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sexta-feira, agosto 17, 2012

ENTREVISTA COM MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

Comentários Moisés Basílio: Um boa entrevista com a querida economista Maria da Conceição Tavares. Li seus textos pela primeira vez no início dos anos 80, durante minha graduação em Ciências Sociais na PUC/SP, nas aulas de Economia do saudoso Professor Celso Daniel. Depois me tornei um ávido leitor de suas análises econômicas, que em muito me ajudaram a refletir e compreender os grandes problemas econômicos do Brasil e do mundo.  Uma voz sempre lúcida nos ajudando a desvendar os mistérios da economia. Axé!

FONTE: Sítio do Jornal Valor Econômico - http://www.valor.com.br/cultura/2792488/o-descanso-da-guerreira 


O descanso da guerreira

Por Vera Saavedra Durão e Paulo Totti | Do Rio
Lula / Lula
Aposentada. Mas não retirada, isolada, distante. Aos 82 anos, Maria da Conceição Tavares tem direito ao relaxamento, ocupar-se com outras coisas além dos gráficos, tabelas, estatísticas que povoaram sua vida e seu cérebro desde a graduação em matemática na Lisboa dos anos 50 do século passado. "Já não gosto de economia", diz. Mas isso é apenas a expressão de um desejo de tranquilidade, pois nos minutos seguintes está a falar do necessário impulso para o Brasil e o mundo voltarem a crescer: "Você paralisa uma economia com corte de investimento público e alta de juros. É como fechar uma janela puxando um cordão. Mas você não abre uma janela emperrada com um cordão, talvez seja preciso um porrete. No sentido figurado, é claro".
E a primeira-dama da economia brasileira ri, com o arrebatamento de sempre: voz grave, raciocínio rápido, palavras doces ou agressivas, a depender da paixão que a inspira. Aposentou-se, mas não abandonou a franqueza e o rigor crítico. "Leio o caderno de cultura de vocês na sexta-feira, é um bom caderno. Leio também o 'À Mesa'. Mas depende do entrevistado. Se é um chato, não leio".
Quando os repórteres lhe disseram que a intenção deste "À Mesa com o Valor" era reatualizar seu perfil por muitos já traçado e "falar um pouco de tudo", Conceição surpreendeu: "Se for para falar de tudo, prefiro futebol. Passei a gostar mais de futebol do que de economia. Felizmente, a imprensa do Rio parou de falar da crise no Flamengo. Antes da Olimpíada só dava saída do Ronaldinho Gaúcho, queda do Joel Santana, entrada do Dorival Júnior...
- A senhora é Flamengo?
- Não, sou Vasco. A imprensa tem esquecido que o Vasco está entre os líderes do Brasileirão desde o início do campeonato. Foi uma pena perder para o Atlético Mineiro por um golzinho e empatar com aquele time paulista enjoado. Que o Lula não me ouça, porque o Corinthians é o time dele. Mas aqui no Rio Lula é Vasco. Flamengo continua uma porcaria...
Conceição agora só dá aulas de 15 em 15 dias no Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de onde se aposentou como professora emérita. São aulas de economia internacional para turmas de pós-graduação. Nos intervalos, deixa-se ficar em seu apartamento do Cosme Velho, no Rio, acompanha o futebol pela TV e ainda não se interessou pelo mensalão. E lê: "Numa semana vazia, sem aulas, sem palestras, leio um livro por dia". A leitura é variada, de romances policiais a Virginia Woolf, de clássicos a contemporâneos, entre os autores nacionais.
Ao conhecer os números, percebi quanto o Brasil era grande e desigual. Daí, fui estudar economia
- Para seus alunos, o que está dizendo sobre a atualidade?
- Que está ruim. É o resultado da perversa globalização financeira. Desregularam tudo e abriram as comportas para a especulação. Os bancos é que aprontaram essa trapalhada geral. Veio a crise de 2008 e arrebentou todos. No Brasil, em 2008, a crise não bateu mais pesado porque nossos bancos não estavam metidos na agiotagem internacional. Espero que não estejam metidos agora.
O Empório Santa Fé, o restaurante que Conceição escolheu para este almoço num meio-dia de sol no marco zero do encontro da ex-praia do Flamengo com a ex-praia do Russel, não é foro apropriado para a reprise de suas aulas, mas a economista nos brinda com alguns "insights". Diz que a "crise agora é mais europeia", pois os Estados Unidos voltam a crescer, embora lentamente. "O Estado americano socorreu os bancos, socorreu as empresas, socorreu as famílias que não podiam pagar. O problema na Europa é que seu Banco Central só socorre os bancos, em vez de socorrer os países. E a [Angela] Merkel não muda, né? Os alemães na verdade faturam com a crise. Quem está em crise é o resto da Europa. A Alemanha é uma espécie de xerife da Europa e, ao mesmo tempo, banqueiro rapinante. É a política ortodoxa.
- Qual é o resultado dessa política?
- O óbvio. Muitos países vão quebrar. Tem sorte quem não entrou no euro: a Turquia, que não deixaram entrar, e a Polônia, que tinha moeda fraca, não entrou e está ótima.
Conceição dispensa a oferta de escolher o vinho. No exílio do Chile, conheceu o Carmenère e acrescentou-o ao Malbec argentino na lista de seus preferidos. Mas os chilenos já não a atraem como dantes - "copiaram os americanos e seu vinho ficou muito frutado". E agora só bebe refrigerantes. Para os sólidos, continua exigente. Pede "codornas com pinoli e seus ovos". A repórter prefere "mignonnettes à moda" e o repórter, "arroz com marreco à portuguesa". A fotógrafa Aline Massuca, o mesmo que a professora. Ao final, não sobra nada nos pratos e todos parecem felizes com suas escolhas.
Anadia, uma aldeia do concelho de Aveiro, no oeste de Portugal, a pouco mais de 50 quilômetros de Coimbra, região famosa pela produção caseira de ovos moles, é o local de nascimento de Maria da Conceição de Almeida Tavares, filha de mãe católica e pai anarquista. Em Lisboa, estudava matemática quando, aos 20 anos, se casou com Pedro Soares, aluno de engenharia hidráulica. Formaram-se e vieram em definitivo para o Brasil. "Portugal de Salazar era uma ditadura selvagem, irrespirável."
O casal chegou em fevereiro de 1954, às vésperas de a democracia brasileira mergulhar na crise que levaria ao suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto. Soares foi trabalhar numa empresa de engenharia que realizava obras na lagoa Rodrigo de Freitas, mas Conceição, aos 24 anos e grávida de Laura, hoje professora estadual no Rio, não encontrou empresa privada com necessidade ou disposição de contratar uma matemática. Seu primeiro emprego foi como estatística do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic), hoje Incra. "Fiz as primeiras estatísticas da colonização brasileira", diz. "Vinha de Portugal e já sabia do tamanho do Brasil. Uma coisa é você saber que o país é grande, outra é conhecer os números e perceber quanto é grande e desigual. Foi a desumana distribuição de renda que me levou a estudar economia."
Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/ValorMaria da Conceição: "Janela emperrada não se abre com um cordão. Talvez precise um porrete"
O ingresso na Faculdade de Economia da então Universidade do Brasil foi fácil. Havia um acordo entre os países lusófonos que lhe permitia entrar na faculdade sem prestar vestibular. Estava para cursar o segundo ano quando o conselho da UNB decidiu que o problema era com o diploma do segundo grau. Abandonou a faculdade e teve de matricular-se num curso de madureza para fazer num só os três anos do ciclo colegial - o chamado "Artigo 99". As disciplinas que tinha de repassar eram português, história, geografia... e matemática. E, depois disso, submeter-se ao vestibular.
Tirou o primeiro lugar e voltou ao primeiro ano da faculdade. Em meio ao curso, o mais brilhante dos professores, Octávio Gouvêa de Bulhões (1906-1990), a convidou para ser sua assistente. Inquieta, dedicada, inteligente, por essas virtudes é que Conceição teria sido escolhida, segundo os contemporâneos. Ela prefere explicação mais simples: "Bulhões sabia muito de finanças e nada de matemática. Numa equação simples se embaralhava. Como eu era boa nisso, me chamou como ajudante".
A jovem já seguia os passos de economistas de escolas diferentes das de Bulhões: seu pensamento econômico em formação continha um pouco de Karl Marx e John Maynard Keynes e bastante dos chamados "estruturalistas", que buscavam soluções para o subdesenvolvimento da América Latina: os brasileiros Celso Furtado e Ignácio Rangel e o argentino Raúl Prebisch, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina das Nações Unidas (Cepal). Bulhões, funcionário do Ministério da Fazenda desde 1926, integrou a delegação brasileira na conferência de Bretton Woods (julho de 1944), que criou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, e inspirava-se nos clássicos do livre mercado, o escocês Adam Smith, o austríaco Friedrich August von Hayek e o brasileiro Eugênio Gudin.
As divergências não prejudicaram as relações do professor e sua assistente. "Bulhões era liberal em política e conservador em economia. Ele me dizia: 'Pode falar de seus monopólios, mas fale também das coisas que eu digo'. Eu respondia: 'Claro, doutor Bulhões'."
Ainda na Faculdade de Economia, Conceição conseguiu uma vaga no BNDE - na época, sem "S" - para integrar, como matemática, a equipe que traduziria em financiamentos para a infraestrutura o Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek. No banco, conheceu Ignácio Rangel (1914-1994), economista até hoje pouco louvado por sua contribuição ao desenvolvimento do país e um dos concretizadores da utopia de JK de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Rangel a estimulou a seguir com atenção as aulas de Bulhões. "A esquerda", dizia, "não estuda com seriedade coisas como moeda, finanças, balanço de bancos, inflação. E isso dá muito mau resultado." Conceição seguiu o conselho e aprendia política monetária, de manhã, com Bulhões na universidade, e, à tarde, estruturalismo com Rangel no BNDE. Deu certo, como se veria pelos vindouros 55 anos.
Mais tarde, Bulhões, ministro da Fazenda da ditadura, foi da banca examinadora do concurso de livre-docência de Conceição para a UFRJ, cuja tese, "Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil", tinha um capítulo de críticas explícitas à política do governo. "Ele me aprovou mesmo assim."
Por que não quis me reeleger deputada? 'Tá maluco? Quase morri! Tive de operar a coluna duas vezes'
A essas alturas (1965), Conceição já se tinha separado de Soares e se casado com Antônio Carlos Macedo, um paleontólogo do Museu Nacional, hoje aposentado e vivendo em Brasília. Macedo, de quem também se divorciaria mais tarde, é pai de Bruno, estudante de cinema depois de ter feito dois outros cursos universitários: produção cultural e economia. "Ele não queria nada com a profissão de economista. Para buscar o diploma, tive que obrigá-lo." Artes audiovisuais parecem ser a verdadeira vocação de Bruno, já autor de documentários sobre Parati e a escola de samba Mangueira. E isso deixa a mãe intelectual visivelmente orgulhosa: "São belas peças", diz. Mas a protetora mãe portuguesa se manifesta quando pergunta à repórter, que tem filha cineasta: "Também faz cinema a sua menina? Está conseguindo se virar, ganhar a vida?"
 Conceição fala de Bulhões com respeito e até carinho. Adversária feroz da ditadura, destaca da política econômica daquela época um dado que, citado por ela, é uma homenagem a Bulhões, pois a correção monetária para enfrentar os problemas da dívida pública foi criação dele. "A moeda indexada nos defendeu mais tarde da dolarização. Somos o único país na América Latina que teve hiperinflação sem dolarizar. Quando Milton Friedman veio ao Brasil, ficou espantadíssimo: 'É o primeiro país que eu vejo que indexa a própria moeda', ele disse."
Professora na UFRJ e mais tarde na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Conceição começou a ficar conhecida por palestras e artigos em revistas especializadas ou nos jornais diários. Saiu do BNDE e foi ser chefe do escritório da Cepal no Rio. Quando veio o golpe militar, já estava na Cepal. No início, não a molestaram na universidade, mas o fato de Celso Furtado ser o 10º na primeira lista de 102 brasileiros com seus mandatos cassados ou direitos políticos suspensos pela ditadura - o 11º foi Josué de Castro, autor de "Geopolítica da Fome" - demonstraria que o golpe não pouparia os intelectuais.
Apesar do rarefeito clima para o livre exercício do pensamento - piorado depois do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968 -, surgiu uma nova geração de economistas, que influenciaria o debate macroeconômico do país pelos 40 anos seguintes. "Era uma geração de cinco brilhantes economistas", afirma e, sem acanhamento, inclui-se entre eles. No lado do governo, destaca Antônio Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen. Na oposição, ela própria e seus colegas, sete e oito anos mais jovens, Carlos Lessa e Antônio Barros de Castro, autores de "Introdução à Economia - Uma Abordagem Estruturalista", best-seller entre estudantes de economia, já na 31ª edição.
Conceição refere-se a esses tempos como de debate exaltado, mas pluralista - até a intromissão da polícia, com as consequentes perseguições, tortura e morte de divergentes. Simonsen foi seu colega no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e a professora não esquece que, anos depois, saiu da prisão por interferência do ministro da Fazenda do general Ernesto Geisel. Delfim era o mais velho, e hoje Conceição acha que, pela "lucidez, contundência, ironia" com que escreve, até parece mais moço. E ri: "Acho que ele pinta o cabelo. Agora é crítico severo da globalização da agiotagem. É um dos nossos".
Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/ValorConceição relembra os grandes mestres: de manhã, moeda com Octávio Gouveia de Bulhões; à tarde, estruturalismo com Ignácio Rangel
- Apesar da ditadura, a senhora estava com frequência na televisão. Mas não me lembro de tê-la visto num debate com o Delfim.
- Acho que nunca estivemos frente à frente. Lembro é do que me disse um taxista em São Paulo, que tinha me visto na TV na noite anterior: "Não discuta com o Delfim, porque ele vai sacanear a senhora". O Delfim era rápido no gatilho, muito sarcástico, poderia mesmo ganhar de mim num debate, apesar de eu não ser das mais lentas. Já o Campos, eu tirava de letra.
- Roberto Campos foi seu professor?
- Era um chato de galochas. Dava aula sobre moeda às 7h30. Lia lá o caderno, todo mundo ficava com sono. Aí os colegas falavam pra mim: "Provoca ele". Eu provocava, ele debatia e a turma ficava acordada. Naquela altura, era moda ser isento, então ele me dava 10 mesmo se eu discordasse do que ele ensinava.
A moda de isenção acabaria pouco depois, em dezembro de 1968, com a decretação do AI-5. A repressão desabou sobre as universidades. Todos os professores acusados de esquerdistas perderam sua cátedra, inclusive Fernando Henrique Cardoso, na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Conceição se salvou porque estava em licença na UFRJ e na Unicamp e a caminho do Chile, para um autoexílio que duraria até 1973. Em 1972, lançou seu livro de maior repercussão e influência: "Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil - Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro". No Chile, trabalhou na Cepal e para o governo de Salvador Allende. E apareceu numa foto dançando com o guru Raúl Prebisch. "Eu dançava com todo mundo", é seu único comentário.
A partir daí publicou mais cinco livros e uma centena de artigos, de cuja reunião em uma ou mais obras sempre descuidou. "Não cuido disso, sou um pouco displicente", reconhece. Quando fez 80 anos, numa grande festa no Rio que reuniu amigos e ex-alunos - entre eles os então candidatos a presidente Dilma Roussef, que conheceu em suas aulas de doutorado em Campinas, e José Serra, com quem conviveu no exílio do Chile - lhe prometeram fazer um livro em sua homenagem e uma coletânea de tudo o que já escreveu.
Se os livros ainda não saíram, a Marinha a homenageou com o Prêmio Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. Em seu discurso, Dilma disse que falava de "discípula para mestra". E Conceição, comovida, se despediu dizendo esperar morrer feliz por ser brasileira e triste por ser europeia, pois não acredita viver o suficiente para ver o fim da crise no velho continente.
No dia seguinte, almoçou em Palácio com Dilma e o ministro Guido Mantega. Não falaram de futebol, mas Conceição não diz sobre o que discutiram. Para provocar seu amigo ministro da Fazenda, faz uma só confidência: "Dilma dizia: 'Guido, presta atenção'".
- A senhora está bem de saúde?
- Estou bem. Há alguns anos, pensaram que eu tinha um câncer atrás das costelas. Abriram - a operação foi horrível! - e era um tumor no tuberculino que devo ter trazido de Portugal, quase tão velho quanto eu. Trataram, e ele desapareceu.
O café é servido e a professora sai para fumar um dos 40 cigarros que consome por dia. O repórter a acompanha e, cavalheiro, não a deixa fumar sozinha.
Ao contrário de muitos dos companheiros de vida acadêmica, Conceição não pertenceu ao Partido Comunista Brasileiro na juventude - "era apenas próxima" - e depois da ditadura se filiou ao PMDB, passando para o PT quando houve o cisma no partido de Ulysses Guimarães. Nunca foi, porém, militante muito disciplinada. Quando o PMDB apoiou Moreira Franco para o governo do Rio - "lindo apelido Leonel Brizola lhe arranjou: gato angorá" -, Conceição se negou a votar nele. No PT, quando a direção nacional resolveu apoiar "o cretino do [Anthony] Garotinho" para governador, foi direto a Lula para protestar. Não votou e foi ao Rio Grande do Sul fazer a campanha do petista Olívio Dutra.
Em 1993, foi a segunda mais votada para deputada federal na legenda do PT - o primeiro foi Milton Temer, hoje no PSOL.
- Por que não quis disputar a reeleição?
- 'Tá maluco? Quase morri. Éramos só 50, 10% da Câmara. Fomos levados de roldão pelo rolo compressor do PSDB com o PFL. Não dava para fazer nada. Nem a taxação das grandes fortunas, um projeto do próprio Fernando Henrique de outros tempos, que emendei cuidadosamente, conseguimos levar adiante. Consegui aprovar na comissão de finanças, mas para levar ao plenário precisava de não sei quantas assinaturas. Fui de deputado em deputado. O Delfim até assinou e disse a um colega dele: 'Assina aí pra professora não perder seu tempo. Depois a gente derruba no plenário'. Minha coluna estourou lá de tanto estresse. Fiz duas operações de coluna. Ah não, foi horrível!"
O garçom vem oferecer o licor, delicado, perfumoso Moscatel de Setúbal, cortesia da casa. É por causa da professora portuguesa, com certeza.
- Como foi essa história de o Simonsen tê-la tirado da cadeia?
- O Mário Henrique foi direto falar com o general Geisel.
A professora conta como foi sua prisão. Voltara do Chile em 1973 e continuara fazendo trabalhos para a Cepal. Em 75, ia viajar para Santiago, quando a prenderam no aeroporto do Galeão. Levaram-na num táxi para a sede do Dops e de lá, encapuzada e obrigada a deitar-se no chão do carro, a transportaram para a Polícia do Exército. Havia testemunhas de sua prisão no Galeão e "todo mundo se mexeu". Sua filha já estava no Dops com advogado. Em Brasília, o então ministro de Indústria e Comércio, Severo Gomes, ligou para o Dops, para o I Exército, e lhe responderam que não havia ninguém preso ou detido com o nome da economista. Severo Gomes ligou, então, para Simonsen.
Conceição conta como foi o diálogo: "Severo Gomes: 'Prenderam sua colega, a Maria'. Simonsen: 'Ela é maluca. Não pode ser'. Severo Gomes: 'Prenderam, sim, e ninguém sabe para onde a levaram. Fale com o presidente". Simonsen estava em Brasília e foi ao Geisel. O general deu um murro na mesa: "Não é contra ela, é contra mim", segundo relato, mais tarde, do próprio ministro. Sem saber, a professora se vira envolvida nas disputas entre Geisel e os porões. Ordens foram dadas e, em horas, Conceição estava livre. Daí foi a vez de Bulhões, já não mais ministro, interferir. Ligou para Simonsen e explicou que Conceição poderia ser presa novamente se tentasse viajar. E Simonsen mandou que, em carro oficial e com escolta, Conceição fosse deixada na escada do avião - em outro voo, porque o primeiro fora perdido.
- Agradeceu ao Simonsen mais tarde?
- O Ministério da Fazenda ainda era no Rio. Entrei no gabinete dele e fui dizendo daquele meu jeito mal-educado. "Olá, Mário, tudo bem? Nem vou agradecer porque você não fez nada mais do que sua obrigação".
São 3 da tarde, última semana da Olimpíada de Londres, e Conceição se retira. Declina da carona e toma um táxi sozinha. Ela tem pressa: "Quero ver as meninas na final do vôlei de praia".

sábado, julho 04, 2009

Ideas para la izquierda

Comentários Moisés Basílio: A derrota da esquerda nas ultimas eleições européias traz um alerta para nós, esquerda brasileira, que em 2010 teremos o desafio de darmos continuidade ao projeto iniciado pelo governo Lula em 2002. O artigo de Innerarity é um alerta, com um ano de antecedência para nós. Saibamos lê-lo. Axé!

Fonte: Jornal espanhol El País - em 28/06/2009.
Autor: Daniel Innerarity es profesor de Filosofía en la Universidad de Zaragoza. Acaba de publicar El futuro y sus enemigos. Una defensa de la esperanza política.

El fracaso de los socialistas en las recientes elecciones europeas, precisamente por haber afectado a todos los países, remite a algunas causas ideológicas de carácter general. La pregunta que se plantea con irritación y desconcierto sería la siguiente: ¿cómo explicar que la crisis o los casos de corrupción golpeen de manera muy diferente, desde el punto de vista electoral, a la izquierda y a la derecha?

Pienso que la raíz de esa curiosa decepción, que se reparte tan asimétricamente, está en las diversas culturas políticas de la izquierda y la derecha.

Por lo general, la izquierda espera mucho de la política, más que la derecha, a veces incluso demasiado. Le exige a la política no sólo igualdad en las condiciones de partida sino en los resultados, es decir, no sólo libertad sino también equidad. La derecha se contenta con que la política se limite a mantener las reglas del juego. Es más procedimental y se da por satisfecha con que la política garantice marcos y posibilidades, mientras que el resultado concreto (en términos de desigualdad, por ejemplo), le es indiferente; a lo sumo, aceptará las correcciones de un "capitalismo compasivo" para paliar algunas situaciones intolerables.

Por supuesto que ambas aspiran a defender tanto la igualdad como la libertad y que nadie puede pretender el monopolio de ambos valores, pero el énfasis de cada uno explica sus distintas culturas políticas. La diferencia radicaría en que la izquierda, en la medida en que espera mucho de la política, también tiene un mayor potencial de decepción. Por eso el vicio de la izquierda es la melancolía, mientras que el de la derecha es el cinismo.

Esto explicaría sus distintos modos de aprendizaje, lo que probablemente responde a dos modos psicológicos de gestionar la decepción. La izquierda aprende en ciclos largos, en los que una decepción le hunde durante un espacio de tiempo prolongado y no consigue recuperarse si no es a través de una cierta revisión doctrinal; la derecha tiene más incorporada la flexibilidad y es menos doctrinaria, más ecléctica, incorporando con mayor agilidad elementos de otras tradiciones políticas.

Por eso la izquierda sólo puede ganar si hay un clima en el que las ideas jueguen un papel importante y hay un alto nivel de exigencias que se dirijan a la política. Cuando estas cosas faltan, cuando no hay ideas en general y las aspiraciones de la ciudadanía en relación con la política son planas, la derecha es la preferida por los votantes.

La izquierda debería politizar, en el mejor sentido del término, frente a una derecha a la que no le interesa demasiado el tratamiento "político" de los temas. La derecha hoy exitosa en Europa es una derecha que promueve, indirecta o abiertamente, la despolitización y se mueve mejor con otros valores (eficacia, orden, flexibilidad, recurso al saber de los técnicos...). Lo que la izquierda debería hacer es luchar, a todos los niveles (frente al imperialismo del sistema financiero, contra los expertos que achican el espacio de lo que es democráticamente decidible, contra la frivolidad mediática...) para recuperar la centralidad de la política.

Hoy no es que haya una política de izquierdas y otra de derechas; el verdadero combate se libra actualmente en un campo de juego que está dividido entre aquellos que desean que el mundo tenga un formato político y aquellos a los que no les importaría que la política resultara insignificante, un anacronismo del que pudiéramos prescindir. Por eso la defensa de la política se ha convertido en la tarea fundamental de la izquierda; la derecha está cómodamente instalada en una política reducida a su mínima expresión, a la que le han reducido enormemente sus espacios el poder de los expertos, las constricciones de los mercados y el efectismo mediático. Para la izquierda, que el espacio público tenga calidad democrática es un asunto crucial, en el que se juega su propia supervivencia.

La idea de que la izquierda está por lo general menos movilizada se ha convertido en un tópico que a veces revela una concepción mecánica y paternalista (cuando no militar) de la política. Hay quien entiende la movilización como una especie de hooliganización, como si la ciudadanía fuera una hinchada, y, llegado el momento, propone suministrar la dosis oportuna de miedo o ilusión para que la clientela se comporte debidamente. Este automatismo no es la solución sino el síntoma del verdadero problema de una izquierda que se está acostumbrando a chapotear en una ciudadanía de baja intensidad.

Lo que la gente necesita no son impulsos mecánicos sino ideas que le ayuden a comprender el mundo en el que vive y proyectos en los que valga la pena comprometerse. Y la actual socialdemocracia europea no tiene ni ideas ni proyectos (o los tiene en una medida claramente insuficiente).

No quiero caer en un platonismo barato y exagerar el papel de las ideas en política, pero si la izquierda no se renueva en este plano seguirá sufriendo el peor de los males para quien pretende intervenir en la configuración del mundo: no saber de qué va, no entenderlo y limitarse a agitar o bien el desprecio por los enemigos o bien la buena conciencia sobre la superioridad de los propios valores.


Daniel Innerarity es profesor de Filosofía en la Universidad de Zaragoza. Acaba de publicar El futuro y sus enemigos. Una defensa de la esperanza política.

domingo, maio 24, 2009

Uma análise marxista da crise do capital

Comentários de Moisés Basílio:

Mészáros é um marxista de porte. Na minha juventude, final dos anos 70 e até meados dos anos 80, as leituras de seus textos foram importantes para contrapor às leituras dos textos marxistas ortodoxos e fundamentalistas que abundavam as estantes e as mentes da esquerda de então, que mal sabiam que estavam sendo exprimidas entre o libertário 68 e a queda do muro de 89. O materialismo histórico e dialético, na qualidade de uma filosofia crítica do capital, já foi sepultado inúmeras vezes por seus adversários, detratores e inimigos, mas seus fantasmas continuam tecer suas análises nesses novos tempos. Mészáros é um exemplo desta vitalidade.

Esse artigo de Mézáros é uma provocação às organizações políticas do campo das esquerdas contemporâneas, e é importante lembrar que nem toda esquerda é marxista. Como responder politicamente aos desafios que a atual crise do capital propicia? Como aliar uma crítica estrutural ao capitalismo com uma prática política correspondente? Ao final de seu artigo Mészáros propõe: "A verdade, portanto, é que precisamos de uma mudança fundamental, estrutural, e não a fantasia neokeynesiana de 'reposicionar as cadeiras reclináveis' no convés superior do Titanic.” Será que essa proposta cabe nesta conjuntura para todas as esquerdas ou ainda se restringe ao escopo da esquerda do materialismo histórico e dialético, de tradição marxista revolucionária?

Transplantando essa ação política proposta por Mészáros para o Brasil, em que isso implicaria para o campo das esquerdas? Vamos pensar juntos, pois não tenho respostas prontas. Axé.


Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo - Suplemento ALIÁS - domingo 24/05/2009

A CRISE DO CAPITAL EM CRISE

István Mészáros (Nasceu na Hungria e foi assistente do filósofo Georg Lukács. Lança na semana que vem no Brasil o livro A Crise Estrutural do Capital (Boitempo). Vive na Inglaterra)

- Se a ocorrência de crises cíclicas periódicas foi a marca do desenvolvimento capitalista, na nossa época histórica, há um novo tipo de crise que afeta todas as formas concebíveis do sistema do capital enquanto tal, não somente o capitalismo. Em Para Além do Capital (Boitempo, 2002), escrevi que seu modo de desdobramento, "em contraste com as erupções e os colapsos mais espetaculares e dramáticos do passado, poderia ser chamado de rastejante, desde que acrescentemos a ressalva de que nem sequer as convulsões mais veementes ou violentas poderiam ser excluídas no que se refere ao futuro".

As manifestações dramáticas da crise atual - da multiplicação das chamadas "greves selvagens" nos mais avançados rincões do capitalismo no mundo aos "levantes por alimentos" em mais de 35 países, contabilizadas por ninguém menos que a revista londrina The Economist, uma autoridade do establishment - indicam que as respostas das grandes massas populares, fortemente prejudicadas pelo que tem sido descrito como uma gerenciável crise financeira, podem refutar de forma frontal a autocomplacente sabedoria apologética do capital do passado recente.

É verdade que algumas das piores manifestações da crise financeira global podem ser reduzidas, e até eventualmente serem postas sob controle, mas não a crise estrutural em si. E elas permanecerão para nos lembrar, e irromper outra e outra vez de forma mais ou menos dramática, que as determinações estruturais do sistema não foram transformadas radicalmente.

O fato de não estarmos submersos ainda em outra Guerra Mundial se deve à circunstância igualmente incorrigível de que tal guerra acabaria com a humanidade, deixando o planeta às baratas. Mas ninguém deve considerar como certa a inevitabilidade de uma guerra global devastadora se não superarmos e removermos do cenário as causas sistêmicas da eventualidade dessa guerra. Porque, à guisa de registro histórico, a humanidade nunca inventou nenhuma maquinaria destrutiva que não tenha sido utilizada em escala comparável a seu potencial.

De fato, algumas vozes nos círculos militares norte-americanos, combinadas com decretos governamentais, já se levantam abertamente em prol da necessidade - e o que eles chamam de "direito moral" - de usar as armas nucleares premonitoriamente e não só preventivamente, opondo-se à renúncia do suposto "direito de usar primeiro as armas nucleares" mesmo contra poderes não-nuclearizados e apesar do apelo maciço de 1.800 cientistas, alguns recebedores do Prêmio Nobel, dirigido à administração Bush no outono de 2005. E o presidente Obama não fez nenhuma declaração no sentido oposto. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, afirmou durante a campanha pela candidatura democrata que não hesitaria em usar armas nucleares contra o Irã.

A forma potencialmente mortífera do imperialismo global hegemônico, que se afirma cruelmente em nosso tempo, é inseparável, no plano da reprodução material, da atual fase histórica de desenvolvimento monopólico hegemônico e de centralização do poder correspondentes. Essa impossibilidade de separar as duas dimensões ressalta mais uma vez que o antagonismo explosivo é sistêmico e não pode ser superado a não ser por uma mudança radical no sistema do capital.

AS ?SOLUÇÕES?

A atual crise também se distingue das anteriores ao começar a produzir respostas radicais desafiadoras numa escala considerável. E esse processo está longe de ter atingido seu auge. Ao mesmo tempo, as medidas adotadas com resultados duvidosos pelos governos do capitalismo dominante - que chegam à nacionalização da falência capitalista mediante impressionantes somas de trilhões de dólares - são a prova evidente de que nada pode ser mais tolo do que ainda descrever a crise atual como aquelas tradicionais e cíclicas do capitalismo, um contratempo a ser suplantado em um ou dois anos, tal como continuam afirmando os "combatentes a soldo do capital" (palavras de Marx).

Mas essa grave crise é estrutural precisamente porque não pode ser superada nem com os muitos trilhões das operações de resgate dos Estados capitalistas. Ao contrário, aprofunda-se de maneira combinada ao fracasso comprovado de medidas paliativas sob a forma de aventureirismo militar em escala inimaginável e faz com que o perigo de autodestruição da humanidade seja ainda maior do que antes. Perigo esse que se multiplica conforme as formas e instrumentos tradicionais de controle à disposição do status quo fracassam em sua missão.

Assim, uma das ilusões mais compreensíveis - embora em última instância mais derrotista - da qual temos que nos precaver é qualquer forma de neokeynesianismo, incluindo o autodenominado neokeynesianismo de esquerda. Esses chamados a sua ressurreição equivalem à última linha de resistência em torno da qual as várias personificações do capital podem obter consenso provisório num momento de grande crise. Sob tais circunstâncias, as várias formas do capital pretendem lançar mão de medidas de intervenção estatal keynesianas para restabelecer seu sistema até que possam reverter suas concessões e retornar ao status quo anterior.

Os porta-vozes do capital pedem abertamente a nacionalização de alguns dos maiores bancos e se engajam na consecução desse propósito de forma que atenda a seus interesses. De fato, eles instituíram recentemente na Grã-Bretanha uma forma hiper-hipócrita de "nacionalização" dos bancos, todos falidos. Tais porta-vozes acrescentaram que "depois de publicamente recapitalizados esses bancos serão devolvidos ao setor privado". Eles podem dizer isso porque já nacionalizaram a bancarrota capitalista em outra ocasião - na Grã-Bretanha, imediatamente depois da 2ª Guerra Mundial - e reprivatizaram as principais unidades das nacionalizações do pós-guerra, depois de revigorá-las com recursos públicos. E estão confiantes de que podem perpetrar o mesmo truque agora, quando a crise se intensifica.

É revelador que sob tais circunstâncias os trabalhadores sejam induzidos - por seus próprios sindicatos, na Grã-Bretanha - a "apertar os cintos" e "aceitar os sacrifícios necessários", como congelamento salarial por dois anos e significativos cortes de salários, para reestabilizar o sistema, em troca da vaga promessa de alguma melhoria num futuro pós-crise.

Com essa linha defensiva do movimento sindical, as oportunidades para uma viável mudança estratégica são perdidas pela "força das circunstâncias". Tudo fica, na melhor das hipóteses, para um futuro genericamente esperado, que pode nunca chegar se essas oportunidades concretas, mesmo as da atual e monumental crise social e econômica, forem desperdiçadas devido à acomodação.

A verdade, portanto, é que precisamos de uma mudança fundamental, estrutural, e não a fantasia neokeynesiana de "reposicionar as cadeiras reclináveis" no convés superior do Titanic.