quarta-feira, julho 23, 2008

JUVENTUDE: “RITOS DE PASSAGENS” CONTEMPORÊNEOS – O caso "eu controlo, paro de beber quando quiser"

Comentário Moisés Basílio: Minha experiência com o beber começou na juventude, quando militava no movimento sindical/operário metalúrgico, na região da Mooca, em Sampa. Beber virou um passaporte para transitar no mundo do operariado. No entorno das portas de fábricas, as barracas e os bares, era a fonte que nos entorpeciam de manhã, ao meio dia, à tarde e à noite.
Nesse tempo, bebia, mas não bebia muito. Meu "ultimo copo" era determinado pelo meu fazer político de militante.
Nesse tempo, não bebia em casa, pois minha mãe era precavida e tinha receio dos filhos se tornarem alcoólatras, tanto que não permitia guardar bebida em casa. Não que não se bebessem em casa, mas era aquela cervejinha do domingo e bastou. Nada de guardar uma garrafa de destilado para apreciar no cotidiano. No meu grupo de jovens, da Pastoral da Juventude, da Igreja Católica, beber não era bem visto. A regra era não beber.
E assim se fez minha passagem pela juventude, onde o álcool oscilou entre "o divino e o diabólico". Já adulto, confesso que bebi muito, pois a militância social e política nos anos 80 e 90 teve grande em Dionísio um dos seus grande deuses. Um reunião sempre terminava no bar. O problema sempre foi determinar o "ultimo copo". Convivi com pessoas que passaram por diferentes tipos de experiências com a bebida nesse tempo, experiências de vida e também experiências de morte. Sempre optei beber para exaltar as experiências de vida, como diz um amigo, beber a bebida e não ser bebido por ela. Axé!


Fonte: Internet - Portal Cronópios - www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3406 20/7/2008 14:18:00

Álcool: divino/diabólico? -
Por Daniel Lins


Dentre os comentários sobre a obra de Deleuze, o tema que trata de sua relação com o álcool é raramente abordado. Talvez seja o caráter “não-filosófico” desta questão que levou o álcool em Deleuze a ser considerado como um simples detalhe biográfico. No entanto, tal questão ocupou tanto em sua vida quanto em sua reflexão um lugar não desprezível. Deve-se observar que não existe uma experiência unitária do álcool, mas experiências do álcool.

Diante da comoção social provocada pela implantação da Lei Seca no Brasil, emerge a parte mal-dita tornando o não dito em memória passiva, marcada pelo luto e loucura provocados pelos incidentes, pelo não retorno da juventude sacrificada. Lágrimas, orfandade, trauma social. Mas, o álcool dito diabólico não perde seu carisma, sua alma, sua cartografia criadora, sua origem mitológica, religiosa, divina?

Dioniso é o deus do vinho e da festa. O álcool participa ativamente das celebrações sociais e religiosas greco-romanas, africanas. Noé, diz a Bíblia, fez uso da bebida a ponto de se embriagar, "tendo à mostra as suas vergonhas".

O álcool é o amor e a perda do amor, o dinheiro e a perda do dinheiro, a vida e a perda da vida. Palavra líquida, o álcool é o rio das próprias ilusões. Nada, porém, mais forte para manter o homem vivo que a crença na estética líquida: ninguém sobrevive ao real sem uma dose de poesia. Há no álcool, afora o discurso moral, um erotismo errante, uma força da fragilidade, um corpo que se acorda e... dorme.

Gilles Deleuze:

- Bebi muito. Parei, bebi muito... Seria preciso perguntar a outras pessoas que beberam, perguntar aos alcoólatras. Zomba-se muito dos drogados, ou dos alcoólatras, porque eles sempre dizem: "Eu controlo, paro de beber quando quiser". Zombam deles, porque não se entende o que querem dizer. Quando se bebe, se quer chegar ao último copo. Beber é, literalmente, fazer tudo para chegar ao último copo. É isso que interessa.

Em outros termos, um alcoólatra é alguém que está sempre parando de beber, ou seja, está sempre no último copo. O que isto quer dizer? O primeiro copo repete o último, é o último que conta.

Insisto: o que quer dizer o último copo?

- Não é o primeiro, o segundo, o terceiro que o interessa, é muito mais, um alcoólatra é malandro, esperto. O último copo quer dizer o seguinte: ele avalia o que pode agüentar, sem desabar... Ele não suporta beber mais naquele dia. É o último que lhe permitirá recomeçar no dia seguinte, porque, se ele for até o último que excede seu poder, se ele vai além do último em seu poder para chegar ao último que excede seu poder, ele desmorona, e está acabado, vai para o hospital, ou tem de mudar hábito, de agenciamento.

- Quando ele diz: o último copo, não é o último, é o penúltimo, ele procura o penúltimo. Não o último, pois o último o poria fora de seu arranjo, e o penúltimo é o último antes do recomeço no dia seguinte. O alcoólatra é aquele que diz e não pára de dizer: vamos... é o que se ouve nos bares, é tão divertida a companhia de alcoólatras, a gente não se cansa de escutá-los, nos bares quem diz: é o último, e o último varia para cada um. E o último é o penúltimo. Não, ele não diz: amanhã eu paro; diz: paro hoje para recomeçar amanhã.

Como parar de beber?

- Tudo bem beber, se drogar, pode-se fazer tudo o que se quer, desde que isso não o impeça de trabalhar, criar, se for um excitante é normal oferecer algo de seu corpo em sacrifício.

Álcool e juventude:

- Que bebam, se droguem, o que quiserem, não somos policiais, nem pais, não sou eu quem deve impedi-los ou ... mas fazer tudo para que não virem trapos. No momento em que há risco, eu não suporto. Suporto bem alguém que se droga, mas alguém que se droga de tal modo que, não sei, de modo selvagem, de modo que digo para mim: pronto, ele vai se ferrar, não suporto. Não suporto um jovem que se ferra, não é suportável.

Um velho que se ferra, que se suicida, ele teve sua vida, mas um jovem que se ferra por besteira, por imprudência, porque bebeu demais... É verdade que o papel das pessoas é de tentar salvar os garotos, o quanto se pode. E salvá-los não significa fazer com que sigam o caminho certo, mas impedi-los de virar trapo (Gilles Deleuze: O Abecedário).


Daniel Lins é Sociólogo, filósofo e psicanalista, com doutorado em Sociologia - Université de Paris VII - Université Denis Diderot (1990) e pós-doutor pela Université de Paris VIII (2003). Atualmente é porfessor adjunto IV do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará; Coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade (LEPS/UFC) articulista da Empresa Jornalística O Povo S. A., Coordenador do GT Filosofia Contemporânea da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Filosofia (ANPOF), Coordenador do Simpósio Internacional de Filosofia – Nietzsche / Deleuze que se realiza anualmente e m Fortaleza-CE. É autor, entre outros, de Antonin Artaud: o Artesão do Corpo sem Órgãos [Relume Dumara 2001] Juízo e Verdade em Deleuze [Anablume 2001], Expressão: Espinosa em Deleuze – Deleuze em Espinosa [forense universitária 2007] E-mail: dlins2007@yahoo.com.br

segunda-feira, julho 14, 2008

JUVENTUDE: “RITOS DE PASSAGENS” CONTEMPORÊNEOS – O CASO RODOLFO

Comentários Moisés Basílio: Nas sociedades tradicionais os ritos de passagens faziam parte da vida coletiva da comunidade e eram de fundamental importância para a passagem do mundo da criança para o mundo do adulto. A nossa sociedade burguesa contemporânea aboliu os ritos de passagem coletivos e deixou para cada individuo a responsabilidade de fazer essa passagem. Entre nós, esse tempo de passagem recebeu os nomes de adolescência e juventude. A duração dele não é fixa e tende atualmente a aumentar. Sabemos que ele começa no pós-puberdade, mas não sabemos quando esse tempo termina.

Eu, que tenho filhos vivendo essa experiência da juventude, venho colecionando casos exemplares sobre o tema. O caso do Rodolfo, longe de considerações morais, é um caso interessante desse percurso juvenil. Pretendo periodicamente publicar e comentar, nesse espaço, outros casos exemplares. Axé.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 13;07/2007, Caderno Metropolis.

Revolução às avessas de Rodolfo, o ex-doidão

Meu sonho tinha virado pesadelo, diz ex-cantor dos Raimundos

Bruno Paes Manso

Já se disse, com uma certa dose de razão, que três sons estão por trás da felicidade dos homens: o tilintar das moedas, o gemido das mulheres e o alarido das palmas. Felizes seriam aqueles que descobrissem como ouvi-los com uma certa regularidade.

Em 2001, aos 29 anos, o vocalista e guitarrista Rodolfo Abrantes, líder dos Raimundos, já poderia, com tranqüilidade, ser considerado felizardo. Vivia em São Paulo, cheio de grana. Nas noites da cidade, era bajulado pelos fãs e chegava a perder peso e ficar com a pele acinzentada, tamanha a quantidade de baladas que freqüentava, regadas a maconha e ácido sempre de boa qualidade.

Sem falar nas groupies, meninas bonitas e recém-saídas da adolescência. Rodolfo só ia para casa desacompanhado se quisesse. "O palco exerce um certo fascínio sobre os outros. As pessoas gostavam do cara que viam lá em cima. E eu sempre fui de mergulhar de cabeça em tudo", conta.

Se mulheres e dinheiro já não bastassem, Rodolfo também tinha reconhecimento. Com 2,5 milhões de discos vendidos, já havia produzido um clássico da geração dos 1990, justamente o disco de estréia, Raimundos, que fazia uma releitura do som pesado e melódico da banda americana Ramones, com referências do forró.

Ele havia alcançado tudo o que sonhara desde os 13 anos, quando freqüentava o bar do Gilbertinho, em Brasília, cidade onde nasceu, para ver de perto os integrantes de bandas como Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, que já haviam despontado no Brasil. "Nunca fui um moleque de soltar pipas. Tudo o que sempre quis na vida foi tocar guitarra e ter uma banda de rock", lembra.

Justamente no auge da fama e do dinheiro, uma coisa estranha aconteceu. Rodolfo conta ter percebido que, na verdade, havia chegado ao fundo do poço. O mau humor era permanente. A relação com a namorada, sintonizada na mesma vibe drogas-baladas, era destrutiva. "As pessoas confundem estar feliz com ser feliz. Drogas, sexo e balada dão a ilusão de momentos da felicidade, que duram pouco. Ser feliz é outra coisa", filosofa.

Numa espécie de revolução às avessas, Rodolfo preparava seu espírito para voltar a ter ordem na vida. "Eu havia virado escravo daquele personagem. Meu sonho tinha virado um pesadelo. Eu não agüentava mais aquela vida frenética e sem rumo. Foi quando Jesus Cristo entrou na minha vida."

A conversão veio acompanhada de uma situação que ele chama de mística. Estava magro, com ínguas pelo corpo. Mesmo sem diagnóstico médico, suspeitava estar com câncer. A mulher, convertida, chamou algumas senhoras para orarem por ele. "Não posso dizer qual era a doença. Só sei que estava mal e fiquei bem", diz.

Na última quinta-feira, sete anos depois da conversão, Rodolfo era mais um entre as 2 mil pessoas na Igreja Bola de Neve, na zona oeste. Discreto, de calça e jaqueta jeans, assistindo ao show de uma banda gospel chamada Livres para Adorar, com um vocalista coreano, no 15º Congresso de Batalha Espiritual. "A banda é sensacional", comentou, na manhã seguinte, em um boteco da Alameda Santos, enquanto comia um prato de laranja, mamão, banana, morango e fatias de peru.

Morando em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, lançou dois CDs evangélicos em carreira-solo: Santidade ao Senhor (2006) e Enquanto É Dia (2007), vendendo cerca de 20 mil cópias. Não é mais um rock star. Assumiu de vez o papel de missionário. Dedica-se integralmente a dar seus testemunhos por igrejas do Brasil e do mundo. As músicas são tocadas em louvores antes dos cultos. Esteve em Belém e Santarém, antes de vir a São Paulo. Nas próximas semanas, vai pregar nos Estados Unidos e no Japão.

Mesmo defendendo o amor eterno à mulher e à vida comedida, ele nega o rótulo de careta. As tatuagens, boa parte feita durante a vida louca, permanecem. Da fase nova, fez uma menorá (candelabro judaico) no pescoço. Os buracos na orelha, de 20 e 16 milímetros, feitos com alargadores, foram fechados com cirurgia plástica. Rodolfo não sente falta da fama. "Acredito no sucesso. Um padeiro ou um pedreiro podem ter sucesso se fazem seu trabalho bem feito. É o que eu busco. Não sinto falta do reconhecimento dos homens", fala. Digão, Canisso e Fred, ex-companheiros de Raimundos, mesmo depois das brigas da separação, deixaram Rodolfo emocionado ao comparecerem ao enterro do pai dele, no ano passado. "Ainda vamos dar muita risada do que rolou", diz.

segunda-feira, junho 30, 2008

HISTORIA DO NEGRO NO BRASIL

Comentários Moisés Basílio: Quem puder, corra depressa e faça a sua inscrição. Bela iniciativa. Axé!

VIII CURSO DE DIFUSAO CULTURAL CEA/USP:
ASPECTOS DA CULTURA E DA HISTÓRIA DO NEGRO NO BRASIL

(curso de difusão – 45h, com nota)

PERÍODO DO CURSO:
05.08 a 25.11.2008, exceto nos dias 09.09 e 28.10.2008.
3ª feira: das 19 às 22h

PÚBLICO-ALVO:
Professores de Ensino Fundamental e Médio das Redes Públicas e Particulares e Interessados em geral.

VAGAS: 100, com mínimo de 60 participantes.

SORTEIO PARA VAGAS GRATUITAS

INSCRIÇÃO: 10 e 11.07.2008, pela Internet
INSCRIÇÃO para categoria Outros: 10 e 11.07.2008 (ver obs. 2, 3 e 4)

RESULTADO: 14.07.2008

PÚBLICO ALVO PARA O SORTEIO: Comunidade USP, 3ª idade e Outros, que possuem o perfil do público alvo assim distribuído: 1 para docente, 1 para discente, 1 para funcionário, 3 para 3ª idade e 2 para Outros (ver obs. 2, 3 e 4).

OBSERVAÇÕES:
1. O sorteio não garante a vaga, devendo a pessoa contemplada (ou seu representante) comparecer no dia de matrícula;
2. Categoria Outros: a inscrição somente no CEA/USP, pessoalmente ou por procuração;
3. Documentos necessários para incrição: pedido fundamentado; curriculo atualizado completo com dados pessoais, etc.; cópia da última declaração de rendimentos; e, assinatura de termo de compromisso (caso seja contemplado);
4. CEA: Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, sala 1087 - das 14 às 19h - 2ª à 6ª feira - tel. 3091-3744 - cea@usp.br).

MATRÍCULA

PERÍODO: 15 a 22.07.2008, enquanto houver vaga.

PARA EFETUAR A MATRÍCULA, DEVERÁ APRESENTAR:
- documento atualizado que comprove pertencer ao público-alvo (carteirinha USP/holerite);
- RG (com data de expedição) e CPF;
- endereço e telefone.

LOCAL DA MATRÍCULA: <<clique aqui>>

OBSERVAÇÃO:
1. Não efetuaremos matrículas fora do prazo estipulado;
2. As matrículas serão feitas por ordem de chegada.

VALOR DO CURSO

R$ 180,00 ou 2 x 90,00: Interessados em geral
R$ 162,00 ou 2 x 81,00: Graduandos e pós-graduandos da FFLCH

R$ 90,00 ou 2 x 45,00:

Profs. Ativos da Rede Pública, maiores de 60 anos, monitores bolsistas e estagiários da FFLCH
Gratuita: Docentes e Funcionários da FFLCH

OBSERVAÇÃO:
1. O pagamento será mediante boleto bancário impresso no ato da matrícula;
2. Não haverá devolução da taxa após o início do curso;
3. Os descontos serão concedidos mediante solicitação do interessado e comprovação da categoria a que pertence (apresentação da carteirinha USP ou holerite).

PROGRAMA E MINISTRANTES

1ª Aula – 05/08/2008 - Prof. Kabengele Munanga
1.Introdução
Apresentação do curso: objetivos, conteúdo do programa, bibliografia básica.
Origens geográficas dos africanos escravizados no Brasil.
Existe uma história do negro no Brasil? E por onde ela começa?

2ª Aula – 12/08/2008
- Profª Marina Pereira Almeida Mello
2. O negro no território brasileiro e o regime escravista: adaptação e resistência;
2.1. Resistências individuais;
2.2. Resistências coletivas: rebeliões nas senzalas, quilombos, Revolta dos Malês;
2.3. Atuação do negro na abolição.

3ª Aula – 19/08/2008 -
Profª Marina Pereira Almeida Mello
3. O negro após a abolição e novas formas de resistência:
3.1. A revolta da Chibata;
3.2. A Frente Negra Brasileira – imprensa negra em São Paulo;
3.3. O movimento negro contemporâneo.

4ª e 5ª Aulas – 26/08 e 02/09/2008 -
Profs. Juarez Tadeu de Paula Xavier e Antonia Ap. Quintão dos Santos Cezerilo
4. Culturas negras no Brasil:
4.1. Leis e repressões contra as culturas negras no Brasil – estratégias e formas de resistência:
4.1.1. Resistências religiosas: irmandades, candomblé, umbanda, etc.

6ª e 7ª Aulas – 16 e 23/09/2008 -
Profas. Lígia Ferreira e Maria Cecília Félix Calaça
4.1.2. Resistências artísticas: culinária, música, dança, artes visuais, literatura, arte do corpo (capoeira), arquitetura, etc.

8ª e 9ª Aulas – 30/09 e 07/10/2008
- Profs. Kabengele Munanga e Antonio Carlos Arruda da Silva
5. Negro e discriminação racial no Brasil:
5.1. Conceitos básicos: preconceito, raça, racismo e etnicidade no Brasil;
5.2. Características do racismo à brasileira;
5.3. Direitos Humanos e a questão racial.

10ª e 11ª Aulas – 14 e 21/10/2008 -
Profas. Luciene Cecília Barbosa e Eliana de Oliveira
5.4. Formas de exclusão do negro no Brasil:
5.4.1. O negro na mídia e no mercado de trabalho;
5.4.2. O negro na educação (ensino fundamental, médio e superior).

12ª e 13ª Aulas – 04 e 11/11/2008
- Profª Roseli de Oliveira
5.4.3. O negro na saúde: a legislação;
5.4.4. Questões específicas da saúde da população negra.

14ª Aula – 18/11/2008 -
Prof. Dr. Kabengele Munanga
6. Multiculturalismo e a Ação Afirmativa no Brasil:
6.1. Políticas de reconhecimento da Identidade Negra no Brasil, exemplos das Leis. 10.639/03 e 11.645/08
6.2. O Debate sobre as cotas raciais.

15ª Aula – 25/11/2008 -
Prof. Dr. Kabengele Munanga
Encerramento do Curso.
Avaliação (Por escrito).

OUTRAS INFORMAÇÕES

OBJETIVO: Capacitação dos professores das redes públicas e particular de ensino no aprendizado dos aspectos da cultura e da história do negro no Brasil; propiciando acesso ao material de apoio e didático para ser utilizado em sala de aula, embasados nos conhecimentos apreendidos em cada temática que certamente, serão de utilidade prática.

COORDENAÇÃO: Prof. Dr. Kabengele Munanga, da FFLCH/USP.

PROMOÇÃO: Centro de Estudos Africanos (CEA), da FFLCH/USP.

CERTIFICADO: Para fazer jus ao certificado de extensão o aluno precisa ter o mínimo de 85% de presença e nota mínima 5.

LOCAL DO CURSO: Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, Av. Prof. Luciano Gualberto, 315. Sala a confirmar.

sexta-feira, junho 27, 2008

A CIDADE DE S. PAULO EM 1943!

Comentários Moisés Basilio: Recebi a dica que repasso aqui no blog. São imagens muito bonitas, em preto e branco, de uma São Paulo no início da década de quarenta, mas tudo em inglês. Dá até saudades de um tempo não vivido. E na mensagem do Cesar Maia abaixo, o espírito carioca espeta escancaradamente os paulistas, quando atribui o crescimento de São Paulo ao governo de Getúlio Vargas e não a JK, e ignora totalmente o espírito empreendedor a gente paulista. Haja rivalidades regionais! Axé!

Fonte: Ex-Blog do Cesar Maia 27/06/2008

Para colecionadores! O Interamerican Affairs -do governo dos EUA- já apresentava SP como cidade industrial e a que mais crescia. Documento importante para corrigir a idéia de que o crescimento -industrial em particular- se deve ao governo JK. Na verdade se deve ao período Vargas e -em especial- durante o Estado Novo.

Clique abaixo: são 14 minutos.
http://br.youtube.com/watch?v=InWifglIkQ0

terça-feira, junho 17, 2008

GREVE DOS PROFESSORES DO ESTADO

Comentário Moisés Basílio: Recebi de amigos essa mensagem que repasso à todos.

Estamos em GREVE. E agora?
(Uma conversa sobre o PORQUÊ, o PARA QUÊ e o COMO fazer GREVE)


O texto que se segue é testemunho fiel da conversa que tivemos ou da conversa que ainda devemos ter com nossos alunos após a greve recém deflagrada na rede pública estadual de São Paulo [Fernando Vidal Filho e Eduardo Garcia Amaral, professores].


– Professor, sexta-feira eu passei pela Praça da República e vi como estava cheia. Você também estava lá?


– Estava.


– E o que vocês decidiram?


– Decidimos que estamos em GREVE.


– Nossa! Mas por que uma decisão tão radical?


– Vamos começar pelo começo. Não sei se você já reparou, mas a escola pública não anda muito bem das pernas. O governo e os jornais dizem a torto e a direito que a culpa é dos professores. Incompetentes, faltosos, atrasados... estes entre outros adjetivos são usados para qualificar os professores e, por extensão, para culpá-los pelo péssimo desempenho dos alunos. Mas será que é tudo culpa dos professores?


– Se os alunos não aprendem direito deve ser por que os professores não ensinam direito, né?


– É exatamente nisso que querem que vocês acreditem. Mas pense bem: por que será que os professores não estão conseguindo ensinar direito? Você acha que é a mesma coisa dar aulas pra 35 e pra 50 alunos?


– Obviamente não.


– Pois os professores geralmente têm que lidar com salas super-lotadas, em que faltam até carteiras pra alguns alunos. Agora pense em mais outra coisa. Será a mesma coisa dar 20 aulas ou 30 numa semana? Ou 50?


– Novamente: não.


– Pois os professores muitos deles têm uma jornada de trabalho super-carregada, em mais de uma escola, durante os três períodos, nos cinco dias da semana. Isso porque o salário anda lá em baixo. A gente começa a achar que é normal que um professor tenha uma jornada diária de trabalho de mais de 8 horas. E faça as contas: para quantos alunos um professor dá aula? Quantos trabalhos e provas ele tem para corrigir?


– É de um batalhão de gente, né não?


– Pois é! Agora imagine que este professor, por mais dedicado que seja, não pode acompanhar a aprendizagem de seus alunos, um por um. Com o tanto de coisas para corrigir, fica tudo meio apressado. A parte mais fácil de tudo é corrigir as provas; o difícil mesmo é conseguir corrigir os alunos, fazer com que eles não errem mais naquele ponto. E uns ficam sem aprender quase nada mesmo.


– Azar desses alunos...


– Não. Azar do professor! Porque essa coisa dos alunos não aprenderem é bem frustrante, sabe? E veja bem: não é por causa do aluno ser ruim, ou do professor ser ruim. Mas é porque as condições de trabalho que enfrentamos é que são ruins, muito ruins, para garantir uma educação de qualidade.


– Ixi, não tinha pensado nisso...


– Então! Junte essa frustração com a sobrecarga de trabalho. Não temos aumento há mais de 3 anos e temos que colocar a comida na mesa. Para isso trabalhamos mais do que agüentamos, nos desgastamos e adoecemos com freqüência.


– Então é por isso que há tantas faltas de professores na escola pública?


– Provavelmente é uma das razões, aliás bem razoável, não? Imagine também que essa vida de correria muitas vezes impede que possamos preparar nossas aulas como gostaríamos, estudar coisas novas sobre nossas matérias. Mas mesmo assim estamos na batalha. Agora pense no seu material.


– Aquele jornal?


– Isso. Assim como ele chegou do nada para você, ele chegou do nada para mim, na véspera. E recebi também uma “Revista do Professor” em que se pretendia ensinar a mim como ensinar com aquele jornal, aula a aula. Depois do jornal, veio um outro “Caderno do Professor”, com várias sugestões de seqüências de aulas que podemos dar.


– E isso é ruim, professor?


– Se fossem só sugestões, vá lá! Tem uma história no ar de que vocês alunos seriam avaliados por aquilo que está lá no tal Caderno. Aí, já não é sugestão, é imposição; se eu não seguir a cartilha, vocês dançam.


– Entendi... puts!


– E tem outro lado isso aí. Eu já dou aula há algum tempo, sobre assuntos até semelhantes àqueles do jornal ou do Caderno... teria simplesmente que deixar de lado a minha experiência para seguir uma cartilha que é completamente estranha àquilo que aprendi durante esses anos todos? E tudo aquilo em que acredito, o que sei fazer, pela minha experiência, os caminhos que escolho para as aulas, as questões que privilegio, como eu concebo a educação e o ensino – tudo isto fica de lado? É o que a Secretaria da Educação nos mandou fazer. Ela desprezou nossa experiência, retirou uma conquista nossa: “a liberdade de cátedra”. É uma situação humilhante, você não acha?


– Eu ficaria bem bravo se fizessem isso comigo.


– E tudo isto tem sido apresentado como a revolução do ensino público paulista. Isso não parece uma grande farsa, quando as condições de trabalho permanecem inalteradas?


– Para dizer o mínimo.


– Se parássemos por aqui a situação já se mostraria revoltante, você não concorda? Mas isso não é tudo. Além de difamar os professores na imprensa, sucatear as escolas, super-explorar nosso trabalho e destruir nossa identidade profissional, o governo agora quer retirar nossos direitos, nossas conquistas históricas através de decretos que restringem nosso direito de faltar quando ficamos doentes e de nos removermos de unidade escolar quando precisamos mudar de bairro, cidade ou região.


– Como assim, professor?


– É que, ao invés de melhorar as condições de trabalho que adoecem os professores e os fazem faltar – o que é um problemão –, o governo decreta que podemos apenas faltar 6 vezes por ano por conta de doença.


– Ah, então quer dizer que se o professor ficar doente em mais de 6 dias por ano ele ganhará ainda menos?


– Isso mesmo.


– Se o cara estiver na pindaíba ele que venha dar aulas doente?


– Parece ser este o recado.


– E o outro decreto, o da tal remoção?


– Se fulano tirar qualquer tipo de licença ou tiver mais de 10 faltas, ele não pode pedir transferência para dar aula em outra escola. Se ele estiver entrando agora na carreira, só poderá se remover daqui a três anos, mesmo se na escola em que foi designado não tenha aulas o suficiente para ele completar sua jornada. Fica condenado a dar aulas em mais de uma escola, mesmo sendo efetivo.


– O sujeito tá lascado então, né?


– Calma, porque não é só isso. Pelo decreto, fica também definido que os concursos para ingresso na carreira serão por diretoria de ensino, e não mais para o Estado todo. Pode acontecer de um candidato obter uma pontuação em que, em uma região estaria classificado, e na outra não. Afora o receio de que o processo e sua impessoalidade fiquem comprometidas. Pior ainda é a situação dos professores que não são efetivos, os “OFAs”. Muitos deles que já dão aula no Estado há muito tempo. Agora, como se a experiência deles não valesse muita coisa, terão que prestar uma prova, uma seleção.


– Uma avaliação, né?


– É. Mas veja só, que coisa! Os OFAs já não têm garantias de que haja aulas para eles no ano seguinte. São temporários, com relações precárias de emprego. Então, se o sujeito não passa na prova, ou perde a prova por causa de qualquer motivo, ele não poderá assumir aula nenhuma enquanto valer o processo de seleção – um ano, dois? Ninguém sabe. Então, ele de repente pode ficar sem emprego. E, de novo: não é fazendo avaliação e mais avaliação que a educação vai mudar, se não se mexer nas condições de trabalho.


– Faz sentido...


– É uma medida que não tem impacto na educação, mas sim na precarização da vida dos professores. O Estado não quer assumir os vínculos e suas responsabilidades com estes professores. São descartáveis e muitos serão descartados.


– Nossa professor! Como dizia meu avô: “A situação tá cínica, os pior vai pras clínica”.


Pois é. Antes de ir pras clínica resolvemos fazer uma GREVE pra tentar reverter esta situação.


–Agora me diga o seguinte: e amanhã, vai ter aula?


– Em primeiro lugar, greve não significa ficar parado. É um tipo curioso de paralisação, pois no fundo é uma grande movimentação. Quando se está paralisado, em estado de greve, é que se tem noção de como o cotidiano é que estava em estado de paralisia. Portanto, ao invés de falarmos de paralisação, deveríamos falar de suspensão das atividades cotidianas, uma maneira de colocar em discussão aquilo sobre o que quase não temos condições nem tempo de discutir.


–Poxa! Legal isso! Mas discutir o que, hein?


– Temos bastante coisa pra discutir, não? Entre nós professores, sabemos que o problema não está só no decreto, mas tem a ver também com nosso Plano de Carreira, com definição de uma jornada de trabalho que possa garantir de fato a permanência do professor em uma só escola, apontando para uma política de reajuste salarial. Mas temos também muito a discutir com os alunos. Por isso, pelo menos durante essa semana, poderíamos fazer algumas atividades de greve: reuniões, debates, conversas entre os professores, alunos e pais de alunos. Discutir o que todos queremos, que é uma educação de qualidade para todos.


–É isso aí!


– Ah... e sexta-feira, 20 de junho, às 14:00hs, temos nova Assembléia lá no vão do MASP. Vê se aparece. A gente continua o papo por lá também e tenta dar um jeito nessa situação.


– Até lá então!

quinta-feira, maio 22, 2008

MEMÓRIA E EDUCAÇÃO

COMENTÁRIOS MOISÉS BASÍLIO: Nas minhas navegações pela rede, encontrei esse sítio, da educadora Zilda Kessel, com informações interessantes para quem trabalha com memória e educação.

Fonte: Sítio Memória e Educação de Zilda Kessel, acessado em 22/05/2008 - www.memoriaeducacao.hpg.ig.com.br/index.htm

APRESENTAÇÃO

Aqui você encontra referências sobre Memória e Educação e informações sobre projetos de memória realizados por escolas e comunidades.

A idéia deste site nasceu durante a elaboração da dissertação "A construção da Memória na Escola". Reuni textos teóricos, sites, artigos e relatos abordando as diferentes possibilidades do trabalho com memória na escola.

Contribuições e comentários são muito bem-vindos.

Zilda Kessel

Projetos

Aqui você encontra uma seleção de projetos de memória realizados por escolas ou para escolas.

Projeto Memória Local
Parceria do Instituto Museu da Pessoa e do Instituto Avisa Lá, tem por objetivo a implantação de projetos de memória local em escolas públicas de Ensino Fundamental. Integra atividades de formação de professores para o trabalho com memória, leitura e escrita e contribui para a inclusão digital dos participantes que se tornam agentes de sua própria história. Realizado nas cidades de Ituiutaba, Uberaba, Rio de Janeiro e Santos. Foram produzidos sites e exposições.

Estação Memória
Espaço de informação e de cultura, implantado na Biblioteca Municipal Álvaro Guerra, em Pinheiros, SP. A Estação Memória promove atividades permanentes de resgate e construção da memória junto a grupos de idosos e estabelece um espaço de encontro e de diálogo inter-geracional destes idosos com alunos de escolas públicas. Parceria da ECA/USP com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, coordenada pelo Prof. Edmir Perrotti.

A Escola: Centro de Memória e Produção de Comunicação/Cultura
Projeto de memória do bairro do Jardim da Saúde, em São Paulo, realizado pelos alunos da Escola Estadual Raul Fonseca, entre 1997 e 1999. O projeto foi implantado por uma equipe da ECA/USP, liderada pelo Professor Luiz Roberto Alves. Foram recolhidas histórias de moradores, recuperadas e reconstruídas na escola tradições culturais e mapeados espaços importantes da história do bairro. Foram produzidos Cd e publicação.

Um processo coletivo de formação continuada pelos caminhos da memória local
Projeto de formação continuada de professores de ensino fundamental de Angra dos Reis tendo a história local da comunidade como elemento de construção da identidade das professoras. O trabalho pedagógico junto aos alunos propiciou o resgate da história da Banqueta e a articulação da comunidade em torno de sua história e de suas reivindicações. Liderado pela Profa. Sônia Nikitiuk

Contos históricos no processo de alfabetização em Diadema

Textos

Aqui você encontra textos que abordam questões relativas à Memória e à Educação.

Sobre ensino de história

A História ensinada nas propostas curriculares (Brasil últimas décadas no século XX)
RIBEIRO, Renilson Rosa

Analisa as idéias e tendências historiográficas em que se baseiam as propostas curriculares da área de História entre 1984 e 1995. O período foi marcado pela intensa discussão e pela implantação de novas linhas de ensino para a disciplina.
http://www.bibli.fae.unicamp.br/etd/editorialv3n2.pdf.

A CENP e a criação do currículo de História: a descontinuidade de um projeto educacional
MARTINS, Maria do Carmo

Recupera o processo de construção da proposta curricular de História para o Estado de São Paulo, entre os anos de 1986 e 1992, as idéias e os conflitos que marcados pelas discussões acadêmicas, as divergências políticas e ação da imprensa que as tornou públicas
http://www.bibli.fae.unicamp.br/etd/editorialv3n2.pdf.

Sobre memória e identidade

Memória e Identidade Social
POLLAK, Marc

Apresenta a importância da memória para a construção do conceito de identidade individual e coletiva. Tanto a Memória como a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais
http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp_edicao.asp?cd_edi=24

Sobre educação e tecnologias

Mudar a forma de ensinar e de aprender com tecnologias
MORÁN, J. M.

Aborda as possibilidades proporcionadas pelas Novas Tecnologias de Comunicação e Informação para o trabalho pedagógico
http://www.eca.usp/prof/Moran


Bibliografia

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terça-feira, maio 13, 2008

MANIFESTO EM DEFESA DA JUSTIÇA E CONSTITUCIONALIDADE DAS COTAS

Comentário Moisés Basílio: Sou a favor da política de cotas e já assinei pela internet o manifesto que divulgo nesse blog, e que tem como destinatário o Ministro Presidente do Supremo Tribunal Federal - Gilmar Mendes. Axé!

Para assinar o Manifesto entre em: www.manifestopelascotas.net

Para ler o manifesto entre em: Leia o Manifesto

Mensagem recebida do Quilombhoje em 13/05/2008 em apoio ao Manifesto

Há cento e vinte anos, africanos e seus descendentes, depois de trabalharem no Brasil por quase quatrocentos anos de graça, foram jogados na rua sem direito a qualquer tipo de indenização.
Imagine que você trabalha durante anos em algum lugar, e de repente te mandam embora sem pagar férias, décimo terceiro, fundo de garantia, nada... (No limite da comparação, a situação é a mesma.) Isso seria correto? Se vc acha que sim, provavelmente não vai querer assinar o manifesto abaixo.
Caso contrário, se você crê que as ações afirmativas e as cotas são o mínimo que o Estado brasileiro e as elites podem fazer para reparar um grave erro que se perpetua, acesse o link e assine carta.
Só lembrando: os que são contra as cotas fazem um grande barulho e a mídia repercute. Os que silenciam de certa forma compactuam com isso.

120 anos da abolição. O que comemorar?

Comentários Moisés Basílio: Em 13 de maio de 1888, na cidade do Rio de Janeiro, naquela época Capital do Brasil e sede da Corte, a pressão de um amplo Movimento Popular Abolicionista, as mudanças da estrutura econômica do país com o crescimento do trabalho assalariado nas lavouras de café, a pressão da comunidade internacional contra a escravidão, e depois de anos de discussões, finalmente o Congresso Nacional de então aprova o projeto de lei que põe fim ao regime de escravidão no Brasil. Com a ausência do Imperador D. Pedro II, que estava em viagem, coube a Princesa Isabel, representante legal do poder executivo nacional assinar e promulgar o que ficou conhecida com Lei Áurea.
Hoje, 120 anos depois, o que comemorar? A palavra comemorar entre outras acepções, significa trazer de volta à memória. Vejo então que é importante trazer de volta os limites da lei Áurea, de 120 anos atrás. Sem dúvida ela foi fundamental para estabelecer a Liberdade entre nós. Mas uma Liberdade limitada ao plano jurídico formal, que não proporcionou o estabelecimento da Igualdade, vista com oportunidades no plano econômico e social, e também deixou frouxo os preceitos da Solidariedade, visto a permanência das manifestações e praticas racistas em nosso país.
Reproduzo a seguir o texto do meu mestre Nei Lopes sobre sobre o sentido do 13 de maio neste ano de 2008, por concordar com sua abordagem. Para que quiser ler mais coisas interessantes sobre o significado desta data, segue sugestão de leitura abaixo. Axé!

TREZE DE MAIO, O RESGATE
Autor: Nei Lopes
Fonte: Blog Meu Lote - www.neilopes.blogger.com.br

Na comunidade humana não existem raças, todos sabemos. Mas o racismo existe, sabemos também. Como sabemos, ainda, que no Brasil ele nos atinge principalmente a nós, pretos e mulatos, ou seja, aos negros. Sabemos, mais, que, aqui, os negros são os mais pobres exatamente porque são negros. Essa condição ainda é conseqüência do histórico “13 de maio”, quando a escravidão foi abolida sem nenhum projeto de beneficio social para os emancipados. E, para reparar o erro, lutamos pela adoção das chamadas “ações afirmativas”, entre as quais as políticas de “cotas”.

Os opositores das ações afirmativas, hoje tão discutidas, costumam argumentar dizendo que elas são inconstitucionais por ferirem o princípio da igualdade expresso no art. 206 da Constituição Federal. E com relação à adoção de políticas de cotas nas universidades, outros argumentam com a autonomia das universidades, assegurada pela Constituição em seu art. 207.

Entretanto, é bom observar que, na elaboração de uma lei, um dos elementos principais a serem considerados é o aspecto social. As leis são feitas para organizar as condições de vida das pessoas dentro da sociedade e tornar possível a boa convivência. As prerrogativas legais concedidas às pessoas devem ser exercidas não apenas em proveito próprio mas também levando-se em conta os interesses sociais. Assim, o estudante bem formado tem todo o direito de ocupar sua vaga na melhor universidade, desde que essa ocupação não represente a exclusão de milhares de outros que não tiveram oportunidade de se formar bem. E o princípio de ação afirmativa contido na política de cotas para negros nas universidades, o que visa é corrigir uma desigualdade mais do que comprovada.

Apesar de nossa Constituição proclamar que os direitos devem ser iguais para todos os brasileiros, este ideal até agora não se concretizou para o povo negro como um todo. Então, tratar de maneira diferenciada um grupo que teve e tem menos oportunidades de acesso a saúde, educação, moradia, trabalho etc, embora pareça inconstitucional, é uma obrigação do Estado brasileiro, em atenção ao princípio de que toda Lei deve ter um alcance social, sendo feita e posta em prática para beneficio de toda a sociedade. Mesmo porque o que a lei condena é a discriminação e não a aceitação da diversidade.

Esse tratamento diferenciado não é um privilégio e, sim, uma tentativa de diminuir a enorme desigualdade social que exclui o povo negro, concedendo a este povo, finalmente, direitos que sempre lhe foram sonegados por conta das várias formas de racismo sob a quais sempre se escondeu a propalada “democracia racial” brasileira. Criar políticas de ação afirmativa em beneficio do povo negro, isto sim é que é “democracia racial”. Pois é criar oportunidades de acesso à completa cidadania, começando pela educação, levando em conta a diversidade étnica de toda a população.

Mas só instituir essas cotas não basta. Observemos que hoje, entre as melhores universidades públicas brasileiras, apenas a Universidade Federal de Goiânia tem em seu corpo docente mais de 1% de professores negros – para sermos mais exatos, tem 1,2%. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ, que aliás foi a primeira a instituir o sistema de cotas em seu vestibular, tem apenas 0,21% de negros entre seus 2.300 professores.

A erradicação do racismo no Brasil, então, pressupõe melhorar a educação em todos os níveis. E, além da educação, melhorar a saúde, as oportunidades de emprego, as condições de moradia, transporte etc.

Nesse quadro, o ingresso de alunos negros e futuros professores nas universidades (o simples fato de chegarem eles ao vestibular, apesar de todas as condições adversas, é seu grande mérito) através do sistema de cotas (naturalmente abolido quando seus objetivos forem totalmente atingidos) é o principal resgate da dívida que a sociedade brasileira contraiu com o povo negro há exatos 120 anos.


Revista de História da Biblioteca Nacional
Maio de 2008

Abolição em oito tempos
Oito especialistas refletem sobre as origens, o processo e os efeitos do fim da escravidão no Brasil

O texto é curto e direto: “Fica abolida a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”. Onze palavras que mudariam o nosso futuro. Com o fim do cativeiro, o país entraria em uma nova fase, próspera e igualitária. Festa, júbilo, comoção coletiva nas ruas.

Cento e vinte anos depois, a promessa sugerida naquele belo pedaço de papel soa envelhecida como o próprio. Em que ponto do caminho as coisas deram errado?

Provavelmente, antes mesmo daquele 13 de maio de 1888. Para voltar no tempo e tentar entender o modo como a Abolição foi concebida e se desdobrou, convidamos oito estudiosos a refletir sobre diferentes aspectos daquele momento histórico.

O resultado revela o “jeitinho brasileiro” de acabar com a escravidão. Do ponto de vista religioso, nos separamos do destino norte-americano. Na esfera política, a autoria do feito foi disputada por republicanos e monarquistas. A princesa Isabel virou santa, a reforma agrária foi engavetada e o papel dos próprios negros, ignorado. Para completar, um vôo até a África de hoje, onde a escravidão persiste.

A Abolição ganha contornos reais.

Textos que você encontrará nesta matéria especial:

O papel das religiões - José Murilo de Carvalho
Sensibilidade inglesa - Manolo Florentino
Cor que faz a diferença - Wlamyra R. de Albuquerque
Liberdade é terra - Maria Alice Rezende de Carvalho
Abolição como dádiva - Lilia Schwarcz
Monarquia redentora - Robert Daibert Jr.
Contra a corrente, a cultura negra floresce - Nei Lopes
A abolição que não veio - Alain Pascal Kaly

Leia os textos completos na edição do mês de maio, nas bancas

terça-feira, maio 06, 2008

LABORATÓRIO DE GEOMORFOLOGIA E EROSÃO DOS SOLO

Comentários Moisés Basílio: Olha aí a página do meu filho Pedro na Universidade Federal de Uberlândia. Axé!


PEDRO CARIGNATO BASÍLIO
LEAL

Biografia:

Atualmente é estagiário do Laboratório de Geomorfologia e Erosão dos Solos - Instituto de Geografia- Universidade Federal de Uberlândia.

Projeto de Pesquisa

Título: AVALIAÇÃO DE PROCESSOS EROSIVOS E DE ÁREAS DEGRADADAS NO DOMÍNIO DO CERRADO. ESTUDO DE CASO NO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA.

Pesquisador Principal: Pedro Carignato Basílio Leal (Graduando)

Pesquisadores Participantes: Alcione Hermínia da Silva, José Fernando Pinese Júnior, Iron Ferreira de Andrade.

Orientador: Prof. Dr. Sílvio Carlos Rodrigues

Órgão Financiador: FAPEMIG

Resumo: O presente projeto trata da avaliação de processos erosivos e de áreas degradadas no domínio do Cerrado. Para tanto é necessário compreender sua dinâmica de evolução e dentro dessa dinâmica os fatores geomorfológicos, climáticos, geológicos, pedológicos e antrópicos.
Visando gerar como produtos a cartografia da erosão ao longo do espaço e do tempo e também taxas de evolução da erosão, seguimos com os seguintes objetivos específicos:

• Montagem de metodologia para avaliar a evolução de processo erosivo do tipo voçoroca utilizando-se de GPS de precisão durante um período de dois anos, mensurando o avanço dos dígitos e paredes laterais do mesmo a intervalos fixos de tempo;

• Levantamento topográfico da voçoroca dentro da Fazenda Experimental do Glória;

• Monitoramento da evolução das bordas de voçoroca, utilizando-se do método estaqueamento, buscando detectar os pontos de maior avanço da erosão através de mensurações periódicas;

• Elaboração de mapas de uso do solo e de cobertura vegetal natural, utilizando-se imagens de satélite e fotografias aéreas;

• Comparar diferentes softwares utilizáveis para a elaboração de uma cartografia digital, com ênfase no mapeamento de processos erosivos.

Currículo Lattes



domingo, abril 27, 2008

Apostila na rede pública de educação de São Paulo

Comentário Moisés Basílio: Recebi o texto, que reproduzo a seguir, da minha amiga Regina da Apeoesp-Tatuapé. As recentes mudanças ocorridas no início do ano letivo de 2008, na rede pública do estado de São Paulo, tem múltiplos aspectos a serem analisados e debatidos.

Educação em São Paulo: um Saviani correto faz falta Paulo Ghiraldelli Jr - 22 02 2008 - http://ghiraldelli.wordpress.com/2008/02/22/369/

A violentaEm educação, a direita não fascista adora acusar a esquerda ainda estalinista de “massificação”. Diz que a esquerda quer tirar da população, sob o nome de democratização, as opções da “liberdade de ensino”. Por isso, esse tipo de direita sempre evoca o direito à liberdade de ensino como um direito à existência do ensino privado ao lado do ensino público. Perfeito. É sempre assim? Ah! Em São Paulo as coisas são diferentes! Aqui, a direita não fascista, através de Maria Helena de Castro, secretária de Educação, acusou Carlos Ramiro de Castro, da APEOESP, de “baboseira ideológica” quando este criticou que o sistema apostilado introduzido nas escolas paulistas pode “fazer tudo ficar igual”. Ramiro reclama em favor da liberdade de ensino, em favor da criatividade do professor. A resposta de Maria Helena foi infeliz, apenas se limitou a tentar desqualificar o interlocutor. Para ela, tudo que é discordante dela é ideologia, e tudo que sai da sua própria boca é ciência. Velho Augusto Comte.

Mas e nós, os democratas de esquerda, que não temos nada a ver com APEOESP e nada a ver com Maria Helena? O que podemos opinar no caso? Aqui, é necessário lembrar um conceito do filósofo e educador Dermeval Saviani que é pouco entendido e, não raro, reiterado em manuais de modo errado. Trata-se da noção de “pedagogia tecnicista”.

“Tecnicismo em educação”, na acepção de Saviani, não é transformar o ensino em “técnico-profissionalizante”. Muito menos é tirar da grade curricular as disciplinas humanísticas. Quando Saviani elaborou a noção, nos idos da primeira metade da década de 80, ele tinha em mente a leitura do Capítulo Sexto “Inédito” de O’Capital. A idéia básica era observar como que Marx havia tratado coisas como “a aula”, ou seja, aquele tipo de atividade humana que, não sendo”produto material”, resistiria à sua transformação em mercadoria e, então, criaria uma certa dificuldade ao capitalismo. Saviani ponderou, então, que uma forma de tornar a aula, ainda que só em parte, mercadoria e produto em série, para fazer o capitalismo entrar também nesse campo, seria a objetificação da aula em “meios didáticos materiais”. E a apostila seria o meio mais barato e mais condizente para tal. Nesse sentido a pedagogia tecnicista iria contra a pedagogia nova, que centrava o processo de ensino no aluno, e contra a pedagogia tradicional, que focalizava o ensino no professor. A pedagogia tecnicista deveria fazer dos meios didáticos materiais o centro irradiador do que é e do que não é para se fazer em educação.

Qual o objetivo da “pedagogia tecnicista”? Simples: na prática cotidiana o saber do professor seria expropriado, incorporado aos meios, e então a aula poderia ser ministrada por qualquer um, bom professor ou não. Do mesmo modo que a máquina substituiu o homem no processo produtivo, os meios didáticos substituiriam o professor no processo de ensino. A rotatividade do professor no emprego (na escola) seria possível, e assim isso traria ganhos financeiros para a escola particular, e ganhos em termos de “racionalização administrativa” na escola pública.

Bem, até aí, Saviani; agora venho eu novamente. O que Saviani fez ao caracterizar a “pedagogia tecnicista” foi um bom passo. Não concordo com ele que a pedagogia nova tenha dado origem à pedagogia tecnicista. Acho que Saviani fala assim apenas para ligar uma pedagogia liberal (a pedagogia nova) a uma pedagogia que nem mesmo os liberais suportam (a pedagogia tecnicista). É próprio do marxismo de Saviani fazer isso (como quando dizem que o liberalismo origina o fascismo etc). Outros marxistas da velha guarda pensam assim também. Todavia, isso não quer dizer que não vejo como uma boa formulação o que ele fez ao delinear a pedagogia tecnicista. Avalio que é uma das melhores elaborações dele, embora muito mal compreendida. Todavia, ela não pode ser aplicada mecanicamente à realidade. É claro que nem sempre um sistema apostilado possibilita uma real rotatividade do professor. Também não é correto dizer que, posto este sistema, o ensino vá decair de qualidade de imediato. Ao contrário, talvez ele melhore. Pois o sistema de apostila só é introduzido quando o saber do professor já foi deteriorado ao máximo, então, tal coisa aparece como uma tábua de salvação que até dá benefícios em casos extremos. Aliás, foi assim que os cursinhos pré-vestibulares salvaram os colégios, diante dos vestibulares, nos anos 70 e 80. Todavia, o que é preciso notar é a não aceitação desse sistema por parte dos grandes colégios particulares das elites. Isso é significativo.

Um colégio de classe média, particular, é apostilado. A classe média acredita na apostila. Então, agora, os pais que tem filhos na escola pública, também acreditam. Mas os grandes colégios das elites mais ricas, ao menos em São Paulo e Rio, não são apostilados. Esses colégios são indevassáveis. São poucos, e a população não sabe o que ocorre lá dentro. Lá dentro ocorre um milagre para os que não sabem o que é o aprendizado: os alunos pagam muito caro mesmo, mas saem de lá para o comando real da sociedade. Ali não há apostila, ali o professor tem mestrado e ele trabalha com livros – bibliografia universitária. O livro não é meio didático. O livro é a ampliação da discussão que só pode ser feita a partir de um bom professor.

Assim, a questão de Ramiro e de Maria Helena não deveria ser discutida no âmbito sindical. Deveria ser discutida no âmbito teórico. Teríamos de começar a colocar na mesa uma análise mais ampla sobre o que é e o que não é introduzir apostila na escola pública. Será que estamos fazendo um bem? Ou estamos no caminho da reiteração da expropriação do saber do professor, feita por uma má formação anterior? Em que medida poderíamos apoiar a atitude de Maria Helena – que então teria de ser vista com uma ação emergencial somente – e, a partir daí, preparar ações a médio prazo para voltar a ter uma escola pública afinada com o livro? Essas questões deveriam estar na pauta dos cursos de pedagogia e de pós-graduação em educação. Mas duvido que estão e estarão. Pois nesses lugares é onde a leitura de certas peças de Saviani se faz de modo errado, em geral voltadas para debate político partidário com viés comunista e pouco inteligente. Então, talvez Maria Helena fique sozinha nisso e, com a patada “é tudo baboseira ideológica”, possa mandar e desmandar, sem muita reflexão, na educação paulista.

Paulo Ghiraldelli Jr, O filósofo da cidade de São Paulo

segunda-feira, abril 14, 2008

A PALAVRA INCOMPLETA - Carlúrcio Castanha

Comentários Moisés Basílio: Mensagem que o Carlúcio nos deixou ao completar 60 anos em 2007. Em que pese a pequena diferença de idade, o Carlúcio era 13 anos mais velhos do que eu, vivemos praticamente o mesmo período histórico, ele como mestre e eu como aprendiz. Boa leitura! Axé.


Autor: Carlúcio Castanha

AGRADECIMENTOS
Antes, quero agradecer sinceramente a presença de cada um que prestigiou nossa festa. À minha família: meus queridos filhos, meu futuro genro, minha mãe, minhas tias, irmãs, meus sobrinhos e sobrinhas, meus primos e primas.
À família de Clara: sua mãe (minha sogra), suas tias, minhas cunhadas e cunhados com seus respectivos maridos e esposas, meus “sobrinhos tortos”. Quero registrar aqui o meu agradecimento público ao meu cunhado Wilson, que carregou literalmente a infra-estrutura dessa festa nas costas.
Quero agradecer o empenho de Tereza Neves e a generosidade de Anna Góis que cedeu a casa de eventos, sem a qual não teríamos condições de receber nossos amigos. Com certeza todos os convidados ficaram gratos pela animação da banda de pau e corda e do coral de frevo de bloco.
Quero agradecer, ainda, a presença dos companheiros e companheiras da Prefeitura: as minhas companheiras de diretoria e todos e todas da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico que nos honraram com sua presença. Ao prefeito João Paulo e sua esposa Jeane, ao vice-prefeito Luciano Siqueira e sua esposa Lucy, aos secretários(as), diretores, assessores e especialmente aos motoristas da Prefeitura.
Quero agradecer também a presença dos companheiros e companheiras, dos amigos e amigas, dos meus compadres, comadres e dos afilhados que têm um padrinho desatento. Quero agradecer a todos e todas do fundo do meu coração, em meu nome e em nome de Clara, e quero fazê-lo em especial na pessoa do companheiro Marcelo Santa Cruz, pelo esforço que fez para prestigiar nossa festa.

A MOTIVAÇÃO

A motivação para escrever esse texto vem da necessidade de corrigir injustiças pela ausência de referências importantes na minha fala, para completar e precisar melhor os fatos citados. Para resgatar a palavra e, a partir do seu registro, propiciar o aprofundamento e ampliação de um diálogo que espera e suscita respostas frente o cenário político/ideológico nacional.
Para mim particularmente é mais uma oportunidade do “último discurso”. Há muito tempo carrego entalado entre o coração e a garganta o meu “último discurso”. Não se assustem! A referência aqui é ao filme O Grande Ditador. Uma sátira ao nazismo, onde Charles Chaplin, representando um barbeiro, é colocado por engano no lugar de Hitler. Para quem não teve a oportunidade de ver o filme, o discurso do barbeiro é a palavra simples, aparentemente ingênua... mas, ao contrário, é a palavra densa, profunda, cheia de paixão, de uma oportunidade política ímpar e plena de conteúdo ideológico.
Este filme é um dos marcos na minha formação. O “último discurso” de Chaplin volta e meia toma nova forma, ou melhor, nova motivação, para dizer talvez essencialmente as mesmas palavras, com certeza de mesmo conteúdo ideológico representado por novos fatos e realidades completamente diferentes.
Só para que vocês tenham idéia mais clara dessa agonia, a primeira vez que senti uma necessidade enorme de fazer o último discurso foi logo após o ato institucional Nº5, em dezembro de 1968. A vontade era subir em um dos bancos da Praça do Diário, encher o pulmão e dizer tudo, como no “último discurso”.
Tive algumas outras oportunidades, mas nunca consegui fazê-lo por completo. Mesmo quando a oportunidade é mais planejada – como agora na comemoração dos meus 60 anos – a palavra fica incompleta, um arremedo do “último discurso”.
Em outras situações – por impulso de indignação ou grito por justiça –, como em outubro de 1973, quando me soltei das mãos dos agentes do DOI-CODI, em frente à casa dos meus pais, no Pina. Reagi à prisão (aos gritos de “querem me seqüestrar!”), pulei o portão do jardim e me enfiei por uma pequena janela (postigo) da porta. Ao perceber que conseguira frustrar a tentativa de seqüestro (sabia que ia ser preso, mas não podia permitir que fosse seqüestrado), ganhei força de um Espártaco. Voltei ao portão, subi no muro e desafiei os meus algozes (claro que minha força vinha também da presença de Seu Castanha e Dona Erival). Daí, eles fugiram.

Eu tinha público. Na frente da casa era um ponto de ônibus. Aquele reboliço e gritaria conseguiram juntar algumas dezenas de pessoas. Precisava dizer àquelas pessoas o que estava acontecendo, enchi o pulmão e soltei a palavra. A intenção, a referência ideológica era o último discurso, falei durante longos 5 minutos (que pareceram uma eternidade). Falei do particular (fome, salário, trabalho escravo) ao geral (liberdade, democracia, socialismo). Só parei quando percebi que minha mãe suplicava em lágrimas, agarrada a minha cintura, para que eu entrasse em casa. Seu Castanha, sem palavras, inerte segurava pelo meu braço para o meu equilíbrio sobre o muro. A palavra, como agora, ficou incompleta.
Claro que durante esses 43 anos de militância muitas outras oportunidades surgiram. Os discursos nas greves, nas defesas de teses dos CONCUT, na resistência à demissão na GD do Brasil. E sempre a palavra ficou incompleta. Não tenho conseguido engravidar minhas palavras com a dimensão do último discurso.
Não se trata de vulgarizar esse discurso. Ele só tem sentido se for uma exigência do momento histórico. E hoje eu tinha muitas razões para fazê-lo. Sessenta anos é um marco emblemático. O infarto, a cirurgia, a possibilidade do transplante. Tudo isso junto nos coloca obrigatoriamente com outra postura frente à vida. Toma força o caráter de urgência de cada ato seu. O Carpe Diem é quem comanda.
O mais importante: a História nos convoca! Sinto-me convocado como em 1968 a contribuir com o processo de acumulação do nosso povo para viver plenamente sua emancipação. Sem o infortúnio da miséria da indignidade, do analfabetismo, da violência. Com uma grande diferença: em 68 nós lutávamos contra a ditadura. Hoje, nós estamos no Governo, a luta é a favor. A favor de quê? Com que aliados estratégicos? Com que instrumentos? Com quais formas de organização? A História nos convoca outra vez para assumirmos a vanguarda desse processo.
A experiência nos ensinou. Não temos mais o direito de errar, a espada de Drácon paira sobre nossas cabeças. Se não formos capazes de construirmos o novo tempo, seremos varridos da história. E junto também deverão sucumbir os movimentos sociais com direitos conquistados e tudo.
Nesse ambiente, o militante de esquerda não tem o direito de se amiudar, não pode se restringir a discussões táticas, eleitorais. Não pode se limitar aos interesses imediatos e às vezes mesquinhos. Os militantes de esquerda estão definitivamente convocados a construir a história do nosso país. E contribuir com a emancipação de toda a América Latina. É assim que me sinto aos 60 anos.

AMORES E PAIXÕES

Quero começar fazendo uma correção da minha fala, quando justifiquei a minha paixão pelo Timão com a identidade de “classe” da torcida corinthiana. Essa identidade é só mais um ponto a favor, mas paixão é paixão e não precisa ser explicada por nenhum teorema. Ser corinthiano é viver uma paixão. Somos homens e mulheres que valorizamos a emoção, vivemos intensamente a alegria da vitória ou a tristeza da derrota. Nós não somos torcedor de resultado. É impossível entender isso se não for corinthiano. Jamais um ser humano vai conseguir descrever a dor de um tigre ferido porque não é um tigre. Corinthians... Corinthians minha vida... Corinthians minha história... Corinthians meu amor ô ô...
Vou começar a homenagem à minha mãe com uma declaração. Vou resolver hoje uma contradição que me acompanha há 40 anos. Por uma questão ideológica, o preconceito racial e a representação social da torcida alvirrubra, fiquei dividido entre o Náutico e o Santa esse tempo todo. Mas hoje, aos 60, resolvi: Mamãe, eu quero lhe dizer que sou torcedor do NÁUTICO. Eva minha irmã, acrescenta que quando eu saí da maternidade em um domingo de carnaval, meu pai contratou um carro para acompanhar o Maracatu Timbú Coroado. Fez meu batismo, ao me tomar dos braços de minha mãe e dançar no meio do Timbú Coroado.
Mamãe é a eterna namorada de Seu Castanha. Esse amor que nem a morte conseguiu separar, ela manifesta em cartas e poesias. Meu Pai morreu em abril de 1989, ele tinha um pacto com minha mãe que o primeiro que morresse levaria como travesseiro todas as cartas de amor que foram escritas durante os oito anos de namoro (ele no Recife e ela em Barreiros e Garanhuns), e mais outras tantas cartas e poesias após o casamento.
No meio daquele enorme vazio, de dor, tristeza e saudade para todos nós – e principalmente para ela, que perdera o grande amor de sua vida –, mamãe nos procurou para que fôssemos buscar o baú de cartas, que deveria descer a sepultura com o corpo de Seu Castanha.
Nos reunimos num canto com esse impasse: é justo sepultar toda memória desse amor? Foi aí que Eva sugeriu tirar xerox de todo aquele monte de cartas, para colocar sob a cabeça do nosso querido velho. Essa solução era a cara dele, por isso não tivemos nenhum problema de consciência e foi fácil convencer nossa mãe.
A memória do amor foi preservada. Minha mãe abriu esse baú, leu e releu tudo, transcreveu aquelas que estavam mais corroídas pelo tempo e passou a expressar o seu amor através da poesia.

Um amigo comentou com Juliana, minha filha, que “a família era o túmulo do revolucionário”. De que família e de que revolucionário estamos falando? Da família “tradicional”, onde impera o conservadorismo, tipo TFP? E que revolucionário é esse que não é capaz de criar relações de tipo novo com a família, principalmente com os filhos? Minha experiência de vida contradiz esse velho jargão.
E para ser coerente, confesso que também falei uma bobagem dessas quando Lucy e Luciano anunciaram seu casamento. O mesmo jargão; “o casamento é o túmulo do revolucionário”. Logo na minha chegada aqui, hoje, a Lucy ao lado de Luciano me cobrou: e agora Carlúcio? Estais casando pela 2º vez? Nem hoje, e também em 1969, essa afirmação se justifica. Para um revolucionário é imprescindível a dimensão de humanidade. O processo de “integração na produção” desenvolvido na AP (Ação Popular) tinha o objetivo de dar aos seus militantes a plena identidade de classe. Morar, trabalhar, viver nas mesmas condições do povo: explorado e oprimido. E a prole? Não foi pela prole que Marx identificou a classe operária? “Proletários do mundo uni-vos” esse é o recado do Manifesto Comunista de 1848.
Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?

Amo os meus filhos. Esse amor é declarado, é verbalizado a cada momento e é plenamente correspondido. Por e-mail, por telefone, recebo doses diárias do amor de Juliana e Vito. Com Cesar, é ao vivo e a cores, sempre acompanhado de muito carinho. Os três também se amam muito. Na verdade Cesar foi desejado pelos irmãos. A minha separação com Isa (mãe de Juliana e Vito) não deixou nenhum rastilho de amargura que influenciasse negativamente essa relação. Por Isa tenho gratidão e muito respeito, somos amigos e ela também aprendeu a amar o “Cesinha”.
Meus filhos têm um senso de humanidade e justiça muito apurado. Cesar, aos 4 anos de idade, nos questionava sobre a pobreza, sensibilizado com os moradores de rua que viviam embaixo do Minhocão, em São Paulo. Nos enchia de perguntas: “Eram tantos por quê?” Um dia ele propôs para Clara que se acabasse o dinheiro não existiria mais pobres. Juliana com 12 anos escrevia crônicas com forte conteúdo social. De Vito, guardo uma imagem que pode parecer insignificante. Vito tinha apenas 8 anos, estávamos no Morumbi e o Corinthians perdia de 2 X 0 para o Palmeiras quando ele perdeu o interesse pelo jogo e passou a me consolar. Abraçava, alisava meus cabelos, falava para eu não ficar triste que no próximo jogo o Timão venceria... Esse é meu filho, estava repetindo ali a minha relação com seu Castanha nas arquibancadas dos Aflitos, estádio do Náutico.
Com esses filhos eu não posso cometer nenhum deslize. São minha consciência crítica de prontidão. Qualquer expressão ou posicionamento vacilante sou imediatamente cobrado. Foi assim que fizemos o pacto de luta pela vida. Depois de várias idas e vindas à UTI do hospital Português, pautei a minha morte. Precisava de alguma forma preveni-los. Passei a emitir pequenos sinais. Logo recebo uma ligação de Vito (que conectou Juliana por meio de uma teleconferência) e tem começo a conversa mais difícil de se fazer com quem a gente gosta, principalmente com os filhos: discutir a própria morte. Longa conversa...
Assumi uma postura racional com muita explicação médica. O caráter progressivo e irreversível da minha cardiopatia. Tinha que ser realista, a vida é assim, tem começo e fim. Do outro lado da linha meus filhos perguntaram: e onde está o guerreiro? Onde está o lutador? “Pois fique sabendo que você não tem o direito de se entregar. Pelo seu compromisso com o povo, pelo PT, pelos seus amigos, e por nós meu pai, pelo nosso amor. Você não tem o direito de se furtar da convivência com os seus futuros netos”...
Minha cabeça girou, voltei no tempo e revivi a estória de Guillaumet contada por Antoine Saint-Exupéry em “Terra dos Homens”:Guillaumet pilotava sobre os Andes, quando despencou numa tempestade de neve, após a queda Guillaumet começou a andar, andou cinco dias e quatro noites. Exaurido pouco a pouco de seu sangue, de suas forças, de sua razão, avançava com uma teimosia de formiga, erguendo-se depois das quedas, sem permitir nenhum repouso, porque não poderia se erguer, depois, de seu leito de neve. Quando escorregava, precisava se levantar depressa para não ser transformado em pedra.Era preciso resistir as tentações: “Na neve(dizia Guillaumet) a gente perde todo instinto de conservação. Depois de dois,três, quatro dias de marcha tudo o que desejava é o sono.Eu o desejava. Mas ao mesmo tempo pensava: Minha mulher... Se ela crê que estou vivo, ela crê que estou andando. Os companheiros crêem que estou andando. Serei um covarde se não continuar andando. O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça...
Por que voltei à “Terra dos Homens”? Quando estava no limite de minhas forças durante a tortura no DOI-CODI, foi essa referência em Guillaumet que me permitiu resistir. Pensava: se meu Pai acredita que estou vivo, sabe que não estou falando. Se meus Camaradas acreditam que estou vivo sabe que não estou falando. Estou vivo e íntegro. Este foi o pacto que fiz com meus filhos. Viver! E viver com integridade.

A fala de Juliana

Meu nome é Juliana em homenagem a uma história de amor de um pai pela filha. Durante o tempo que passou preso, Francisco Julião escreveu às escondidas, em papel de embrulho, o livro “Até quarta, Isabela”. Izabela Juliana de Castro (na verdade com “z”) é filha de Julião com Regina Castro e nasceu em 1964. Plena Ditadura Militar. Quarta-feira era o dia de visitas, quando o líder das Ligas Camponesas podia rever a filha. O livro foi escrito como um testemunho de amor daquele pai, que talvez não tivesse a chance de ver Izabela crescer.
A história de amor de um revolucionário pela filha é também a minha história. Ontem mesmo, numa citação, um velho amigo de meu pai dizia que “a família é a morte do revolucionário”. Pode ser verdade. Mas muitos que partiram para a luta armada foram pegos de surpresa por uma verdade muito mais antiga, eu diria milenar: o amor. Foi assim com Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Foi assim com minha mãe e meu pai.
A própria Izabela disse uma vez, em entrevista recente, que o pai sempre foi muito carinhoso, mas que lamentava não ter convivido mais ao lado dele. O fato de ser um político conhecido tomava muito o seu tempo. E quantos filhos de pais revolucionários se ressentem da mesma coisa! Durante minha infância e parte da adolescência, tive contato com muitos deles. Eram crianças como eu, que se encontravam em reuniões, congressos, eleições de chapa, plenárias etc. E que trocariam tudo aquilo por mais almoços em família, fins de semana com passeio de bicicleta ou sorvete no parque.
Talvez poucos militantes (afastados ou na ativa) tenham parado para pensar nisso. A luta em primeiro lugar em muitos casos gerou relacionamentos com pouco convívio. Conseqüentemente, pouco diálogo. Conseqüentemente, pouca manifestação verbal e gratuita de amor. [Aqui vale só registrar a força que minha mãe, mulher de fibra e rara inteligência emocional, sempre teve de segurar as pontas, compreender e preencher essa falta de um modo que até hoje não sei explicar]. Em muitos casos, esse sentimento existe, mas de forma velada e silenciosa.
Mas a vida apronta das suas ironias. Um divórcio e um infarto tornaram minha relação de amor com o meu pai mais explícita e freqüente. Uma separação que aproxima! Já pensou?! Longe de casa, meu pai passou a fazer mais parte das nossas vidas. Foi quando ele apresentou (a mim e ao meu irmão) charutinho de uva, kafta e coalhada seca. Quando assistimos Sociedade dos Poetas Mortos morrendo de chorar. Quando fomos ao parque de diversões e o Vito passou mal de tanto rodar num dos brinquedos. Quando eu, que dizia ser sãopaulina só pra contrariar, assumi minha condição de corinthiana.
Quando senti a força das arquibancadas do Pacaembu pela primeira vez e o Sousa marcou o gol que garantiu a vitória do Timão e (mais que isso!) a minha condição de pé quente, Graças a Deus! Quando meu pai descobriu suas aptidões culinárias e passou a fazer filé com alho e muita manteiga, espaguete ao pesto e outras delícias. Quando ele se empenhou na dura tarefa de me fazer gostar de Pitágoras. Quando começaram nossas idas ao Filé do Morais pra falar de sexo com camisinha e outros assuntos importantes. Feminista convicto, ele me dizia o quanto era importante lutar pela minha emancipação, nunca depender de marido. Falava sobre a importância de investir na carreira. Eu entendi e fiz o meu melhor. Por mim, mas também pra que ele tivesse orgulho da filhota. Depois veio o Cesinha pra unir ainda mais a gente. Veio a escolha da profissão, depois a faculdade, as primeiras conquistas profissionais. E meu pai estava sempre lá, participando de tudo. Mas ainda assim, faltava olhar nos olhos e dizer: “Eu te amo, meu pai”! E ouvir: “Também te amo, meus filhos”.
Fevereiro de 2005. Meu pai sofre um infarto que compromete boa parte do coração... Vazio.
A possibilidade de perder uma pessoa que a gente ama muito tem um poder transformador. De repente, como um tapa na cara, me dei conta do tempo perdido, da palavra incompleta, de tanto amor abafado por ressentimentos estúpidos. Meu pai, meu herói de voz grave e olhos grandes, que sobreviveu às torturas mais cruéis, capaz de nadar grandes distâncias sem tomar fôlego... de repente mostrava sua condição de humano, sua fragilidade.
Mas Deus caprichosamente nos deu uma segunda chance. E eu agarrei essa chance com todas as forças. Todos nós. Fizemos um pacto pela vida e também pelo amor. Porque amor precisa, sim, ser declarado. Superlativamente declarado.
Eu te amo, meu pai, por sua trajetória de vida, pela opção de luta que fez, pelas relações que construiu nessa caminhada, pela sua humanidade, pelos seus ensinamentos, por ter nos feito pessoas de bem, pelo homem que você é. E por tanto mais, que vou precisar de muito mais tempo para agradecer. Entendo que lá atrás (e hoje, inclusive) havia um mundo melhor a construir, uma sociedade mais justa e igualitária. Era e ainda é a herança que você nobremente escolheu deixar para os seus filhos. Para todos os homens e mulheres.
Ainda tem muito da sua experiência de vida que eu e meus irmãos precisamos absorver. E tem muito que queremos lhe oferecer também. Os netos, por exemplo! Quero que eles tenham um avô Castanha, tal qual eu tive a honra de ter. E eles terão um tio César também! É o ciclo da vida. Vida, meu pai. Vida que a gente às vezes demora pra perceber o quanto é preciosa. Mas quando descobre, é como encontrar um tesouro.
Te amo profundamente.

A fala do meu filhote Vito
Minha história, praticamente desde a gestação, sempre foi marcada pela palavra Saudade. Aos três meses de idade tive que mudar para São Paulo com minha família, por conta das difíceis circunstâncias do final dos anos 70.
Cada ano que passava me deixava mais graduado nessa “Escola da Saudade”. Hoje posso dizer que sou Doutor nessa matéria.
Minha infância foi marcada pelas longas férias de final de ano, sempre com a presença muito forte do velho Castanha e de Cesar – pessoas que tinham douçura, amor e alegria ímpares.
A vida nos tirou o velho Castanha e o tio Cesar de uma forma muito rápida e sofrida. Sempre que olhava para o passado pra relembrar o avô e o tio me vinham dois sentimentos: a conhecida Saudade e a Tristeza. A primeira delas sei conviver bem e nem preciso explicar por quê... mas a segunda sempre me incomodou bastante.
Fico triste por não ter tido quem sabe a oportunidade de fazê-los saber de cada milímetro do meu Amor... triste por eles não terem tido a oportunidade de me ver como Homem e se orgulharem de mim... ficava triste por pensar que talvez não pudesse encontrar em outra pessoa tanto amor, tanta douçura e alegria como tinha com eles. Era neles que eu espelhava tudo o que eu esperava de um Pai – ossos do “ofício” de ter um Pai revolucionário e muito ocupado.
O divórcio incrivelmente me aproximou deste Carlúcio Castanha; e com isso quantas foram as longas conversas sobre a vida, quantos abraços intermináveis a cada gol do Timão, quantos finais de semana com macarrão de primeira qualidade, carteado, filmes (você sempre dormia nos primeiros 5 minutos), quantas horas com o Cesinha ainda bem pequeno dormindo na rede comigo, quanto estudo para o vestibulinho, escola técnica e vestibular na mesa da sua sala... quanta relação verdadeira de Pai e Filho que tivemos sem nem perceber? Mas isso ainda era pouco para o tamanho do nosso Amor – a palavra ainda estava incompleta...
O tempo passou e há dois anos, quando me passou pela cabeça a possibilidade de perder você, meu Pai, meu mundo girou. Tive novamente a sensação de, quem sabe, não ter a chance de te mostrar o meu Amor e mais uma vez carregar essa tristeza para o resto dos meus dias. Tudo isso me fez ter uma mudança de atitude e de postura diante da vida; e busquei por auto-conhecimento – com isso a nossa relação mudou.
Nesses dois anos quantas foram as oportunidades em que declaramos todo o Amor que temos um pelo outro? Quantos e-mails, quantos telefonemas, quanto olho-no-olho, meu Pai? É a palavra que faltava que finalmente apareceu!... Isso não fez com que a gente se amasse mais, porém trouxe toda a diferença e acabou com qualquer pendência que ainda tínhamos.
Hoje, e cada dia mais, fico muito feliz em ter te escolhido, meu Pai... pois descobri em você novamente a douçura, o Amor e a alegria que pensava ter perdido junto com Cesar e o velho Castanha.
Temos uma missão muito bonita nesse mundo, Pai, e te prometo que ainda vou te fazer orgulhar muito mais de mim... quero te dar um neto e, ao seu exemplo, quero abraçar essa criança e fazê-la sentir a mesma energia de quando nos abraçamos.
Te amo por toda a eternidade.

***

Meu irmão Cesar
Nós éramos cinco irmãos: Emília, eu, Eriluce, Eva e Cesar, o caçula. A vida vai nos levando para caminhos distantes, mas a nossa relação preserva os valores que aprendemos desde a infância, com Seu Castanha e Dona Erival. Esses valores estão consolidados porque foram transmitidos pelo verbo: Não roubar! E principalmente pelo exemplo, porque foram praticados diariamente, com uma retidão de coerência exemplar.
Quero homenagear as minhas irmãs em memória ao nosso irmão caçula César, que nos deixou em 1990. E como disse Vito, ficou uma enorme saudade.
Cesar era o tio que todo sobrinho gostaria de ter. Cheio de amor pra dar, disponibilidade total. E cada sobrinho guardava com ele uma cumplicidade particular. Generoso, hospitaleiro, com um coração enorme no limite da ingenuidade.
Cesar, meu querido irmão, o nosso diálogo foi cortado bruscamente, justo quando nós começamos a falar mais profundamente um do outro, nas dunas de areia da praia do Pina. E agora a palavra que faltou não pode ser mais dita. É terrível meu irmão. É imperdoável...

Clara Mulher, Amante, Companheira

Vou falar da paixão, mas, antes me permitam falar da Mulher...
Nós os homens, temos uma dívida histórica com as mulheres. Elas não nos devem nada do seu doloroso processo de emancipação. E ainda contabilizam um alarmante número de violência, estupro e morte. Minha consciência não permite me colocar como inocente diante desse quadro. Quero me desculpar de todas as indiferenças, as distrações, as insensibilidades e as desatenções durante esses 18 anos de convivência com você Clara. Chico Buarque já alertava:

E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
E como militante de esquerda tenho que responder por séculos de opressão sobre todas as mulheres.
Em 1969 aprendi uma lição com as tecelãs da fábrica da Macaxeira. Meu trabalho militante de aproximação, conscientização e nucleação, por várias razões era restrito basicamente aos companheiros. A fábrica estava de gerente novo e, como sempre, para se afirmar, o gerente novo baixa um conjunto de regras disciplinares. As tecelãs só tinham meia hora de almoço. Quando apitava, a porta já devia estar aberta e alguém da família já estava esperando com a marmita quentinha.Foi quando o gerente novo resolveu enfiar um cadeado naquela enorme porta de duas folhas, com ordem de só abrir após o apito.
Deparei-me com uma cena impressionante: aproximadamente 80 mulheres tecelãs enfrentando o temível déspota, dedo em riste, enfiado no nariz daquele gerente, que por sua vez, recuou até a parede. Sua fragilidade estava expressa nos lábios trêmulos e olhos de pavor, frente à fúria das tecelãs. Elas gritavam todas ao mesmo tempo. Mas o caráter de classe daquele discurso coletivo, com frases completadas, com o cotidiano de mãe, estou certo que nenhum companheiro militante era capaz de fazer.
Em um minuto o cadeado daquela porta rebentou. Essas companheiras tecelãs erguem a cabeça, tinham um brilho nos olhos, áurea e passos fortes da classe operária vitoriosa.
Dessa data em diante mudei radicalmente minha concepção. Compreendi que não existe revolução que não passe pelas mulheres.

Para falar de nossa paixão, recorri ao baú (nós também temos um). Escolhi uma poesia que se refere ao carnaval de 89 na Praça Castro Alves em Salvador e um pedaço da carta que escrevi em julho de 91.
Lua Nascendo,
Lua Clareando,
Lua Clara...
A opressão milenar explode em violência
Se mistura a liberdade, que é dona da hora, do corpo e da rua
Resgatando Zumbi...
A magia do ritmo toma conta de homens e mulheres que loucamente dançam.
No centro da praça uma “LUA NASCENDO”, cheia de viço, úmida de amor.
Morde, roça e dança até a explosão que encharca seu sexo.
Numa platéia de Deuses de Ébano e a cumplicidade do poeta que é o dono da praça,
Ardemos na paixão desse carnaval...
A carta completa a dimensão dessa relação vivida intensamente nesses 18 anos:
...sou partidário da opinião de que o amor, a relação pessoal, a paixão entre um homem e uma mulher não se coloca em divórcio com o compromisso com a humanidade, com a emancipação dos povos, com a revolução. Pelo contrário! O revolucionário é tanto mais revolucionário quanto mais inteiro, mais feliz se colocar na causa da revolução.
E sem dúvida será cada vez melhor amante quanto mais profunda for sua compreensão da revolução, na perspectiva da emancipação da humanidade toda, na busca da construção do homem novo...
...só um processo libertário, na construção incessante do nosso sonho da nossa utopia, é possível realizar relações entre um homem e uma mulher, que rompam com a falsa moral burguesa (hipócrita), que rompam com todos os preconceitos, que se libertem da relação possessiva, que sejam realmente emancipadoras.
Clara vive o prazer sem nenhum sentimento de culpa. É Reichiana, movida à “energia orgone cósmica” e, por acréscimo, ainda tem Rosa Luxemburg como referência de mulher.


Como presente de casamento, quero lhe dar o que toda mulher gostaria de ter no seu amante: a sensibilidade da alma feminina de Chico Buarque de Holanda (Eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz...) e a paixão de Vinicius de Morais.
Soneto da Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
 
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure
 
 
 
***
A MILITÂNCIA
Li o Manifesto Comunista com 15 anos. Foi Zeca (José de Calazans) que me passou. Nós estávamos reerguendo o grêmio da escola. Tarcísio era o presidente, Zeca o secretário geral e eu o tesoureiro. Quando terminei a leitura, conclui que a mensagem do manifesto não era muito própria para Zeca, e sim para mim. Ele andava de camisa de helanca e tinha bicicleta. As atividades do grêmio se restringiam a eventos esportivos e culturais. Dois anos depois veio o golpe e a nossa juventude vai se transformando numa velocidade enorme. Os jovens iam se organizando nos grupos de juventude, os “grupões”, com o apoio da igreja progressista.
O Grupo de Juventude de Brasília e Pina
Com o apoio dos Padres Oblatos da Igreja de Brasília Teimosa, fundamos o JUBRAPI (Juventude Unida de Brasília e Pina). Que turma boa! Hélcio, Heber, Jair, Gonzaga, Graça, Cristina, Zezé, Mirian, Mirtes, Valdete, Dinorá, Odir, Milton Banana, Valmir, Eva, Conceição, Osnir Edmilda, Berto, Nelson, Jerônimo, Marcos Pompeia e outros tantos nomes que me fogem da memória. Brasília Teimosa era terra fértil para plantarmos as sementes de nossa utopia. A paróquia era dirigida por padre Jaime (um bom americano do Norte), um lutador incansável com grande liderança no bairro. Padre Jaime nos deu total autonomia e as atividades do grupo tomavam conta de todo nosso tempo livre. Fazíamos reunião no galpão atrás da Igreja, tínhamos a nossa disposição um mimeógrafo a tinta, onde imprimíamos o nosso jornal. Líamos e discutíamos tudo (Lebret, Teilhard Chardin, Sócrates, Platão, Leo Huberman). E declamávamos os poetas Castro Alves, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto, Brecht, Neruda. O grupo de teatro Evolução, dirigido por Hélcio de Matos, fez um grande sucesso, com a peça “operário em construção”, com a honra de se apresentar no congresso Nacional da JOC.
No JUBRAPI o crescimento das pessoas – de cada um, na superação de limites e dificuldades, sua emancipação – era o valor que unia o grupo. A palavra era instrumento desse crescimento e nós tínhamos ouvidos para ouvi-la. Ficamos definitivamente entrelaçados pelas esperanças e frustrações, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, pelas dúvidas e certezas e principalmente pelos sonhos daqueles jovens. Assim amadureceu minha concepção de Homem e de Mundo.


A ditadura recrudescia. Rápido me deparei com a questão da Revolução Brasileira. Fiz um giro de 180º. Meu velho (era assim que o chamava) alimentava o sonho que de ter um filho engenheiro e eu decidi ser operário de fábrica. Pobre do meu velho ficou inconformado, fizera tanto sacrifício para me educar e não entendia, não podia entender a minha opção. Para completar a perplexidade do meu pai, saí de casa e fui morar com um grupo de companheiros num barraco em Santo Amaro. Conciliava meu engajamento político na tarefa da Revolução Brasileira com a opção de ser um profeta. Com a missão de interpretar os sinais do seu tempo e realizar os desígnios de Deus na construção do novo Céu e da nova Terra. Juntei-me a um grupo de ex-seminaristas (Ribamar, Célio, João Francisco e Ivair) acompanhados por Dom Marcelo Cavalheira.
Através do meu querido e saudoso irmão e companheiro Ivair Gabriel Barreto, entrei na AP (Ação Popular). A primeira tarefa: eu, Ivair, Socorro Abreu, Nascimento, Antônio Vieira, Custódio, Arnaldo “O Gordo” recebemos uma incumbência da direção: distribuir um panfleto na troca de turno das 22 horas na fábrica da Macaxeira. O objetivo do panfleto era o de apoiar a luta de resistência dos tecelões e tecelãs que não abriam mão da sua estabilidade (após dez anos de contrato de trabalho) para aderir ao FGTS. Como represália, a direção da empresa confinou esses companheiros num salão batizado de “museu”, em referência a depósito de velhos.
A tarefa era completa: escrever o texto, imprimir os panfletos, organizar a distribuição, cuidar do esquema de segurança e organizar a retirada. Só após a confirmação de que todos estavam bem e que não houve nenhum problema de segurança, podíamos comemorar nossa vitória. Dependia da avaliação do momento, feita pelos dirigentes que estavam cobrindo nossa ação, se haveria discurso ou não. Ivair me comunicou: você foi escolhido para falar três minutos para aquele grupo de operários que se aglomeravam no portão de entrada. Me dirigi ao grupo, enchi o pulmão e soltei a palavra (...). Ao final se aproximou um camarada magricela (parecia um caniço meio torto) para me cumprimentar. Era o camarada Zé.
Assim se tecia o nosso crescimento, na medida em que assumíamos responsabilidade, íamos consolidando a nossa formação política. O Camarada Zé assumiu diretamente o acompanhamento da minha formação. Estudava com ele dialética, materialismo histórico, textos de Lênin e não faltava o livro vermelho Citações do Presidente Mao Tsé-tung. Ele me aguardava na parada de ônibus em frente ao portão de saída da fábrica da Torre, empresa de 3.500 operários, onde eu trabalhava de serralheiro na oficina mecânica. Daí, batíamos pernas pelas ruas e becos da cidade discutindo esses textos, com o objetivo de encontrar neles as justificativas para definição do caráter da sociedade brasileira e, conseqüentemente, o caráter da Revolução.

O TRABALHO

A minha primeira experiência de trabalho foi na fábrica. Vivi profundamente, em cada fábrica que trabalhei, a essência do trabalho em todas as suas dimensões: ● a relação direta com a transformação da natureza (matéria-prima em produto), agregando valor, produzindo riqueza; as relações de trabalho, com suas duas faces ou seus dois extremos: a face determinada pelo modo de produção capitalista com base na exploração e opressão, através do despotismo asfixiante conduzido pela mão de ferro do capataz. E a face das relações construídas a partir da solidariedade e a consciência de uma identidade de classe que ia se tecendo diariamente na fábrica. O trabalho me enchia de dignidade.
Sem o seu trabalho o homem não tem honra
Sem a sua honra, se morre, se mata
Saudoso Gonzaguinha.
Cada peça que produzia, cada máquina que consertava, tinha que fazê-lo bem feito. A minha relação com o trabalho é antes de tudo a relação do homem frente à necessidade de transformar a natureza para sua sobrevivência. Está acima do percalço da exploração capitalista. Além do que ser um bom profissional era condição para ganhar o respeito dos companheiros. E conseqüentemente ganhava autoridade para fazer a luta coletiva de resistência à exploração capitalista, organizando os melhores da classe no engajamento da luta revolucionária.

AS PRISÕES
Aprendi que a revolução era o último estágio da luta de classes. Assim como um revolucionário preso diante do seu torturador está vivendo o último estágio da luta ideológica. Esta compreensão foi a armadura com que enfrentei minhas prisões. A consciência de que estava lutando a mais ferrenha das lutas ideológicas me dava uma força enorme.
Para os torturadores, a meta, o objetivo final, não se tratava apenas de obter meia dúzia de informações que levasse a outras prisões e conseqüentemente fossem desmantelandas as organizações de esquerda que combatiam a ditadura. O objetivo maior dos capitães, coronéis e generais formados na escola superior de guerra – que comandaram a tortura em nome da “segurança nacional” – era o de se apoderar da nossa alma: aprisioná-la, escravizá-la, confundi-la, atormentá-la. O objetivo era o de destruir o nosso sonho, a nossa utopia. Quebrar nossa convicção socialista e destruir todos os valores que alicerçavam nossa ideologia. É isso que justifica o martírio de Frei Tito, mesmo depois da morte de Carlos Maringuela. Era isso que estava em jogo em cada pergunta, seguida do choque elétrico ou de outras formas de tortura. Por isso o silêncio era a nossa resposta.
Esta era a luta!
E para muitos de nós foi a luta final.

Quero prestar minha homenagem a todos os companheiros e companheiras que deram a sua vida na luta pela emancipação do povo. Esses homens e mulheres venceram a luta final! Mantiveram livre a sua alma revolucionária, preservaram os sonhos, a utopia, a convicção socialista que acalentou suas juventudes.
Tive o privilégio de conviver com alguns desses companheiros. Com Eduardo Collier e Fernando Santa Cruz nos encontros dos grupos de juventude (grupões). Com padre Antônio Henrique nas celebrações de sábado na Rua do Giriquiti. Na “liturgia da palavra”, padre Henrique fazia questão de mostrar o radicalismo contido nas palavras duras dos Profetas quando denunciava a opressão sobre os pobres. Com Raimundo Gonçalves Figueiredo (companheiro “Marcos”), que fez o meu treinamento de tiro nas matas de Paulista.

Sou testemunha da morte de Gildo Macedo e Zé Carlos da Mata Machado, quando estive preso no DOI-CODI de Recife, em outubro de 1973. Mata Machado chegou ao DOI-CODI na quarta-feira, 25 de outubro. Foi levado direto para sala de interrogatório, onde foi sacrificado com Gildo Macedo. A sala de tortura cheirava mal. É comum o torturado evacuar quando está pendurado no pau-de-arara, além do cheiro forte de sangue e vômito. Eles lavavam tudo com creolina e o resultado era um cheiro horrível. Os gritos dos companheiros vararam a madrugada do dia 26 até mudar de tom.
Na madrugada do dia 27, fui levado para interrogatório, como sempre, com os olhos vendados por uma borracha preta de câmera de ar. Ao passar em frente de uma das salas, senti aquele cheiro horrível de sangue e vômito. O carcereiro me guiava pelos ombros e com sarcasmo falou: “cuidado para não pisar no teu companheiro”. Pressenti que alguém agonizava, deitado ao chão, gemia fraco junto com a respiração. No outro dia a noticia da morte de Gildo Machado e Mata Machado se espalhou pelos corredores do DOI-CODI.
Quero saudar todos esses heróis do povo na memória de João Batista Franco Drummond, morto na chacina de 16 de dezembro de 1976, no alto da Lapa em São Paulo, quando participava da reunião do comitê central do PCdoB.
Camarada “Zé”! Meu irmão magricela, você não morreu em vão! A luta do povo avança! Guardo como tesouro os seus ensinamentos: “servir ao povo de todo coração”, como ensinou Mao Tsé-tung, será sempre o guia de minha prática militante.

A REAFIRMAÇÃO DA OPÇÃO PELO SOCIALISMO

O alicerce ideológico
Minha concepção de homem e de mundo está na raiz da minha opção pelo Socialismo. Este texto tentou mostrar momentos, situações, experiências vividas e principalmente as pessoas responsáveis pelos valores que foram sedimentando esta opção, que se embrenhou na minha alma e é o meu compromisso de vida.
Seu Castanha está bem no começo dessa história. Sua capacidade de amar, seu senso de justiça, sua generosidade, sua honestidade, sua solidariedade e principalmente sua coragem foram o exemplo permanentemente presente em cada momento da minha formação.
São muitas estórias pra contar do meu querido velho, que marcam seu exemplo de coragem e dignidade.
Em novembro de 73, logo depois que fui solto, fomos intimados a comparecer ao quartel da polícia do exército em Olinda. Lá estavam os pais (dos presos solteiros) e os respectivos esposos ou esposas (dos presos casados). A reunião oficializava o ato de soltura, porém os responsáveis tinham que assinar uma declaração que o filho fora entregue com todos os seus pertencentes e em pleno gozo de saúde física e mental. Numa sala grande, o coronel Cúrcio Neto (temido comandante do DOI-CODI) dava as ordens a meia dúzia de capitães que faziam o papel de escrivães, datilografando os dados dos presos e a tal declaração para assinatura dos responsáveis. Meu velho recebera do capitão aquele documento acompanhado de uma caneta, respirou fundo e falou alto e grave:
NÃO ASSINO! Meu filho foi barbaramente torturado!”
Fez-se silêncio no salão. Este silêncio percorreu os corredores e ocupou todo o quartel. Alguém ousou desafiar o chefe da tortura em Pernambuco, aquele que ainda tinha nas mãos as marcas do sangue de Gildo e Mata Machado. O coronel, um homem de baixa estatura e gestos rápidos, atravessou o salão quase correndo e ordenou ao capitão:
– Muda os termos, muda os termos...
O gesto de coragem do meu pai foi acompanhado pelos outros responsáveis que também repetiam: “– Não posso assinar!”. E mesmo aqueles que já tinham assinado pediram de volta o documento para que fosse corrigido.
É impossível descrever o que senti diante daquele homem, meu herói. Quanto orgulho. Naquele instante você reluzia vitorioso, meu pai. Me veio a imagem de um gladiador que recolhera na arena seu filho ferido. Na arena, outras vítimas protegidas por seus entes queridos, ainda temiam a fúria sanguinária dos seus algozes, que tinham poder para dizer: “– Voltem todos para jaula!”.
Você também tinha consciência desse perigo e mesmo assim ergue a adaga da justiça diante de “Nero”. Outros guerreiros lhe acompanham no gesto. Aquele gesto transborda a sala do quartel. Como águia, voa sobre as ruas e cidades se somando a outros gestos de resistência. Chegam a Minas Gerais para aplacar a dor de Edgar e Yedda, pais de Mata Machado.
E o coronel derrotado toma ciência que não conseguiu destruir nosso sonho, não conseguiu aprisionar nossa alma.

Qual a perspectiva do capitalismo?
Não é necessário reescrever O Capital ou desenvolver um tratado de análise econômica para identificar o caráter da crise do capitalismo no Brasil e no mundo. E os desdobramentos dessa crise para a vida do povo e das nações. Particularmente para aquelas que estão fora do “G-8”.
Minha abordagem é política. Quero expor sobretudo o caldo ideológico que orienta hoje a política neoliberal ou garante sustentação à sua reprodução.
Para mim, quando se pauta a questão de ser ou não ser Socialista, tem que se perguntar antes: qual a perspectiva de humanidade, de bem estar social, de eqüidade que o capitalismo pode oferecer aos povos? E onde está este projeto? Qual o Partido ou grupo social o defende? Se não respondermos a essas questões, vamos limitar a nossa discussão aos jargões e clichês de sempre. E isso não dá caldo.
A esquerda de um modo geral, o PT e o grande contingente de homens e mulheres socialmente sensíveis – sem comprometimento com os interesses insaciáveis do capital – estão desafiados a enfrentar a discussão do projeto estratégico para o Brasil e a América Latina frente o drama do esgarçamento do tecido social e as oportunidades que o cenário político oferece.
E para que esta discussão produza frutos, se transforme em política e se apóie em base social consistente, organizada, capaz de disputar hegemonia na sociedade, ela tem que aprofundar, nos colocar frente ao espelho. E sem revanchismo, sem caça às bruxas ou sectarismo, temos que ser capazes de chegar ao fundo do poço da crise da esquerda e do PT.

Dois elementos vitais se combinam e se complementam no ápice da exploração e opressão capitalista hoje, de forma concreta e perversa:
  • O modo de produção capitalista – que antes se apropriava da nossa força de trabalho para gerar “mais valia” – hoje se apropria também da nossa capacidade de pensar. E para submeter a nossa força e o nosso cérebro à sanha da corrida incessante pelo lucro, o capitalismo introduziu novas formas de gerenciamento do tipo “toyotismo”, que incorpora os trabalhadores na competição pelos interesses do capital. Conceitos como “competitividade”, “empregabilidade”, “capital humano” foram introduzidos nas relações de trabalho e logo foram adotados como consensuais na sociedade.
  • A outra novidade da exploração capitalista é que todos os valores – inclusive aqueles desfraldados pelo liberalismo republicano, no capitalismo nascente – cederam lugar a um único valor medido pela posição de cada um frente ao mercado. O caminho para o “sucesso” através do individualismo exacerbado é o de “levar vantagem em tudo” em detrimento de qualquer outra coisa, valor ou pessoas.
Assim a relação entre as pessoas corre nos trilhos de uma ideologia de tal forma massificada, que quem pensar diferente entra no rol dos ingênuos ou otários, desprovidos da ambição pelo sucesso...
Neste vazio de valores, tudo se justifica. Da corrupção ao crime organizado. Que outro motivo explicaria as razões que levaram aquela moça de São Paulo a encomendar a morte da colega para ocupar o seu lugar no trabalho? A sociedade está contaminada. Este é o drama! O que mais o capitalismo, na sua forma neoliberal, tem para oferecer à humanidade?
A violência se espraia...
Cresce a xenofobia, o preconceito, a intolerância, o fanatismo religioso e as diferenças étnicas se transformam em guerras fratricidas...
Aumenta em progressão geométrica o fosso entre ricos e pobres e cresce a fome e a miséria, furtando a dignidade de pessoas e Nações.
Cresce a associação do capital com o crime organizado, como retorno mais rápido e muito mais robusto dos seus investimentos.
A agressão ao meio ambiente, na corrida pelo lucro, já ameaça o futuro da humanidade...
Os Estados, subordinados ao “Deus Mercado”, estão tolhidos à condição de Estado mínimo. Impedidos de exercer o papel de indutores do Desenvolvimento Econômico.
A volatilidade e liberdade com que o capital financeiro (especulativo) transita, devorando economias no mundo inteiro, ou quando impõe subordinação e entrava o crescimento em vários países.
Por último, o mundo assiste impotente a insana política belicista do Pentágono, que transgride a autodeterminação dos Povos e Nações, justificada por falsificações grotescas para satisfazer os interesses políticos e econômicos do império capitalista.

***
Ser socialista hoje
Ser Socialista é, antes, adotar um modo de vida. A história nos desafia para resgatarmos os valores fundastes da esquerda: a solidariedade, o companheirismo, a lealdade, a justiça, a indignação com a iniqüidade e miséria humana. Propagandear esses valores, tê-los como referência e critério de nossa ação política e sobretudo vivenciá-los na nossa prática diária é pressuposto político/ideológico imprescindível ao militante socialista. Esta é a tarefa que o momento atual coloca para homens e mulheres que continuam lutando pela emancipação do nosso Povo, embalados pelo sonho de uma sociedade socialista.
Não se trata de nenhum voto religioso ou atitude monacal. E sim de uma opção ideológica estratégica para construção do Socialismo. No cenário pós “consenso de Washington”, o resgate desses valores são essencialmente políticos, de combate frontal ao neoliberalismo.

Servir ao povo de todo coração
A palavra de ordem do presidente Mao Tsé-tung é o motor do ideário Socialista. Sem amor ao povo não existe firmeza ideológica que se sustente frente aos “encantos da burguesia”. As expectativas de riqueza e poder, a ostentação do luxo, a corrupção como instrumento de acumulação e realização de projetos pessoais são apelos cotidianos, respaldados pela idéia de “levar vantagem em tudo” a caminho do sucesso.
Identidade de classe não se compra no mercado. Ou você tem ou não tem. Ou a miséria humana lhe enche de indignação ou você é indiferente. E aqui não basta a sensibilidade do sociólogo. Não para o Socialista! Para nós, a razão de ser da nossa existência está visceralmente comprometida com a luta pela emancipação do nosso povo, pelo fim de toda forma de exploração e opressão, pela realização da nossa utopia, por um mundo de homens e mulheres livres.

A prática é o critério da verdade
O Socialismo não pode ser concebido como algo longínquo, na linha do horizonte, a ser conquistado um dia a partir da tomada de poder pelo proletariado. Ou você vive o socialismo hoje, a partir das relações construídas, da coerência de sua prática política com o projeto e ideário Socialista ou não existe Socialismo. Não com a sua contribuição!
“A prática como critério da verdade” é outro ensinamento de Mao Tsé-tung que permanece atual (principalmente quando estamos ocupando o lugar de gestor público). A coerência é o principal indicador da justeza de nossa ação. Declarar-se Socialista sem coerência na prática soa como jargão. E sequer serve como elemento de propaganda do Socialismo. Pelo contrário! Vulgariza-o frente ao povo e à sociedade. Transforma-se em instrumento de antipropaganda do Socialismo.

Sou Socialista:
Não dá para enfrentar a ameaça que paira sobre o futuro da humanidade, a crise de valores e a desgraça que avança com o esgarçamento do tecido social, desconsiderando o forte caráter de classe que esses problemas carregam.
Por isso, inconformado com a miséria humana, solidário a todos os explorados e oprimidos do Brasil e do mundo, reafirmo o meu compromisso com o Socialismo hoje. É o presente que eu quero dividir com meus camaradas e amigos na comemoração dos meus 60 anos.

Carlúcio Castanha – verão de 2007
O último discurso
(O Grande Ditador)
Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... Levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... Um apelo à fraternidade universal... À união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... Milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... Vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... Que vos desprezam... Que vos escravizam... Que arregimentam as vossas vidas... Que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!