1940, entre os anos 1990 e 2000 tiveram uma queda de 4,04%. Os amarelos continuam a tendência de queda. E os indígenas mais que dobraram de tamanho suas populações entre 1990 e 2000, sendo que antes de 1980 nem eram contados pelo censo.

Para o censo de 2010 aguardo ansioso o que irá acontecer com a categoria parda. Pelo crescimento dos movimentos negros, até 2000, muitos que declaravam pardos ou brancos em censos anteriores assumiram a categoria parda no censo. Do ano 2000 até 2010 a luta racial ampliou seus questionamentos em torno da ideia de senso comum de que no Brasil vivemos uma democracia racial. O principal instrumento de pressão foi à luta pela política de cotas, principalmente nas universidades públicas. O tema é polêmico e divide opiniões até nos movimentos negros, mas teve o mérito de publicizar para o grande público essa discussão da identidade do brasileiro a partir das categorias cor da pele e raça. Particularmente minha hipótese é que haja um aumento substantivo de pessoas se autodeclarando preto e uma queda acentuada dos que se autodeclaram pardos. Vamos aguardar os números finais do censo.

Para concluir, repito o mote: Não deixe a sua cor passar em branco, pois ela  faz parte da sua identidade. E olhe também a bela poesia na letra do samba composto por Nei Lopes a respeito do censo brasileiro de 2010. Axé!


Tabela - Distribuição proporcional da população por cor ou raça – censos selecionados


Branca
Preta
Amarela
Parda*
Indígena
s/ declaração
1940
63,58
14,66
0,59
21,32
-

-

1950
65,08
10,36
0,59
23,98
-

0,01
1960
59,70
8,37
0,66
31,27
-
0,08
1970
-
-
-
-
-
-
1980
54,91
6,09
0,60
38,40
-
0,58
1991
51,83
5,16
0,46
42,36
0,19
0,35
2000
53,95
6,19
0,45
38,32
0,43
0,66
Nota: * Até 1980, inclusive, a população parda incluía a população indígena.
Fonte : IBGE, Censo Demográfico 1940, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991 e 2000.




















Fonte: Sítio do IBGE - http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/pesquisas/demograficas.html

No Brasil de 2000 menos pessoas se declararam de cor parda.
Comparados aos resultados do Censo de 1991, os resultados do Censo 2000 registraram a redução da parcela da população que se declarou parda e um pequeno aumento da população que se declarou branca ou negra
Veja o gráfico abaixo:
Composição da População por Raça
1991 2000
Total 146 815 796 Total 169 872 856
Branca 75 704 927 Branca 91 298 042
Parda 62 316 064 Parda 65 318 092
Preta 7 335 136 Preta 10 554 336
Amarela 630 656 Amarela 761 583
Indígena 294 135 Indígena 734 127
Sem declaração 534 878 Sem declaração 1 206 675
Fonte: Censo Demográfico 2000: Resultados do Universo
No Brasil de 2000 menos pessoas se declararam de cor parda.
Comparados aos resultados do Censo de 1991, os resultados do Censo 2000 registraram a redução da parcela da população que se declarou parda e um pequeno aumento da população que se declarou branca ou negra
Veja o gráfico abaixo:
Composição da População por Raça
1991 2000
Total 146 815 796 Total 169 872 856
Branca 75 704 927 Branca 91 298 042
Parda 62 316 064 Parda 65 318 092
Preta 7 335 136 Preta 10 554 336
Amarela 630 656 Amarela 761 583
Indígena 294 135 Indígena 734 127
Sem declaração 534 878 Sem declaração 1 206 675
Fonte: Censo Demográfico 2000: Resultados do Universo
Fonte: Blog Meu Lote - Nei Lopes - Quinta-feira, Setembro 02, 2010 - http://www.neilopes.blogger.com.br/



QUANDO O CENSO BATER NA MINHA PORTA

Sou mameluco, sou cafuzo?/ Negro de keto ou nagô?/ Amarelo, pardo, índio,/ minha cor qual é que é? / Judeu, ateu, ET / Cristo, buda, oxumaré / Qual é a minha tribo / responde, IBGE! ..."
– De um samba-enredo dos jornalistas João Pimentel, Marceu Vieira e Arnaldo Bloch, em O Globo, 29.08.2010

Quando o Censo chegar aqui no Lote
Pra saber minha cor ou minha origem,
(Pois é cláusula que hoje o senso exige
Pro Brasil entender qual é seu dote),
Eu que sei que sou afro realmente,
Por meus beiços, nariz e pixaim
Que me dizem na certa de onde vim,
Pela história de vida dos parentes
De racismo e exclusão sempre presentes;
Pela saga de meus antepassados
Imigrantes também, só que forçados,
Eu respondo: sou afrodescendente!

Todo negro nagô veio de Queto
Da fronteira Nigéria-Daomé
De onde veio a família do Pelé
E de muito sambista pardo e preto.
Veio negro do sul do continente
Certamente parente de Mandela,
De Cabinda, Luanda e de Benguela
Do sudeste africano e do oriente.
E eu que guardo esse mapa em minha mente
Quando o Censo bater na minha casa
Faço um passo de samba e mando brasa:
– Meu “cumpádi”, eu sou afrodescendente!

O Brasil é de fato misturado
Porém só se mistura nos porões:
Quando a coisa é nos altos escalões,
A alegada mistura nunca chega.
E isso assim de “meu nego” e “minha nega”
Só se passa na cama, e não na mesa.
Quando é pra compartilhar riqueza
Dividir posição proeminente,
Ninguém vai me querer como parente.
É por isso que, quando da entrevista,
Digo ao IBGE que sou sambista
E me orgulho em ser afrodescendente.

(NL, 30.08.10).


sábado, outubro 02, 2010

Negros no Estúdio do Fotógrafo

Comentários Moisés Basílio: Mal acabei de ler a bela resenha da Lilia Schwarcz, usando das facilidades tecnológicas, entrei no sítio da Editora da Unicamp e encomendei o livro. É muito bom viver num tempo em que se escreve a história dos negros brasileiros a partir do olhar dos negros. Vamos conferir a obra e depois deixo por aqui minha opinião. Axé!


Livro: Negros no estúdio do fotógrafo - Brasil, segunda metade do século XI, de Sandra Sofia Machado Koutsoukos, Editora Unicamp, 360 págs., R$ 48,00.

Sinopse

Nos estúdios fotográficos do Brasil no século XIX, compareciam pessoas de todas as camadas sociais, desde a alta sociedade até os mais humildes. Este livro apresenta fotos de negros no Brasil daquele período. Vemos negros livres, libertos, escravos domésticos, até mesmo fotos de presos da primeira penitenciária construída no Brasil. Por meio de vasta pesquisa acadêmica, a autora traça o caminho da produção daqueles retratos, sua significação, sua circulação e seu armazenamento em álbuns. Ao explorar as histórias por trás das imagens, o livro dá vida àquelas personagens, torna-nos íntimos delas, faz-nos pensar em nossos próprios retratos, em nossos próprios álbuns, reaviva nossa memória.
  
Sobre a autora: Sandra Sofia Machado Koutsoukos é graduada em belas-artes pela UFRJ, mestre em artes e doutora em multimeios, mídia e comunicação pelo Instituto de Artes da Unicamp. Em seu pós-doutorado no Instituto de Artes da Unicamp, apoiado pela Fapesp, a autora pesquisa a exibição de pessoas nas exposições do século XIX e início do XX.

Resenha: Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 02/10/2010, caderno Sabático, S8.      Sujeitos de sua própria imagem

Por Lilia Moritz Schwarcz 
A fotografia chegou cedo ao Brasil. Foi em maio de 1839, em plena Paris modernista, que Louis Jacques Daguerre anunciou seu novo invento, que logo se transformaria em símbolo e projeção dessa época ligeira e dada a verdade voláteis. No outro lado do hemisfério, no reino tropical brasileiro, o abade Compte, logo em janeiro de 1840, publicava no Jornal do Commercio artigo sobre a introdução da técnica no Império de d. Pedro. O primeiro daguerreótipo, tirado no Rio de Janeiro - no Brasil e na América Latina registrava - o Paço Imperial com uma tropa bem a frente. Já o monarca, dado às modas científicas, achou por bem transformar-se no primeiro soberano fotógrafo, assim como incentivar o invento que prometia maravilhas num tempo breve. Em segundos seria possível captar de tudo: paisagens, animais e pessoas.
Acervo Museu Paulista/Reprodução
Acervo Museu Paulista/Reprodução -Postura. Retrato de um senhor com seus cativos: a figura de braços cruzados parece querer expressar um ar desafiador
A técnica se desenvolveria, rapidamente daria conta das fragilidades iniciais e ganharia em popularidade. Além do mais, com o apuro do invento, os preços despencam e alcançam bolsos de clientela mais alargada. No Brasil, os estúdios e ateliês de fotografia inundariam a elegante rua do Ouvidor, na Corte, assim como entrariam nas províncias afastadas, prometendo a reprodução condigna da imagem de seus orgulhosos fregueses. Começava, então, a era "dos cartões de visita", o famoso formato que permitia a distribuição de fotos em maior quantidade e qualidade. Com eles surgiam os estúdios cada vez mais equipados, e assegurando a realização de desejos recônditos: alguns queriam ser clicados tendo ao fundo os trópicos americanos; outros os longínquos Alpes suíços. Certos fregueses optavam por apresentar-se portando casacas, joias e bengalas; outros cercavam-se de livros, esculturas, pianos e globos; quase todos falsos, feitos para não durar. Balaustradas, degraus, construções feitas de papelão ... tudo servia para dar vida às representações dessas novas elites, que viam na fotografia uma via para imortalizar seu status e posição. Foi Susan Sontag, em seu On Photography, quem mostrou como desde seus primórdios a fotografia serviu à mentira: anula a ação do tempo, contorna imperfeições, embeleza o óbvio.
Mas, se são conhecidos os usos que as elites fizeram da técnica, pouco se estudou a presença de negros, mulatos e mestiços - livres ou cativos - nas fotografias do 19 brasileiro. E eles estão por toda parte: ora como detalhes desfocados, ora como personagens principais. Em alguns momentos parecem envergonhados; em outros, surgem orgulhosos e dignos. Certas vezes são retratados trajando vestes grandes demais e que revelam o empréstimo das roupas por ocasião da foto; em outras ocasiões ostentam instrumentos de trabalho: enxadas, caixas de engraxate e toda sorte de aparatos. E é sob esse vasto material que Sandra Sofia Machado Koutsoukos se debruça com grande sensibilidade. Não poucas vezes a analista interrompe a descrição para emitir juízo pessoal, ou interroga seus leitores num estilo pouco usual. Também não poucas vezes oferece painel amplo, maior até do que se propõe analisar, mas tudo com serventia, já que ficamos conhecendo meandros da foto, da técnica, do ensino e do contexto.
Negros no Estúdio do Fotógrafo é livro que não se abre mão. O material é imenso e disperso, mas a historiadora o doma com maestria. Uma coisa é observar a presença de negros nos cantos das imagens, secundando seus senhores, andando anonimamente pelas ruas ou mesmo posando em cartões-postais; já dar organicidade ao material, jogá-lo para a frente da análise, é outra história. A autora organiza as fontes em três categorias: na primeira estariam as fotos de escravos domésticos levados aos estúdios por seus senhores que, por alguma razão, guardaram as imagens em seus álbuns de família. Aí estão as amas de leite, cativos domésticos; todos descalços, uma vez que a ausência de sapatos é símbolo maior do cativeiro. Na segunda leva estão as fotos vendidas como "exóticas"; tal qual souvenir para estrangeiros. Nelas escravos aparecem nas mais diferentes situações: no trabalho, dançando ritualmente, cozinhando, mas sempre caracterizados como "tipos". Paradoxal por definição, esse tipo de fotografia era vendida sob a rubrica de "coisas bem brasileiras", conforme descrição do fotógrafo Cristiano Junior, mas causavam certa vergonha, sobretudo no Império de Pedro II, que se pretendia tão civilizado. Na terceira categoria figuram as fotos etnográficas, com objetivos científicos e feitas para servir como suporte para as teorias raciais em voga no contexto. Aqui está o lado ainda mais perverso dessa cartografia de imagens: negros fixados de perfil ou de frente, a comprovar medidas da frenologia; mulatos criminosos fichados a partir de seus estigmas. Exemplo dos mais significativo são as fotografias da famosa Galeria dos Condenados. Ao todo são 320 fotos de presos, sendo 318 homens e 2 mulheres. Tiradas na Casa de Correção da Corte durante 20 anos, a contar de 1834, teriam figurado na Exposição Nacional de1875 e depois na Feira Internacional de Londres de 1876, quando técnica e ciência pareciam estar a serviço do controle e da classificação.
Indolência. Costurando todos esses enredos, está o argumento central de Sandra, que parte do princípio de que, em qualquer situação, o escravo não era apenas, e exclusivamente, um suporte: um objeto. "Dava-se a ver" mas também "se fazia ver", agenciando e municiando como sujeito sua própria imagem. Se o fotógrafo ou o senhor controlavam a escravidão, não tinham passaporte sobre a personalidade do "cliente", que irrompia inesperadamente nas fotos: ora mais curioso, ora mais amedrontado, ora francamente desafiador. Não poucas vezes escapavam panos da costa (os famosos xales que com seus desenhos definiam origens variadas das escravas), marcas de nação, escarificações ou penteados que indicavam a singularidade do fotografado. Mais produtivo, ainda, é tomar diferentes reações em uma mesma foto. Há uma imagem, dentre as várias presentes nessa bela edição, chamada vagamente Retrato do Senhor com Cinco Escravos. O documento é conhecido, a análise de Sandra é que traz novidades. Ao centro vê-se um senhor orgulhoso, com expressão cerrada. Aos seus dois lados, escravos (todos sem sapatos) mostram todo tipo de expressão: um observa a máquina com atenção, outro desvia o olhar, outro ainda parece vexado diante do espetáculo em que é instado a atuar. Um quarto homem surge borrado, pois deve ter se mexido diante de situação tão tediosa. Mas um personagem parece desafiar o fotógrafo com ar indolente: ao lado do senhor, cruza os braços numa atitude de contestação.
Foi o filósofo Walter Benjamin quem mencionou o sofrimento dos modelos diante desses aparelhos endiabrados. Verdadeiras câmaras de tortura, as fotografias fixavam um tempo e um tipo de artificialidade. Se tudo isso é fato, a situação ficava pior quando os atores eram escravos ou negros livres. O que faz nossa autora é ler nos detalhes verdadeiros ritos de insubordinação. Por vezes basta um olhar, um ombro levantado, uma sobrancelha irada para revelar emoção e contrariedade. Vale a pena disciplinar o olhar e seguir, junto com a Sandra Koutsoukos, as grandes peças que pequenos sinais revelam.

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)

 

terça-feira, setembro 28, 2010

Geraldo Vandré versão 2010

Por Moisés Basilio Leal

O Vandré é um personagem emblemático. Dizem que ele foi torturado e por isso mudou o comportamento. Será?

Conheci o Geraldo Vandré em 1976 quando era office-boy na SICAM (Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais). Tinha 16 anos e meu chefe no escritório, o compositor e cantor Roberto Amaral - da marcha carnavalesca "Beijinho de boa noite", sucesso dos anos 70 - , depois de conversar com Vandré, pediu-me para datilografar alguns originais do compositor. Peguei os originais e durante uns dois dias fiz o trabalho e entreguei a ele.

Já sabia quem era o Geraldo Vandré como compositor da "Disparada", vencedora do festival da Record, mas não sabia o peso político que carregava o compositor naquela época. Eu era "apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no bancosem parentes importantes..."

Depois encontrei com o Vandré, nas cantorias do Cicero e amigos de juventude e nos Lps de vinil que ainda guardo (peguei do meu filho Pedro de volta, pois ele havia sequestrado todos meus vinis).

Na posse da Luiza Erundina, prefeita de SP, em 1989 , numa festa no Pacaembu, Vandré que é paraíbano compareceu e cantou uma música em homenagem à FAB - Força Áerea Brasileira -, todos estranharam.

Depois algumas noticias esparças. E hoje, mais de 30 anos depois me deparo com essa entrevista da Globo. O que aconteceu de fato com o Vandré?
Veja os vídeos:
1 parte: http://www.youtube.com/watch?v=k4sLANlH7Nk
2 parte: http://www.youtube.com/watch?v=6Wak4Z7RhFs
3 parte: http://www.youtube.com/watch?v=G49ljh-IOBM
4 parte: http://www.youtube.com/watch?v=nMTCNyN0DpA
Final:    http://www.youtube.com/watch?v=ngg1ACvUoJI&feature=channel

segunda-feira, agosto 02, 2010

Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação


Comentários Moisés Basílio: 
Os sistemas de educação brasileiro (federal, estaduais e municipais) nas últimas décadas importou as principais diretrizes das reformas educacionais implementadas nos Estados Unidos. Aqui ainda funciona aquela máxima citada na peça "Calabar: o Elogios da Traição" (1973) de Chico Buarque e Ruy Guerra e que remetia a um embaixador brasileiro da ditadura nos Estados Unidos (1964): "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil".
Agora o jornalão OESP, depois de "metralhar" sistematicamente os docentes brasileiros e cotidianamente em suas páginas desvalorizar o ensino das escolas públicas, por suas baixas notas nos "ranking" das avaliações padronizadas, nos traz um entrevista com uma grande autoridade e pesquisadora do modelo educacional americano que nos diz: "Nota não é tudo" e "ênfase na responsabilização do professor é danosa para a educação".
“Gerentões” dos sistemas de ensino e pedagogos de plantão estão com a pulga atrás da orelha, pois seus discursos terão que mudar. Como bons "papagaios de piratas" já estão captando os novos discursos que chegam do hemisfério norte. Axé!

'Nota mais alta não é educação melhor'

Diane Ravitch, ex-secretária-adjunta de Educação dos EUA

02 de agosto de 2010 | 0h 00 -
Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Erro. Ênfase em responsabilização de professor é danosa para a educação, afirma Diane
Uma das principais defensoras da reforma educacional americana - baseada em metas, testes padronizados, responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e fechamento de escolas mal avaliadas - mudou de ideia. Após 20 anos defendendo um modelo que serviu de inspiração para outros países, entre eles o Brasil, Diane Ravitch diz que, em vez de melhorar a educação, o sistema em vigor nos Estados Unidos está formando apenas alunos treinados para fazer uma avaliação.
Secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação na administração de George Bush, Diane foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para assumir o National Assessment Governing Board, instituto responsável pelos testes federais. Ajudou a implementar os programas No Child Left Behind e Accountability, que tinham como proposta usar práticas corporativas, baseadas em medição e mérito, para melhorar a educação.
Suas revisão de conceitos foi apresentada no livro The Death and Life of the Great American School System (a morte e a vida do grande sistema escolar americano), lançado no mês passado nos EUA. O livro, sem previsão de edição no Brasil, tem provocado intensos debates entre especialistas e gestores americanos. Leia entrevista concedida por Diane ao Estado.
Por que a senhora mudou de ideia sobre a reforma educacional americana?
Eu apoiei as avaliações, o sistema de accountability (responsabilização de professores e gestores pelo desempenho dos estudantes) e o programa de escolha por muitos anos, mas as evidências acumuladas nesse período sobre os efeitos de todas essas políticas me fizeram repensar. Não podia mais continuar apoiando essas abordagens. O ensino não melhorou e identificamos apenas muitas fraudes no processo.
Em sua opinião, o que deu errado com os programas No Child Left Behind e Accountability?
O No Child Left Behind não funcionou por muitos motivos. Primeiro, porque ele estabeleceu um objetivo utópico de ter 100% dos estudantes com proficiência até 2014. Qualquer professor poderia dizer que isso não aconteceria - e não aconteceu. Segundo, os Estados acabaram diminuindo suas exigências e rebaixando seus padrões para tentar atingir esse objetivo utópico. O terceiro ponto é que escolas estão sendo fechadas porque não atingiram a meta. Então, a legislação estava errada, porque apostou numa estratégia de avaliações e responsabilização, que levou a alguns tipos de trapaças, manobras para driblar o sistema e outros tipos de esforços duvidosos para alcançar um objetivo que jamais seria atingido. Isso também levou a uma redução do currículo, associado a recompensas e punições em avaliações de habilidades básicas em leitura e matemática. No fim, essa mistura resultou numa lei ruim, porque pune escolas, diretores e professores que não atingem as pontuações mínimas.
Qual é o papel das avaliações na educação? Em que elas contribuem? Quais são as limitações?
Avaliações padronizadas dão uma fotografia instantânea do desempenho. Elas são úteis como informação, mas não devem ser usadas para recompensas e punições, porque, quando as metas são altas, educadores vão encontrar um jeito de aumentar artificialmente as pontuações. Muitos vão passar horas preparando seus alunos para responderem a esses testes, e os alunos não vão aprender os conteúdos exigidos nas disciplinas, eles vão apenas aprender a fazer essas avaliações. Testes devem ser usados com sabedoria, apenas para dar um retrato da educação, para dar uma informação. Qualquer medição fica corrompida quando se envolve outras coisas num teste.

Na sua avaliação, professores também devem ser avaliados?
Professores devem ser testados quando ingressam na carreira, para o gestor saber se ele tem as habilidades e os conhecimentos necessários para ensinar o que deverá ensinar. Eles também devem ser periodicamente avaliados por seus supervisores para garantir que estão fazendo seu trabalho.
E o que ajudaria a melhorar a qualidade dos professores?

Isso depende do tipo de professor. Escolas precisam de administradores experientes, que sejam professores também, mais qualificados. Esses profissionais devem ajudar professores com mais dificuldades.

Com base nos resultados da política educacional americana, o que realmente ajuda a melhorar a educação?
As melhores escolas têm alunos que nasceram em famílias que apoiam e estimulam a educação. Isso já ajuda muito a escola e o estudante. Toda escola precisa de um currículo muito sólido, bastante definido, em todas as disciplinas ensinadas, leitura, matemática, ciências, história, artes. Sem essa ênfase em um currículo básico e bem estruturado, todo o resto vai se resumir a desenvolver habilidades para realizar testes. Qualquer ênfase exagerada em processos de responsabilização é danosa para a educação. Isso leva apenas a um esforço grande em ensinar a responder testes, a diminuir as exigências e outras maneiras de melhorar a nota dos estudantes sem, necessariamente, melhorar a educação.
O que se pode aprender da reforma educacional americana?
A reforma americana continua na direção errada. A administração do presidente Obama continua aceitando a abordagem punitiva que começamos no governo Bush. Privatizações de escolas afetam negativamente o sistema público de ensino, com poucos avanços de maneira geral. E a responsabilização dos professores está sendo usada de maneira a destruí-los.

Quais são os conceitos que devem ser mantidos e quais devem ser revistos?
A lição mais importante que podemos tirar do que foi feito nos Estados Unidos é que o foco deve ser sempre em melhorar a educação e não simplesmente aumentar as pontuações nas provas de avaliação. Ficou claro para nós que elas não são necessariamente a mesma coisa. Precisamos de jovens que estudaram história, ciência, geografia, matemática, leitura, mas o que estamos formando é uma geração que aprendeu a responder testes de múltipla escolha. Para ter uma boa educação, precisamos saber o que é uma boa educação. E é muito mais que saber fazer uma prova. Precisamos nos preocupar com as necessidades dos estudantes, para que eles aproveitem a educação.
QUEM É
É pesquisadora de educação da Universidade de Nova York. Autora de vários livros sobre sistemas educacionais, foi secretária-adjunta de Educação e conselheira do secretário de Educação entre 1991 e 1993, durante o governo de George Bush. Foi indicada pelo ex-presidente Bill Clinton para o National Assessment Governing Board, órgão responsável pela aplicação dos testes educacionais americanos.