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segunda-feira, outubro 24, 2011

O QUE A ÁFRICA TEM A VER CONOSCO: DOCUMENTÁRIO BLOOD IN THE MOBILE (SANGUE NO CELULAR)

Comentário Moisés Basílio: 
     O caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo do dia 24/10/2011 traz uma reportagem reveladora sobre a exploração de minérios nobre, utilizados como componentes dos aparelhos celulares, no continente africano. O mote para a reportagem é o documentário Blood In The Mobile do diretor Frank Poulsen - http://www.youtube.com/watch?v=EIPEvN8xTZc&feature=mfu_in_order&list=UL.
     Nós brasileiro sempre temos um percepção equivocada sobre o continente africano em relação ao tempo e espaço. Nossa temporalidade sobre a África sempre nos remete ao nosso passado colonial, algo já ultrapassado historicamente, com o fim do escravagismo. E dada à distância espacial, ampliada pela distância imposta pela falta de informação dos meios de comunicação, para nós a África é sentida como algo distante. 
     Mas, numa coisa tão simples do nosso cotidiano, como no manuseio de um aparelho celular, estamos de corpo e alma nos relacionando com a África. A reportagem e o documentário nos revelam essas conexões e nos estimula a interagir com essa realidade.  

Fonte: Sítio do Jornal O Estado de S. Paulo: http://blogs.estadao.com.br/link/%e2%80%98deixei-uma-camera-na-mao-dos-meninos%e2%80%99/

‘Deixei uma câmera na mão dos meninos’

  • 23 de outubro de 2011| 18h45|
Por Camilo Rocha
Entrevista com o diretor de ‘Blood In The Mobile’, Frank Poulsen
O diretor de ‘Blood In The Mobile’, Frank Poulsen. FOTO: REPRODUÇÃO

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Por que escolheu esse tema para filmar?
A maior parte das pessoas no Ocidente desenvolvido dizem que o que acontece na África não tem nada a ver com elas. Veem filmes na África e pensam: ‘O que isso tem a ver comigo?’
Quando meu produtor me falou dos minérios de conflito, topei na hora. Vi aí uma grande chance de mostrar como estamos todos conectados. Como nosso modo de vida depende do sofrimento de outras pessoas.
Qual a contribuição que o filme traz para essa questão?
A chave para fazer o filme acontecer era acessar uma dessas minas. Mesmo há quatro anos, os fatos eram conhecidos, muitas matérias já haviam saído, mas não havia quase imagens dos locais. Então eu queria algo novo e exclusivo, até para conseguir financiamento. Por isso, sabia que tinha que filmar no Congo. Fui quatro vezes e na quinta levei um diretor de fotografia dinamarquês comigo. Também tinha um produtor local com quem trabalhei em cada viagem. Demorou muito conseguir a papelada para que fosse o mais seguro possível ir lá.
Sua vida chegou a correr risco?
Claro, esse tipo de lugar é sempre perigoso. Muitos ali participaram de diversas atrocidades. Em muitas situações, era preciso ser muito cauteloso na hora de falar ou agir. Mas eu sou bom em negociar, em conquistar a confiança das pessoas. O que realmente dava medo era entrar nas minas. Ali não havia controle e eu ficava pensando, ‘se isso desabar, bom acabou tudo’. Foi bem estressante.
É verdade que uma criança te ajudou na filmagem?
Eu só tinha uma câmera e alguns dos túneis eram pequenos demais pra mim. Também era difícil filmar a atividade do dia a dia. Toda vez que entrava num buraco, todo mundo parava de trabalhar para olhar o homem branco. Então, acabei trazendo uma câmera pequena e deixei na mão de um dos meninos.

Fonte:  Sítio do Jornal O Estado de S. Paulo: http://blogs.estadao.com.br/link/tecnologia-consumo-e-dor/

Tecnologia, consumo e dor

  • 23 de outubro de 2011|18h45|
Por Camilo Rocha
Documentário dá cara aos conflitos na extração de metais para celulares
“Esse lugar é o inferno na Terra. Pessoas trabalhando sob a mira de homens armados por toda parte. Meninos de 14, 15, 16 anos cavando nos buracos. Crianças com até quatro anos vendendo coisas e fazendo serviços para os soldados. Não há água potável.”
O cineasta dinamarquês Frank Poulsen sempre se considerou uma pessoa forte para cenários de pobreza e sofrimento, tendo ido a África várias vezes. Mas a visão da enorme mina de cassiterita de Bisie, num ponto remoto do Congo oriental, foi “muito além de tudo que eu já tinha visto”. “O sentimento de desespero está no ar”, descreveu ao Link pelo telefone. (Leia entrevista aqui.)
Exploração. No Congo, minas controladas por milícias armadas empregam mão de obra infantil. FOTO: DIVULGAÇÃO
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Em Bisie, milhares de pessoas se dedicam a procurar um dos minérios que, muitos estágios depois, se transformam em componentes dos celulares que todos usam. Foi lá que o diretor conseguiu as imagens mais impactantes de seu documentário, Blood In The Mobile (Sangue no Celular, em tradução livre).
Concluído no fim de 2010, o filme teve exibições esporádicas desde então (incluindo sessões no festival brasileiro É Tudo Verdade deste ano). Entre este mês e o fim do ano, o alcance deve aumentar, com sua inclusão em diversas mostras e festivais nos EUA e Inglaterra.
Blood In The Mobile é um ruído desagradável em um mundo dominado por máquinas e pelo consumo destas. O filme alerta que as matérias-primas que fazem este século 21 ser tão bem informado e conectado muitas vezes vêm de lugares que remetem aos tempos da escravidão. As cenas de Bisie podiam muito bem ser do Congo Belga do fim do século 19, descrito em tons sinistros pelo escritor Joseph Conrad no clássico Coração das Trevas.
O diretor viveu uma saga para chegar ao seu apocalíptico destino final, como o protagonista do livro de Conrad. “Primeiro tomei o avião de Kinshasa (capital do Congo) até a cidade de Goma. Daí fui de helicóptero até a vila de Walikale. Depois, foram mais 200 quilômetros de moto. E, finalmente, dois dias de caminhada pelas montanhas.”
País que tem o tamanho da Europa Ocidental, a República Democrática do Congo (o antigo Zaire) repousa esplendidamente sobre imensas reservas de diamantes, ouro, cobre, cobalto, cassiterita, volframita e coltan (abreviação para columbita-tantalita). Fora as pedras preciosas, o resto da lista são materiais usados no processo de fabricação de qualquer aparelho de celular (leia mais aqui).
Os recursos minerais do Congo são motivo de disputas sangrentas. No fim dos anos 90, as tensões descambaram no conflito mais sangrento do planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial, envolvendo o exército congolês, milícias locais, forças de Ruanda, Burundi e mais seis países.
Chamada de Segunda Guerra do Congo ou Guerra do Coltan, ela terminou oficialmente em 2003. Mas a paz nunca chegou de fato à região, que segue castigada por violência, exploração, ausência de direitos humanos básicos, fome e doenças. De 1998 a 2008, 5,4 milhões de pessoas morreram em consequência dos conflitos. Os produtos das minas locais ganharam o nome neutro de “minérios do conflito”.
Não surpreende que as condições de trabalho num cenário assim sejam as piores possíveis. “A situação nas minas é análoga à escravidão. As pessoas ganham para trabalhar, mas estão aprisionadas, amarradas em dívidas com os grupos armados”, relata.
Fabricantes. Segundo o diretor, tão difícil quanto acessar a distante mina congolesa foi conseguir a participação da Nokia no documentário. Poulsen escolheu a empresa por ser a fabricante do celular que usa. Depois de dois meses de tentativas por e-mail e telefone, tudo que obteve foi uma resposta de duas linhas dizendo que a “empresa não tinha recursos para ajudá-lo”. O cineasta resolveu, à la Michael Moore, ir pessoalmente à sede da empresa na Finlândia.
“No filme, eu vou várias vezes à sede da Nokia. Eles me disseram, finalmente, que sabem do problema e que estão fazendo tudo que podem, mas não especificam bem o quê”, conta.
Poulsen não tenta provar que os celulares da Nokia usam materiais de Bisie ou de outra mina do Congo. Dada a quantidade de etapas atravessada pelos minérios até chegar na manufatura do aparelho, o rastreamento é trabalhoso. “Sei da dificuldade de conhecer a cadeia de fornecimento desses recursos. Mas só as indústrias podem descobrir isso e elas não o fazem. Se recusam a divulgar sua lista de fornecedores.”
A questão dos “minérios de conflito” esteve na pauta do Congresso americano no final da década passada. O resultado foi a inclusão de uma cláusula referente ao Congo num pacotão legislativo conhecido como Lei Dodd-Frank. De acordo com ela, empresas passam a ser obrigadas a provar que seus materiais não vinham da região conflituosa no Congo.
Mesmo sem entrar em vigor, a lei Dodd-Frank já teve um impacto muito além do previsto. Apavoradas com possíveis consequências, empresas americanas pararam de comprar qualquer coisa do Congo. Foi um duro golpe na frágil economia local, onde os minérios representam quase 12% das exportações.





















Fonte: Sítio Jornal O Estado S. Paulo: http://blogs.estadao.com.br/link/mudanca-em-andamento/

Mudança em andamento

  • 23 de outubro de 2011| 18h45|
Por Camilo Rocha
ONGs e indústria criam iniciativas para tornar a exploração de minérios mais transparente
Fazer a tecnologia da informação ser mais justa para todos. Este é, em português, o mote da campanha Make IT Fair (For People Everywhere), que envolve diversas ONGs europeias. A campanha busca conscientizar o consumidor, trazendo informação sobre a procedência e caminhos dos materiais usados em celulares, computadores e games.
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No site da Make IT Fair (http://makeitfair.org/) há tópicos como as más condições de trabalhadores de telefônicas na Índia e dos operários da Foxconn, empresa chinesa que produz os iPhones da Apple. A Make IT Fair é apoiadora do filme Blood In the Mobile.
Sediada em Amsterdã, na Holanda, a ONG Somo é uma das principais agentes por trás da campanha. Tim Steinweg, especialista em mineração da Somo, conversou com o Link por telefone sobre o trabalho da entidade e alguns avanços recentes conseguidos.
Steinweg conta que, desde as filmagens de Blood In The Mobile, a situação das minas congolesas pouco mudou. “As grandes minas, como a que aparece no filme, continuam em atividade. Informes dão conta de que a presença de grupos armados diminuiu, mas pode ser que estejam apenas operando de maneira mais discreta.”
Com a atenção que a situação do Congo ganhou nos últimos anos, a retração dos grupos armados faz sentido. A aprovação da lei norte-americana Dodd-Frank, que inclui uma cláusula exigindo que empresas não usem os chamados “minérios de conflito”, fez empresas do setor nos EUA e Europa riscarem o Congo da sua lista de compras.
Segundo Steinweg, apesar da boa intenção, o resultado foi desastroso para a economia da nação africana. “Com medo, as empresas passaram a boicotar todos os minerais do Congo, de todas as áreas do país. Este não é o melhor caminho, pois prejudica toda a sociedade congolesa.”
(Clique na imagem para ampliá-la)
Mesmo assim, o especialista comemora o fato de que esse tipo de legislação introduziu na pauta das empresas o monitoramento dos materiais que usam. “Isso em si foi uma vitória”, diz.
Rastreamento. Um dos resultados da nova postura é que duas entidades que reúnem empresas do setor – a Coalizão de Cidadania da Indústria Eletrônica (Eicc, na sigla em inglês) e a Iniciativa de E-sustentabilidade global (Gesi) – lançaram no fim de 2010 um programa para barrar, após a extração do metal, o fornecimento de matéria-prima de áreas de conflito.
Na fase inicial da cadeia produtiva, o mineral é encaminhado a fábricas produtoras de metal chamadas “smelters”.
Steinweg conta que no mundo há poucos “smelters” (e quase todos ficam na Ásia) processando matérias-primas que vão para a indústria eletrônica. “Isso torna o monitoramento muito fácil de fazer”, explica.
Para se ter uma ideia do alcance do programa, basta olhar a lista de membros da Eicc e da Gesi em seus respectivos sites: nomes como Nokia, Motorola, Verizon, Sony, Telefonica, Ericsson, Microsoft, Dell, Acer, Foxconn, Philips, entre muitas outras.
Mas, como observa Steinweg, isso resolve apenas uma questão bem específica, a dos minérios de regiões de conflito (em outras palavras, da República Democrática do Congo) e que há quatro anos vem sendo divulgada por campanhas como a Make IT Fair. Há ainda que se ressalvar que está se falando aqui praticamente só de empresas com sede no Ocidente desenvolvido. Ou seja, nada de China, Índia e Brasil, entre vários outros grandes mercados consumidores.
O especialista três outras regiões com outros tipos de problema: “A mineração de platina na África do Sul tem entrado em conflito com comunidades locais. Na Indonésia, a extração do estanho tem causado sérios problemas ambientais. E as minas de cobalto na Zâmbia e em outra região do Congo, no sul do país, tem ocorrências de trabalho infantil.”
Depois de saber de tudo isso, o consumidor final tira o celular do bolso e olha com culpa para ele. Como fazer para não compactuar? “É muito difícil, todas essas empresas são iguais no fundo. Mas o que nos costumamos recomendar é: primeiro, não troque de celular todo ano. Se cada vez menos gente fizer isso, haverá menos demanda pelos minérios. Segundo, se certifique de que um produto descartado é reciclado de maneira correta, uma vez que esses minerais podem ser facilmente reutilizados”, explica o especialista.
“E terceiro, use seu poder de consumidor, sua voz! Aja com cidadania. Participe de campanhas, e abaixo-assinados que peçam transparência das empresas. Descubra o Twitter do CEO dessas empresas e vá lá cobrar diretamente”, acrescenta.

Fonte: Sítio do Jornal O Estado de S. Paulo

Fabricantes dizem pressionar fornecedores

  • 23 de outubro de 2011| 18h45|
Por Redação Link
Nokia e Motorola afirmaram que têm trabalhado para se certificar que materiais não têm origem em regiões de conflito
Entre as principais fabricantes que montam celulares no Brasil, Nokia e Motorola afirmaram que têm trabalhado com outras empresas do setor para pressionar fornecedores a se certificar que os metais usados nos componentes não têm origem em regiões de conflito como a do Congo.
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A Nokia afirmou que tomou conhecimento das minas ilegais no país em 2001 e baniu o uso dos metais. “Todos os nossos fornecedores são auditados, assim como os fornecedores deles também”, disse a fabricante. Mas a empresa afirma que não é possível ter uma lista exata dos países de onde vêm tais metais.
A Motorola Mobility disse estar “engajada” para incentivar uma maior regulamentação. “É fundamental que um sistema de rastreamento seja implantado para que a indústria possa continuar a adquirir metais da região (Congo)”, disse a empresa em comunicado.
Procuradas, as sul-coreanas LG e Samsung não responderam se têm políticas para rastrear o fornecimento de metais.

sábado, maio 14, 2011

Lima Barreto terá nova biografia escrita por Lilia Moritz Schwarcz

Comentários Moisés Basílio: Que grata satisfação a notícia de que a historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz vai nos presentear com uma nova biografia do grande escritor Lima Barreto. Há dois meses tive a oportunidade de assistir uma apresentação da professora Lilia, sobre o Lima Barreto, na biblioteca municipal de São Bernardo do Campo, e também estou lendo o livro “Contos Completos de Lima Barreto”, editado pela Companhia Das Letras, e com um excelente trabalho de organização da prof.ª. Lilia, principalmente pelo primor das notas que muito nos auxilia a compreender o contexto histórico onde nossa autor vive, e também com uma detalhada introdução contextualizando da obra e da vida de Lima Barreto. Um belo presente à memória de Lima Barreto nesse ano em que comemoramos os seus 130 anos de nascimento. Axé!

Fonte: Sítio do Jornal O Estado de S. Paulo, em 14/05/2011, http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110514/not_imp719050,0.php
Tema racial inspira nova biografia
Lilia Moritz Schwarcz investiga a influência da origem e da situação social do ficcionista no corpo de sua produção
Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo
A biografia de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) considerada definitiva é a do paulista Francisco de Assis Barbosa. Publicada em 1952 e ainda no catálogo da editora José Olympio, A Vida de Lima Barreto é fruto de cinco anos de pesquisas, período em que Barbosa manuseou originais, notas, trechos esparsos do Diário Íntimo, cartas, cadernos de recortes de jornal - documentos hoje incorporados na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. "Mas ele, explícita e declaradamente, afirmou que não trataria do tema racial na obra de Barreto. Na minha opinião, essa é uma questão fundamental para o autor, cuja vida foi marcada pela construção de alguns detalhes sociais da diferença, devidamente manipulados: raça, situação social, e localização", afirma a antropóloga e pesquisadora Lilia Moritz Schwarcz, que viu ali um caminho fecundo para aprofundar novos estudos sobre o autor, cujos 130 anos de nascimento foram lembrados ontem.
Desde o ano passado, portanto, Lilia pesquisa a documentação da Biblioteca Nacional a fim de preparar a sua biografia, que ainda não tem data de publicação - e trará a questão racial como um dos seus fios condutores. "Lima sempre se definiu como pobre, mulato, um morador do subúrbio e fez de sua literatura uma expressão desta condição. E, ao tratar de seu hábitat, pude o ampliar o espaço simbólico do Rio incluindo o subúrbio", comenta Lilia, que visitou o local onde viveu o escritor e constatou que muitas características continuam intactas, como se o tempo tivesse congelado. "Ainda há galinhas e cachorros soltos nas ruas, além de pessoas jogando bola."
Lima Barreto sempre realizou uma literatura de testemunho e o tema da raça está presente todo tempo. Lilia observa que há um momento em seu Diário Íntimo em que ele diz: "É difícil não nascer branco". E ainda "a raça para os brancos é conceito, para os negros pré-conceito". "Se tomarmos Recordações do Escrivão Isaías Caminha, romance autobiográfico, o personagem principal conhece o preconceito ao chegar no Rio, quando é acusado injustamente, ou quando deixa de ser servido num bar por conta de sua cor. O mesmo ocorre em Clara dos Anjos: mulata, pobre e prostituída. Também em Cemitério dos Vivos, romance incompleto pautado na experiência no sanatório, e no Diário do Hospício, Lima recheia a narrativa com episódios de preconceito e de sofrimento pessoal."
Aos poucos, Lilia foi detalhando a contraditória personalidade de Lima Barreto. "Seu comportamento era sempre ambivalente", observa a pesquisadora. "Condenava o determinismo racial mas temia morrer louco (assim como seu pai); era uma voz do subúrbio, mas tinha estima pelas instituições da capital; condenava a literatura acadêmica que considerava por demais oficial, mas tentou entrar na instituição por três vezes; era favorável às afirmações culturais negras, mas condenava o samba, o carnaval. Enfim, ele era muito Policarpo Quaresma; uma espécie de D. Quixote tropical."
Ao mesmo tempo, sua determinação em se firmar como escritor era constante - segundo Lilia, Lima fazia questão de se apresentar como tal, ainda que trabalhasse como amanuense (ou seja, um copiador de documentos) no Ministério da Guerra, do qual era funcionário público. Ele, porém, parecia desprezar a função pois, como observou Lilia em sua pesquisa, preferia ocupar o tempo fazendo anotações sobre sua obra no verso da documentação. Uma espécie de desabafo de geração. "É possível notar como ele usava seu tempo livre para escrever, e que não tinha qualquer apreço pela profissão. Por isso mesmo, era à literatura que se dedicava. Tanto que em seu diário confessou: "A literatura, ou me mata ou me salva"."
Basta observar, por exemplo, um trecho das anotações que deixou no verso do manuscrito de Policarpo Quaresma: "Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição, foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na convivência de todos a sua injustiça originária. Quando eu fui para o colégio, um colégio público, à rua do Rezende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado. A professora, D. Tereza Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de crianças, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos progressistas da nossa fantasia. Mas como estamos ainda longe disso! Como ainda nos enleiamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!"
Lilia não acredita, portanto, que seja coincidência o fato de que, nas costas de seu romance mais importante - e evidentemente autobiográfico - ele desenvolva tal tipo de raciocínio e mostre como esse era um momento de desencanto: nostálgico. "Aí estava, como ele mesmo dizia, "a República que não foi"."
Em dois artigos que serão divulgados em publicações especializadas, a pesquisadora detalha a passagem do escritor pelo Hospício Nacional de Alienados, iniciada em 1914. A partir de análise dos prontuários arquivados na biblioteca do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Lilia observa que, apesar de escritor de certa fama, reconhecido como voz crítica e atuante, Barreto é registrado como um alienado sujeito ao delírio do álcool. "Tudo ao contrário do que era seu grande sonho: o de projetar-se como uma persona literária e um testemunho desses novos tempos."

segunda-feira, dezembro 20, 2010

História da África - edição UNESCO

Comentários Moisés Basílio: Sempre namorei essa coleção. Agora ela está inteirinha à disposição para ser baixada na Internet. Muito boa notícia. Axé!

Coleção História Geral da África disponível na Internet

Os oito volumes da coleção completa História Geral da África está disponível em português na internet. Esse é um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, pois é um importante marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África. A obra permite a seus leitores compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos. 
 
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Download gratuito (versão em português):
· Volume II: África Antiga (PDF, 11.5 Mb)

Fonte: Boletim do NPC Nº 182De 1 a 15/12/2010 - http://www.piratininga.org.br/

domingo, novembro 15, 2009

ARTE AFRICANA: RACISMO E IGNORÂNCIA BRASILEIRA

Comentários Moisés Basílio:
O professor Cerqueira Leite vai direto ao centro da questão: Se a arte africana é referência na Europa e nos EUA, por que é relegada no Brasil? Ele mesmo se aventura em respoder a sua própria questão: "Será que ainda somos estigmatizados pelos obsoletos conceitos desenvolvidos durante o colonialismo eurocêntrico? Ou, talvez, seja por mera ignorância desse legado fabuloso que constitui a arte negra." 
Em minha opinião, as duas respostas do professor Cerqueira Leite são corretas e complementares, pois os preconceitos, a discriminção, o racismo andam de mãos dada com a ignorância.
Uma coisa que eu não entendi nesse artigo, foi a crítica velada que o professor Cerqueira Leite faz ao Museu de Cultura Afro-brasileira de São Paulo. Já fui várias vezes nesse museu que fica no Parque do Ibirapuera em São Paulo e admito que gostei muito do que vi, mas por não ser especialista, não tenho elementos para dimensionar a validade da critica. Axé!


Máscara das etnias Dogon do Mali













              Máscara etnia Fang do Gabão.
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 15/11/2009 - Caderno Cultura, p.D6.

Arte africana, influente e relegada

Rogério Cezar de Cerqueira Leite é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo

Referência na Europa, herança cultural negra continua em segundo plano no País
Rogério Cezar de Cerqueira Leite


As primeiras obras, hoje denominadas por "arte africana", foram expostas ao mundo ocidental ainda em meados do século 19, mas o foram por motivo perverso. Os chamados "impérios coloniais europeus", tentando justificar o sanguinário uso de força durante suas invasões, trouxeram estatuetas e máscaras como provas do atraso cultural e intelectual dos povos africanos que se refletiriam nas proporções irrealistas desses exemplares. Nas máscaras não estariam representados os traços humanos por incapacidade de técnica ou inadequada percepção dos artistas africanos. As reproduções do corpo humano eram desajeitadas, grotescas mesmo, devido à incapacidade desses povos de medir, de avaliar.

Incapazes foram esses europeus do século 19, que não perceberam a profunda simbologia, a expressão mística e a abstração, expressas magistralmente nessas aparentes distorções da realidade e que só viriam a ser um recurso consciente da arte ocidental séculos depois de cotidianamente vivenciada por centenas de culturas negras da África.

Pois bem, a reversão de opiniões não tardou. Foi na França, onde se concentrava então imensa e criativa comunidade de artistas e intelectuais, que a arte africana explodiu de maneira avassaladora, no despontar do século 20. Fernande Olivier, companheira de Picasso, explica: "Eu creio que foi Matisse quem primeiro descobriu o futuro valor artístico dessas peças africanas, depois foi Derain. Subsequentemente, Picasso ficou fanatizado, coletando, acumulando estatuetas, máscaras e fetiches de todas as regiões da África." Outros afirmam que foram Gauguin e Cézanne que introduziram a Picasso a arte africana.

Uma outra versão, que até certo ponto dá suporte àquela de Fernande, diz que fora Vlamick o primeiro a receber três ou quatro máscaras, uma delas a "Fang", que fascinou Picasso até o fim de sua vida. Em seguida teria mostrado Vlamick o seu achado a Derain, Matisse e ao próprio Picasso.

Mas não foram esses três grandes os únicos a recorrer às artes africanas como fontes de inspiração. Gauguin, Braque e com eles os escritores Gertrude Stein, Apollinaire, Cocteau e Cendrars se tornaram verdadeiros propagandistas das artes africanas.

A influência africana na arte do século 19 é imensa. Sem as máscaras geométricas de Dogon não haveria cubismo, ouso dizer. E de onde teria Picasso extraído os traços revolucionários das Demoiselles d"Avignon? Todavia, a influência incontestável da arte africana sobre as inúmeras correntes que caracterizavam estas inquietas primeiras décadas do século 20 não se restringe a este período particular, mas se estende até nossos dias.

A exposição Algumas Expressões da África, na Galeria Beaubourg, em 1996, mostrou essa relação entre a arte contemporânea de Arman, Beselita, Basquiat, César, Di Rosa, Keith Hering, Penck, Spoerri e Tinguely e a africana, que se estende desde expressões abstratas até o mais imediato figurativismo. O primeiro dessa lista, Arman, possui uma coleção com mais de 300 peças, quatro vezes maior que aquela de Picasso. Diz ele: "Meu diálogo com a arte africana está em relação com a convicção de que a criação artística decorre de um fundo comum da humanidade."

Esta arte que já foi chamada de "primitiva", desafortunadamente, por Lévi-Strauss e corrigida por Malraux para "primordial", não encontra, entretanto, a mínima apreciação neste nosso Brasil, maior componente da diáspora africana do planeta. Enquanto nos EUA, o segundo maior contingente dessa herança, dezenas, senão centenas de espetaculares coleções dessa forma essencial de expressão artística da humanidade estão disponíveis em museus e coleções privadas, no Brasil não há uma única acessível ao público. E isto é lamentável não apenas porque é uma herança do brasileiro que, em pelo menos 50%, assim se reconhece, mas também porque é esta forma de arte um patrimônio essencial da humanidade.

Pois bem, está chegando a hora de, pelo bem da autoestima do negro brasileiro, de seus descendentes mestiços, e do brasileiro em geral, que não fiquemos apenas em efêmeros dias ou semanas de festejos da "consciência negra". Abundam no Brasil grupos universitários e centros de pesquisas sobre artes europeias, mas não há quase nenhuma pesquisa sobre artes e povos de nossa principal e maior herança cultural e genética. Por que seria? Será que ainda somos estigmatizados pelos obsoletos conceitos desenvolvidos durante o colonialismo eurocêntrico? Ou, talvez, seja por mera ignorância desse legado fabuloso que constitui a arte negra.

Comecemos por um autêntico museu de arte africana, um museu de verdade e não um circo, que abrigue e exponha obras fundamentais e patrocine grupos de pesquisas, e que, assim, mereça a denominação de Museu da Cultura Afro-Brasileira.