sábado, setembro 01, 2007

COMO PENSAM OS BRASILEIROS: UMA PESQUISA QUE GEROU POLÊMICAS

Comentário Moisés Basílio: A recente pesquisa, denominada Pesquisa Social Brasileira, produzida pelo núcleo Datauff – Universidade Federal Fluminense, e publicada em livro, foi alvo de amplo debate e polêmicas na mídia impressa e visual – entre outros, o coordenador da pesquisa participou do programa da TV Cultura, Roda Viva - nos últimos dias. Entre as várias leituras sobre os resultados da pesquisa, selecionei dois, como contrapontos. De um lado, a crônica do Luís Fernando Veríssimo, de outro, a reportagem da revista Veja. Como não tive acesso aos dados da pesquisa e não li o livro, reservo-me o direito de não emitir uma opinião no momento.
O que é Pesquisa Social Brasileira Fonte:www.uff.br/datauff/PESB.htm

A PESB é uma pesquisa domiciliar, probabilística e nacional, de acompanhamento dos valores, atitudes e opiniões da sociedade brasileira, incluindo relações raciais, religião, cultura, política, violência, comportamento sexual, direito civil e desigualdade social, entre outros temas. O survey será anual e conta com o apoio de Fundação Ford que destinou US$300 mil, para as duas primeiras rodadas de pesquisa. O estudo será iniciado em maio.

O acompanhamento temporal de atitudes e opiniões da população brasileira pode contribuir muito para a compreensão de mudanças políticas, sociais e culturais do país. No entanto, não existe ainda no Brasil pesquisas de opinião nesse sentido. Nenhuma instituição universitária ou acadêmica realiza surveys nacionais anuais.

A PESB segue os padrões do GSS (General Social Survey), que é realizado anualmente nos EUA pela Norc (National Opinion Research Center), da Universidade de Chicago.

Em abril foi realizado o Seminário Internacional Surveys e Ciências Sociais: Contribuições para a Pesquisa Social Brasileira (PESB) com o objetivo de colher experiências de instituições e pesquisadores do Brasil e de outros países em pesquisas semelhantes à PESB.


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo – quinta-feira – 31/08/2007

Fora povo! Autor: Luis Fernando Veríssimo

Pesquisa recente concluiu que a elite brasileira é mais moderna, ética, tolerante e inteligente do que o resto da população. Nossa elite, tão atacada através dos tempos, pode se sentir desagravada com o resultado do estudo, embora este tenha sido até modesto nas suas conclusões. Faltou dizer que além das suas outras virtudes a elite brasileira é mais bem vestida do que as classes inferiores, tem melhor gosto e melhor educação, é melhor companhia em acontecimentos sociais é incomparavelmente mais saudável. E que dentes!

A pesquisa reforça uma tese que tenho há anos segundo a qual o Brasil, para dar certo, precisa trocar de povo. Esse que está aí é de péssima qualidade. Não sei qual seria a solução. Talvez alguma forma de terceirização, substituindo-se o que existe por algo mais escandinavo. As campanhas assistencialistas que tentam melhorar a qualidade do povo atual só a pioram, pois se por um lado não ajudam muito, pelo outro o encorajam a continuar existindo. E pior, se multiplicando. Do que adianta botar comida no prato do povo e não ensinar a correta colocação dos talheres, ou a escolha de tópicos interessantes para comentar durante a refeição? Tente levar o povo a um restaurante da moda e prepare-se para um vexame. O povo brasileiro só envergonha a sua elite.

Se não tivéssemos um povo tão inferior, nossos índices sociais e de desenvolvimento seriam outros. Estaríamos no Primeiro Mundo em vez de empatados com Botswana. São, sabidamente, as estatísticas de subemprego, sub-habitação e outros maus hábitos do povo que nos fazem passar vergonha.

Que contraste com a elite. Jamais se verá alguém da elite brigando e fazendo um papelão numa fila do SUS como o povo, por exemplo. Mas o que fazer? Elegância e discrição não se ensina. Classe você tem ou não tem. Mas o contraste é chocante, mesmo assim. Esse povo, decididamente, não serve.

Se ao menos as bolsas-família fossem Vuitton...



Fonte: Revista Veja - Edição
Edição 2022 - 22 de agosto de 2007
Como pensam os brasileiros

Um livro prova que, ao contrário do que propalam os
esquerdistas, a elite nacional é o farol da modernidade

Ronaldo França


Marcos Issa/Argosfoto
Alberto Carlos Almeida: entrevistas para mapear a ética e as concepções de país dos cidadãos de diferentes níveis


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
Quadro: Uma questão à flor da pele

A julgar pelo que se lê nos jornais e se ouve nas salas de aula das universidades, o Brasil conta com uma elite retrógrada, de valores quase medievais, empenhada em obter toda sorte de privilégios do estado e em explorar a massa trabalhadora. Essa elite seria tão daninha que qualquer movimento de protesto originado nela, como o "Cansei", já nasceria marcado pela ilegitimidade. Segundo os arautos desse ponto de vista, em posição antípoda estaria um povo de valores imaculados, dono de uma sabedoria e um senso de justiça naturais e pronto a redimir o país de séculos de iniqüidade. Basta um pouco de distanciamento para ver que se trata de um maniqueísmo tolo, típico da rasa cachola esquerdista brasileira. Elite é muito mais do que sinônimo de "rico". Como registram os dicionários, é uma palavra de origem francesa que significa "o que há de melhor numa sociedade ou grupo". Dela fazem parte profissionais liberais, cientistas, atletas, empresários, políticos (não todos, infelizmente). Só uma nação que conta com uma elite com iniciativa, energia criadora, conhecimento avançado e valores democráticos tem chance de desenvolver-se. É por meio de suas ações e de seu exemplo que o conjunto da população termina ascendendo também, tanto no plano educacional e cultural como no profissional. Isso está longe de ser teoria romântica. É fato verificável no bloco dos países que hoje compõem o clube dos desenvolvidos.

Ao deixar de lado os estereótipos falidos, é possível verificar que a realidade brasileira estampa feições que costumam passar despercebidas. Uma prova disso emerge da leitura de A Cabeça do Brasileiro (Record; 280 páginas; 42 reais), do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que chega às livrarias nesta semana. O livro traz os resultados da Pesquisa Social Brasileira, um levantamento no qual se investigaram os principais valores presentes no cotidiano social, econômico e político nacional. Enfim, o que se pode denominar de "o pensamento do brasileiro". O que se tem ali é uma radiografia de nitidez impressionante, que afirma principalmente como o papel da elite na construção de um Brasil moderno é crucial. A parcela mais educada da população é menos preconceituosa, menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos. Se todas as pessoas em idade escolar estivessem em sala de aula hoje, a pleno vapor, o Brasil acordaria uma nação moderna no dia 1º de janeiro de 2025 – depois de um ciclo completo de educação. Os brasileiros passariam a ter baixíssima tolerância à corrupção e esperariam menos benesses de um estado protetor. Funcionários públicos ineficientes e aproveitadores seriam uma raça em extinção. Os cidadãos lutariam mais por seu futuro, em vez de se entregar distraidamente à loteria do destino. Nesse país, as pessoas de qualquer credo ou classe social se veriam como portadoras de direitos iguais. As diferenças sexuais seriam mais respeitadas. Provavelmente pouquíssimos endossariam a frase estampada no alto da página 87 – "Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio".

A Pesquisa Social Brasileira foi realizada pelo instituto DataUff (Universidade Federal Fluminense) e financiada pela Fundação Ford. Foram ouvidas 2.363 pessoas, em 102 municípios. Coordenador do trabalho, Almeida optou pela mesma metodologia utilizada pela General Social Survey, a maior pesquisa social dos Estados Unidos, realizada a cada dois anos, desde 1972, pela Universidade de Chicago. O levantamento expressa a opinião dos brasileiros sobre diversos temas. Não pretende, é importante ressaltar, revelar como agem. A pesquisa é sobretudo a respeito da ética nacional ou das várias éticas que convivem no interior do país. Pegue-se o exemplo do "jeitinho". A maioria esmagadora da população já lançou mão dele para resolver problemas. De acordo com Almeida, essa parcela equivale a dois terços da população. Mas ele não é aprovado na mesma proporção quando se leva em conta o grau de escolaridade. O "jeitinho" é chancelado como algo válido por quase 60% dos analfabetos. Entre os que têm nível superior, porém, esse índice cai praticamente à metade. Essas discrepâncias também se revelam grandes quanto a outros temas. No universo dos que têm pouca ou nenhuma educação, a taxa dos que aprovam a violência policial oscila entre 40% e 50%. Já a dos que a desaprovam entre os mais escolarizados chega a 86%.

A pesquisa se ocupou, ainda, de um aspecto bastante danoso da vida nacional, o patrimonialismo. Ele não é uma invenção brasileira, como os impostos provisórios eternos. Quem melhor o investigou foi o sociólogo alemão Max Weber, que inspirou gerações de estudiosos. No Brasil, surgiu como forma de organização social no século XVI, com as grandes concessões de terra, as capitanias hereditárias. E por aqui fincou raízes fortes. Uma das conseqüências do patrimonialismo é a confusão entre o público e o privado. A pesquisa de Almeida mediu-a por meio da frase "Cada um deve cuidar somente do que é seu, e o governo cuida do que é público". Ela obteve a concordância de 74% dos que foram ouvidos. Quando se analisa esse mesmo dado à luz da escolaridade, contudo, vê-se a falta que a sala de aula faz. No universo dos analfabetos, 80% não conseguem enxergar o papel do cidadão no cuidado com a coisa pública. Entre os que têm nível superior, o porcentual diminui para 53%.

"Hoje, a maioria dos brasileiros ainda tem baixa escolarização e, portanto, uma visão mais arcaica da sociedade", afirma Almeida. "Mas é evidente que a educação tornará majoritária no país a parcela da população que tem uma visão mais moderna. O processo é irreversível." A divisão entre arcaico e moderno, embora em desuso por boa parte dos cientistas sociais, é a que define com mais clareza o abismo entre as duas visões de mundo. Para verificar a profundidade dessas diferenças, o autor de A Cabeça do Brasileiro não recorreu a nenhum expediente extraordinário. Apenas aferiu, por meio de perguntas, a indulgência com situações cotidianas. Sua pesquisa tem o poder de iluminar os principais aspectos da vida nacional. Os dados obtidos reforçam o que o imperador dom Pedro II já sabia: sem um esforço para universalizar a educação, a sociedade brasileira continuará patinando material e moralmente. Como nota Almeida, num país mais escolarizado a cena de um Severino Cavalcanti sentado na cadeira de presidente da Câmara dos Deputados nunca teria ocorrido. "Os eleitores de Severino, em sua maioria de baixa escolaridade e residentes em cidades pequenas do interior do Nordeste, tendem a não condenar o comportamento desse político, que defendia abertamente a contratação de parentes", constata o autor.

A corrupção, essa praga tão destruidora quanto a saúva o era nos tempos do ciclo do café, tem o beneplácito da maioria dos iletrados. Isso ficou claro quando se colocou a seguinte pergunta: "Como considerar a atitude do funcionário público que ajuda uma empresa a ganhar um contrato no governo e depois recebe dela um presente de Natal?". Para 80% dos que não sabem ler ou escrever, isso é apenas um "favor" ou um "jeitinho". Para 72% dos que concluíram a universidade, é corrupção e ponto final. Voltando à frase do segundo parágrafo desta reportagem, entre os analfabetos 40% acham que uma pessoa eleita para um cargo público deve usá-lo em benefício próprio. Dos que atravessaram todo o ensino superior, somente 3% pensam assim. O mesmo contraste é percebido quando o tema é a intervenção do estado na economia. Incríveis 90% dos analfabetos acham que o governo deve socorrer empresas em dificuldades. Entre os que têm nível superior, apenas 27% concordam inteiramente com isso e 37% aceitam a atitude em alguns casos. Ainda mais preocupante é a proporção de iletrados que apóiam a censura governamental. Para quase 60% deles, "programas de TV que fazem críticas ao governo devem ser proibidos", contra somente 8% dos que exibem nível superior. Dá para ver de onde os partidários da tentação autoritária tiram seu entusiasmo liberticida.

Um capítulo delicado do livro é o que trata da percepção dos brasileiros em relação à cor da pele. O autor pediu aos entrevistados que atribuíssem qualidades ou defeitos a homens brancos, negros e pardos retratados em fotografias. Aos brancos foram atribuídas mais qualidades positivas, como inteligência, honestidade e modos educados. Os negros ficaram em segundo lugar. Quanto aos pardos, além de ficar atrás no que se refere aos aspectos positivos, eles são mais relacionados a características negativas (veja quadro). Com base nesses dados e em cruzamentos mais específicos, como o que relaciona a cor da pele a profissões de maior ou menor prestígio, com vantagem para os brancos, Almeida refuta a tese de que um dos maiores problemas brasileiros é o preconceito social, e não o racial. Mas talvez seja o contrário: pardos e negros são percebidos de modo mais negativo justamente por continuar a figurar em maior número, por causa de circunstâncias históricas, na base da pirâmide social, onde as oportunidades são menores e a marginalidade é maior. Seja como for, a pesquisa funciona como combustível para uma discussão que precisa continuar.

"A pesquisa que compõe A Cabeça do Brasileiro é algo monumental. Tem o mérito de testar quantitativamente tudo o que nós estudamos. Nunca foi feito algo parecido", diz o antropólogo Roberto DaMatta. É também por meio de trabalhos como esse, com conclusões que fogem aos lugares-comuns e apontam na direção da necessidade de universalizar a educação e acelerar a marcha rumo à modernidade – o que significa uma ampliação da classe média, ou seja, da elite –, que talvez um dia o país possa deixar de caber na seguinte descrição do escritor Paulo Mendes Campos: "Imaginemos um ser humano monstruoso que tivesse a metade da cabeça tomada por um tumor, mas o cérebro funcionando bem; um pulmão sadio, o outro comido pela tísica; um braço ressequido, o outro vigoroso; uma orelha lesada, a outra perfeita; o estômago em ótimas condições, o intestino carcomido de vermes. Esse monstro é o Brasil: falta-lhe alarmantemente o mínimo de uniformidade social".

QUE TIPO DE CABEÇA VOCÊ TEM?

As vinte questões abaixo, elaboradas pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor de A Cabeça do Brasileiro, abordam aspectos ligados ao cotidiano social, econômico e político nacional. Em seu conjunto, as alternativas escolhidas ajudam a traçar o perfil educacional e ideológico de quem se dispuser a fazer o teste


Certo
Errado
1 - Censurar programas de televisão em que apareçam cenas de sexo e violência é uma atribuição do governo

2 - O fornecimento de energia elétrica deveria ser de responsabilidade exclusiva do estado

3 - O sistema bancário deveria ser estatal
4 - Cabe ao governo cuidar do que é público
5 - Nos casos em que a obtenção de um documento é complicada, o melhor a fazer é pedir a ajuda de um amigo que trabalhe no serviço público
6 - De vez em quando, não há nada de mais em passar uma conversa no guarda, para que ele não aplique uma multa
7 - Recorrer ao "jeitinho" brasileiro é uma forma válida de descomplicar a vida
8 - Mesmo que o patrão autorize seu empregado a chamá-lo por "você", o empregado deve continuar a tratá-lo por "senhor"
9 - Empregados devem utilizar sempre o elevador de serviço, ainda que os moradores do edifício não se incomodem que eles usem o elevador social
10 - Lugar de empregada doméstica assistir a TV é no quarto dela ou na cozinha – mesmo que os patrões a convidem a sentar-se na sala
11 - Se alguém se sente incomodado pelo vizinho, o melhor a fazer é não reclamar
12 - Se você dá uma festa em sua própria casa, que se estende pela madrugada, os vizinhos que reclamam do barulho não passam de uns chatos
13 - Só se deve colaborar com o governo quando ele cuida do que é público
14 - É Deus, e só Ele, quem decide o destino humano
15 - Não se pode confiar totalmente nos amigos
16 - É aceitável que, em certas ocasiões, a polícia bata em presos, para obter confissões de crimes
17 - Estupradores merecem ser estuprados na cadeia por outros presos
18 - O governo deve socorrer as empresas privadas em dificuldade
19 - Cabe ao governo controlar os preços de todos os serviços básicos, como transporte, por exemplo
20 - Greves de servidores públicos deveriam ser totalmente proibidas

NÚMERO DE ALTERNATIVAS CONSIDERADAS "ERRADAS"

Resultado

De 16 a 20 errados: você pensa de forma semelhante à maioria dos brasileiros com curso superior completo – acredita que o estado deve ser mínimo e servir à sociedade, não o contrário. No plano pessoal, é pouco hierárquico nas suas relações cotidianas

De 11 a 15 errados: você não pensa exatamente como a maioria dos que têm curso superior, mas tende a pensar como eles

10 errados: seu modo de ver o mundo é dividido: apesar de, em relação a alguns tópicos, raciocinar como os mais ilustrados, você mostra opiniões favoráveis à manutenção de um estado mastodôntico e acha incontornáveis o "jeitinho" brasileiro e determinadas atitudes preconceituosas presentes no dia-a-dia – típicas dos cidadãos com menos escolaridade

De 5 a 9 errados: você se inclina a pensar de uma forma que indica tolerância à corrupção, à desigualdade, ao preconceito e ao estatismo

De 0 a 4 errados: você pensa como aqueles com menor nível de escolaridade. É como se a corrupção, a desigualdade, o preconceito, o fatalismo e o estatismo fossem fatos naturais

Fonte: Alberto Almeida


domingo, agosto 05, 2007

O QUE LER SOBRE DEMOCRACIA

Comentário Moisés Basílio: Augusto de Franco é meu amigo pessoal, como diz o dito popular, de outros carnavais. A vida nos distanciou, mas os meios eletrônicos nos permite manter em sintonia e em rede. Como tenho focado minhas reflexões atuais na temática da democracia e educação, achei interessante incluir este texto, aqui nesse blog. Segue também abaixo o meu comentário, depois de ler o texto, ao site do Augusto, e a resposta dele. Sugiro também a leitura das cartas anteriores para entender o motivo dessa carta. Axé!

Caro Augusto,

Muito interessante esse roteiro de leitura pelo grau de sistematização e foco. Continuo morando e trabalhando aqui na Zona Leste de Sampa, no Sapopemba. Profissionalmente sou professor de ensino fundamental da prefeitura. Nesse ano voltei a estudar, estou fazendo pedagogia na USP. No semestre passado entrei em contato com os pensamentos de Hannah Arendt, John Dewey e Rousseau, que me abriram novas perspectivas de pensar a democracia e a educação, principalmente a educação escolar onde estou atuando profissionalmente e também buscando criar redes locais democráticas de ação que articulem os atores sociais, governamentais e econômicos da região.
Axé,
do "mulato isoneiro",
Moisés Basílio - Enviado por: Moisés Basílio Leal (03/08/2007 01:58)

Salve Moses!
Bom receber notícias suas. Sim, insista com a Johannah Arendt e com o John Dewey. E quando tiver um tempinho leia também alguma coisa do nosso amigo Humberto Maturana Romesin. Grande abraço.

Enviado por: Augusto de Franco (03/08/2007 09:34)

Fonte: Cartas rede Social (clique aqui para ler as outras cartas)
O que ler sobre democracia

Carta Rede Social 142 (19/07/07) - Autor: Augusto de Franco

[Tempo estimado de leitura: 23 minutos]

Para absorver a idéia de democracia no sentido “forte” (ou “a democracia como idéia”, como queria Dewey) – e esta é uma constatação para lamentar, conquanto a afirmação seja polêmica, sobretudo aos olhos dos que gostam de historicizar o conceito de democracia até que dele se esvaia todo o conteúdo substantivo – é necessário mais não-ler do que ler os clássicos.

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Continuo nesta carta com o assunto da alfabetização democrática, iniciado na ‘Carta Rede Social 140’.

Já disse que somos menos analfabetos democráticos em relação à compreensão do funcionamento formal dos nossos atuais sistemas representativos, do que em relação à democracia como modo de regulação de conflitos no quotidiano. Até conseguimos entender razoavelmente a democracia como sistema de governo, mas em geral não admitimos e não praticamos – como queria John Dewey – a democracia como modo-de-vida, no dia-a-dia, na base da sociedade e nas organizações governamentais ou não-governamentais de que participamos.

Ocorre que o conceito de democracia pode ser tomado em dois sentidos: em sentido “fraco” ou em sentido “forte”.

NO SENTIDO “FRACO” DO CONCEITO, democracia se refere atualmente a um tipo de regime – no sentido de sistema de governo ou forma política de administração do Estado – no qual os governantes são escolhidos pelos governados e que atende a certas regras que decorrem dos princípios da liberdade, da publicidade, da eletividade, da rotatividade, da legalidade e da institucionalidade e, como conseqüência de todos esses, da legitimidade.

Liberdade. As regras que decorrem do princípio da liberdade compreendem aquelas que visam assegurar o exercício da liberdade de ir e vir, da liberdade de organização social e política e da liberdade de crença e de expressão (coisas que, por incrível que pareça, ainda não existem em países como China, Coréia do Norte ou Cuba), incluindo a liberdade de imprensa, stricto sensu e latu sensu, o que deve contemplar a existência de diversas fontes alternativas de informação e não apenas uma liberdade formal obstruída na prática pela imposição de dificuldades legais ou burocráticas para a abertura e o funcionamento de meios de comunicação por parte de quem pensa diferente, seja por qual pretexto for. Via de regra as protoditaduras (como a Venezuela atual) e as ditaduras (como as citadas acima) tentam falsificar esse princípio alegando incitamento à desordem ou ameaça à segurança nacional.

Publicidade. As regras que decorrem do princípio da publicidade têm a ver com a transparência necessária (capaz de ensejar uma efetiva accountability) dos atos do governo e a dissolução do segredo dos negócios de Estado (que constitui uma exigência real em circunstâncias que possam ameaçar a segurança da sociedade democrática e o bem-estar dos cidadãos mas que, na maior parte dos casos, sob o pretexto de manter a segurança nacional e a ordem pública, constitui mero pretexto para ocultar procedimentos autocratizantes ou privatizantes).

Eletividade. As regras que decorrem do princípio da eletividade são aquelas que disciplinam, de modo a tornar o mais equânime que for possível (dentro das limitações impostas pelas diferenças de força, riqueza e conhecimento existentes na sociedade em questão), a escolha dos governantes pelos governados, o que compreende o direito de voto para eleger representantes parlamentares e executivos (governamentais) pelo sistema universal, direto e secreto, em eleições livres, periódicas e isentas (limpas), atribuindo-se a todos os cidadãos em condições de legais de votar o igual direito de ser votados (e a exigência adicional de que os cidadãos devam pertencer a partidos é, como se pode ver, um contrabando autocrático que atenta contra a transitividade do princípio da eletividade, mas que ainda vige em boa parte dos regimes democráticos).

Rotatividade. As regras que decorrem do princípio da rotatividade dizem respeito à efetiva possibilidade de alternância no poder entre situação e oposição. Essa questão é chave, como vimos, para distinguir as democracias das autocracias e, inclusive, dos arremedos de democracia (ou seja, das democracias parasitadas por forças autoritárias, aparentemente democráticas, mas que na verdade querem restringi-la ou restringem-na objetivamente, seja por meio de um processo claramente protoditatorial, seja por meio de obscura manipulação política, em geral de natureza populista). Assumir a rotatividade ou a alternância num sentido mais ampliado significa também, como assinalou Felipe González (2007), promover à categoria de princípio “a aceitabilidade da derrota como elemento essencial do funcionamento democrático”.

Legalidade e Institucionalidade. As regras que decorrem dos princípios da legalidade e da institucionalidade têm a ver com a estrutura e o funcionamento do chamado Estado de direito, contemplando a existência e o funcionamento de instituições estáveis, capazes de cumprir papéis democraticamente estabelecidos em lei e protegidas de influências políticas indevidas do governo. Se as leis são descumpridas ou dribladas ou se as instituições são derruídas ou apenas ocupadas, aparelhadas, pervertidas e degeneradas para servir aos propósitos políticos de um grupo privado (instalado dentro ou fora do governo), então o regime democrático corre perigo. Às vezes tal ameaça não é suficiente para colocar em risco o sistema representativo formal, mas – sem qualquer sombra de dúvida – quando isso acontece é sinal de que está havendo um refreamento do processo de democratização da sociedade. Se a lei (democraticamente aprovada) for descumprida e não houver a sanção respectiva, a democracia (tanto no sentido “fraco”, quanto no sentido “forte” do conceito) sempre sofrerá com tal violação, mesmo quando se argumente que a lei é injusta (e ainda que o seja de fato: neste caso, o papel dos democratas é propor a mudança da lei e não o de afrontá-la ou descumpri-la). Mas toda lei democraticamente aprovada é legítima (na medida da legitimidade do processo que a gerou).

Legitimidade. Só é legítimo na democracia (mesmo no sentido “fraco” do conceito) o ator político que respeita – sem tentar falsificar ou manipular – o conjunto das regras que emana dos princípios acima. Mas se, baseado nos votos que obteve ou nos altos índices de popularidade que alcançou, um representante considerar que pode desrespeitar, falsificar ou manipular as regras emanadas desses princípios porque conta para tanto com o apoio da maioria da população, então tal representante deverá ser considerado ilegítimo do ponto de vista da democracia.

NO SENTIDO “FORTE” DO CONCEITO, porém, democracia é mais do que isso. John Dewey (1939), no discurso “Creative Democracy: the task before us” (já traduzido e publicado na ‘Carta Rede Social 134’) no qual lançou sua derradeira contribuição às bases de uma nova teoria normativa da democracia que poderíamos chamar de democracia cooperativa, deixa claro que estava tomando o conceito no seu sentido “forte”. A democracia, para Dewey, não se refere, nem apenas, nem principalmente, ao funcionamento das instituições políticas, mas é “um modo de vida” baseado numa aposta “nas possibilidades da natureza humana”, no “homem comum”, como ele diz, “nas atitudes que os seres humanos revelam em suas mútuas relações, em todos os acontecimentos da vida quotidiana”. Segundo Dewey, a democracia é uma aposta generosa “na capacidade de todas as pessoas para dirigir sua própria vida, livre de toda coerção e imposição por parte dos demais, sempre que estejam dadas as devidas condições”. Esse é sentido “forte” do conceito.

Isso não significa que a democracia, no seu sentido “fraco”, seja menos importante do que no seu sentido “forte”, porquanto a condição para que a democracia no seu sentido “forte” possa se realizar é a existência da democracia no seu sentido “fraco”. Na atualidade, onde não existe um sistema representativo funcionando, em geral também não há práticas realmente participativas, na base da sociedade e no quotidiano do cidadão, que possam ser consideradas como democráticas. Ou, em outras palavras, a chamada “democracia liberal” é condição para o exercício de formas inovadoras de “democracia radical” (como, aliás, já havia reconhecido o próprio Dewey, há mais de setenta anos, quando afirmou que “o princípio fundamental da democracia consiste em que os fins da liberdade e da autonomia para todo indivíduo somente podem ser alcançados empregando-se meios condizentes com esses fins... [mas] não há contradição alguma entre a busca de meios liberais e democráticos combinada com a defesa de fins socialmente radicais”).

Não estamos condenados a conviver eternamente com as formas atuais da democracia formal (representativa), porém não podemos aboli-las em nome de novas formas (supostamente mais participativas) que não assegurem o essencial, o coração mesmo da idéia: a aceitação da legitimidade do outro, a liberdade e a valorização da opinião e o exercício da conversação no espaço público.

Não há nada que impeça os seres humanos de inventar uma nova política democrática, a não ser a sua consciência colonizada por idéias autocráticas. Não existem as tais condições estruturais objetivas para a adoção da democracia, como se supôs no entorno dos anos 70 do século passado. O prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen (1999), matou a charada quando afirmou que a questão não é a de saber se um dado país está preparado para a democracia, mas, antes, de partir da idéia de que qualquer país se prepara através da democracia. A democracia é uma opção. Além disso, a idéia de democracia pode ser materializada de maneiras diferentes.

Se a democracia não pudesse ser reinventada, ela não poderia ter sido inventada. Ao dizer que a política é o que é, não havendo condições de mudar a sua natureza (a relação amigo-inimigo), o realismo político está, na verdade, inoculando uma vacina contra as mudanças políticas democratizantes: está dizendo que a política será sempre o que foi (e sempre como foi). Ora, na maior parte do tempo a política não foi democratizante: apesar da onda democrática mundial do último século, nos últimos seis milênios a democracia não passou de uma experiência localizada, frágil e fugaz. Depois da invenção dos gregos, a tendência que vigorou amplamente foi a da autocratização e não a da democratização. Por isso teve razão mais uma vez Amartya Sen (1999) quando, perguntado sobre qual teria sido o acontecimento mais importante do século 20, respondeu de pronto: a emergência da democracia.

Com efeito, a democracia está avançando, apesar de tudo (ainda que no sentido “fraco” do conceito, mas que é, como vimos, condição para que ela possa ser ensaiada no seu sentido “forte”). No final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, apenas 22 países apresentavam formas de governo democráticas (sendo que todos os demais estavam ainda submetidos a governos totalitários ou autoritários – no sentido de não preencherem aqueles dez requisitos apresentados acima). Sessenta anos depois (em 2005), estimava-se que 117 países já eram democráticos, pelo menos formalmente (atendendo, se não a todos, pelo menos a maior parte daqueles referidos requisitos).

O QUE SE ESCREVEU SOBRE A DEMOCRACIA

Do ponto de vista do conceito “forte” de democracia, é surpreendente o fato de termos tão pouca reflexão acumulada. É claro que mais surpreendente ainda é o fato de, depois da experiência dos gregos, a democracia ter retrocedido, não avançado. E que isso tenha ocorrido tanto na prática quanto na teoria.

Sobre o tema há, por certo, muitas controvérsias. Alguns (como Robert Dahl: 1998) tentam interpretar a República romana como uma versão (latina) da democracia (grega). Mas, ao que tudo indica, não se trata exatamente da mesma coisa porquanto o sistema de governo com participação popular dos romanos não reunia aqueles três atributos – de isonomia, isologia e isegoria – que caracterizavam o funcionamento da comunidade (“koinomia”) política de Atenas e de outras cidades gregas do período democrático (509-322). Se encararmos a democracia, no seu sentido fraco, apenas como sistema de governo (popular) – e não, no seu sentido forte, como sistema de convivência ou modo de vida comunitária que, por meio da política praticada ex parte populis, regula a estrutura e a dinâmica de uma rede social – várias outras experiências surgiram concomitante e posteriormente à experiência dos gregos: Roma (do final do século 6 até meados do século 2), governos locais em cidades italianas (como Florença e Veneza, por exemplo, do início do século 12 até meados do século 14), bem como outras experiências endógenas de governo que admitiam alguma forma de assembléia com participação mais ou menos popular (na Inglaterra, na Escandinávia, nos Países Baixos, na Suiça e em outros pontos ao norte do Mediterrâneo). De qualquer modo, foram experiências insuficientes diante da tendência autocrática predominante. Na melhor das hipóteses, considerando a República romana como uma espécie de democracia, tivemos um interregno autocrático de mil anos (de 130 a. E. C. a 1.100). Na pior hipótese – que, não por acaso, é a mais precisa e a que faz mais sentido – esse intervalo foi de mais de dois mil anos (de 322 a. E. C. até o século 18).

Na teoria, ocorreu o mesmo. Além da falta de experiências suficientes de democracia, também tivemos falta de reflexão teórica sobre o tema. Boa parte da literatura política – inclusive a maior parte dos escritos sobre a democracia – foi fortemente influenciada por idéias autocráticas. Basta ver que, com raras exceções, os mais conhecidos pensadores da política que surgiram desde Platão (e Sócrates, tanto o platônico, quanto o xenofôntico), passando pelos medievais e até pelos contemporâneos de Thomas Hobbes e seus sucessores (nas sete ou oito gerações seguintes), eram contrários à democracia.

Numa lista inquestionável de 50 clássicos da política, do século 5 antes da Era Comum ao final do século 16 (de Platão a Althusius) não se encontra um só pensador democrático. Talvez com a exceção parcial de Aristóteles e do próprio Althusius – posto que não militavam especialmente contra democracia – a totalidade desses pensadores era autocrática.

Quando Spinoza afirmou (em 1670) – contrariando Hobbes – que o fim da política não era a ordem e sim a liberdade, não se fez a luz. Assim como os antecessores de Spinoza (nos dois milênios anteriores) foram contrários à democracia de alguma forma, seus sucessores (nos dois séculos seguintes) quando não se postaram abertamente contra a democracia, puseram-se a relê-la de uma forma que acabou esvaziando o seu conteúdo. Até a segunda metade do século 18 não houve nenhuma leitura decente da democracia grega que tivesse resgatado ou preservado seus pressupostos fundamentais (o seu “gene” ou meme) do ponto de vista do conceito exposto aqui. Na verdade, de Althusius (1603) a Stuart Mill (1861) não conhecemos muito mais do que meia dúzia de pensadores políticos que tivesse, desse ponto de vista, contribuído decisivamente para recuperar e reinterpretar, a luz das condições da modernidade, os elementos fundamentais da democracia dos antigos (a liberdade, a igualdade de proferimento e a valorização da opinião e o exercício da conversação no espaço público).

Dentre os clássicos da política, do século 6 antes da Era Comum até a metade do século 20, quer dizer, dos democratas atenienses até Hannah Arendt, não temos, por incrível que pareça, muita coisa sobre a democracia (no sentido forte do conceito). Embora se possa situar o surgimento da democracia no final do século 6, a partir da reforma de Clístenes (509), os escritos sobre a democracia só vão aparecer realmente no século 5. Ésquilo, em “Os Persas” (472), afirma a liberdade dos atenienses (oposta à servidão daqueles que têm um senhor). Mas é com Eurípedes, em “As Suplicantes” (422), que vai aparecer, pela primeira vez, um conceito mais acabado de democracia (tomando como modelo Atenas, com a descrição de alguns de seus mecanismos, como a assembléia democrática, por exemplo).

Do século 6, portanto, não temos nada, apenas notícias da legislação introduzida por Sólon: conquanto este seja um marco importante para o desenvolvimento ulterior da democracia, não há ainda propriamente uma teoria democrática, senão menções e delineamentos esparsos que surgem nos gêneros literários da história e da tragédia. Fora do mundo grego, há um livro importante que provavelmente surgiu nessa época (ou um pouco antes): o “Tao-te King” de Lao Tzu (c. 604 a. E. C.), mas somente com muito esforço interpretativo (e alguma inspiração) podemos encontrar nas suas páginas um pensamento compatível com a idéia de democracia (conquanto pareça haver de fato alguma coisa bem profunda em Lao Tzu, na medida em que, para ele, a paz é o caminho, tanto em termos individuais quanto coletivos).

Do século 5, temos dois textos que poderiam ser considerados como discursos políticos, ambos autocráticos: “A Arte da Guerra” (c. 500) de Sun Tzu; e “Os Analectos” de Confúcio (c. 490). E, é claro, o já mencionado “As Suplicantes” (422) de Eurípedes. E do século 4, temos Platão (427-347): “A República”, “O Político” e “As Leis” (que não são obras favoráveis à democracia; pelo contrário). E temos também Aristóteles (383-322): “A Política” e “A Constituição de Atenas”.

Dos séculos 3 e 2, para não dizer que não temos nada, registra-se, com alguma boa vontade, apenas um clássico, de Han Fei Zi (280-234 a. E. C.): “A Arte da Política (Os homens e a lei)”, mas nada há, como é óbvio, de democrático ou de compatível com a democracia nesse texto. E do século 1 antes da Era Comum, temos apenas Cícero (106-43 a. E. C.): “De Republica”, “De Legibus” e “De Officiis” (o que não é pouca coisa, mas igualmente não recupera o conceito original de democracia no seu sentido “forte”).

Dos séculos 2 a 12 da nossa era, não temos absolutamente nada. Do século 13, temos somente Tomás de Aquino (1225-1274): “De Regimine Principum” (longe, muito longe da idéia de democracia). E do século 14, temos Dante Alighieri: “De Monarchia” (1312); e Marcílio de Pádua: “Defensor Pacis” (1324).

Do século 15, não temos nada significativo. E do século 16, temos cinco pensadores clássicos, nenhum deles democrático; pelo contrário. São os casos de Maquiavel: “O Príncipe” (1513) e “Discursos sobre a primeira década de Tito Livio” (1519); Thomas Morus: “A Utopia” (1516); Francesco Guicciardini: “Recordações Políticas e Civis” (1576); Jean Bodin: “Os Seis Livros do Estado” (1576); e Giovanni Botero: “A Razão de Estado” (1589).

No século 17, afinal, surgem alguns pensadores que lançarão as bases para uma reinvenção da democracia pelos modernos, com Althusius: “Política” (1603);. e Spinoza: “Tratado Teológico-Político” (1670) e “Tratado Político” (1677). Mas a maior parte da literatura clássica sobre política conhecida desse século não é democrática nem compatível com a democracia no sentido “forte” do conceito, como se pode ver em Tommaso Campanella: “A Cidade do Sol” (1602); Grotius: “De iuri belli ac pacis” (1625); Baltazar Gracián :“A Arte da Prudência” (1647); Hobbes:“De cive” (1642) e “Leviatã” (1651); Cardeal Mazarin: “Breviário dos Políticos” (1683); Leibniz: “Elementa iuris naturalis” (1688); e Locke: “Dois Tratados sobre o Governo” (1690) – com exceção deste último (1).

No século 18 cabe destacar alguns pensadores (e o network da Filadélfia), começando com Rousseau: “Discurso sobre a origem da desigualdade dos homens” (1754) e “O contrato social” (1762); passando pela “Declaração de Independência dos Estados Unidos da América” (1776), por “Publios” (Alexander Hamilton, John Jay e James Madison): “O Federalista” (1787-1788), em especial Madison em um comentário sobre a Constituição dos Estados Unidos (1787); e chegando a Thomas Paine: “Direitos do Homem” (1791). Mas com a possível exceção de Montesquieu: “O Espírito das Leis” (1749) e de algum outro, constata-se ainda uma forte influência autocrática na maioria dos pensadores desse período, como François de Callières: “Como Negociar com Príncipes” (1716); Hume: “Investigação sobre o Entendimento Humano” (1748); Beccaria: “Dos Delitos e das Penas” (1764); Sieyès: “O que é o Terceiro Estado” (1789); Burke: “Reflexões sobre a Revolução Francesa” (1790); von Humbolt: “Ensaio sobre os limites da atividade do Estado” (1792); e Kant: “A paz perpétua” (1795) e “Metafísica dos Costumes” (1797).

Foi somente no século 19 que começaram a aparecer, em maior quantidade, as sementes de um pensamento realmente democrático no sentido forte do conceito (por exemplo, com Tocqueville, Stuart Mill e alguns outros), mesmo assim ainda é um pensamento cercado por todos os lados por idéias autocráticas. Registram-se como clássicos desse período, Ficht: “Discursos à Nação Alemã” (1808); Bentham: “Sofismas Políticos” (1816); Benjamin Constant: “Princípios da política” (1815) e “Discurso sobre a Liberdade dos Antigos Comparada com a dos Modernos” (1819); Hegel: “Princípios de Filosofia do Direito” (1821); Carl von Clausewitz: “Da Guerra” (1832); Tocqueville: “A Democracia na América” (1835) e “O Antigo Regime e a Revolução” (1856); Proudhon: “O que é a Propriedade” (1840); Marx: “Crítica da filosofia hegeliana do direito” (1843) e “A questão judaica” (1843); Stuart Mill: “Sobre a Liberdade” (1859) e “Sobre o Governo Representativo” (1861); e Mosca: “Elementos de Ciência Política” (1896).

Assim chegamos ao século 20. Mas se incluirmos na categoria de ‘clássicos’ apenas os escritos políticos surgidos até meados daquele século, também não tivemos uma grande profusão de idéias e teorias democráticas. Com exceção de John Dewey e Hannah Arendt, ainda há um ranço de concepções autocráticas nos principais pensadores políticos dessa época, mesmo naqueles que professam convicções democráticas e tratam precipuamente da democracia, como Sorel: “Reflexões sobre a Violência” (1908); Croce: “Filosofia da Prática” (1909); Gentile: “Fundamentos da Filosofia do Direito” (1916); Pareto: “As Transformações da Democracia” (1919); Weber: “Economia e Sociedade” (1922); Dewey: “O Público e seus Problemas” (1927), “Velho e novo individualismo” (1929), “Liberalismo e ação social” (1935), “A democracia é radical” (1937) e “Democracia criativa: a tarefa diante de nós” (1939); Carl Schmitt: “O Conceito do Político” (1932); Kelsen: “Teoria geral do Direito e do Estado” (1945) e “Os Fundamentos da Democracia” (1955); Gramsci: “Cadernos do Cárcere” (1947); e Hannah Arendt: “O que é a política?” (1950), “As Origens do Totalitarismo” (1951), “Que é liberdade” (1954), “A condição humana” (1958) e “Sobre a revolução” (1963). Nesse período, cabe destacar também, foram lançados os fundamentos do atual pensamento autocrático disfarçado de democrático próprio das chamadas esquerdas contemporâneas, em virtude de uma fusão pragmática da visão de Schmitt (realpolitik) com a de Gramsci (conquista de hegemonia).

Diante desse quadro pode-se afirmar que não perderá muita coisa do “gene” (ou do meme) da democracia (no sentido “forte” do conceito) quem refizer a trajetória dos clássicos costurando uma abreviadíssima seqüência como a seguinte: (1º) Os democratas de Atenas (Clístenes, Péricles, Temístocles, Protágoras, Polícrates et coetera, do que se pode inferir de seus pensamentos a partir da leitura da história, da oração fúnebre, da tragédia e da filosofia – em especial pela via dos seus críticos, como Platão e o Sócrates platônico) => (2º) Althusius => (3º) Spinoza => (4º) Rousseau => (5º) “Públius” (Alexander Hamilton, John Jay e James Madison) => (6º) Paine => (7º) Tocqueville => (8º) Mill => (9º) Dewey => (10º) Arendt. Ou seja, para absorver a idéia de democracia no sentido “forte” (ou “a democracia como idéia”, como queria Dewey) – e esta é uma constatação para lamentar, conquanto a afirmação seja polêmica, sobretudo aos olhos dos que gostam de historicizar o conceito de democracia até que dele se esvaia todo o conteúdo substantivo – é necessário mais não-ler do que ler os clássicos.

Do final do século 20, já dentre os contemporâneos (assim considerados os que publicaram nos últimos 25 anos ou no tempo da presente geração), temos aparentemente muita coisa. Mas apenas aparentemente. De fundamental mesmo, temos Bobbio: “Ética e Política” (1984), “O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo” (1984) e “Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política” (1985); Ágnes Heller (com Ferenc Feher) com vários textos, como os consolidados nas coletâneas: "Anatomia da esquerda ocidental” (1985) e “A condição política pós-moderna” (1987); Jürgen Habermas: “Facticidade e validez” (1992) e “Between Facts and Norms: Contributions to a Discourse Theory of Law and Democracy” (1996); John Rawls: “O liberalismo político” (1993); e Robert Dahl: “Sobre a democracia” (1998). Temos ainda uma extensa literatura engajada no debate atual sobre a democracia deliberativa, da qual podem ser citados, como exemplos significativos, Andrew Arato & Jean Cohen: “Civil Society and Political Theory” (1994); Chantal Mouffe: “The return of the Political” (1993) e “The Democratic Paradox” (2000); e Joshua Cohen: “Procedure and Substance in Deliberative Democracy” (1996) e “Democracia e Liberdade” (1998).

E temos, por último, algumas coisas mais promissoras, como os trabalhos sobre os pressupostos cooperativos da democracia (no sentido forte do conceito) de Humberto Maturana: “Biología del fenómeno social” (1985), “Herencia y medio ambiente” (com Jorge Luzoro) (1985), “Ontología del Conversar” (1988), “Lenguaje y realidad: el origen de lo humano” (1988), “Una mirada a la educación actual desde la perspectiva de la biología del conocimiento” (1988), “Lenguaje, emociones y ética en el quehacer político” (1988), “El sentido de lo humano” (1991), “Amor y Juego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a la Democracia” (com Gerda Verden-Zöller) (1993) e “La democracia es una obra de arte” (s. /d). E algumas boas tentativas de recuperar o pensamento político de Dewey, como a de Axel Honneth: “Democracia como cooperação reflexiva. John Dewey e a teoria democrática hoje” (1998).

No século 21, temos muita gente que ainda continua ancorada no século 20 (ou no 19). Remanesce aquela curiosa corrente gramsciana (surgida na década passada) de defensores da democracia participativa ou deliberativa (supostamente a favor do povo) contra a democracia representativa liberal (das elites, supostamente contra o povo) – composta, por mais contraditório que isso possa parecer, por ‘pensadores da democracia não convertidos à democracia’ – que permanece trabalhando com o autocrático conceito de hegemonia. Mas há também uma antecipadora usinagem das sementes de um novo pensamento democrático que, conquanto tivesse começado nos últimos anos do século passado, já estava voltada para o futuro. Entram aqui as formulações sobre democracia digital ou democracia em tempo real (cyberdemocracy), as investigações sobre a inteligência coletiva e sobre a emergência (sobretudo nos estudos sobre as sociedades como sistemas complexos adaptativos), as reflexões sobre as inovações políticas ensaiadas em redes comunitárias de desenvolvimento e a chamada pluriarquia ou a democracia em redes sociais distribuídas (peer-to-peer). Incluem-se nessa categoria as teorias do capital social que brotaram nos anos 90 e o chamado netweaving (uma criação do final da primeira metade da década atual).

Quem quiser dar continuidade à sua formação do ponto de vista do conceito (“forte”) de democracia, deveria se concentrar, basicamente, em John Dewey, Hannah Arendt e Humberto Maturana. Dos clássicos, além dos já citados Dewey e Arendt, em especial Aristóteles (confrontado com Platão), Althusius (confrontado com Jean Bodin), Spinoza (confrontado com Hobbes), Rousseau, Madison, Paine (confrontado com Burke), Tocqueville e Stuart Mill. Mas as novas teorias democráticas capazes de recuperar o meme democrático original e reinterpretá-lo à luz das condições do século 21 ainda estão por ser elaboradas.

UMA ALFABETIZAÇÃO DEMOCRÁTICA

Não basta, porém, conhecer as reflexões teóricas sobre as diversas experiências de democracia e as teorias normativas inspiradas por tais reflexões. A democracia não é um regime determinado, não é um modelo aplicável a várias circunstâncias, mas um movimento ou uma atitude constante de desconstituição de autocracia. Assim, segundo o conceito (“forte”) de democracia apresentado aqui, aprender democracia é desaprender autocracia.

Um dos temas mais importantes na formação de lideranças para o exercício da política democrática é aprender a perceber os sinais da mentalidade e das práticas autoritárias e os sintomas dos processos de autocratização da política. Não se trata apenas de conhecer as teorias e o que disseram os clássicos da chamada ciência política sobre o assunto. Trata-se da capacidade de identificar padrões, o que faz parte daqueles conhecimentos tácitos da “arte” da política que devem ser adquiridos pela observação atenta da própria experiência e das experiências alheias.

Pequeno ou grande, o poder autoritário se comporta sempre de maneira semelhante. Não importa se o agente não convencido do valor da democracia está dirigindo uma pequena ONG de bairro, um partido ou um governo. Há um padrão de comportamento que se faz presente em todas as práticas antidemocráticas e que se revela como poder de obstruir, separar e excluir. Nos casos mais exacerbados, o poder exercido de tal maneira pode perseguir, prender, torturar e matar, só não o fazendo, em muitas situações, em virtude da falta de condições para tanto.

Um processo de formação política democrática deveria contemplar o estudo cuidadoso desse “padrão Darth Vader” (para usar a excelente metáfora da série “Star Wars”, de George Lucas). Neste sentido, pode-se aprender muito lendo, por exemplo, Ryszard Kapuscinski: “Cesarz” (1978), que foi publicado no Brasil com o título “O Imperador: a queda de um autocrata”. Numa narrativa impressionante, baseada em entrevistas feitas pelo autor – o jornalista polonês Kapuscinski – com antigos colaboradores de Hailé Selassié I, ele descreve os bastidores do palácio do tirano que governou a Etiópia por 44 anos. Ou com Simon Sebag Montefiore: “Stalin: a corte do czar vermelho” (2003), também baseado em entrevistas feitas pelo jornalista Montefiore com os sobreviventes e os descendentes da era stalinista e em pesquisas em cartas e outros documentos que só recentemente foram liberados, o livro descreve a intimidade do poder despótico que até há pouco era meio desconhecida, revelando a sua face brutal. Ou, ainda, com Jung Chang e Jon Halliday: “Mao: a história desconhecida” (2005), no qual Chang (já conhecida pelo seu excelente “Cisnes selvagens”) e seu marido Halliday, empreenderam uma pesquisa monumental para descrever a outra face da vida de Mao Tse-Tung, que – segundo a palavra dos autores – “durante décadas deteve o poder absoluto sobre a vida de um quarto da população mundial e foi responsável por bem mais de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder do século 20”. Este último é, de todos, o livro mais impressionante que talvez já tenha sido escrito sobre as conseqüências maléficas da direção do Estado nas mãos de um líder determinado a conquistar e a manter o poder a qualquer custo.

Pode-se dizer que as tragédias desses regimes comandados por Selassié, Stálin e Mao são coisas muito distantes da situação em que vivem os países democráticos atuais. Mas as coisas não são bem assim. O “padrão Darth Vader” que se manifestou em alto grau no comportamento desses três autocratas pode também estar presente em outros líderes, pequenos ou grandes, muitas vezes não conseguindo se desenvolver em virtude de circunstâncias ambientais ou institucionais adversas. Tais circunstâncias, que decorrem de configurações sociais coletivas, quando são favoráveis à ereção de sistemas de dominação tendem a reforçar e a retro-alimentar atitudes míticas diante da história, sacerdotais diante do saber, hierárquicas diante do poder e autocráticas diante da política. Toda vez que a rede social é obstruída, toda vez que se introduzem centralizações na teia de conexões ou de caminhos que ligam os nodos dessa rede distribuída, gera-se uma configuração mais favorável ao crescimento e a manifestação desse poder vertical que está no “DNA” da civilização patriarcal e guerreira. A democracia, como percebeu Humberto Maturana (1993), é uma brecha nesse paradigma civilizatório.

Compreendendo o que pode florescer em ambientes sociais fortemente centralizados e nos quais os modos de regulação de conflitos não são democráticos, podemos perceber os sinais e interpretar os sintomas do processo de autocratização da política onde quer que eles surjam, inclusive no interior de regimes formalmente democráticos. Para conhecer o poder vertical – a sua “anatomia” e a sua “fisiologia”, vamos dizer assim – devemos, portanto, estudá-lo em estado puro (ou quase), como ocorreu na Etiópia, de Selassié, na União Soviética, de Stalin e na China, de Mao. Depois será mais fácil perceber seus indícios no nosso quotidiano, inclusive quando surgem em uma pequena organização, quem sabe até na organização da qual participamos...


segunda-feira, julho 23, 2007

A RELEVÂNCIA DA POLÍTICA E DA DEMOCRACIA

Comentário Moisés Basílio: Hoje a prática política anda em baixa, por isto é preciso defendê-la. É o que faz o artigo do Antonio Cícero. E é bom, que gente não identificada com essa esfera da vida social, como o poeta e compositor popular, assuma tal conduta, pois podem conseguir melhor audiência, que os políticos profissionais. Embora a política, nas sociedades modernas, seja identificada como ação realizada no âmbito do Estado, ela não é exclusividade dos agentes que atuam nesse âmbito. Os projetos políticos, por mais inconsistentes que sejam, são frutos de processos sociais complexos. E cada projeto político tem sua construção histórica concreta e também sua avaliação histórica. Na atual conjuntura política, na minha opinião, vivemos um momento, nesse segundo mandato do governo Lula, um desencontro entre os projetos políticos, monopolizados no âmbito do Estado, pelos agentes políticos institucionalizados nos atuais partidos políticos, e o restante da sociedade em suas diferentes esferas. Tanto situação, como oposição não conseguem fundamentar, com consistência, um ou mais projetos políticos para a nação. Se analisarmos os últimos 40 anos da vida política nacional podemos ver o embate caloroso de diferentes projetos para o Brasil. Os projetos da ditadura x os projetos democráticos nas décadas de 60, 70 e inicio de 80. Os projetos de democratização elitizado x uma democratização popular, a partir da campanha das direta já. Os projetos de integração do Brasil no mundo globalizado a partir da primeira eleição presidencial até hoje, que colocou a oposição entre o econômico x o social. Se nos governos FHC, ficou claro a opção por uma projeto político privilegiando o econômico, nos governos Lula há uma confusão de prioridades. A opção feita pelo governo FHC, que degradou a situação social e não consegui dar respostas econômicas consistentes, deu condições históricas para a eleição de dois governos Lula. E agora, os impasses do governo Lula gera um vazio, pois não há opção consistente. Essa situação gera um descontentamento, que desemboca numa conduta de descrédito com a política, pois socialmente fomos educados a acreditar que os problemas políticos são de responsabilidades exclusivas dos agentes políticos. E é aqui que começa o desafio de toda a nação, sair desse patamar onde os partidos políticos institucionais e os políticos profissionais conduzem com exclusividade a elaboração dos projetos políticos, e trazer toda a nação para o debate, e nisso uma sociedade aberta e laica será de grande valia para cumprir essa missão. Sairemos desse impasse, com muitos sofrimentos, mas também com um grau maior de politização social. Mas, isso leva um tempo histórico, não será da noite para o dia. Axé!

Fonte: Texto publicado na Ilustrada da Folha de São Paulo em 14/07/2007.
A relevância da política -Por Antonio Cicero

Para lutar contra as desigualdades sociais, devemos defender a sociedade aberta e laica.

Lembro-me de que, quando eu era estudante universitário, no final da década de 60, parecia evidente a todo o mundo (ou pelo menos a todo o mundo de esquerda) que nos Estados Unidos não havia nenhuma diferença substancial entre o Partido Democrata e o Partido Republicano. Essa era a tese dos marxistas, mas ela havia encontrado apoio também, desde a década de 50, em autores independentes, como Wright Mills. E era o que Herbert Marcuse e, de maneira geral, os filósofos e ideólogos da contracultura pensavam.


Nessa época, a Guerra do Vietnã, que havia tomado corpo com um democrata (Kennedy), engrossado com outro (Johnson), e que continuava sua "escalada" com um republicano (Nixon), parecia confirmar que a cara de um partido era o focinho do outro.


De lá para cá, também entre grande parte dos intelectuais americanos tornou-se senso comum a opinião -expressa, por exemplo, por Chomsky e por vários representantes locais do pós-estruturalismo- de que nos EUA as eleições não são muito relevantes. As enormes taxas de absenteísmo eleitoral que lá se verificam levam a supor que talvez até uma parte considerável dos eleitores americanos -entre os quais muitos jovens e muitos pretos- também pensem assim.


A verdade, porém, é que ultimamente não tem mais sido possível acreditar nessa tese. Tendo em vista o verdadeiro ataque perpetrado pela administração republicana de George Bush à razão, ao Estado de Direito e à democracia nos Estados Unidos, seria inteiramente absurdo pensar que não haja uma diferença extremamente relevante entre ele e, por exemplo, o seu predecessor democrata, Bill Clinton.


Para prová-lo, bastaria citar o fato de que, brandindo o pretexto do terrorismo, Bush conseguiu fazer aprovar pelo Congresso, então majoritariamente republicano, o Military Commissions Act, uma lei que, em certas circunstâncias, torna admissível a tortura e põe fora de ação o instituto do habeas corpus: retrocesso jurídico simplesmente inconcebível há poucos anos e que constitui uma afronta inominável aos direitos humanos.


Por ocasião da sua aprovação, o jornal "The New York Times" (em 28/9/2006), com toda razão, declarou em editorial que, no futuro, os americanos se lembrarão de que, "em 2006, o Congresso passou uma lei tirânica que será considerada como um dos pontos baixos da democracia americana". E poderíamos lembrar que, ainda antes da aprovação dessa lei, o governo Bush já se permitira seqüestrar, encarcerar e submeter pessoas que jamais sequer haviam sido formalmente acusadas de qualquer crime específico a torturas e tratamentos indignos.


E que dizer do fato de que ele subverte o princípio de controles e equilíbrios ("checks and balances") que garante a independência dos poderes, ao pressionar, ameaçando de demissão, juízes que não se conformem com os seus desígnios? Ou da sua tentativa de solapar a autonomia da ciência, ao incentivar, contra a teoria científica da evolução, a divulgação e o ensino da teoria pseudo-científica do "intelligent design"? Ou da parcialidade do seu governo às iniciativas religiosas em todos os campos, minando o caráter laico do Estado?


Eu poderia continuar, falando, por exemplo, da sua política econômica, que acaba por redistribuir a renda a favor dos mais ricos; ou da sua destruição sistemática do sistema de saúde pública. O principal, porém, é outra coisa: é que devemos compreender que a tese da irrelevância da política não somente contribuiu para pôr Bush no poder como é a tese que mais convém a ele e a seus aliados, pois o que eles atacam é precisamente a política; e a que menos convém àqueles que defendem a liberdade nos Estados Unidos ou em qualquer outro país.


Fala-se às vezes da "democracia direta", como um antídoto à "irrelevância da política". Mas a "democracia direta" pode ser, na verdade, uma ditadura plebiscitária, como a de Chávez. Não devemos nos esquecer de que as ditaduras de Mussolini, de Hitler, de Stálin e de Pol Pot eram apoiadas pela maioria, logo, nesse sentido, "democráticas". A razão nem sempre está com a maioria: pode estar até com um homem só.

Por isso, mesmo para lutar contra as desigualdades sociais, devemos defender a sociedade aberta e laica, o Estado de Direito, a livre expressão, a maximização da liberdade individual, a coexistência de uma multiplicidade de culturas e formas de vida, a autonomia da ciência, a autonomia da arte etc. E defender isso é defender a relevância da política.

Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Formou-se em filosofia na Universidade de Londres. Poeta, tornou-se conhecido em finais dos anos 70 como o letrista das canções de sua irmã, Marina Lima. Publicou os livros de ensaios, O mundo desde o fim. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995; Finalidades sem fim. Ensaios sobre poesia e arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 e os de poesia, Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996. (Prêmio Nestlê de Literatura Brasileira); A cidade e os livros. Rio de Janeiro, Record, 2002. Blog: http://antoniocicero.blogspot.com Site: http://uol.com.br/antoniocicero/
E-mail: acicero@uol.com.br



Democracia - fonte: Jornal Folha de São Paulo - Opinião - 16/07/2007
"Muito oportuna a defesa da relevância da política feita por Antonio Cicero (Ilustrada, 14/7). O autor comete, porém, imperdoável equívoco ao qualificar de democracia direta regimes nos quais o povo serve de massa de manobra de ditadores. Soberania popular efetiva e respeito integral aos direitos humanos são componentes indissociáveis da democracia. A própria soberania do povo, como se lê no art. 21 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, é um direito humano. Por isso mesmo, é inadmissível qualificar de democrático o nosso regime, em que o Congresso Nacional, sem consulta popular, dispõe do monopólio da legislação e até do poder de reforma constitucional, exercendo ambos freqüentemente em causa própria."
FÁBIO KONDER COMPARATO , presidente da Comissão de Defesa da República e da Democracia, do Conselho Federal da OAB (São Paulo, SP)

sexta-feira, julho 20, 2007

Cúpula Europa-África

Comentário Moisés Basílio: Vamos acompanhar essa reunião de perto. Axé!

Fonte: Agência Carta Maior - em 19/07/2007 - www.agenciacartamaior.com.br
As grandes manobras

Nos próximos meses, em antecipação da Cúpula Europa-África, a África vai estar na mira de muitos interesses. A minha suspeita é que nenhum deles seja o interesse das populações africanas injustamente empobrecidas.

A nova fase da globalização chama-se regionalização. Na Ásia, na África e na América Latina aprofundam-se os laços de cooperação entre os países com vista a melhor responder aos “desafios globais”. Todos estes movimentos ocorrem sob olhar atento das grandes potências.

Nos próximos meses, em antecipação da Cúpula Europa-África, a África vai estar na mira de muitos interesses. A minha suspeita é que nenhum deles seja o interesse das populações africanas injustamente empobrecidas. Temo que, mais uma vez, os desígnios globais se combinem com políticos e políticas locais no sentido de privarem os povos africanos do direito a um desenvolvimento justo e democraticamente sustentável.

No caso da África, a Europa tem uma dívida histórica, decorrente do colonialismo, a qual, para ser paga, obrigaria a uma política africana muito diferente da dos EUA. Para estes, os objetivos estratégicos na África são os seguintes: luta contra o terrorismo, controlo do acesso aos recursos naturais, contenção da expansão chinesa.

Muitos países do continente (por exemplo, Angola) apoiam ativamente os EUA na luta contra o terrorismo. A crescente importância do golfo da Guiné (Nigéria, Angola, São Tomé e Príncipe) para assegurar o acesso ao petróleo está bem patente na recente criação do Comando de África pelo Pentágono.

A contenção da China é mais problemática não só pela força abissal que ela representa – em 2005, a China consumiu 26% do aço e metade do cimento produzido em todo o mundo – como pelo fato de se dispor a investir em todos os países que as potências ocidentais rejeitam, do Sudão à Somália.

Se a Europa não tiver outros objetivos, em nada poderá contribuir para os problemas que se avizinham. Estes têm a ver com o agravamento da injustiça social e com a recusa das populações a sujeitarem-se ao papel de vítimas.

A condenação política de Robert Mugabe não pode deixar de ter em conta que a Inglaterra não cumpriu o compromisso assumido no tratado da independência de co-financiar a reforma agrária do Zimbabué, consciente como estavam as partes de que 1 a 2% da população (branca) ocupava 90% da terra agrícola e 4000 agricultores (brancos) consumiam 90% da água disponível para o regadio.

O fato de a situação na África do Sul e na Namíbia não ser muito diferente faz temer pela estabilidade na África Austral. As relações tensas entre Angola e a África do Sul – com boatos de tentativas cruzadas de assassinatos políticos que não serão totalmente destituídos de fundamento – não são bom prenúncio.

Angola destina-se a ser um grande ator na região. Para isso, é fundamental que se não repita em Angola o que está acontecendo na Nigéria, onde a produção petrolífera baixou para metade devido à violência política no delta do Níger provocada pela injustiça na distribuição da renda petrolífera.

Preocupa que em Angola não se vislumbre o mínimo gesto de redistribuição social (tipo bolsa-família do Brasil) quando é certo que uma migalha (digamos, o equivalente a um dia dos rendimentos do petróleo) permitiria à população dos musseques de Luanda comer uma refeição digna por dia durante um ano.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

quarta-feira, julho 18, 2007

Sapopemba na grande mídia

Comentário Moisés Basílio: Duas reflexões sobre essa matéria publicada no jornal. Primeiro, não é sempre que notícias da periferia sapopembense (Jardim Elba) surge na grande mídia. O motivo central da pauta do jornal não foi o de discutir a situação da mulher na periferia, mas sim o estudo do pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, tanto que na edição impressa do jornal a matéria com o pesquisador é capa do caderno. Sapopemba serviu de um exemplo, ou seja, uma matéria de segundo plano, ou talvez segundo os editores do jornal, uma confirmação ou uma negação da tese do pesquisador. Pelo teor da matéria, um desrespeito aos dois lados, tanto para as mulheres, quanto para o pesquisador. Outra reflexão é sobre as mulheres do Sapopemba e a educação escolar. Na matéria que se refere as 5 mulheres fica impressão que o problema são os homens, que não assumem seus papéis e deixam as famílias ao abandono. As mulheres, "coitadinhas", não dão conta do recado e então acontece a desagregação familiar e os filhos se perdem no mundão. Interpretando as matérias poderia se chegar a conclusão que a solução para o pesquisador é a liberalização do aborto, e para as mulheres a matéria não deixa claro, visto que elas se posicionam contra o aborto. O que essas mulheres pensam sobre o problema? Nada na matéria nos aponta respostas. E o que isso tem com a educação escolar? Esse é o quadro que o professor da escola pública encontra com chega para dar aula em Sapopemba. Encontra muitas criança com esses pais e mães, ou sem esses pais e com essas mães. Quem são essas crianças? Como trabalhar a educação escolar com elas? Tudo se embaralha, pois esse é um fato social novo e não existem respostas prontas. E é aí que a coisa aperta. O que fazer? Em relação ao jornal eu sugeriria que fizesse outros links, e associasse o problema da 5 mulheres do Sapopemba com a educação escolar. Axé!


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 16/07/2007 - Caderno Metropole

Cinco mulheres, 25 crianças e lares ainda abertos a novos filhos

Nenhuma delas contou com ajuda do marido na criação

Bruno Paes Manso, São Paulo

O dia mal amanhece e já se nota o movimento de mulheres no Jardim Elba, um dos bairros mais violentos da zona leste da capital paulista. No quintal das casas, elas colocam roupas no varal. Depois, levam crianças para creches e escolas ou seguem para pontos de ônibus. Fora do horário comercial, lotam as reuniões das pastorais da Igreja Católica e os cultos evangélicos. “Somos a força na periferia”, observa Graça Fernandes, de 52 anos, líder comunitária de Sapopemba.

Sem apoio dos homens - alguns dependentes químicos e outros presos, mas muitos envolvidos com o crime -, que acabam morrendo cedo, criam os filhos sozinhas. O Estado participou de uma discussão com cinco delas. Juntas, têm 25 filhos e nenhuma contou com a ajuda do marido na criação. Apenas uma tem carteira assinada e trabalha em um programa de liberdade assistida. As demais vivem de bicos como faxina e costura.

Natalia Pereira Pimenta, de 57 anos, teve sete filhos. Veio de Januário, Minas, com três crianças, e teve outras quatro em São Paulo. O marido morreu logo depois. Para sustentar a garotada, trabalhou em casa de família e deixava os filhos com a mãe. Depois que a avó morreu, a filha mais velha assumiu os cuidados de todos. Natália tem ainda a filha adotiva, de 14 anos - de uma amiga que deu à luz na prisão. Abrigou também outras crianças que não tinham onde morar. Hoje, cuida de sete netos.

Natália teve dois filhos presos e outros dois assassinados no ano-novo de 2001. “O mais novo estava na vida errada. Mas acertaram também meu outro filho, que não tinha nada a ver e estava com ele.” Teve de convencer outro a não tentar vingança.

As surras domésticas, aplicadas por companheiros que bebem, são constantes nas narrações. Sonia Eli de Souza, de 35 anos, tem seis filhos. As três mais velhas - a maior de 14 anos - foram vítimas do primeiro marido da mãe, que as espancava. Os outros três filhos “levaram” do segundo companheiro. Mesmo assim, Sonia acredita que conseguirá levar todos a trilhar o “caminho certo”. “Temos um exemplo sofrido em casa, que mostra que as drogas não levam a nada.” Ela cuida de um sobrinho, de 18 anos, que há cinco anos tenta abandonar o crack. O pai era traficante e matou a mãe, irmã de Sonia. “Para ele, a palavra do traficante é mais importante.”

O compromisso com todas as crianças, aliás, faz parte da rotina dessas mulheres. Joseli da Silva Leite, de 29 anos, teve quatro. A primeira, aos 16 anos. Cada uma com um pai diferente. A mãe a ajudou até morrer, quatro anos atrás. Ela acha que os homens não sabem o que é amor de filho. Ela aprendeu com o tempo. “Hoje eu vivo para meus filhos, a única família que tenho.”

Apesar dos problemas, todas dizem que não fariam aborto e nunca se arrependeriam de ter as crianças. O problema maior, elas avaliam, é arrumar o homem certo. Damares Gomes da Silva, de 39 anos, sete filhos, apanhou tanto do companheiro que diz ter ficado com trauma de homem. “Hoje, quando me olham em um bar, fico com raiva.” De todas, Ana Paula dos Santos Oliveira, de 39 anos, que tem só um filho, é a mais bem humorada ao falar do assunto. “O problema é que a gente só arruma homem que não presta.”

Estudo liga gravidez indesejada a crimes violentos em cidades de SP

Queda de 10% no número de crianças que vivem com mães solteiras reduziria em 5,1% os homicídios

Fernando Dantas, RIO

A gravidez indesejada é uma causa muito mais importante dos crimes violentos no Estado de São Paulo do que a desigualdade ou outros indicadores econômicos. Esta é a conclusão de um trabalho do economista Gabriel Hartung, em etapa final de elaboração. O estudo foi realizado com base na análise estatística de dados demográficos e econômicos de 643 dos 645 municípios de São Paulo.

O levantamento partiu do famoso estudo do economista americano Steven Levitt - autor do best-seller Freakonomics - que demonstrou a ligação entre legalização do aborto nos Estados Unidos e a queda da criminalidade duas décadas depois. Como no Brasil o aborto é ilegal e não há estatísticas confiáveis sobre o assunto, a opção de Hartung foi a de examinar os indicadores de mães adolescentes e solteiras. A relação entre gravidez indesejada e o fato de a mãe ser solteira ou adolescente já foi exaustivamente comprovada.

Mas os resultados do trabalho mostram que uma queda no número de crianças vivendo com mães solteiras diminuiria a taxa de homicídios três vezes mais do que reduções idênticas na desigualdade - e quatro vezes mais do que uma aceleração equivalente do crescimento econômico. Assim, uma queda de 10% no número de filhos criados por mães solteiras provocaria uma redução de 5,1% na taxa de homicídios. Já uma diminuição de 10% na desigualdade reduziria a taxa de homicídios em apenas 1,7%. E uma aceleração de 10% no ritmo de crescimento econômico teria um efeito de 1,2% sobre os homicídios.

Segundo o pesquisador, o trabalho aponta o controle de natalidade como instrumento fundamental para o combate à criminalidade no Brasil. Pessoalmente, ele também defende a descriminalização do aborto. “O meu estudo é uma evidência de que a gravidez indesejada aumenta o crime”, diz Hartung, que faz doutorado na Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.

Ele explica que o canal entre a gravidez indesejada e o crime violento é a criação dos filhos em um ambiente familiar deteriorado, que tipicamente consiste num lar chefiado por uma mulher sem marido ou companheiro, que muitas vez deu à luz na adolescência. Dessa forma, essas crianças têm probabilidade maior de se tornarem criminosas quando chegarem à adolescência ou à juventude.

E o problema tende a piorar. A proporção de mães com menos de 17 anos saltou 45%no Brasil, entre 1991 e 2000, e os domicílios chefiados por mulher aumentaram 38%nesse período. O pesquisador observa que “reduzir o número de mães solteiras, por meio de uma política pública, é provavelmente muito mais fácil do que conseguir diminuição equivalente da desigualdade”. De 1997 a 2005, o Brasil obteve melhora da distribuição de renda substancial, que chegou a ser saudada como “espetacular” por alguns economistas, como Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Essa queda da desigualdade foi de 5,4%.

Segundo o estudo de Hartung, uma melhora da distribuição desta magnitude em São Paulo tem um efeito na taxa de homicídios de 0,9%. A experiência histórica brasileira e internacional indica, por outro lado, que reduções de desigualdade daquela intensidade normalmente só ocorrem ao longo de vários anos. Em outras palavras, uma política de combate à criminalidade que focasse exclusivamente na redução da desigualdade levaria décadas para obter redução perceptível nos crimes violentos, como homicídios e estupros.

O economista considera que Diadema, um dos municípios mais violentos de São Paulo, teria em 2000 uma taxa de homicídios 14,3% menor do que a registrada, se na década anterior o porcentual de crianças vivendo com mães solteiras fosse de 16,3%, como em Barretos, no interior paulista. O índice efetivamente registrado em Diadema em 1991 foi de 22,9%. A redução da taxa significaria 70 assassinatos a menos por ano em Diadema.

O objetivo básico desse estudo era buscar as causas da diferença entre as taxas de homicídios registradas nos municípios paulistas. Para tanto, Hartung fez uma análise estatística de vários indicadores de cada cidade entre os anos de 1999 e 2001, como renda, crescimento econômico, tamanho do município, escolaridade média e desigualdade.

domingo, julho 15, 2007

Pesquisa sobre Reforma do Ensino

Comentário Moisés Basílio: No sentido de contribuir com os caminhos da nossa escola pública, deixo aqui mais essa indicação para leitura e reflexão. O trabalho do Instituto Fernand Braudel é de fôlego e traz informações importantes para pensarmos propostas para transformação da nossa escola pública. É interessante notar que o tema da escola pública tem tido um grande destaque junto a opinião pública, via principalmente aos grandes meios de comunicação, também se destaca como um dos temas centrais nos últimos embates eleitorais e também das ações dos governos nos diferentes níveis e nas pautas dos diferentes segmentos sociais organizados em igrejas, partidos, movimentos populares, sindicatos e associações de trabalhadores e patrões, setores da intelectualidade etc. Mas, se por um lado há uma convergência em destacar o tema, por outro lado é possível constatar uma grande divergência nas concepções sobre como tratar o tema e agir sobre ele. E o sentimento que fica, principalmente para quem vive o cotidiano da escola pública por dentro, é cada vez mais a situação se deteriora. Mas também, não ignorando essa percepção sentida de piora constante, é preciso se ter em conta que problemas complexos, demandam respostas igualmente complexas, e que esses processos não se resolvem da noite para o dia, necessitam de um tempo histórico de lutas para se expressarem. Axé!

Fonte: Instituto Fernand Braudel (clique aqui para conhecer o instituto)

Reforma do ensino em São Paulo e no Brasil (clique aqui para ler a íntegra do programa)

O Instituto Fernand Braudel está desenvolvendo um programa de pesquisas, debates e mobilização pública em prol da melhoria do ensino público em São Paulo e no Brasil. A partir de análises de experiências nacionais e internacionais bem-sucedidas, trabalharemos em consulta com gestores públicos, professores, políticos, empresários, pais e alunos para auxiliar no desenvolvimento de propostas de políticas e programas capazes de melhorar o ensino e o aprendizado na rede pública. Nosso propósito é somar esforços com lideranças que já demonstram interesse pela reforma do ensino.

Notícias relacionadas:

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo - 15/07/2007 - caderno Vida &
O que deve ser feito?

site do Instituto Fernand Braudel

Norman Gall*

A TV Globo, na sua novela Os Sete Pecados, mostra uma escola pública na periferia de São Paulo. A escola está coberta de grafites, ensina pouco e funciona sob ameaça permanente de desordem. Uma jovem diretora idealista chega a essa escola prometendo melhorar o ensino e o aprendizado, mas desiste depois de uma guerra de comida na cantina da escola. Ela decide renunciar, mas um aluno pobre a convence a ficar, suplicando: 'A senhora precisa ficar, é a única pessoa aqui que se preocupa com a gente, de outro jeito nunca vou aprender nada nessa escola.'

Nos registros sobre a educação pública não faltam exemplos de heroísmo individual - de diretores, professores e estudantes - lutando contra a esterilidade e o desperdício de um sistema fracassado. Mas o desempenho do sistema como um todo - ou os sistemas, nessa federação descentralizada de Estados e municípios - é tão ruim que, no geral, está corroendo a estabilidade e o desenvolvimento futuro do Brasil. Os apelos para que se inicie uma reforma séria são ouvidos cada vez com mais intensidade.

As reformas da educação pública normalmente começam sob condições adversas. Seu sucesso depende da liderança política no topo das instituições públicas e também da mobilização no ponto mais baixo da pirâmide social que se beneficiaria com escolas melhores.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu um prazo para as escolas brasileiras atingirem os níveis de desempenho médio encontrados nos países mais avançados: 2022. Que políticas e investimentos novos são necessários para que o Brasil se aproxime da meta?

No início deste ano, e durante cinco semanas, uma equipe do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial realizou uma pesquisa de campo sobre a reforma escolar em Nova York, entrevistando estudantes, professores e diretores em escolas de bairros pobres, para saber que estratégias e métodos poderiam ser utilizados para melhorar a educação pública em São Paulo e no Brasil. A principal lição desse trabalho é que o País precisa investir no desenvolvimento da capacidade institucional.

Descobrimos que as reformas realizadas em Nova York seguiram um modelo desenvolvido na Inglaterra nas duas últimas décadas, instituído no governo conservador de Margaret Thatcher e consolidado na última década pelo governo trabalhista de Tony Blair.

Segundo Michael Barber, que conduziu a reforma escolar na Inglaterra de 1997 a 2005, as 'reformas realmente radicais' da era Thatcher-Blair progrediram com base em três idéias centrais: 1 - a criação de padrões e responsabilidade; 2 - a criação de capacidades e colaboração, 'garantindo a oferta de professores e melhorando seus salários, criando oportunidades para as escolas colaborarem, e investindo no desenvolvimento profissional' e 3 - formação de um 'quase-mercado em serviços públicos, explorando o poder de escolha, a competição saudável, a transparência e os incentivos, e é nesse campo que o debate educacional está entrando agora'.

As condições adversas em São Paulo e Nova York têm sido o desempenho acadêmico precário, os altos índices de evasão escolar, a ausência de um padrão de ensino, a desordem crônica nas escolas, a falta de uma supervisão eficaz, o desânimo e a apatia entre os professores e as poucas expectativas de um futuro melhor.

No caso de São Paulo, a essas dificuldades deve-se acrescentar a proteção legal para as faltas freqüentes de muitos professores, o que agrava a desordem nas escolas e desmoraliza os alunos, e também a negligência e a anarquia dos currículos e métodos de ensino que contribuem para as altas taxas de fracasso acadêmico. Além disso, a classe política do Brasil não tem muito interesse em promover os esforços a longo prazo para melhorar o ensino e o aprendizado.

Em Nova York, o grupo que liderou a reforma escolar surgiu fora da classe política tradicional, conduzido pelo prefeito Michael Bloomberg, um empresário bilionário, e o secretário da Educação Joel Klein, advogado. Da mesma maneira, os líderes empresariais brasileiros começaram a fazer pressão em favor de melhorias no ensino público. Esses esforços precisam ser intensificados e expandidos para ganharem impulso.

O Brasil tem algumas vantagens para melhorar suas escolas: 1 - seu sistema federativo descentralizado abrange uma ampla variedade de Estados e municípios de diferentes tamanhos e perfis econômicos e sociais. Essa diversidade serve para experimentos com diferentes abordagens e estratégias locais; 2 - refletindo a preocupação generalizada sobre a qualidade do ensino público, o governo federal lançou recentemente o Plano de Desenvolvimento Educacional (PDE), prometendo um grande financiamento nos próximos anos; 3 - o jovem ministro da Educação, Fernando Haddad, desfruta da confiança do presidente Lula e das lideranças educacionais; 4 - os esforços para melhorar as escolas públicas contam com apoio político e financeiro do setor privado. O ministério da Educação adotou as metas propostas no plano 'Todos pela Educação', uma coalizão do setor privado; 5 - o Estado de São Paulo, com uma população maior do que a da Argentina ou da Califórnia (41 milhões) e com um dos maiores sistemas escolares do mundo (5,5 milhões de alunos) está em excelente situação fiscal para financiar a melhoria do ensino público. Contará com impostos e royalties adicionais vindos da atividade econômica gerada pelas recentes descobertas de gás e petróleo na Bacia de Santos.

Apesar das críticas sobre a falência das escolas brasileiras, algumas iniciativas importantes vêm surgindo. O Distrito Federal, com um sistema escolar que abrange 500 mil alunos, está adotando um currículo unificado e incentivos para o desempenho de escolas e professores, como parte das negociações salariais, e está implementando um dos primeiros programas de segurança escolar no Brasil. Em Minas onde, a partir de 1991, as reformas no sistema educacional foram esporádicas, a eleição pela comunidade dos diretores de escolas aprovados em exames de qualificação se consolidou. Encontrou-se um meio para despedir os professores deficientes. E mais importante, o nível de alfabetização dos alunos é testado depois dos seus dois primeiros anos na escola primária, para reforçar a aprendizagem dos alunos. Em Pernambuco, o programa Procentro, patrocinado pelo setor privado, oferece um ensino secundário de alta qualidade e em tempo integral em escolas públicas de 20 cidades do interior.

É mais fácil denunciar e diagnosticar as deficiências do ensino público brasileiro do que propor soluções viáveis.

Como o Brasil é um vasto arquipélago de diversas comunidades, com diferentes níveis de desenvolvimento, o seu sistema federal descentralizado desencoraja iniciativas no campo educacional que possam abranger a nação inteira.

Os investimentos precisam ser seletivos, baseados em iniciativas de Estados e municípios que tentam melhorar as escolas locais e buscam apoio financeiro e técnico. Esforços localizados e dispersos podem ser importantes, embora qualquer empenho significativo para melhorar as escolas do Brasil levará anos e exigirá uma estratégia a longo prazo coerente para superar essas dificuldades básicas:

1 O que ensinar? É preciso um conteúdo maior e melhor. Uma razão para que as crianças brasileiras aprendam tão pouco na escola e apresentem um desempenho tão medíocre nos testes nacionais e internacionais é que não existe nenhum currículo adotado pelas autoridades municipais, estaduais ou federais. Os vagos 'parâmetros curriculares' do Ministério da Educação orientam muito pouco os professores quanto aos conteúdos na sala de aula. É necessário um esforço dedicado para se adotar padrões de aprendizagem e um currículo mais enriquecido.

2 Implementação das mudanças. Devem ser criados novos institutos, similares à Leadership Academy de Nova York, para treinar supervisores, mentores e mestres a intervirem nas salas de aula para darem um suporte às melhorias na prática do ensino. No momento, o sistema escolar brasileiro carece de uma capacidade institucional que promova um aperfeiçoamento do ensino e do aprendizado. Não existe nenhuma supervisão ou apoio aos professores no trato de suas próprias deficiências e do fracasso de um aluno no seu aprendizado. Entre as burocracias centrais e as escolas e professores não existem gestores intermediários para implementar os padrões e práticas. As novas metas anunciadas pelo governo federal e propostas por grupos privados não serão alcançadas sem que se promova essa gestão intermediária e a qualidade da supervisão. Para isso são necessários investimentos. E no caso da supervisão, ela é especialmente importante porque as universidades e institutos de pedagogia preparam mal os professores para o trabalho em sala de aula.

3 Novos incentivos. Para melhorar o ensino público é preciso uma reestruturação dos incentivos. Professores, diretores, escolas inteiras e distritos escolares precisam de recompensas pelo melhor desempenho dos alunos. Ausências freqüentes de professores e diretores não devem ser toleradas.

4 Avaliação do progresso. Os dados produzidos pelos exames estaduais e nacionais não são usados para diagnosticar e melhorar o desempenho do estudante. Em muitos casos, nem chegam às escolas.

Escandalosamente, os resultados dos testes promovidos pelo Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), não são nem mesmo publicados. Assim, os pais ficam desprovidos de informações vitais sobre o progresso acadêmico de seus filhos e suas escolas.

O Ministério da Educação promete corrigir essa falha, dando notas a todas as escolas do Brasil, como está sendo feito em Nova York. Mas é preciso melhorar a avaliação, com conseqüências não só para um desempenho excelente como também para o medíocre.

As escolas devem fazer anualmente uma auto-avaliação e, junto com suas comunidades, estabelecer um plano de ação para melhorar seu desempenho nos testes padronizados. A cada três anos, devem ser realizadas avaliações de qualidade por profissionais visitantes. As autoridades brasileiras também devem considerar a criação de uma superintendência autônoma para avaliar o desempenho escolar, no estilo da instalada recentemente no Chile.

5 As regiões metropolitanas. Entre as 14 cidades brasileiras com população de mais de 41 milhões de habitantes, o gigantesco sistema escolar de São Paulo exibe as maiores dificuldades das áreas metropolitanas. Nos exames do Saresp, os alunos freqüentemente são questionados sobre temas que nunca lhes foram ensinados em sala de aula. A Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Sead) está elaborando os perfis de todas as 5.800 escolas do Estado de São Paulo, como matrículas, rotação de professores, resultados de testes, promoções, índices de evasão escolar e condições socioeconômicas. Com esses dados, que se acumularam na secretaria da Educação estadual sem utilização durante anos, as autoridades poderão direcionar suas intervenções baseando-se nas necessidades de cada escola.

Os governos estaduais anteriores tiverem pouco interesse na solução de problemas sistêmicos da educação pública. Até recentemente havia pouca pressão popular para uma melhora da qualidade do ensino e uma indiferença geral da classe política.

O sistema não entrou em colapso por causa da demanda pública por algum tipo de ensino e porque as escolas são uma fonte abundante de emprego formal e aposentadoria para professores e administradores que, em troca, propiciam um grande número de votos para as elites políticas. O sistema, em grande parte, é governado por incentivos perversos, que são as regras legais e os costumes de premiar comportamentos contrários aos objetivos declarados das instituições. O sistema não se importa com resultados e parece funcionar visando mais ao benefício de seus empregados e menos ao das pessoas que devem servir. Em Nova York, o lema da reforma do ensino é 'Primeiro as Crianças'. Não vemos essa prioridade em São Paulo.

É preciso investir mais recursos no processo de aprendizagem. Isso implica criar um currículo básico que estabeleça metas claras para o ensino. Significa a mudança de leis e regulamentos para reduzir as ausências dos professores, um grande problema do sistema educacional brasileiro desde o século 19. Implica ainda o treinamento de supervisores e mentores para trabalharem dentro das salas de aula com professores e alunos, com o objetivo de melhorar os resultados. Significa também descentralizar os poderes de decisão, dentro de uma estrutura geral, para uma direção regional e os diretores de escolas que, em troca, vão se responsabilizar pelos resultados.

O sistema precisa investir na liderança regional. Em algumas regiões devem ser desenvolvidos programas-piloto, como ocorreu no Bronx, onde novas estratégias e métodos foram experimentados antes de serem aplicados em toda a cidade de Nova York. Os planos de estudos e os métodos de ensino devem ser enriquecidos para os 700 mil estudantes secundários de São Paulo obrigados a estudar à noite assistindo aulas estéreis e entediantes. Programas especiais devem ser criados para alunos talentosos cujas necessidades são ignoradas, enquanto professores e diretores lutam com a desordem crônica nas escolas. Deve ser desenvolvida uma capacidade institucional para tratar desse problema, com o treinamento de especialistas em segurança escolar e a criação de ambientes alternativos de aprendizagem para alunos problemáticos que dificultam o ensino.

6 Sindicatos. Na América Latina, como em outras sociedades, os sindicatos dos professores freqüentemente se opõem às reformas do ensino, dizendo que são obras de tecnocratas de elite com objetivos não declarados de privatizar as escolas públicas, reduzir os custos e quebrar os sindicatos. Os sindicatos latino-americanos marcaram a sua oposição às reformas com greves, manifestações de protesto, campanhas na mídia e o seu voto nas eleições. Porém, no sistema federal do Brasil, os sindicatos de professores também são descentralizados, como os Estados e municípios. Alguns são geridos por burocratas de carreira com pouco contato com os professores, o que não cria oportunidades de diálogo e negociação ou com os líderes sindicais ou com a base de professores sobre novos incentivos que não ameaçam a perda de empregos. A qualidade da liderança sindical varia entre as localidades, da mesma maneira que a liderança política de Estados e municípios. Em alguns lugares, especialmente no México, República Dominicana e Minas na década de 90, como também em Nova York no período de 2003 a 2007, houve negociações bem-sucedidas entre reformadores educacionais e os sindicatos de professores.

Escolas deterioradas significam condições de trabalho deterioradas. Assim, os sindicatos dos professores fora do Brasil gradativamente se engajaram na reforma escolar. Alguns estão treinando e reciclando professores. Outros concordaram com os incentivos em função do desempenho. Em Nova York, Newark, Chicago, Boston, Baltimore, Miami e Minneapolis, os sindicatos aceitam a responsabilidade na administração das escolas públicas.

Em seu excelente livro Despite the Odds: The Contentious Politics of Education Reform, a professora Merilee Grindle, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Harvard, adverte que o futuro da reforma escolar é incerto 'quando o apoio de professores é ignorado, quando sindicatos hostis continuam se opondo às mudanças e quando os incentivos para políticos, administradores, professores e pais acabam atuando contra as novas iniciativas'. E acrescenta: 'as mudanças no sistema educacional precisam ser implementadas em nível de sala de aula, para aumentar o grau de aprendizado das crianças das habilidades e capacidades necessárias. Isso implica a necessidade de vários níveis de executores para que as novas iniciativas prosperem. Em algum ponto dessa longa cadeia de responsabilidades pelas tomadas de decisão, as atividades de reforma podem esmorecer, vítimas da inércia, da contenção política, dos julgamentos errados, das invejas entre organizações e dos emaranhados logísticos'.

É preciso coragem para adotar uma reforma escolar. No início desta série de quatro artigos perguntamos: 'Qual a relação entre ignorância e desordem social? Como operar uma sociedade complexa sem uma população instruída? Como serão nossas sociedades daqui a 10 ou 20 anos se nossas crianças não conseguirem aprender?'

As autoridades de Nova York, numa atitude louvável, corajosamente decidiram enfrentar a realidade ameaçadora da desordem e do fracasso das suas escolas, respondendo com soluções criativas para corrigir as deformações na estrutura e incentivos do sistema. Cometeram erros e se expuseram a uma intensa controvérsia política, porém seu trabalho já começa a mostrar resultados. Tanto as notas nas provas de leitura e matemática como os índices de graduação melhoraram e a violência nas escolas diminuiu. O secretário da Educação Joel Klein esteve em minha velha escola no Bronx, Evander Childs, para anunciar que três pequenas escolas que funcionavam naquele prédio conturbado estavam formando 80% dos alunos do nível secundário, em comparação com os 31% em 2002. 'As crianças precisam exercitar leitura, leitura, leitura', disse Steven Chernigoff, diretor da Bronx High School for Writing and Communication Arts, escola superlotada com 348 alunos que ocupa um corredor no edifício da Evander Childs. 'Grande parte da melhora se deve a um trabalho intensivo com os estudantes, individualmente ou em grupos pequenos. Estamos muito bem treinados na utilização de dados para acompanhar o progresso dos alunos a partir do momento em que entram em nossa escola. Explicamos a importância deles se formarem no tempo certo. Se estão atrasados, oferecemos cursos de verão, aulas nos sábados e aulas individuais no fim da tarde.'

A decisão de iniciar uma reforma escolar em Nova York foi tomada por um homem, o prefeito Bloomberg, fazendo eco à inquietação geral nos Estados Unidos sobre as deficiências da educação pública. Em São Paulo a decisão também depende de um homem, o governador José Serra, que se formou em escolas públicas de São Paulo e no Instituto Politécnico, com doutorado em economia pela Cornell University e que, exilado, trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) das Nações Unidas, em Santiago do Chile, e mais tarde no Instituto para Estudo Avançado em Princeton, antes de se tornar secretário do Planejamento do Estado de São Paulo e ministro do Planejamento e depois da Saúde. Essas credenciais impressionantes dão esperança para novas iniciativas, fazendo mais pela educação pública do que os governos passados.

Ser governador de São Paulo é missão repleta de problemas. Nos primeiros seis meses como governador, Serra concentrou seus esforços na obtenção de financiamento federal para o Rodoanel em torno da Grande São Paulo, para melhorar os trens suburbanos, prover infra-estrutura sanitária para loteamentos ilegais em torno do reservatório de Guarapiranga e para reparar as rodovias rurais deterioradas.

Em outras palavras, Serra concentrou-se no hardware do sistema, mais do que no software.

No entanto, é o software que torna a sociedade produtiva. No campo da educação, Serra concentrou-se em iniciativas isoladas, como a contratação de 4.000 estagiários para auxiliarem na alfabetização de crianças nas duas primeiras séries do curso primário.

Embora sejam medidas importantes, há necessidade de uma ação integrada para solucionar os problemas sistêmicos do ensino público, que sofreu terrivelmente por falta de ambição.

Como terá se sentido o governador Serra quando a Folha de S. Paulo, no mês passado, mostrou a deterioração da Escola Estadual Firmino de Proença, do bairro da Mooca, onde ele estudou, com os alunos perdendo quatro aulas em alguns dias da semana, por falta de professores? 'Nos dias de aula de ciências', disse um aluno, 'passamos o tempo fazendo o jogo da velha'.

* É diretor executivo do Instituto Fernando Braudel de Economia Mundial. Email: ngall@braudel.org.br. Este é o último de quatro artigos sobre reforma escolar publicados pelo Estado. O programa do Instituto Braudel Reforma do Ensino em São Paulo e no Brasil pode ser acessado pelo site