quinta-feira, maio 17, 2007

DOSSIÊ SOBRE SAÚDE DOS ALUNOS E PROFESSORES

Comentário Moisés: Tanto alunos como professores são vítimas de graves problemas de saúde na escola. A cada ano que passa o problema piora. As condições de trabalho estão sendo constantemente negligenciadas em função de uma lógica que faz da escola uma fábrica do século XIX.

Folha Online, 15/05/2007 - São Paulo SP - Como "matar" um professor - Gilberto Dimenstein

Há uma série de pesquisas que mostram o enorme estresse a que é submetido um professor, especialmente de escola pública, traduzindo-se em várias doenças, como ansiedade ou depressão. Ao perder o encanto de ensinar, ele estará, enquanto profissional, morto, esperando a aposentadoria.

Todos falam em inúmeros fatores por trás dessa "morte": classes superlotadas, falta de estrutura das escolas, pais desinteressados, alunos violentos, poucos estímulos para premiar o mérito etc. Há, porém, um fator pouquíssimo comentado, que, na minha opinião, é dos piores porque se associa ao mau desempenho nas notas e favorece comportamentos violentos.

Tenho recebido uma série de estudos que revelam a altíssima incidência, nas escolas públicas, de doenças e distúrbios psicológicos em estudantes. Falamos aqui em, no mínimo, 30% dos alunos, entre os quais alguns simplesmente não enxergam ou ouvem direito. Só a dislexia pode estar atingindo 15% deles. Temos na sala de aula um desfile de enfermos sem cuidados apropriados.

Isso significa que os governos deveriam ajudar as escolas a enfrentar problemas que não podem ser resolvidos pelo professor, da saúde à assistência social; filhos de famílias desestruturadas tendem a ter problemas em sala de aula. Exige-se, assim, um olhar mais sofisticado diante da educação.

Como esse olhar não existe e cada repartição do governo trabalha isoladamente, o professor acaba vítima de tensões que vão muito além da sala de aula. Esse é um dos fatores que explicam o enorme absenteísmo e a rápida rotatividade em escolas públicas tanto de estudantes como de professores.

Nessa "morte" do professor, a maior vítima, é claro, é o lado mais frágil, o aluno, acusado de ser culpado por não aprender. E aí quem "morre" é o aluno, que passa a não ter interesse pelo conhecimento.

PS - No site www.dimenstein.com.br há mais dados sobre educação e saúde.

folha de s.paulo - 14/05/2007

O massacre dos inocentes - folha de s.paulo - 14/05/2007

Deveríamos olhar com mais atenção para doenças que podem produzir marginais e alunos incapazes de aprender

Se seu filho ou aluno é esperto, mas tem muita dificuldade de aprender, preste atenção a estas estatísticas de associações psiquiátricas: entre 5% e 17% dos brasileiros sofrem de dislexia, perturbação na aprendizagem da leitura que leva a pessoa a embaralhar letras e números; pelo menos 7% têm, em algum nível, distúrbio de atenção e hiperatividade.

Essas porcentagens se traduzem em crianças e adolescentes abatidos em sua auto-estima, marginalizados, chamados de "burros" por pais e professores. Ou, pior, transformados em assassinos, traficantes ou assaltantes. Investigações em várias partes do mundo detectam alta incidência de presos com histórico de distúrbios neurológicos que dificultam a aprendizagem. Em Londres, estima-se que 50% da população carcerária sofra ou tenha sofrido desses distúrbios.

O psiquiatra Arnaldo de Castro Palma entrevistou detentos de Curitiba e concluiu que 65% deles apresentavam doenças associadas à dificuldade de aprender. Neste momento, o Instituto de Psiquiatria da USP está avaliando 5.000 internos da Fundação da Casa (antiga Febem). A julgar pelas informações preliminares, os pesquisadores encontrarão resultados preocupantes. Isso significa que essas doenças levam ao crime?

Obviamente, não. Se fosse assim, homens como Walt Disney, Einstein, Thomas Edison, Steven Spielberg, Louis Pasteur, apresentados em livros e congressos médicos como portadores de distúrbio de atenção, teriam sido improdutivos. Já que o país está cada vez mais preocupado com os estarrecedores indicadores de violência e de educação, deveríamos olhar com mais atenção para doenças que podem produzir marginais e alunos incapazes de aprender.

Suponhamos que os problemas psicológicos, incluindo não só os distúrbios de atenção, a hiperatividade e a dislexia mas também a depressão e a ansiedade, atinjam 20% dos estudantes. Qualquer psiquiatra diria que eu estou sendo demasiadamente otimista, mas deixemos assim.

Suponhamos também que, como indicam muitas pesquisas científicas, 30% deles tenham verminoses, asma crônica, rinite alérgica, anemia por falta de ferro, deficiências visuais e olfativas. Mais uma vez, estou sendo otimista na porcentagem.

Só os problemas respiratórios, como a asma, atingem mais de 15% dessa população. Na melhor das hipóteses, temos o seguinte: para cada dez estudantes, três terão dificuldades de aprender por causa não do professor ou da qualidade de ensino, mas de uma deficiência física ou psicológica.

Os filhos de famílias mais ricas, quando apresentam problemas de aprendizado, recebem tratamento médico e psicológico, além de aulas de reforço com professores particulares. Em geral, os colégios de elite são compreensivos e os ajudam a prosperar, entendendo o seu ritmo; os estudantes que, ainda assim, não conseguem acompanhar o ritmo das aulas mudam de escola antes da repetência. Em sua maioria, eles amadurecem, descobrem um talento e, graças a todo esse apoio, aprendem a se virar sozinhos.

Já os mais pobres vão se degradando nas suas doenças e entram num círculo vicioso: não conseguem reter a informação, são desprezados, perdem a autoconfiança e passam a acreditar que são mesmo "burros". Estudam em salas superlotadas, com professores desmotivados, que desenvolvem um currículo sem a menor conexão com o cotidiano. São poucas horas de aula, sem direito a reforço. A terapia encontrada para ajudá-los é fazê-los repetir o ano; pais e professores das crianças se unem para dar uma "lição" aos vagabundos.

Maria Mônica Bianchini, uma das pesquisadoras do Instituto de Psiquiatria da USP na Fundação Casa, afirma: "A baixa auto-estima pode significar abuso de drogas e álcool". Gera-se mais um círculo vicioso -muita droga, pouca atenção. Isso não quer dizer que eles entrem necessariamente no crime, mas o fato é que recebem poucos estímulos para serem produtivos. Dependendo do lugar em que vivam e da família que tenham, o risco de delinqüência é gigantesco.

É, em poucas palavras, um massacre de inocentes. Prepara-se, assim, o campo para o surgimento dos analfabetos funcionais ou dos criminosos -ou das duas coisas juntas. A pesquisa do psiquiatra Arnaldo de Castro Palma mostra que, em Curitiba, 80% dos presos são analfabetos funcionais, uma quantidade igual à dos que apresentam distúrbios de aprendizagem como dislexia, déficit de atenção e hiperatividade.

Não é possível, assim, confiar na consistência de nenhum, rigorosamente nenhum, projeto de melhoria de ensino e de segurança que não leve em conta as questões da saúde psicológica e física no aprendizado.

PS - Coloquei no site uma pesquisa sobre distúrbios de aprendizagem, com testes que ajudam a detectar alguns sintomas de doenças neurológicas. É mais simples do que se imagina.

pesquisa folha - 11/05/2007


Veja dados sobre distúrbios de aprendizagem

da Redação

Dislexia, hiperatividade, déficit de atenção, ansiedade, entre outros transtornos de aprendizagem, muitas vezes são a causa de grande parte da evasão escolar e marginalização de indivíduos. De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), o distúrbio é considerado como o de maior incidência dentro de sala de aula, atingindo de forma mais severa crianças em fase de alfabetização.

Percentual:
Dislexia: 5% a 17% da população
Hiperatividade e distúrbio de atenção: 7% dos alunos em idade escolar
Hiperatividade: 5% das crianças
Déficit de atenção: 3 a 5% das crianças

Na sala de aula:
Geralmente as crianças com algum tipo de distúrbio de aprendizagem não aprendem da maneira convencional, acarretando no abandono do ensino formal e fracasso na vida escolar. Leia mais sobre o assunto:
O fracasso dos jovens frente ao processo de leitura e escrita
A importância do professor na percepção das dificuldades escolares
Pedagogia da Hiperatividade e distúrbio de atenção

População carcerária:
”Pesquisas realizadas com a população carcerária de Londres divulgada no livro: The adult dyslexic The interventions & outcomes (O adulto disléxico – As intervenções e os resultados), dos autores David McLoughlin, Carol Leather e Patricia Stringer, comprova que 50% da mesma sofre de dislexia e acabam cometendo delitos por ter sua auto-estima baixa, advindo de uma sociabilidade prejudicada, expectativas frustradas e por se submeterem apenas às atividades secundárias. Seja no Brasil ou em Londres o quadro educacional parece ser o mesmo, um método de ensino que lida com todos da mesma maneira, sem fazer surgir qualidades e habilidades peculiares, principalmente dos que apresentem dificuldades específicas em determinada área do aprendizado.” (fonte: ABD)

No Brasil não há um levantamento da população carcerária como um todo, já um estudo parcial realizado pelo psiquiatra Arnaldo de Castro Palma com internos da cidade de Curitiba, no ano de 2003, mostra as seguintes condições: “Quanto a escolaridade, mais de 80% são analfabetos ou analfabetos funcionais. O conjunto daqueles que conseguiram concluir o Ensino Fundamental não atinge 10% do total de entrevistados.O grau de instrução da população carcerária é seriamente comprometido pelo alto índice de portadores de transtornos cognitivos, que reduz a capacidade de assimilar e adquirir informações, armazená-las, combiná-las, classificá-las e utiliza-las oportunamente. Numa estimativa em que se leva em consideração o histórico pessoal, é possível concluir que, a maioria absoluta dos entrevistados, foi afetada desde a infância por distúrbios da atenção e da aprendizagem. É provável que exista influência desses fatores psico-pedagógicos na conduta criminosa, especialmente entre os reincidentes e violentos. O dado numérico salta aos olhos: mais de dois terços dos entrevistados têm manifestações clínicas que indicam distúrbio de atenção.” Veja o estudo na íntegra


Alguns sinais que permitem diagnosticar os distúrbios de aprendizagem:
http://www.dislexia.com.br/sintomas.htm
http://www.tdah.org.br/diag01.php

O FRACASSO DOS JOVENS FRENTE AO PROCESSO DE LEITURA E ESCRITA: suas causas, implicações e conseqüências.

Tânia Maria de Campos Freitas

Psicopedagoga Clínica

Professora Especialista em Distúrbios de Leitura e Escrita

Diretora do CPM – Centro Psicopedagógico Maranhão

Diretora Científica da ABD – Associação Brasileira de Dislexia

Dentre os distúrbios de aprendizagem, nota-se com maior freqüência e intensidade a deficiência na aquisição e desenvolvimento da Leitura e Escrita.

Em nossa prática de consultório, atendendo crianças, adolescentes, jovens adultos, bem como os próprios pais, são comuns as queixas acerca da pouca eficiência do saber ler e escrever. São comuns ainda, queixas de professores sobre estas dificuldades, ou seja quão pouco eficiente os jovens se encontram em relação à linguagem oral, quão pouco domínio eles dispõem da verbalização adequada como instrumento de comunicação e, o mesmo ocorrendo com o domínio da leitura e da escrita.

Relatos são conhecidos por todos, sobre alunos que não aprendem Matemática, História, Ciências, etc., não por serem portadores de dificuldades específicas nas referidas áreas, mas por faltarem-lhes o instrumental básico, ou seja, na leitura a possibilidade de compreensão, a capacidade para interpretar, abstrair, inferir e estabelecer relações entre os fatos contextuais e na escrita o domínio da língua (da micro à macro estrutura), a capacidade para relacionar os dados e redigi-los de forma clara e coerente, respeitando os manejos gramaticais pertinentes e básicos à redação.

A leitura e escrita são processos muito complexos e as dificuldades podem ocorrer de maneiras diversas, além disso temos a aquisição da leitura e escrita como fator fundamental e favorecedor dos conhecimentos futuros; é uma ferramenta essencial, ou mesmo a estrutura mestra onde serão alicerçadas as demais aquisições. É apoio para as relações interpessoais, para a comunicação e leitura de seu mundo interno e externo. Uma criança que não tenha solidificado realmente sua alfabetização, poderá tornar-se frustrada diante da educação formal, terá deficitário todo seu processo evolutivo de aprendizagem, apresentará baixo rendimento escolar e pouco a pouco sua auto estima estará minada, podendo manifestar ações reativas de comportamento anti-social, bem como levá-la ao desinteresse e muitas vezes até a evasão escolar. O problema pode ainda decorrer em outros secundários que acabarão se tornando tão ou mais graves daqueles originais que produziram a ineficiência da alfabetização.

Diante deste fato, objeto de queixas de educadores, pais e profissionais ligados à área, torna-se difícil distinguir onde se encontra a falha, seja de ordem da dinâmica individual, seja de ordem do meio, ou seja devido à síndrome psicossocial, onde estão envolvidas as três vertentes ao mesmo tempo: o indivíduo, a escola e a comunidade.

A fronteira determinante destes aspectos é frágil e tênue, muito se tem discutido e pesquisado, todavia são apontadas poucas conclusões efetivas e

menor parece ser a possibilidade para ações preventivas a todas as implicações do universo da aprendizagem.

Iniciando pela análise da dinâmica do indivíduo, este terá sucesso na aquisição da leitura e escrita dependendo da evolução maturativa e equilibrada dos aspectos fisiológico, emocional, intelectual e social.

Consideramos um indivíduo realmente alfabetizado não apenas quando mecanicamente decodificar sons e letras ou seja, quando puder transpor os sons para as letras (ao escrever) e das letras para os sons (ao ler), mas de forma efetiva, ou seja quando tiver automatizado o processo, sem precisar recorrer a todo instante aos passos necessários a esta atividade; e sobretudo quando puder utilizar-se desta habilidade para obter outros conhecimentos; para assimilar e montar esquemas internos que o permitam transformar os elementos brutos da realidade e que possa operacionalizar o processo contínuo de sua própria alfabetização (já que ela não é um fim em si mesma), e da aprendizagem enquanto um todo. Ajuriaguerra aponta que enquanto este processo permanece no limiar do voluntário, seu desenvolvimento é irregular e forçado; quando se automatiza, a leitura e a escrita se tornam fáceis, livres e muito rápidas.

A aquisição deste processo todavia, depende da oralidade, da aprendizagem da fala, que na criança parece evoluir a partir da compreensão da linguagem ( linguagem interna) para a efetiva expressão da mesma (fala). Chomski coloca que não basta: “Penso, logo existo”, mas “Falo, logo penso, logo existo!”.

Para desenvolver os estágios superiores da linguagem: a compreensão da palavra impressa (a leitura) e a expressão da palavra impressa (a escrita), a criança precisa (além de ter sedimentado de forma harmoniosa as etapas da oralidade), ser capaz de articular todos os sons da língua, o que normalmente se determina aos seis anos (observadas as diferenças maturacionais de cada indivíduo). Requer ainda a ampliação e domínio do universo vocabular. Outra etapa necessária que precisa ser vencida é a capacitação para analisar as palavras em seus segmentos subsilábicos, isto é analisar os sons, que as compõem. Esta possibilidade é a chamada consciência linguística ou fonológica. Sabemos que até os seis anos, observando sempre as características individuais, a criança só consegue segmentar palavras em sílabas, a partir desta idade passa a poder segmentá-las nas unidades mínimas: as vogais e consoantes.; quando essa habilidade ocorrer podemos afirmar que a criança passa a ter uma consciência metalingüística da mesma, a consciência fonológica, que a permite analisá-la mais eficientemente.

Ainda analisando sob o viés do indivíduo, temos como outro aspecto importante para garantir este processo, que a criança tenha um nível suficiente de habilidades específicas como: o desenvolvimento da Motricidade Geral, da Integração Sensório-motora (esquema corporal, lateralidade, sentido de direção, conceito de direita e esquerda, ritmo, orientação espaço-temporal), das Habilidades Perceptivo-motoras (visão, audição, memória,...). Estas capacidades precisam ser estimuladas, já que contribuem para a viabilização do processo da leitura e escrita, ou impõem-se como impedimento para a aquisição do mesmo.

O atraso específico na leitura pode ser de natureza de déficit cognitivo, especificamente na esfera da capacidade verbal. A. F. Jorm, em “Psicologia das Dificuldades em Leitura e Ortografia”, postula que um componente particular parece estar associado com dificuldades de leitura, é a capacidade de lidar com informações fonológicas na memória.

Outro aspecto que merece ser analisado refere-se à compreensão do texto. Sabe-se que há uma estreita relação entre a capacidade da leitura mecânica e a possibilidade de compreensão, assim sendo a criança que apresenta pouca eficiência na leitura, conseqüentemente apresentará dificuldades severas na compreensão do que lê. Por outro lado há indivíduos que mesmo não apresentando deficiência na identificação das palavras, ou seja, mesmo podendo traduzir literalmente as idéias propostas no texto, manifestam dificuldades para compreendê-lo, para estabelecer uma análise inferencial e crítica. São os leitores com déficits específicos de compreensão, encontrados não somente no Ensino Fundamental e Médio, mas também e principalmente nos cursos Universitários e em adultos já formados.

Sobre os aspectos mais relativos à escrita, temos que, assim como na aquisição da fala a linguagem receptiva antecede a expressiva, no sistema visual a leitura antecede a escrita. Desta feita, a maior parte dos distúrbios da expressão da palavra impressa, a escrita, são decorrentes da ineficiência da leitura, todavia há indivíduos que mesmo sendo bons leitores apresentam distúrbios na expressão escrita. Devemos estabelecer as diferentes situações-problemas que podem ocorrer na escrita, o primeiro grupo seria composto pelas crianças e jovens, que apresentam deficiências na discriminação e associação fonema/grafema, ou seja, aqueles que não sistematizaram efetivamente o processo da escrita mecânica, como seria esperado pela sua faixa etária e acadêmica, tendo tido escolaridade favorecedora e recursos cognitivos adequados. Esse grupo apresentará deficiências na aquisição da linguagem escrita, decorrendo em falhas ortográficas como trocas por confusões visuais e/ou auditivas, omissões e acréscimos (de letras ou sílabas), poderá ainda apresentar fragmentações e junções de palavras.

O segundo grupo caracterizaria os jovens que dominam o código do grafar, todavia apresentam dificuldades para compor um texto, para expressarem-se no papel. São aqueles que não conseguem transmitir para a escrita sua ideação ou seus conhecimentos adquiridos através de suas vivências e interações no meio. São indivíduos que na oralidade denotam e expressam criatividade, expressam ainda um mundo imaginário explorado e desenvolvido, assim como manifestam domínio do conteúdo informativo e conseguem estabelecer correlações adequadamente, todavia expressam total incapacidade para lidar com as estruturas necessárias para escrever.

Essas dificuldades não sendo trabalhadas, acarretarão vivências frustrantes e limitadoras no processo geral evolutivo da aprendizagem, isto é, a criança ou o jovem que não encontram suporte e continência para sua notação gráfica deficiente, desestimulam-se frente aos fracassos que vivenciam, levando-os ao desinteresse, à impotência na forma de expressarem-se e comunicarem-se por escrito. Eles fatalmente passam a escrever cada vez menos, limitando seu imaginário e potencialidade criativas, temendo as punições que sofrerão frente aos seus erros ortográficos.

Outro fator que causa fracasso neste processo seriam as crianças portadoras da Dislexia Evolutiva, que significa, segundo Galaburda e Aboitz, uma condição clínica, caracterizada pela dificuldade na aprendizagem da leitura e escrita nos indivíduos de inteligência e estado psiquiátrico normais, que têm tido boas oportunidades de educação e oportunidades sócio-culturais adequadas., havendo correlação neurológica subjacente e que manisfestam muitos dos sintomas e das deficiências aqui descritos.

Em relação às demais atividades psíquicas envolvidas diretamente com este processo, temos por exemplo, a forma como a criança organiza seu pensamento, as suas características de personalidade, o como ela investe afetivamente no meio e, principalmente qual a função que a linguagem representa enquanto veio de comunicação.

A psicanálise através de Freud, coloca o quanto os aspectos inconscientes influenciam a aprendizagem e o quanto nossa harmonia psíquica capacita ou prejudica esta atividade. Se a nossa psique é o veio através do qual se dá nossa relação com o mundo, e, se é através dela que tomamos contato com o meio e o introjetamos, estando este aparelho como o chama Bion, em confusão ou conflitado em termos emocionais, terá alterada e prejudicada esta interiorização. Se uma criança, por exemplo, não teve em princípio um bom vínculo com a mãe, ou sua substituta, poderá desenvolver relações desfavoráveis em seu processo geral de aprendizagem e especificamente com a aquisição da linguagem oral, da leitura e escrita, podendo ser esta a sua forma de expressão de sintomas reativos manifestos. A linguagem, neste caso, poderá estar cumprindo uma função de alerta de que a comunicação, entre ela (a criança) e o mundo, está prejudicada.

Entendemos que além das possibilidades lingüísticas, perceptivas, motoras e cognitivas, além dos métodos, dos recursos didáticos, aprender implica em um sujeito que busca a aquisição do conhecimento, e significa sempre uma experiência emocional. Assim sendo, um indivíduo que não tenha motivação , não se estimulará para a aquisição de habilidades tão complexas que exigirão, capacidade para frustração adequada, possibilidade para seguir os padrões fixos e sistemáticos que o processo da leitura e escrita requer.

Dos aspectos relativos à dinâmica do meio, podemos apontar a falta de escolarização ou à privação cultural adequadas do meio, à própria marginalização do sujeito com dificuldades pelo ensino comum, sofrendo este a pecha de incompetente e desajustado, desfocando a responsabilidade da “Instituição- escola” para o indivíduo, a superlotação das salas de aula, que impedem a individuação dos alunos. Outros fatores relativos ao meio interferem na qualidade da aquisição da leitura e escrita, tais como a inadequação de métodos específicos às particularidades dos educandos, a escolha da metodologia baseada nas diferentes necessidades e dificuldades que os indivíduos apresentam, a aplicação de currículos sem fundamentação teórica, não sendo respeitados os reais níveis etários e possibilidades instrumentais dos alunos, o que acarreta em exigências aquém ou além da competência dos alunos. A pouca ou ineficiente estimulação dos professores, ou mesmo as relações educador/educando estabelecidas de forma conflitada, a inabilidade dos educadores para observar e detectar as reais deficiências manifestadas pelos seus alunos, o que impede a possibilidade de diagnóstico e tratamentos precoces e preventivos.

Em relação à família observam-se as altas ou baixas expectativas que são projetadas nos filhos, muitas vezes por desconhecimento da capacidade dos mesmos, ou ainda por projeções baseadas inconscientemente em suas próprias experiências escolares, causando-lhes vivências impotentes e baixa estima, quando não conseguem corresponder. É bastante comum referências de pais sobre similaridades de história de fracassos na leitura e escrita, suas e de seus filhos, estabelecendo desta forma uma identificação de modelos atávicos.

Finalizando, podemos concluir a relevância primordial de se ter o conhecimento do sujeito em seu processo evolutivo de aprendizagem, e sobretudo focar a atenção em sua unidade, observando os aspectos individuais (sejam eles cognitivos ou afetivo-emocionais), os familiares e os da comunidade como um todo, já que esse todo compõe o universo de cada um. Importante ainda ressaltar que educadores por vezes, iniciam precocemente o processo de aquisição da leitura e escrita, sem dar a devida estimulação às habilidades, o que acarretará em prejuízo à aquisição. Além disso, se estas habilidades cognitivas apresentam-se deficitárias, o estarão, antes mesmo da criança iniciar o processo de alfabetização, assim sendo, uma avaliação precoce possibilitará o diagnóstico e o tratamento e desta forma teremos uma alternativa de prevenção para evitar futuros transtornos acumulativos que decorrerão dessas deficiências já constatadas. A observação e o encaminhamento da criança pelo educador atento, favorece ainda o planejamento de métodos adequados e específicos para a aquisição da leitura e escrita das crianças com suas características próprias, além de possibilitar indicações de escolas que possam ser continentes a essas crianças e orientação familiar.

A importância do professor na percepção das dificuldades escolares

Nos últimos anos, muito têm acontecido na educação do Brasil.Surgiram programas para erradicação da alfabetização, partindo de ONGs e governos. Foram construídos centros de apoio à atividades extras escolares, que atendem em período integral, mas, ainda falta algo de concreto e que comece por um processo de mudança, já que se verificarmos dados, temos entre analfabetos funcionais (que escrevem seus nomes, lêem frases, mas geralmente não conseguem interpretá-las ou redigir um texto) e analfabetos, 75% da população Brasileira. Lamentável! Pode-se atribuir esse número à exclusão educacional por falta de escolas, ou escolas super lotadas e em péssimas condições, professores mal formados e, conseqüentemente, despreparados para atuarem. Porém, há uma questão pouco comentada no Brasil, até por que a educação não é o assunto de principal interesse a ser debatido entre nossos governantes e meios de comunicação, os distúrbios de aprendizagem, dentre eles, a dislexia, uma disfunção neurológica que atinge de 10 a 15% da população mundial.

Os objetivos, conteúdos, metodologias, organização, funcionamento e avaliação adotados pelas escolas nada têm a ver com os disléxicos. Eles têm como principais dificuldades em sala de aula a linguagem e a escrita, a ortografia, a lentidão na aprendizagem da leitura, a disgrafia (letra feia); em decorar seqüências, como meses do ano, alfabeto e tabuada; troca de letras na escrita e ainda desatenção e dispersão, geralmente não conseguindo copiar trechos de livros e textos de lousas. Estas pessoas não aprendem da maneira convencional acarretando no abandono do ensino formal, pelos fracassos na vida escolar, que culminam em complicações psicológicas.

Portanto, os professores e educadores em geral precisam estar sensíveis às demandas sociais, culturais e econômicas, que circundam seus alunos e, principalmente, as comportamentais. Por essa rotina contemporânea, totalmente sem ter horários definidos, mergulhados em compromissos e obrigações, geralmente os professores ficam mais tempo com os alunos do que os próprios pais, ou seja, eles terão a incumbência de estar atento às dificuldades e anseios apresentados por estas crianças. Porém, não é o que acontece na maioria dos casos.

Membros da Associação Brasileira de Dislexia -ABD vêm desenvolvendo um trabalho que visa justamente ir de encontro a essa mudança, com leis e diretrizes governamentais, que amplie o amparo aos portadores de distúrbios de aprendizagem e dislexia, muitos destes, hoje desamparados, taxados de maneira errônea pelo pouco conhecimento de professores e educadores, que por falta de investimentos na área, nada podem fazer senão apenas seguir o modelo de ensino vigente da educação brasileira.

Para mais informações:

Associação Brasileira de Dislexia – ABD.

Marcio Zonta – Assessoria de Imprensa
www.dislexia.org.br / comunica@dislexia.org.br

11- 3258-7568 / 11- 3237-0809

2005-06-30 - Pedagogia da Hiperatividade e distúrbio de atenção

Os dados percentuais de crianças e adolescentes que apresentam hiperatividade e distúrbios de atenção no Brasil ainda são muito vagos. No entanto acredita-se que, pelo menos 7% dos alunos em idade escolar apresentam sintomas que, associados, moldam o quadro desse transtorno.
Aqueles alunos que os professores classificam como “pestinhas” são os mais propensos a desenvolver o distúrbio que é caracterizado por:

• Dificuldades em manter a atenção,
• Dificuldades em seguir ordens,
• Dificuldades para ficar quieto, sentado e trabalhar de forma independente na sala de aula;(entre outros sintomas)

O comportamento inadequado por esses alunos frequentemente interrompe a concentração de seus colegas e geralmente resulta em relações pobres com os demais alunos. Adicionalmente, esses problemas geralmente são acompanhados por outros associados (por exemplo, baixa auto-estima, depressão ) que pode afetar significativamente a performance desses estudantes.
Para lidar com esses alunos de forma eficiente e contribuir com a melhoria da sua condição, levantamos alguma dicas básicas que podem ser usadas em sala de aula:

• Olhe sempre nos olhos;
• Usar recursos e formas de apresentação não habituais - crianças com distúrbio de atenção adoram novidades;
• A memória é um grave problema para eles - Ensine mnemônicos, quadrinhas, dicas, rimas;
• Divida as grandes tarefas em tarefas menores - Isso possibilita 'a criança a vislumbrar que a tarefa PODE ser terminada;
• Elogiar o aluno com constância - NÃO APENAS QUANDO ELE TERMINA A TAREFA, mas DURANTE o transcorrer da mesma, INCENTIVANDO o seu término;
• Utilizar metodologia preferencialmente visual, uma vez que os alunos com esse distúrbio aprendem melhor dessa maneira.

Se algum de seus alunos apresentar sintomas, você pode se informar melhor no site www.tdah.org.br.

Alguns sinais que permitem diagnosticar os distúrbios de aprendizagem:

DISLEXIA: SINTOMAS E SINAIS

Na Primeira Infância:

1 - atraso no desenvolvimento motor desde a fase do engatinhar, sentar e andar;
2 - atraso ou deficiência na aquisição da fala, desde o balbucio á pronúncia de palavras;
3 - parece difícil para essa criança entender o que está ouvindo;
4 - distúrbios do sono;
5 - enurese noturna;
6 - suscetibilidade à alergias e à infecções;
7 - tendência à hiper ou a hipo-atividade motora;
8 - chora muito e parece inquieta ou agitada com muita freqüência;
9 - dificuldades para aprender a andar de triciclo;
10 - dificuldades de adaptação nos primeiros anos escolares.

Observação:

Pesquisas científicas neurobiológicas recentes concluiram que o sintoma mais conclusivo acerca do risco de dislexia em uma criança, pequena ou mais velha, é o atraso na aquisição da fala e sua deficiente percepção fonética. Quando este sintoma está associado a outros casos familiares de dificuldades de aprendizado - dislexia é, comprovadamente, genética, afirmam especialistas que essa criança pode vir a ser avaliada já a partir de cinco anos e meio, idade ideal para o início de um programa remediativo, que pode trazer as respostas mais favoráveis para superar ou minimizar essa dificuldade.

A dificuldade de discriminação fonológica leva a criança a pronunciar as palavras de maneira errada. Essa falta de consciência fonética, decorrente da percepção imprecisa dos sons básicos que compõem as palavras, acontece, já, a partir do som da letra e da sílaba. Essas crianças podem expressar um alto nível de inteligência, "entendendo tudo o que ouvem", como costumam observar suas mães, porque têm uma excelente memória auditiva. Portanto, sua dificuldade fonológica não se refere à identificação do significado de discriminação sonora da palavra inteira, mas da percepção das partes sonoras diferenciais de que a palavra é composta. Esta a razão porque o disléxico apresenta dificuldades significativas em leitura, que leva a tornar-se, até, extremamente difícil sua soletração de sílabas e palavras. Por isto, sua tendência é ler a palavra inteira, encontrando dificuldades de soletração sempre que se defronta com uma palavra nova.

Porque, freqüentemente, essas crianças apresentam mais dificuldades na conquista de
domínio do equilíbrio de seu corpo com relação à gravidade, é comum que pais possam submete-las a exercícios nos chamados "andadores" ou "voadores". Prática que, advertem os especialistas, além de trazer graves riscos de acidentes, é absolutamente inadequada para a aquisição de equilíbrio e desenvolvimento de sua capacidade de andar, como interfere, negativamente, na cooperação harmônica entre áreas motoras dos hemisférios esquerdo-direito do cérebro. Por isto, crianças que exercitam a marcha em "andador", só adquirem o domínio de andar sozinhas, sem apoio, mais tardiamente do que as outras crianças.
Além disso, o uso do andador como exercício para conquista da marcha ou visando uma maior desenvoltura no andar dessa criança, também contribui, de maneira comprovadamente negativa, em seu desenvolvimento psicomotor potencial-global, em seu processo natural e harmônico de maturação e colaboração de lateralidade hemisférica-cerebral.

A Partir dos Sete Anos de Idade:

1 - pode ser extremamente lento ao fazer seus deveres:
2 - ao contrário, seus deveres podem ser feitos rapidamente e com muitos erros;
3 - copia com letra bonita, mas tem pobre compreensão do texto ou não lê o que escreve;
4 - a fluência em leitura é inadequada para a idade;
5 - inventa, acrescenta ou omite palavras ao ler e ao escrever;
6 - só faz leitura silenciosa;
7 - ao contrário, só entende o que lê, quando lê em voz alta para poder ouvir o som da palavra;
8 - sua letra pode ser mal grafada e, até, ininteligível; pode borrar ou ligar as palavras entre si;
9 - pode omitir, acrescentar, trocar ou inverter a ordem e direção de letras e sílabas;
10 - esquece aquilo que aprendera muito bem, em poucas horas, dias ou semanas;
11 - é mais fácil, ou só é capaz de bem transmitir o que sabe através de exames orais;
12 - ao contrário, pode ser mais fácil escrever o que sabe do que falar aquilo que sabe;
13 - tem grande imaginação e criatividade;
14 - desliga-se facilmente, entrando "no mundo da lua";
15 - tem dor de barriga na hora de ir para a escola e pode ter febre alta em dias de prova;
16 - porque se liga em tudo, não consegue concentrar a atenção em um só estímulo;
17 - baixa auto-imagem e auto-estima; não gosta de ir para a escola;
18 - esquiva-se de ler, especialmente em voz alta;
19 - perde-se facilmente no espaço e no tempo; sempre perde e esquece seus pertences;
20 - tem mudanças bruscas de humor;
21 - é impulsivo e interrompe os demais para falar;
22 - não consegue falar se outra pessoa estiver falando ao mesmo tempo em que ele fala;
23 - é muito tímido e desligado; sob pressão, pode falar o oposto do que desejaria;
24 - tem dificuldades visuais, embora um exame não revele problemas com seus olhos;
25 - embora alguns sejam atletas, outros mal conseguem chutar, jogar ou apanhar uma bola;
26 - confunde direita-esquerda, em cima-em baixo; na frente-atrás;
27 - é comum apresentar lateralidade cruzada; muitos são canhestros e outros ambidestros;
28 - dificuldade para ler as horas, para seqüências como dia, mês e estação do ano;
29 - dificuldade em aritmética básica e/ou em matemática mais avançada;
30 - depende do uso dos dedos para contar, de truques e objetos para calcular;
31 - sabe contar, mas tem dificuldades em contar objetos e lidar com dinheiro;
32 - é capaz de cálculos aritméticos, mas não resolve problemas matemáticos ou algébricos;
33 - embora resolva cálculo algébrico mentalmente, não elabora cálculo aritmético;
34 - tem excelente memória de longo prazo, lembrando experiências, filmes, lugares e faces;
35 - boa memória longa, mas pobre memória imediata, curta e de médio prazo;
36 - pode ter pobre memória visual, mas excelente memória e acuidade auditivas;
37 - pensa através de imagem e sentimento, não com o som de palavras;
38 - é extremamente desordenado, seus cadernos e livros são borrados e amassados;
39 - não tem atraso e dificuldades suficientes para que seja percebido e ajudado na escola;
40 - pode estar sempre brincando, tentando ser aceito nem que seja como "palhaço" ;
41 - frustra-se facilmente com a escola, com a leitura, com a matemática, com a escrita;
42 - tem pré-disposição à alergias e à doenças infecciosas;
43 - tolerância muito alta ou muito baixa à dor;
44 - forte senso de justiça;
45 - muito sensível e emocional, busca sempre a perfeição que lhe é difícil atingir;
46 - dificuldades para andar de bicicleta, para abotoar, para amarrar o cordão dos sapatos;
47 - manter o equilíbrio e exercícios físicos são extremamente difíceis para muitos disléxicos;
48 - com muito barulho, o disléxico se sente confuso, desliga e age como se estivesse distraído;
49 - sua escrita pode ser extremamente lenta, laboriosa, ilegível, sem domínio do espaço na página;
50 - cerca de 80% dos disléxicos têm dificuldades em soletração e em leitura.

Crianças disléxicas apresentam combinações de sintomas, em intensidade de níveis que variam entre o sutil ao severo, de modo absolutamente pessoal. Em algumas delas há um número maior de sintomas e sinais; em outras, são observadas somente algumas características. Quando sinais só aparecem enquanto a criança é pequena, ou se alguns desses sintomas somente se mostram algumas vezes, isto não significa que possam estar associados à Dislexia. Inclusive, há crianças que só conquistam uma maturação neurológica mais lentamente e que, por isto, somente têm um quadro mais satisfatório de evolução, também em seu processo pessoal de aprendizado, mais tardiamente do que a média de crianças de sua idade.

Pesquisadores têm enfatizado que a dificuldade de soletração tem-se evidenciado como um sintoma muito forte da Dislexia. Há o resultado de um trabalho recente, publicado no jornal Biological Psychiatry e referido no The Associated Press em 15/7/02, onde foram estudadas as dificuldades de disléxicos em idade entre 7 e 18 anos, que reafirma uma outra conclusão de pesquisa realizada com disléxicos adultos em 1998, constando do seguinte:
que quanto melhor uma criança seja capaz de ler, melhor ativação ela mostra em uma específica área cerebral, quando envolvida em exercício de soletração de palavras. Esses pesquisadores usaram a técnica de Imagem Funcional de Ressonância Magnética, que revela como diferentes áreas cerebrais são estimuladas durante atividades específicas. Esta descoberta enfatiza que essa região cerebral é a chave para a habilidade de leitura, conforme sugerem esses estudos.

Essa área, atrás do ouvido esquerdo, é chamada região ocipto-temporal esquerda. Cientistas que, agora, estão tentando definir que circuitos estão envolvidos e o que ocorre de errado em Dislexia, advertem que essa tecnologia não pode ser usada para diagnosticar Dislexia.

Esses pesquisadores ainda esclarecem que crianças disléxicas mais velhas mostram mais atividade em uma diferente região cerebral do que os disléxicos mais novos. O que sugere que essa outra área assumiu esse comando cerebral de modo compensatório, possibilitando que essas crianças conseguiam ler, porém somente com o exercício de um grande esforço.

segunda-feira, maio 07, 2007

TIO JIMBO CHEGA EM JUNHO


Comentário Moisés: Novo livro do mestre Nei Lopes, ainda não li, mas recomendo e de olhos fechados aos amigos e leitores desse blog. Assim que sobrar uns trocados compro mais essa pérola. Axé!




Fonte: www.neilopes.blogger.com.br/ acessado em 07/05/2007.


Esse coroa esperto aí da ilustração é o Tio Jimbo.

"Foi ele que fundou, há muitos anos, a Unidos da Harmonia, nossa escola de
samba. Mas hoje gosta mesmo é de ver o carnaval depois. No aparelho de DVD
do seu home theater.

"Ele é o tata, o babalorixá, o chefe do Ilê Caboclos de Aruanda, nossa
comunidade religiosa. Mas sabe direitinho o que é hiperinflação, aquecimento
global, ecossistema, aids, narcotráfico...

"Também, pudera! Tio Jimbo gosta muito de ler. E tem livro que não acaba
mais".

O livro com as histórias que ele conta, e que vão da Antiguidade aos dias
atuais, será lançado dia 22 de junho, na Feira do Livro de Belo Horizonte,
no stand da Mazza Edições. E as primorosas ilustrações são do desenhista
Maurício Veneza.

Show de bola, Tio Jimbo!

NA SÉ, O CHEIRO ERA DE PÓLVORA. MAS EU PREFIRO AS ROSAS



Comentário Moisés: Sou daqueles que viram nascer o movimento Hip-hop nas ruas de São Paulo. Ainda como office-boy, lá pelos idos dos anos 70, parava para assistir os primeiros passos da dança - o break - um dos 5 elementos do movimento. Nos anos 80/90 vi o movimento crescer na periferia de São Paulo, junto aos jovens, e articular os seus 5 elementos gradualmente: a Dança-Break (B. Boy), a Poesia-Rap (M.C.), a Música (D.J.), o Grafite e o Conhecimento. Na virada cultural da cidade de São Paulo, nesse último fim de semana, Hip-hop estava na praça da Sé, centro da metrópoles. O confronto aconteceu mais uma vez. Cidade cindida, até quando? O artigo da jornalista Flavia Guerra é poético ao descrever fato.

Fonte: www.estadao.com.br/ultimas/cidades/noticias/2007/mai/06/112.htm - 06 de maio de 2007 - 17:48

Show do Racionais acaba em tiros. Em vez da festa, choque toma conta da praça

Flávia Guerra

SÃO PAULO - É com os olhos rasos d’água, e de gás lacrimogêneo, que escrevo este lamento. 6h02 da manhã. São Paulo amanhece após mais uma Virada Cultural. No marco zero da maior metrópole do País, a vigília inspirada nas Noites Brancas européias, virou noite turva. “06 de maio de 2007. Madrugada de sábado para domingo. Outono no Brasil. Esta data vai ficar marcada”, profetizou o tão aguardado Mano Brown ao pisar o palco da Praça da Sé, que já havia recebido Alceu Valença e Nação Zumbi.

Os mano bem que tentaram. Guerreiro de fé nunca gela, não agrada o injusto e não amarela. Mas na madrugada, gelou. Injusta noite adentro. E o peso do maracatu atômico do Nação deu lugar ao clima pesado que tomava conta da multidão que se espremia na praça para ver os manos racionais. Mas a noite era de irracionalidade. 1.000 Trutas. 1.000 Tretas. Depois de amargar uma espera de mais de uma hora e meia para ver o Racionais, a multidão já estava amargurada. O caldo foi engrossando. O circo estava armado quando, finalmente, às 4h45, a nação periferia pôde ver um Brown sóbrio, de negro da cabeça aos pés. Elegante em sua incessante luta pela periferia paulistana, o rapper naquela noite perdeu a batalha para as balas, o gás e a tropa de choque.

A treta começou muito antes, do lado esquerdo do palco. 4h15 da matina. Sob as torres da igreja, os manos de São Matheus se estranharam com os Manos de Pirituba. Briga, tumulto, choro. Josafá colou na grade às oito da noite. As costelas dele também. 15 anos, mirrado, olhos vivos, costelas moídas na multidão. Josafá veio sozinho de Perus. Tomou dois ônibus. Gastou uma hora para ver o Racionais. “Vim foi sozinho. Mas vale a pena. Nunca vi os caras ao vivo”, dizia um entediado garoto, que não entendia muito o coco dub afrociberdélico dos manos da Nação Zumbi.

Eles misturam com maracatu. “É bom sim. Mas maracatu? Sei que é isso não. Alfaia?” Alfaia, o tambor de maracatu que a Nação sabe tão bem casar com o peso do rock. A mãe nordestina de Josafá deve saber o que é. Josafá, minutos mais tarde se safaria da maior muvuca provavelmente já presenciada pela tão vivida Sé. “Posso pular aí no cercadinho, moça repórter? O aperto aqui tá pegando.” E o bicho pegou mesmo. Os bicho-soltos de Pirituba barbarizaram. "Chama a polícia!" "Polícia só piora nestas horas. A gente mesmo apazigua", disse a voz da experiência de um segurança do evento. De fato. Paz refeita. Alguns estilhaços.

De Júlio Silva, só restou a camiseta. A calça e a cueca viraram boi de piranha na multidão. Olhos inchados, vergões nas costas. “Eu não tenho nada a ver com a treta dos cara, mano. Como é que eu vou voltar pra casa?” “Apazigua e curte. Tu pensa depois”, aconselhava Wilter Paulo, da Bela Vista. “Também me deixaram pelado, mina. No bate-cabeça, nego veio bater a bombeta em mim. Eu fui reclamar, levei.”

Quem levou mesmo foi a galera do chiqueirinho vip. As cadeiras brancas caprichosamente colocadas à frente do palco para playboy e mano chegado verem o show viraram arma na mão dos revoltados. A galera invadiu geral a área vip. A segurança contratada, sem ajuda da polícia, apaziguou. Pouco depois, o show começou. A paciência venceu. O desodorante também. UH! É Racionais! 4h35. O show começa. “Hoje sou ladrão. Artigo 57. As cachorras me amam, os playboy se derretem.”

Brown cantava o Negro Drama da falta de acesso no Brasil. “Fernando de Noronha para a periferia. Por que só playboy que pode? No Brasil tem muita natureza”, pregava o messiânico Brown. Na periferia paulistana é que não mora o bucolismo. O sorriso não é fácil de brotar na cara dos manos. “Show do Racionais é sempre assim. Sempre tem alguma coisa. Mas sempre acaba tudo bem”, apostava uma fã esperançosa do Aricanduva.

Ledo engano. Naquela noite a treta era das grandes. “Que fita é essa, mano?” Era o certo pelo certo, como dez e dez é vinte. Era certa a treta. A multidão engrossou. O caldo entornou. “Por que eu só falo mal de polícia. Até ladrão me pergunta isso, mano. Por que será? Eu só falo as histórias. A opinião do povo conta muito na letra”, profetizou o rapper. Minutos depois a polícia mostrou a que veio. O lado esquerdo apaziguou. O direito entornou. Vandalismo e briga.

De quem é a culpa? De todos. Brown dizia “Imagina só o Brasil sendo melhor.” Pense! E na multidão, pense no caos. O show parou. “Ei, mano, vamo pará com a treta, meu. Fica na humildade e vamo pensar na vida do irmão. Fé em Deus que ele é justo.” A palavra de ordem desordenou. Uh! Irracionais. “Gambé filha da p...” era o grito de guerra da galera. No marco zero da cidade, todas as regiões se encontram. Todas as periferias se identificam. Todos os manos (sejam eles da quebrada ou não) desembestam. As minas desesperam. Gás, lágrimas. Bombas de efeito moral. Tiros reais. Desmoralizante.

Brown é brasileiro e não desiste nunca. O show continua. As bombas também. “Eu vou falar o que eu tô vendo. Tô vendo uns mano batendo cabeça e todo mundo em volta. Revolta tem hora. Policiais, abaixem as armas. Só tem família aqui hoje. Tem criança. Tem mulher.” Tinha de tudo. Faltou a fé. “Tá suave. Vamos continuar a festa.” A muvuca não suavizou. Nem a polícia. Os estampidos apavoraram. “Rebeldia desnecessária, mano. Vamos apaziguar. Abaixa a arma, polícia.” A multidão invade o palco. Brown é guerreiro de fé. Não amarela. Continua professando sua fé ao lado dos fãs.

“Parabéns, vocês conseguiram. Acabou. Vão para suas casas. Vão com Deus.” 5h06. Brown desistiu. A festa acaba. O gás toma conta da praça. A massa se espalha pelas vielas. Vidros quebrados, grades envergadas, garrafas estilhaçadas. Na Quintino Bocaiúva com a Regente Feijó, carros destruídos. Os mano e as mina fugiam do choque. Esgueiravam-se ora ensandecidos, ora cabisbaixos. Parecia cocaína. Mas era só tristeza.

Na (pá) Virada Cultural da Sé, quem tocou foi o terror. 6h05. Estampidos ainda eram ouvidos na ladeira. Vida loka. Cabulosa. O cheiro era de pólvora. Mas eu prefiro as rosas. E os milhões de fãs também.

OBS.: Mais imagem www.estadao.com.br/ext/especial/extraonline/galerias/cidades/2007/05/06/08133000/

domingo, maio 06, 2007

DECRETOS CONTRA AS UNIVERSIDADE PÚBLICAS PAULISTAS

Comentário Moisés: As Universidades Públicas passam por um momento delicado. Todos concordam que são necessárias mudanças, mas quais? Os decretos do governo Serra, em seu primeiro dia de governo, trouxeram mais fogo para os debates, ações e reações. Além das comunidades das Universidades é preciso levar esse debate para toda sociedade.

1. Filme feito pelo pessoal de franca - unesp para a construção da greve pela autonomia universitaria e a derrubada dos decretos do governador jose serra decreto usp unicamp pinotti fatec cruesp
http://video.google.com/videoplay?docid=2766804175625447712

2. Resumo dos decretos do governador paulista.



























3. Blog da ocupação - Relata a ação dos alunos da USP
http://ocupacaousp.blog.terra.com.br

quinta-feira, abril 26, 2007

No Ideb, 'pior' cidade raspa nota zero; maioria tira menos de 5

Comentário Moisés: São dados importantes para quem está pensando a Educação no Brasil.

Da redação - Em São Paulo
Fonte: UOL Educação - 25/4/07 - http://noticias.uol.com.br/educacao/ultnot/ult105u5241.jhtm

O governo federal divulga nesta quinta (26) os dados e metas do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), indicador criado para orientar o direcionamento de verbas da educação. Para todos os níveis de administração (municipais, estaduais e as próprias escolas), o cumprimento das metas do Ideb implicará o recebimento de mais dinheiro.

  • O Ideb atual e as metas até 2021 (em .xls)
  • Tabela com dados completos da educação no país (em .xls)

    A situação atual do ensino é dramática. Apenas uma minoria de cidades conseguiu obter, nas duas etapas do ensino fundamental proporcionado pelas redes municipais, um Ideb igual ou superior a 5 (a escala vai de zero a dez). Ou seja, praticamente todas -- mesmo capitais ricas como São Paulo, Florianópolis e Porto Alegre -- estariam reprovadas numa hipotética prova de final de ano.

    O pior Ideb municipal encontrado foi de 0,3 e o melhor, de 6,8. O mecanismo do Ideb faz parte do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, na terça (24).

    O IDEB NACIONAL
    Nível do ensinoÍndice atualMeta
    de 2021
    1ª a 4ª séries3,86,0
    5ª a 8ª séries3,55,5
    Ensino
    médio
    3,45,2

    O Ideb atual dos municípios, Estados e do Brasil em geral foi calculado com base em dados de 2005 da Prova Brasil e do Saeb, avaliações conduzidas pelo MEC a cada dois anos. Há metas de Ideb para serem atingidas nas avaliações deste ano, na de 2009, 2011 e assim por diante, até a meta "final", em 2021. Numa escala de zero a dez, o Brasil tem hoje um Ideb médio de 3,8 na primeira fase do ensino fundamental (1ª a 4ª séries), de 3,5 na segunda (5ª a 8ª séries) e 3,4 no ensino médio (antigo colegial).

    As metas para 2021 são de chegar a 6 na 1ª fase do fundamental, 5,5 na 2ª e 5,2 no ensino médio.

    Estados
    As metas do Ideb para os Estados variam de acordo com o patamar em que se encontravam em 2005. O indicador avalia o desempenho das redes estaduais de ensino.

    Por exemplo, da 1ª à 4ª série, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia têm o Ideb mais baixo em 2005: os três partem de 2,6 e devem chegar a 4,8 (RN e PI) e 4,9 (BA) daqui 15 anos.

    Já o Paraná parte de um Ideb de 5, o maior na 1ª fase do fundamental, e deve chegar a 6,9 em 2021.

    Da 5ª à 8ª série, o Estado com o pior Ideb atual é Pernambuco, que atinge 2,4. Em 2021, deve chegar a 4,9. Já São Paulo tem o Ideb mais alto, de 3,6, e em 2021 deverá chegar a 5,8.

    No ensino médio, Piauí e Amazonas partem do índice mais baixo, de 2,3, e precisam atingir um Ideb de 4,1 e 4, respectivamente, daqui a 14 anos.

    O melhor Ideb inicial é o de Santa Catarina, com 3,5. Sua meta é chegar a 5,3 em 2021.

    Municípios
    Os números do Ideb no nível das cidades avaliam as redes municipais, e por isso não há dados para o ensino médio, que é exclusividade dos governos estaduais.

    A cidade com pior Ideb da 1ª à 4ª série é Ramilândia, no Paraná. Ela parte de apenas 0,3 e precisa chegar a 5,4 em 2021. Barra do Chapéu, em São Paulo, tem o melhor Ideb inicial, de 6,8, e deve chegar a 8,1 em 2021.

    Da 5ª à 8ª série, o pior Ideb é de Maiquinique, na Bahia, também de 0,3. Sua meta para 2021 é 4,4. O melhor Ideb é o do município paulista de Porto Ferreira, de 5,9, com meta de 7,4.

    Ou seja: as localidades com pior nível de ensino atual terão de dar um salto de qualidade muito amplo (por exemplo, 5,1 pontos no caso de Ramilândia), enquanto as com Ideb inicial mais alto precisam crescer menos (1,3 ponto no caso de Barra do Chapéu).
  • domingo, abril 15, 2007

    Inventário da existência feminina

    Comentário Moisés: Vale comprar e ler.













    Fonte: O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 8/4/2007
    Intelectual francesa tenta organizar o pensamento da mulher nos diversos períodos da sociedade
    Rosane Pavam especial para o Estado
    Um intelectual se destaca pela originalidade de seu pensamento. A francesa Michelle Perrot tornou-se original ao declarar que a mulher tem uma história.
    Pode parecer pouco,
    parcial ou odiosamente feminista dizer apenas isto, que há um conjunto de fatos na linha do tempo ligado à condição do sexo. Michelle está certa? No livro Minha História das Mulheres, ela nos faz crer que sim.
    Para a intelectual francesa, compor uma história dessa natureza no Ocidente equivale a organizar o pensamento feminino nos diversos períodos. As idas e vindas da evolução da mulher se deram à sombra dos homens: enquanto eles realizavam feitos, ela refletia sobre sua adesão a eles. A mulher usou o exercício da conversa e da escrita para se posicionar no mundo, já que a linguagem constituiu seu domínio secreto. Contudo, raramente expôs o que sabia e isto se mostrou prejudicial a sua condição.
    A mulher francesa, inglesa ou americana de Michelle Perrot viveu paralelamente, existiu apesar das circunstâncias; para examiná-la, fez-se necessária então uma nova historiografia, que admitisse como fontes documentos normalmente dispersos por suas autoras, como cartas, diários, listas de organização cotidiana, agendas de bebês.
    Em 1991, Michelle organizou, na companhia do historiador francês Georges Duby, o livro História das Mulheres no Ocidente. O sucesso da iniciativa deu então origem a este pequeno texto de sua autoria, Minha História das Mulheres, nascido, por sua vez, de uma tentativa de popularização do tema em programas da Rádio France Culture, há dois anos. Na França (e talvez só ali) as transmissões radiofônicas conduzidas por Michelle ganharam tanta audiência que a levaram ao livro sistematizador, editado naquele país no ano passado.
    Não se trata, contudo, de um
    tomo de difícil digestão, carregado em datas e argüições. Michelle vai escrevendo até desordenamente, solta, pelo prazer da delicada denúncia dessa quase nãoexistência feminina. Quando lemos em seu texto as coisas que Emile Zola ou S.A. Kierkegaard proferiram com sinceridade para colocar as mulheres em seu pequeno - contraditoriamente importante - lugar, coramos por eles e por muitos outros pensadores de igual desenvoltura. 'A mãe deveria ser nossa religião', afirmou Zola, ocupado em ligar o grande papel feminino à maternidade. 'A mulher inspira o homem enquanto ele não a possui', disse Kierkegaard, sobre o poço sem fundo sexual em que um homem se esgota. Como estas, algumas assombrosas afirmações recolhidas no livro nos fazem meditar sobre o tempo presente, sobre os escritórios, redações ou universidades por onde tais idéias ainda se renovam em piadas ou ditos populares, para a concordância de homens e mulheres.
    As diferenças de Michelle Perrot com o etnólogo estruturalista Claude Lévi-Strauss oferecem um pote de delicioso antagonismo no decorrer do livro.
    Foi Lévi-Strauss quem afirmou em
    Tristes Trópicos, lembra Michelle, sobre a partida dos caçadores de uma aldeia: 'Não havia mais ninguém ali, exceto as mulheres e as crianças.' A afirmação nos remete à célebre crônica de Rubem Braga na qual um padeiro, ao tocar a campainha, já anunciava à dona da casa não ser ninguém.
    Michelle Perrot é diferente do padeiro de Braga, já que deseja destruir essa invisibilidade, contrariando os estruturalistas. Ela nos faz um inventário das moças, por meio de suas imagens artísticas, fabricadas por homens; investiga seu corpo, ousadamente seus cabelos, signos de sua abundante e indócil natureza primitiva; demonstra como os véus, que também foram ocidentais, equivaleramse a hímens; realça o poder das feiticeiras, 'obstáculos à racio
    nalidade triunfante', sendo a razão um privilégio masculino.
    O interessante é observar,
    aqui, uma conclusão incomum baseada nestes estudos. A rainha do lar se tornou visível quando reivindicou o pão que alimentaria os filhos. Então, no decorrer da história, 'a mãe protegeu a mulher'. Contudo, nos períodos em que a estabilidade econômica foi mantida, as senhoras sem posses invariavelmente voltaram a estrangular os patos do jantar.
    Um exemplo está na Revolução Francesa. A mulher pobre foi aplaudida quando pediu brioches. Mas o que fizeram os jacobinos depois de extraída a cabeça de Antonieta e repartido o pão? Negaram às mulheres direitos políticos. Alguém que leia isto se pergunta que espécie de revolução aconteceu por lá, baseada em tal mentalidade excludente. Os avanços femininos não foram lineares, antes caminharam em ondas, como a dos recentes e ruidosos anos 20, logo suplantadas pelo nazismo, que imporia a idéia de uma nova-velha senhora dedicada ao silêncio.
    Mulheres como pêndulos: foi o socialista Jules Lebreton quem, decidido a amenizar a condição de criadas das senhoras, inventou a primeira feira de utilidades domésticas, nos anos 50 franceses. Mas coube ao teórico Karl Marx apontar a preocupação dos operários diante do surgimento das trabalhadoras, que produziriam um perigoso 'exército de reserva' na indústria incipiente. 'Operária, palavra ímpia', decretou o historiador Jules Michelet.
    Escreve como um homem, combate como um soldado. Assim muitos entenderam que deveriam destacar figuras femininas relevantes à história, como Joana d´Arc ou a criadora literária George Sand. Mas mesmo Sand, dona de um pseudônimo masculino, um dia perguntou-se, à moda do jogador de futebol Pelé (para quem o brasileiro não sabia votar), se o voto feminino deveria ser obrigatório, já que a história negara às mulheres preparação e saber...
    O pilar dos integralismos, diz-nos Michelle Perrot, é a dependência feminina. Isto se comprova nos lugares onde os fascistas de algum modo prosperaram. Não se nas
    ce uma mulher, torna-se uma, aquiesceu Simone de Beauvoir, para quem 'o feminismo nunca foi um movimento autônomo', já que sempre esteve submetido às realizações masculinas.
    Mas a doutora Michelle Perrot, professora emérita da Universidade Paris 7, hábil em renovar as paixões do leitor pelos estudos de sociedades, quer mudar este quadro. Uma história feminina
    composta apenas por homens é uma história de homens, como a dos troianos, uma versão grega para os acontecimentos de Tróia.
    Por isso, essa intelectual advoga para a mulher uma escrita própria, mesmo quando feita com os filhos no colo e os cabelos bem cuidados.

    quinta-feira, abril 05, 2007

    ENTREVISTA DA MINISTRA MATILDE RIBEIRO

    Comentário Moisés Basílio: A entrevista da ministra Matilde para a BBC Brasil gerou grande repercussão na grande mídia. A cerne da polêmica foi a resposta que a ministra deu à pergunta da entrevistadora sobre a existência de racismo do negro em relação ao branco no Brasil. No mérito concordo com a ministra, pois no plano histórico todo afrodescendente tem um pé atrás em relação aos eurodescendentes pelos motivos que todos sabemos e que ainda não foram superados pela sociedade brasileira. Mas esse pé atrás é muito mais um postura de defesa e resistência do que uma atitude ou prática racista. Vamos ao debate!


    Fonte:
    http://www.bbcbrasil.com
    27 de março, 2007 - 10h59 GMT (07h59 Brasília)

    Denize Bacoccina - De Brasília

    Não é racismo se insurgir contra branco, diz ministra

    A ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), diz que considera natural a discriminação dos negros contra os brancos.

    Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pelo Império Britânico, tido como o ponto de partida para o fim da escravidão em todo o mundo, ela disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco".

    "A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”, afirmou.

    Ribeiro disse que ainda vai demorar até que as políticas públicas implantadas nos últimos anos comecem a dar resultados concretos e diminuam a diferença econômica e social entre as populações branca e negra do país.

    “Ainda temos muito o que fazer”, afirma, enumerando ações que já começaram, como na área de educação e saúde.

    Ela diz que, embora a abolição da escravatura tenha chegado atrasada ao Brasil, hoje o país tem uma das legislações mais avançadas do mundo em relação a direitos iguais, mas ainda falta uma mudança de postura da sociedade.

    BBC Brasil - De acordo com as estatísticas, a proporção de negros abaixo da linha da pobreza na população brasileira é de 50%, enquanto entre os brancos é de 25%. Quando isso vai começar a mudar?

    Matilde Ribeiro - As ações neste momento ainda são na ordem da estruturação das políticas. Por exemplo, no Ministério da Saúde estamos incluindo o quesito cor nos formulários. Precisamos ter referência do que adoece e morre a população brasileira, para poder ter programas específicos.

    BBC Brasil - A secretaria já tem quatro anos, o que se pode perceber de resultado prático neste período?

    Matilde Ribeiro - Na educação, uma lei de 2003 obriga o ensino da história e cultura afro-brasileiras para as crianças, desde o início. O processo de implementação está em curso. É muito difícil ter números, resultados concretos. Mas já tem alguns resultados. Por exemplo, o (programa) Prouni, de bolsas de estudos para alunos carentes de escolas, já concedeu em menos de três anos mais de 200 mil bolsas no Brasil, dos quais 63 mil negros e 3 mil indígenas.

    BBC Brasil - E em quanto tempo a senhora acha que poderemos ter uma situação de igualdade, onde as pessoas sejam julgadas pelo mérito, independentemente da raça?

    No Brasil, o racismo não se dá por lei, como foi na África do Sul. Isso nos levou a uma mistura. Aparentemente todos podem usufruir de tudo, mas na prática há lugares onde os negros não vão. Há um debate se aqui a questão é racial ou social. Eu diria que é as duas coisas.
    Matilde Ribeiro

    Matilde Ribeiro - O Brasil tem 507 anos. Há quase 120 anos, em 1888, foi assinado um decreto como este que o presidente assinou dizendo que não havia mais escravidão no Brasil. Só que não houve uma seqüência. Hoje, o fato de os negros e os indígenas serem os mais pobres entre os pobres é resultado de um descaso histórico. Então fica muito difícil hoje afirmar quanto tempo.

    BBC Brasil - Como o Brasil se coloca no contexto internacional? O Brasil gosta de pensar que não tem discriminação e gosta de se citar como exemplo de integração. É assim que a senhora vê a situação?

    Matilde Ribeiro - É o seguinte: chegaram os europeus numa terra de índios, aí chegaram os africanos que não escolheram estar aqui, foram capturados e chegaram aqui como coisa. Os indígenas e os negros não eram os donos das armas, não eram os donos das leis, não eram os donos dos bens de consumo. A forma que eles encontraram para sobreviver não foi pelo conflito explícito. No Brasil, o racismo não se dá por lei, como foi na África do Sul. Isso nos levou a uma mistura. Aparentemente todos podem usufruir de tudo, mas na prática há lugares onde os negros não vão. Há um debate se aqui a questão é racial ou social. Eu diria que é as duas coisas.

    BBC Brasil - E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?

    Matilde Ribeiro - Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

    BBC Brasil - Neste mês, a Grã-Bretanha comemora os 200 anos da proibição do comércio de escravos, coisa que no Brasil só aconteceu muito tempo depois. O Brasil ainda continua atrasado nesta área?

    Matilde Ribeiro - Não, nós temos acompanhado os fóruns internacionais. O Brasil é um dos países mais progressistas neste aspecto de legislação e de ação efetiva. A legislação no Brasil é extremamente avançada. Não é pela via legal que o racismo acontece. O que falta é mudança de postura das pessoas. Não adianta só o governo fazer. Muito já foi feito, mas como você disse no início: alterou os índices? Ainda não, portanto temos muito a fazer.

    Confira abaixo a íntegra da nota divulgada pela Seppir:

    "Nota de Esclarecimento

    Em relação à entrevista da ministra Matilde Ribeiro, divulgada pela BBC Brasil nesta terça-feira (27/3), esta Secretaria esclarece que a frase 'não é racismo quando um negro se insurge contra um branco' aparece no título de maneira descontextualizada, induzindo o leitor ao equívoco.

    A ministra deixa claro, no decorrer da conversa, que 'não está incitando' esse tipo de comportamento e afirma: 'Não acho que seja uma coisa boa'.

    A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável.

    Esclarecemos, ainda, que a missão da Seppir é justamente tomar iniciativas contra as desigualdades raciais no país e formular políticas públicas de igualdade racial, de forma conjugada com os demais ministérios e em diálogo com diversos setores da sociedade civil.

    A Secretaria também atua no sentido da valorização e do respeito às diversidades, em um trabalho integrado com negros, indígenas, ciganos, judeus e palestinos em espaços como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a intenção de garantir a essas comunidades acesso a bens e serviços públicos, qualidade de vida e oportunidades iguais.

    Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial"





    O RACISMO NA BOCA DE MATILDE


    "A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso" - disse a ministra Matilde Ribeiro, da SEPPIR, conforme estampado em O Globo de hoje, 28.03.07.

    E daí? Um branco não querer conviver com um negro de quem ele não goste é antinatural? Um negro não querer conversa com um branco que lhe "enche o saco" é alguma coisa demais?

    Mas o caso é que o racismo anda solto por aí. E "baixaram o açoite" na ministra, que vem fazendo um bom trabalho em sua espinhosa área. Então, aproveitamos este espaço para botar as coisas nos seus devidos lugares.

    Vamos a um exemplo: o leitor acha que todo indivíduo maduro que se sente atraído por uma adolescente insinuante como as de hoje é um pedófilo? Não! "Pedofilia é a perversão sexual que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças" (cf. Houaiss). Da mesma forma, o conceito de "racismo" anda sendo mal usado, em nome de outros interesses, como é o caso da ministra.

    O Racismo, com "R" grande, é aquele comportamento através do qual um indivíduo manifesta, em relação a outrem de origem étnica diferente da sua, um sentimento baseado em um julgamento antecipado, em um preconceito, nascido em geral de um estereótipo, de um "carimbo", do tipo "todo negro é feio e sujo", "todo judeu é avarento", "todo português é burro", "todo sulafricano branco é racista" etc. E tem também o estereótipo positivo, o "carimbo" simpático, do tipo "todo alemão é inteligente", "todo japonês é trabalhador", "todo crioulo é bom de bola e de ritmo", "a mulata é a tal" etc.

    Um negro não gostar de um branco é natural, sim: é da natureza, é humano. O que não é muito natural é um negro não gostar de branco nenhum, só porque um dia um branco o maltratou. Mas, convenhamos, um negro que - tendo ou não dado motivo - nunca recebeu amizade ou um simples gesto de carinho de branco nenhum, como é que o leitor acha que vai se sentir em relação a todos os brancos, hein? Se gostar, é masoquista!

    -0-0-0-0-

    Veja como o "Estadão" repercutiu a entrevista no dia seguinte:

    Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - Quarta-feira, 28 março de 2007
    'Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco', diz ministra

    Declaração da titular da Secretaria da Igualdade Racial provoca polêmica no governo e nos
    meios acadêmicos

    Vannildo Mendes e Roldão Arruda - COLABORARAM FABIANA CIMIERI e FELIPE WERNECK

    Causou desconforto no governo uma declaração da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial, para quem é natural a discriminação de negros contra brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pela Inglaterra, ela afirmou que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. E explicou: “Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.”

    Houve reações dentro e fora do governo. “Como negro, não alcanço o sentido de tão estranha declaração”, criticou Percílio de Sousa Lima Neto, vice-presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça. Ele disse que condena qualquer tipo de preconceito, seja de negros ou brancos, mas avaliou que precisaria conhecer o contexto da entrevista “para emitir melhor juízo”.

    O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, afirmou que há uma boa distância entre entender os processos que levam à discriminação e aceitar o preconceito. “Compreender o sistema perverso da escravidão e do preconceito decorrente dela é importante, para que o Brasil tenha de fato uma democracia racial”, avaliou. “Mas aceitar qualquer tipo de preconceito não pode ser medida eficaz no que se refere à democracia racial.”

    Manolo Florentino, estudioso do tema na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lamentou a declaração. “O mínimo que se pode exigir de um ministro dessa pasta é que saiba que raça não existe”, afirmou. “A luta de negros contra brancos é um conflito social, não passa pela cor da pele.” Para ele, a ministra enxerga “um País bicolor”, o que nega toda a história de miscigenação brasileira.

    A rigor, a declaração de Matilde Ribeiro contraria o Estatuto da Igualdade Racial, aprovado no Senado em junho do ano passado e hoje em discussão na Câmara, com apoio da secretaria. É verdade que o texto estabelece cotas raciais nas universidades e prevê o acesso de minorias étnicas à Justiça. Mas o estatuto define como discriminação racial “toda distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor descendência ou origem nacional ou étnica”. Portanto, não importa se o autor é branco, negro ou de outra raça ou cor da pele para ser enquadrado como racista, ficando sujeito a processo criminal.

    Integrantes do governo envolvidos no combate ao preconceito ficaram constrangidos. O secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, evitou comentar o assunto. Representante da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no conselho do Ministério da Justiça, Marcelo Tognozzi disse ter ficado perplexo: “Acirrar conflitos nunca é bom. Todos nós, não-racistas, não podemos concordar com tal afirmação.”

    A ministra também recebeu manifestações de apoio. Na coordenação do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP), Zélia Dias de Andrade afirmou que a ministra apenas se referiu à realidade do País. “Não é que sejamos racistas”, disse. “Mas a partir do momento em que os brancos cortam nossas oportunidades é natural que surjam reações contrárias.” Para Zélia, o racismo do negro contra o branco é sutil, assim como o inverso. “Os dois lados sabem disso, os dois lados disfarçam com uma camada de cordialidade.”

    Frei David, franciscano que coordena o movimento Educafro, também defendeu a ministra. Observou que existem várias formas de racismo - entre elas a de negros contra brancos. Isso não quer dizer, no entanto, que o preconceito esteja aumentando ou em vias de aumentar. “Existe maturidade cada vez maior, entre negros e brancos, para analisar esta questão”, disse.

    Diante da reação negativa, Matilde divulgou uma nota, por meio da secretaria, alegando que trechos da entrevista foram tirados de contexto, “induzindo o leitor a equívoco” (leia a nota ao lado).

    A PERGUNTA

    E no Brasil tem racismo também de negro contra branco, como nos Estados Unidos?


    Eu acho natural que tenha. Mas não é na mesma dimensão que nos Estados Unidos. Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.

    A NOTA DA SECRETARIA

    “Em relação à entrevista da ministra Matilde Ribeiro, divulgada pela BBC Brasil nesta terça-feira (27/3), esta Secretaria esclarece que a frase ‘não é racismo quando um negro se insurge contra um branco’ aparece no título de maneira descontextualizada, induzindo o leitor ao equívoco. A ministra deixa claro, no decorrer da conversa, que ‘não está incitando’ esse tipo de comportamento e afirma: ‘Não acho que seja uma coisa boa’. A afirmação apenas reconhece a histórica situação de exclusão social de determinados grupos étnicos no Brasil, prevalente após 120 anos da abolição, que pode, por vezes, provocar esse tipo de atitude - também condenável.

    Esclarecemos, ainda, que a missão da Seppir é justamente tomar iniciativas contra as desigualdades raciais no país e formular políticas públicas de igualdade racial, de forma conjugada com os demais ministérios e em diálogo com diversos setores da sociedade civil. A Secretaria também atua no sentido da valorização e do respeito às diversidades, em um trabalho integrado com negros, indígenas, ciganos, judeus e palestinos em espaços como o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, com a intenção de garantir a essas comunidades acesso a bens e serviços públicos, qualidade de vida e oportunidades iguais.”
    Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial

    'É uma incitação ao ódio racial'

    Demétrio Magnolli, sociólogo da USP

    Entrevista

    Para o sociólogo Demétrio Magnolli, da USP, a declaração da ministra Matilde Ribeiro foi uma clara incitação ao racismo. Na opinião dele, ela deveria ser destituída do cargo.

    Como o senhor viu a declaração da ministra sobre racismo de negros contra brancos?

    Em primeiro lugar pensei que vivemos uma época sombria. Afinal, o que pensar quando uma pessoa dá uma declaração dessa no cargo de ministra e continua ministra? Acho impressionante que ela ainda continue no cargo.

    E quanto à declaração de que o racismo se justifica em função do que os negros sofreram no passado?

    É uma declaração essencialmente racista. Uma incitação ao ódio racial. Atribui aos brancos, como raça, os açoites que os negros, como raça, sofreram no passado. Interpreta a história como um conflito de raças. E é nesse sentido mais profundo, de visão do mundo e da história, que a declaração dela é racista. Não se trata de uma visão circunstancial, ou conjuntural.

    Mas ela disse que não apóia.

    Apesar da saudação à bandeira, dizendo que não incita, ela está criando uma pretensa racionalidade política para uma expressão de racismo. Eu acho que isso é coerente com o conjunto da política que ela conduz - que é a política de dividir os brasileiros segundo a cor da pele, com a finalidade de fabricar a raça como conceito de identidade oficial no Brasil.

    E a questão da exclusão social dos negros, detectada em diferentes pesquisas realizadas no País?

    Está errado. O que existe é uma exclusão social e econômica dos pobres - entre os quais os de pele escura e também os de pele clara. É falso definir como problema racial o que é na verdade um problema social e econômico. Trata-se de um expediente esperto de um governo que não quer enfrentar o problema verdadeiro, das extremas desigualdades sociais e econômicas.

    O senhor acha que a conscientização dos negros sobre a exclusão pode elevar o grau de racismo?

    Isso também é falso. Aplicada de maneira geral, a idéia de que as pessoas se tornam mais racistas à medida que sua consciência aumenta, é uma justificativa para a existência da Klu Klux Kan. Na realidade ocorre o contrário: à medida que a consciência aumenta, as pessoas percebem que os mecanismos de desigualdade não são mecanismos raciais, mas sociais. A questão da raça pode aparecer como cobertura, justificativa, fantasia.


    'Negro brasileiro se sente oprimido'

    Carlos Santana (PT-RJ), deputado federal

    Entrevista

    O deputado federal Carlos Santana (PT-RJ), da Frente Parlamentar da Igualdade e Promoção Racial, considera que a ministra se referiu, sem hipocrisia, a um problema que existe. Na opinião dele, o racismo de negros contra brancos é bastante forte no Brasil.


    O senhor acha que existe racismo de negros contra brancos entre os brasileiros?

    Sim. Ele existe e não é pouco. E a origem dele é a opressão. Nunca nos deram os mesmos direitos, como demonstram pesquisas feitas pelos brancos sobre oportunidades sociais, escolaridade. O negro brasileiro se sente oprimido.

    O senhor acha que há uma tendência para a exacerbação deste racismo?

    Não. O esforço este governo está fazendo com políticas, cotas, leis para a comunidade afrodescendente é uma forma de resgatar o que se perdeu lá atrás. Temos que continuar nesse caminho, procurando a igualdade racial.

    Não acha que a conscientização dos negros sobre a exclusão social poderia agravar os pontos de conflito?

    Quanto mais consciente, mais o negro percebe o quanto é marginalizado pelo branco - que representa a classe social dominante. Mas essa não é uma luta que se define pelo pigmento da pele. Temos pessoas com pele branca que assumem nossa luta. E também temos pessoas de pele negra que não assumem sequer que são negros. É o caso do Pelé, que nunca se manifestou a respeito de políticas afirmativas, de cotas para os negros nas universidades. Outras personalidades, como cantores, artistas, já se manifestaram, mas o nosso representante máximo nunca fez qualquer pronunciamento.

    O senhor acha que estão ocorrendo avanços com a atual política do governo?

    Houve avanços, mas ainda estamos muito atrasados. Houve um genocídio em nosso país e os passos para superar isso são muito lentos. No mundo inteiro existem políticas de cotas. No Brasil, quando se discute o assunto parece que estamos falando em matar alguém.

    Como senhor viu a declaração da ministra?

    Ela deve ser vista dentro de um contexto geral, da história do Brasil, que foi sempre contada sob o ponto de vista dos brancos. Segundo essa história, nós somos descendentes de escravos - e não de povos africanos, com sua cultura, suas tradições. A ministra vai contra a idéia que as classes dominantes tentam impor de que não temos um problema racial, mas social.

    _____________________ / _______________________

    Acesse, também, a crônica do Luís Fernando Veríssimo - Racismos - no Blog do Noblat - publicada em 1/4/2007 http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=53070

    segunda-feira, abril 02, 2007

    INFORME DO FÓRUM DE EDUCAÇÃO DA ZONA LESTE

    Comentário Moisés Basílio: Este é um informe resumido do primeiro debate organizado pelo Fórum de Educação da Zona Leste em 2007. O próximo debate será no dia 14 de abril, das 14:30 às 17 horas, na USP Leste e o tema a ser discutido é sobre o sentido do Ensino Médio: O grande número de estudantes que abandonam a escola na Zona Leste.

    Informe sobre debate de 10/3/7, 14h30-17h, USP Leste

    Tema Qualidade da educação para todas e todos: plano de educação para o município de São Paulo

    Convidados para exposição inicial: Alexandre Alves Schneider, Secretário Municipal de Educação de São Paulo (15 min) e João Kleber de Santana Souza, diretor, Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. José Pedro Leite Cordeiro (15 min).

    O Secretário Municipal de Educação, sr. Alexandre Schneider, impossibilitado de comparecer por estar em tratamento de saúde, nomeou o prof. Isaías Pereira de Souza, coordenador da Coordenadoria de Educação de São Miguel, para representá-lo. O prof. Isaías Souza fez sua exposição inicial apresentando as providências que a prefeitura vem implementando nos estabelecimentos escolares municipais, entre as quais mencionou aquelas destinadas à redução de turnos diários (a maioria das escolas de ensino fundamental funciona em quatro turnos), à retirada de escolas e salas “de latinha” (containers), ao aumento de horas diárias para turnos escolares, à máxima redução de licenças de curta duração para docentes (o controle de faltas por meio de descontos salariais), ao aumento da GDE (Gratificação por Desempenho no Ensino), ao investimento na formação prioritariamente de docentes de português no ciclo 2, aos CMCT-Centros Municipais de Capacitação e Treinamento (profissionalizantes orientados e certificados pelo Senai). O prof. Isaías Souza enfatizou também a importância dos programas São Paulo é uma Escola e Ler e Escrever (centrado em ações no 1º ano do ensino fundamental e em repetentes do 4º ano).

    A exposição inicial do prof. João Kleber de Santana Souza recuperou o papel desempenhado por grupos de reivindicação pelo direito à educação da Zona Leste visando à ampliação da oferta de serviços educacionais, inclusive educação superior, para a qual também o Fórum de Educação da Zona Leste atuou, seja na criação do Centro Tecnológico da Zona Leste (Fatec) seja na instalação da própria USP Leste. O prof. João Kleber Souza destacou também o processo de elaboração participativa de um Plano Local de Desenvolvimento Educativo da Zona Leste, no qual o Fórum de Educação da Zona Leste envolveu dezenas de pessoas em seminários realizados entre 2001 e 2002. Essa experiência foi apresentada como contribuição às autoridades públicas e comunidades de outras áreas do município quando o Fórum de Educação da Zona Leste propôs à Secretaria Municipal de Educação que fizesse uma ampla convocação para elaborar-se democraticamente um plano de educação para o município, seguindo determinação da Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001, que aprovou o Plano Nacional de Educação. A proposta foi feita à Secretaria tanto quando Marta Suplicy esteve à frente da prefeitura quanto durante o mandato do prefeito José Serra, sem, contudo, ter encontrado um acolhimento favorável.

    O prof. João Kleber Souza chamou a atenção para as metas do Plano Nacional de Educação que não vieram sendo cumpridas, entre as quais algumas de grande importância para modificar a qualidade da educação, tais como a definição de padrões de infra-estrutura para estabelecimentos educacionais e a redução do número de turnos diários. O expositor se posicionou também pela redução do tamanho das escolas, assim como do número de estudantes por docente (menos turmas e menos estudantes em cada uma). Salientou a importância do diálogo entre profissionais de escolas básicas e docentes e estudantes da universidade para a mudança da qualidade das escolas, bem como a necessidade de distribuição equilibrada de recursos financeiros entre os entes federados para sustentar as mudanças requeridas. O prof. João Kleber Souza destacou finalmente um aspecto político da elaboração de planos de educação, determinante da qualidade que possa resultar de tais planos: o debate sobre educação entre todos os atores nela envolvidos.

    Após a apresentação dos expositores iniciais, a palavra esteve aberta às demais pessoas. A profa. Danizi Morais reiterou a importância dos grupos de reivindicação pelo direito à educação na Zona Leste, marcadamente a partir dos anos 1980, ressaltando o acompanhamento que tais grupos também faziam dos aspectos de qualidade e o fato de o poder público estar sempre longe de cumprir suas responsabilidades quanto à participação da população. Relacionou o fato com características adversas de áreas desfavorecidas da Zona Leste, inclusive os números elevados de homicídios nos grupos jovens, de casos de gravidez na adolescência e de mortalidade materna e infantil.

    O prof. Ulisses Araújo (coordenador do Nasce-Núcleo de Apoio Social, Cultural e Educacional da USP Leste, ver www.each.usp.br/nasce) destacou as dificuldades que a USP Leste tem encontrado na comunicação com as comunidades locais, evidenciada na ausência de docentes e estudantes de escolas básicas na exposição organizada pelo curso de Licenciatura em Ciências da Natureza, na baixa participação no curso de extensão oferecido a docentes daquelas escolas e no curso sobre educação comunitária (ver www.educacaocomunitaria.org.br).

    O prof. Isaías Souza afirmou não ter sido procurado pela universidade e ter sentido falta disso. Indicou a importância especial dos diretores dos estabelecimentos de educação básica para conseguir o envolvimento dos corpos docentes e se ofereceu como mediador para esse contato, considerando menos efetivo o relacionamento direto da universidade com o magistério. Na condição de responsável pela Coordenadoria de Educação de São Miguel, ele lida com 115 estabelecimentos, abrangendo cerca de 105 mil estudantes. Além disso, mora na Zona Leste há 34 anos, conhece a luta pela universidade e ainda não viu integração com esta, embora tenham sido iniciadas conversas com a profa. Sônia Castellar (coordenadora anterior do Nasce da USP Leste), que não tiveram continuidade.

    A profa. Mariley Oliveira (Escola Estadual Deputado Silva Prado) afirmou também que faltam canais de comunicação com a USP Leste e que há disposição de aproximação com a universidade, demonstrada pelas visitas de estudantes de que sua escola organizou à USP (Cidade Universitária) e à Unicamp.

    O prof. Elie Ghanem apontou a exigência legal de que o poder público divulgasse o Plano Nacional de Educação e colaborasse para a realização de suas metas, ao passo que o próprio poder público não cumpre leis. Afirmou que boa parte dos casos de desrespeito a direitos humanos no Brasil se deve à omissão do Estado no cumprimento de suas obrigações legais e em zelar para que as leis sejam aplicadas.

    O prof. João Kleber Souza disse ser preciso que as autoridades municipais, além de convidar, busquem a participação de profissionais das escolas no debate educacional utilizando também outros procedimentos regulamentados oficialmente, como a solicitação de presença e a convocação. O prof. João Kleber Souza afirmou que o magistério das escolas básicas quer o diálogo com docentes da universidade, bem como entre os diferentes setores de políticas governamentais. Mas que, quanto à universidade, há o receio do magistério em ser tomado apenas como objeto de pesquisa. Acrescentou que o debate não pode ocorrer adequadamente pela imprensa, já que esta não aborda a educação de modo apropriado.

    O prof. Isaías Souza declarou haver a destinação de 8,5 mil a 11 mil reais periodicamente a cada escola (um CEI-Centro de Educação Infantil pode contar com 2,5 mil reais bimestrais), sendo que tais recursos podem ser usados na contratação de serviços de transporte para fazer visitas, inclusive à universidade. Além disso, os conselhos de escolas podem deliberar sobre projetos e há na Coordenadoria de Educação de São Miguel um diretor de projetos especiais, que são divulgados no site da Coordenadoria (http://educacao.prefeitura.sp.gov.br/Site/Coordenadoria/indexSiteCoordenadoriaAction.do?service=SiteUnidadeFuncionalSiteCoordenadoriaDelegate&actionType=detalhar&idUnidadeFuncionalSiteCoordenadoria=106300).

    Silvio de Almeida Silva, conselheiro tutelar em São Mateus, questionou a ampliação da oferta de educação infantil por meio de centros conveniados. Lembrou também da lei municipal (Lei n. 14.127, de 5 de janeiro de 2006, ver http://www.leismunicipais.com.br/) para identificação da demanda escolar, pela qual a prefeitura está obrigada a fazer o registro dessa demanda e publicar os dados trimestralmente. Ressaltou a conveniência de o Fórum de Educação da Zona Leste articular-se com o legislativo municipal para levar ao cumprimento da lei. Sugeriu ainda que se retomasse a idéia de atividades do Fórum em diferentes áreas da Zona Leste.

    O prof. Isaías Souza apontou a dificuldade de se encontrar terrenos para construir escolas porque há muitos lugares não legalmente regularizados, anunciou a inauguração de mais um CEU-Centro Educacional Unificado na área denominada Pantanal e informou que, em dois anos, quase triplicou o número de crianças em CEI (de cerca de 1,7 mil para 5 mil). Quanto aos programas adotados pela Secretaria Municipal de Educação, destacou que, como coordenador, nunca obrigou escolas sem condições a aderir aos programas São Paulo é uma Escola e Pós-escola.

    O prof. Ulisses Araújo sublinhou que a solução para a qualidade da educação escolar depende da qualidade da educação infantil e do investimento na ampliação de sua oferta.

    O prof. João Kleber Souza apresentou dados oficiais que indicam o baixo investimento em educação infantil. Observou também que a Coordenadoria de Educação pode promover iniciativas locais de processos participativos em torno da elaboração do plano de educação para o município.

    Ramon Zago Oliveira (estudante da USP Leste) considerou pertinente o uso do conceito de capital social e que as escolas são importante local de mobilização desse capital, articulando diversos setores de políticas, entendendo que a educação não se realiza unicamente na escola.

    A prof. Valéria Cazetta (USP Leste) declarou que pretende levar as preocupações expressadas no debate à coordenação do curso de Licenciatura em Ciências da Natureza e que sua atuação como docente será atravessada pelo conhecimento que produzirá sobre a realidade da Zona Leste. Para ela, não é possível pensar na USP Leste sem o diálogo com as comunidades locais.

    O prof. Isaías Souza entende que toda lei existe para ser cumprida, discutida e, se for contra os interesses da sociedade, modificada. Constata, porém, que há leis que não são cumpridas, a exemplo daquelas que proíbem fumar em certos lugares. Além disso, dispõe-se a dialogar em diferentes fóruns e acredita que estes precisam ter representatividade e presença numerosa.

    O prof. Elie Ghanem reconheceu a condição ambígua em que o coordenador se encontrava, tendo sido indicado para falar pela Secretaria Municipal de Educação no debate, mas, sem poder assumir compromissos que corresponderiam à amplitude do poder do Secretário Municipal. Ressalvou, porém, que o coordenador da Coordenadoria de Educação de São Miguel, embora responda por uma jurisdição determinada, pode atuar no cumprimento da lei do Plano Nacional de Educação, por exemplo, divulgando no site da Coordenadoria e mobilizando profissionais, estudantes e familiares dos 115 estabelecimentos sob sua coordenação. O prof. Isaías Souza declarou que vai comunicar por relatório o sr. Secretário quanto ao debate e quanto ao pleito da construção do Plano Participativo de Educação da Cidade.

    O prof. João Kleber Souza assinalou que a participação demonstrou que altera políticas, tendo isso ocorrido, por exemplo, na orientação seguida pelo programa São Paulo é uma Escola, na manutenção do cargo de Poie (Professor Orientador de Informática Educacional) e de OSL (Orientador de Sala de Leitura), que teriam sido extintos pela prefeitura não fossem os 14 dias de greve do magistério em 2006.

    Redigido pelo prof. Elie Ghanem

    domingo, abril 01, 2007

    Mulheres da saúde

    Comentário Moisés Basílio: Há uma história da cidade de São Paulo que fica oculta da dita opinião pública. É a história feita pelo povo da periferia. Poucos são os movimentos sociais que conseguem colocar em cena suas lutas. Iniciativas como estas são importantes para democratizarmos a história dessa cidade.

    O Movimento de Saúde da Zona Leste e o Centro de Direitos Humanos de Sapopemba Pablo Gonzáles Olalla se unem em torno de um projeto que visa repensar e reavivar o próprio movimento, historicamente o mais importante movimento social da cidade de São Paulo.

    por Marcelo Hailer - Fonte: Site Caros Amigos - acesso em 01/04/2007, no link - só no site- reportagem - http://carosamigos.terra.com.br/

    O Centro de Direitos Humanos de Sapopemba – Pablo Gonzáles Olalla e o Movimento de Saúde da Zona leste se uniram em torno de um projeto, viabilizado com o apoio da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), que visa resgatar e repensar este que é o movimento social mais importante da cidade de São Paulo. Graças a este movimento é que hoje todos os bairros da cidade são obrigados por lei a ter conselhos populares e gestores de saúde, num canal direto entre povo e executivo. Porém, segundo Maria Trindade, militante desde 1981, os movimentos se encontram enfraquecido na cidade inteira: “a partir das conquistas dos postos, dos conselhos, o movimento enfraqueceu”. Ou seja, como muitos integrantes dos movimentos sociais foram nomeados para cargos públicos, os movimentos em si perderam quadros atuantes e ficaram mais fracos.

    Ainda segundo Maria Trindade, com a conquista de cargos públicos, os antigos militantes se dividiram em grupos políticos adversários entre si. Ela acha que agora a situação vai mudar: “esse novo projeto tem uma importância muito grande, porque está conseguindo unir as pessoas que fundaram o movimento nas décadas de 70 e 80, está conseguindo retomar a história, e isso não é pouca coisa, é um patrimônio”.

    O Movimento de Saúde para a Zona Leste viveu o seu ápice de reconhecimento e luta no governo municipal de Luiza Erundina, de 89 a 92. Foi nesse período que lideranças do Movimento assumiram cargos executivos, como é o caso de Carlos Neder, que foi assessor de gabinete da prefeita Erundina e posteriormente secretário de saúde. Carlos Neder, Eduardo Jorge e Roberto Gouveia faziam parte de um grupo de médicos sanitaristas que desde a década de 70 vinha colaborando com o Movimento. Ao longo do processo de crescimento do Movimento, estes médicos assumiram cargos legislativos e se tornaram deputados pelo Partido dos Trabalhadores.

    O Movimento se iniciou lá nos confins da zona leste, em Itaquera (Jardim Nordeste), Artur Alvim, São Mateus, enfim, regiões que, se ainda hoje são muito carentes, imagine-se no fim da década de 70. Eram ruas de terra, saneamento básico inexistente, sem telefones públicos, denotando uma ausência do Estado por completo. É nesse contexto que mulheres donas de casa, a maioria vinda do norte e nordeste do Brasil, se uniram para dar início a um movimento que nem elas imaginavam aonde iria chegar.

    A realidade vivida por estas mulheres era arrasadora. Vivam na periferia da cidade de São Paulo, sofriam com a falta de posto de saúde, de escolas, de linhas de ônibus, de vacinas, etc. Tal situação gerava uma altíssima taxa de mortalidade infantil, devido a doenças como diarréia, sarampo e outras. Isso por volta de 1976. Então começou a primeira luta delas, que era pela conquista das vacinas e posteriormente de um posto de saúde na região de São Mateus. Na época, o governador de São Paulo era Paulo Maluf e o secretário de saúde Adib Jatene. Oito mulheres da liderança fizeram seis viagens até a Secretaria da Saúde, a fim de conversar com o secretário.

    Na última viagem, depois de maus-tratos por parte da Policia Militar, foram finalmente recebidas. Em conversa com o secretário souberam que o governador tinha fechado os ambulatórios populares, onde se produziam as tais vacinas, porém, Adib Jatene prometeu falar com o governador e as mandou voltarem após quinze dias. Passado o tempo combinado, estas mulheres obtêrm a primeira vitória do movimento. O governador iria mandar as vacinas e reativar os ambulatórios populares.

    Daí pra frente as conquistas continuaram, e uma que orgulha as militantes do movimento de saúde é a conquista do primeiro posto de saúde no bairro Jardim Nordeste, no ano de 1979, localizado na Avenida Águia de Haia. Justelita, que participou desta conquista, enfatiza: “quem quiser ver a prova tá lá, tem a placa do governo e em baixo tem a nossa, escrito assim, ‘Este posto de saúde foi conquistado pelos moradores’, isso nós colocamos, tá lá a prova”. O próximo passo seria a conquista dos Conselhos Populares e Gestores de Saúde, hoje obrigatórios por lei em todos os bairros da cidade.

    Estes conselhos são formados por moradores, apesar de atualmente estarem em grande parte cooptados por forças e interesses políticos. De todo modo representam uma conquista popular. Justelita salienta a conquista, “tem muita gente que pensa que foi o governo que fez, mas fomos nós, o povo, que conquistamos os postos de saúde e os conselhos populares”.

    Essa importante conquista resultou da aprovação oficial do Estatuto do Movimento de Saúde; na época o secretário de saúde já era outro, João Yunes. Como contou Justelita, a zona leste toda se envolveu: foram reunidos cerca de sessenta ônibus, que desembarcaram quase três mil pessoas no estacionamento da Secretaria de Saúde.

    Com tanta pressão, não tinha como negar a reivindicação: o Estatuto do Movimento foi publicado no Diário Oficial.


    Revitalizar um movimento de vanguarda
    A revitalização do movimento já começou. O local do seminário e celebração a respeito da finalização da primeira parte do projeto que visa revitalizar o movimento é a Universidade Cidade São Paulo – campus Belém - (UNICID).

    O relógio marca 15 horas; o calendário, 20 de dezembro de 2006. O público dominante é composto por mulheres, na maioria com faixa etária acima dos 40 anos, grande parte delas não se via há anos, pois, como vimos, o Movimento de Saúde da Zona Leste atualmente se encontra dividido e em refluxo. Este seminário teve como objetivo a comemoração de duas conquistas: o resultado preliminar da pesquisa elaborada para o projeto em questão e o lançamento do filme documentário dirigido por Renato Tapajós, “Políticas públicas de saúde no Brasil”.

    O projeto de resgate do Movimento se dividiu em duas partes, sendo a segunda o seminário. A primeira parte se deu da seguinte maneira: dividiu-se a zona leste em três áreas, formaram-se três grupos de entrevistadores que percorreram, cada grupo, uma área da zona leste na busca de militantes e ex-militantes para responderem uma série de perguntas, entre elas: os motivos que o levaram a abandonar o movimento, se tem internet etc. Pois, além de se buscar entender as causas do declínio do movimento, a intenção é também montar um banco de dados referentes ao movimento, e a partir destas informações repensar o movimento. Como disse João Palma, da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, “mais uma vez este movimento inova; há uma pesquisa em curso, o movimento de saúde da zona leste está fazendo uma coisa muito corajosa que é produzir conhecimento sobre si próprio: quem é esse movimento? Quem são essas donas de casa hoje? Quem são esses jovens estudantes hoje? É um movimento negro, branco, de pessoas jovens, idosas? Isto é uma coisa muito interessante, mais uma vez este movimento dá exemplo para outros movimentos populares que estão precisando passar pelo mesmo processo. Mas, infelizmente mais uma vez acontece um movimento de vanguarda invisível, pois a mídia não está cobrindo, exatamente como ocorreu nos anos 80”.

    Neste seminário um fato ficou evidente: não há jovens militantes de fato no Movimento de Saúde, o que se viu foram alguns poucos estudantes de comunicação da UNICID, militantes do PCB, estudantes da USP Leste e um solitário do PSTU.

    Na ocasião do seminário pude perguntar a Ivoneide, idealizadora do projeto e militante do Movimento, se com os resultados das pesquisas daria pra se pensar em meios de atrair esta geração atual e dessa forma reoxigenar o movimento; ela respondeu: “Isso é um desafio pra nós, às vezes a gente fica focado num público da nossa idade, é um tema legal de se trabalhar, mas a gente ainda não conseguiu chegar nele, o jovem. Se a gente conseguir entrar via universidade e que esse jovem venha nos procurar não apenas pra tema acadêmico, mas pra nos ajudar também e que saiba que todos nós temos uma luta, seja na faculdade, no seu bairro e na sua família, isso é com todos os movimentos que, hoje enfrentam dificuldades pra atrair o jovem”. Para o cineasta Renato Tapajós, “é com a história, com o resgate das conquistas, com o fato de mostrar a importância destes movimentos para a história do Brasil, que conseguiremos sensibilizar estes jovens a participarem mais. Reconstruir a memória do movimento social é extremamente importante pra que os movimentos sociais recuperem a sua identidade. E acredito que é uma forma de fazer com que os jovens se aproximem”. Eu pergunto: não há um esvaziamento de jovens nos movimentos sociais? “Sem dúvida, e isso faz parte do processo neoliberal que vivemos, o impulso de preocupação coletiva que o jovem sempre teve em outras épocas, vem sendo erodido pela propaganda e pela televisão, há um trabalho do sistema para individualizar o jovem, e uma das formas de trazer o jovem de volta pra prática coletiva é trabalhar a memória dos movimentos sociais, pois a liberdade hoje é um dado e não uma conquista, eles não têm a menor idéia do que foi a ditadura”.


    Neste momento, os idealizadores, organizadores e colaboradores do projeto estão aguardando uma resposta, pois a continuação do projeto depende de a OPAS (Organização Pan Americana de Saúde) aprovar a sua segunda parte.

    Para tal, os gerenciadores do projeto acabam de encaminhar a prestação de contas. A segunda fase do projeto consiste em montar um banco de dados, estabelecer metas para o movimento e promover seminários em diversos bairros da zona leste. Lucirene, uma das organizadoras do projeto e militante do Movimento, nos elucida esta segunda parte, “na verdade o projeto era pra ser um só, de uma vez, mas quando começamos a fazer vimos que não daria, ele ficaria muito extenso, não conseguiríamos terminar tudo no prazo estipulado. A idéia não era só fazer a pesquisa, mas coletar um banco de dados, para isso entrevistamos 900 pessoas, militantes e ex-militantes do Movimento de Saúde. O objetivo pra nós, acima das pesquisas e do banco de dados, é recuperar o Movimento de Saúde, fazer com que ele se movimente novamente, então nós já mandamos o novo projeto, que seria a sistematização mais organizada dos dados obtidos e análise dos mesmos para que a partir deles façamos uma série de seminários. Por exemplo, uma pergunta, por que o movimento de saúde tem problema hoje? Só com esta pergunta dá pra fazer uns dez seminários. Então é isso, esta segunda parte é analisar os dados e devolvê-los ao Movimento de Saúde, não como uma coisa pronta, mas discutindo cada resposta com o próprio movimento, através de seminários temáticos, dentro de uma metodologia participante”. Lucirene disse que a resposta da aprovação da verba para esta segunda fase do projeto deve sair até o fim de março deste ano.

    Torcemos então pra que consigam, para continuar este excelente projeto que visa resgatar e reunir o movimento social mais importante da cidade e, por quê não, do Estado de São Paulo.

    Marcelo Hailer é jornalista